domingo, 20 de dezembro de 2015

Fim do bipartidarismo obriga a reinventar o modo de governar JORGE ALMEIDA FERNANDES

Nas eleições legislativas deste domingo em Espanha não estará apenas em jogo a escolha de um governo mas a transformação do sistema político espanhol. O modelo bipartidário, que dominou a vida política desde 1982, está a desmoronar-se. As duas grandes formações, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Pedro Sánchez, e o Partido Popular (PP), de Mariano Rajoy, que até às últimas legislativas somavam mais de 70 ou 80% dos votos, dificilmente chegarão hoje aos 50%. Duas outras forças, acima dos 15%, o Podemos, de Pablo Iglesias, e o Cidadãos, de Albert Rivera, assumem um papel decisivo na cena política, exigindo uma reforma radical do sistema. Exprimem uma maré de fundo.

Serão eleitos os 350 membros do Congresso dos Deputados e 208 dos 266 senadores. Estão inscritos 36,5 milhões de eleitores. Prevê-se uma elevada afluência, na casa dos 75%. Note-se que, há não muito tempo, "o partido da abstenção" reunia a absolutíssima maioria do eleitorado.
A votação de hoje não será a conclusão do processo de mudança. Será a abertura de um novo ciclo, marcado por incerteza e problemas de governabilidade. Interroga-se a politóloga Marta Romero: "Morrerá o bipartidarismo de forma definitiva? Será o PP substituído pelo Cidadãos ou o PSOE pelo Podemos? Não temos suficientes elementos para responder." Mas o eleitorado parece apreciar o novo "jogo a quatro", que torna mais relevante o seu voto.
Assinala o politólogo Pablo Simón: "É uma mudança como nunca conhecemos porque estamos a sair de uma crise política, económica e institucional que nunca tínhamos conhecido, com escândalos de corrupção desde a monarquia às aldeias." Quando Juan Carlos abdicou, falava-se no "fim do regime" herdado da Transição de 1978.
Que dizem as sondagens
Tendo em conta a mega-sondagem do Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) e as sondagens publicadas no último fim-de-semana, o blogue Piedras de Papel traça um quadro hipotético. O PP, com 25-28%, obteria entre 103 e 128 deputados; o PSOE (20-22%) entre 77 e 94; o Podemos e as coligações afins (17-19%) entre 55 e 64; o Cidadãos (18-20%) entre 53 e 69; a Esquerda Unida (4-5%), de 1 a 5. Os partidos regionais não deverão somar mais de 30 deputados.
A imprevisibilidade dos resultados não vem apenas dos indecisos. Vem sobretudo dos "hesitantes" que têm uma opção mas admitem mudá-la. Explicava há dias o politólogo Jorge Galindo, baseando-se no CIS: "Há 2,8 milhões que estão a pensar votar no PSOE ou noutra opção. Quase 900 mil admitem votar Podemos no seu lugar; um milhão pode fazer o mesmo com os Cidadãos. E há ainda 1,2 milhões que hesitam entre o PSOE e o PP."
Iglesias e o Podemos, embora metendo na gaveta o inicial radicalismo, desistiram do centro, onde são encarados como esquerdistas, para se concentrarem no eleitorado socialista, o que coloca Sánchez na posição difícil de defender a sua esquerda sem esquecer o centro. Dos eleitores que pensam votar em Rivera, 1,2 milhões são de centro-esquerda e apenas 650 mil do centro-direita. "É uma situação completamente inédita", afirma Pablo Simón. "Num cenário de bipartidarismo imperfeito, o PSOE e o PP tendiam a competir pelo eleitorado do centro mas hoje os eleitorados estão mais segmentados e nem sempre se tocam." Havia uma velha regra: quem ganhava as eleições também vencia no centro. Pela primeira vez o "bipartidarismo" está a perder esse monopólio para Rivera.
O PP perdeu 40% do eleitorado que lhe deu a vitória em 2011. Mas tem a vantagem de ter uma sólida base à direita que os outros não lhe podem disputar. No final da campanha, fez um esforço para recuperar votos centristas. Terá sido algo favorecido pela crise catalã e pelos atentados de Paris. A sua táctica na recta final parece ter sido a de garantir uma vantagem de cinco ou seis pontos sobre o segundo partido de modo a tornar quase impossível uma coligação sem o PP. O partido que mais graves riscos parece correr é o PSOE, incapaz de se apresentar como alternativa "natural" ao PP. Resumiu o El País em editorial: "O PSOE não conseguiu preencher o espaço de centro-esquerda e de esquerda que historicamente ocupava."

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