sábado, 16 de janeiro de 2016

Sinais dos Oceanos Um dos argumentos mais repetidos sobre os impactos das alterações climáticas é a ameaça de elevação do nível do mar, mas indicadores de outra natureza têm sido apresentados pelos mídia e por uma rede de cientistas de todo o mundo, que vão muito além do nível das águas. Artigo de Ricardo Barreto.

Foto de Gemma Stiles/Flickr
Um dos argumentos mais repetidos sobre os impactos das alterações climáticas é a ameaça de elevação de nível do mar, pelo derretimento das calotes polares. Esse não é um indicador desprezível, certamente, como bem alertaram as nações insulares que participaram da COP 21. Um caso recente e dramático é do Atol de Biquini, parte das Ilhas Marshall, que gerou um pedido aos Estados Unidos para abrigar toda a sua população, uma vez que já não vê condições de continuidade na ilha, constantemente invadida pelas águas do mar. O caso noticiado pela BBC mostra para os deslocamentos humanos forçados por impactos ambientais que devem tornar-se mais frequentes com as alterações climáticas.
Indicadores de outra natureza têm sido apresentados pelos mídia e por uma rede de cientistas de todo o mundo, mostrando que as mensagens vindas dos oceanos vão muito além do nível das águas. O aumento da temperatura no Pacífico Norte é um deles, conforme alerta a National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA, registrado pela revista Rolling Stone. A reportagem destaca o depoimento de cientistas e pescadores, classificando o fenómeno como “jamais visto antes”, e mostra um amontoado de morsas numa das poucas praias do Ártico que subsiste para descanso dos animais durante o degelo de 2015.
A Universidade de Southern California já identificou também uma disrupção no ritmo reprodutivo da bactéria thricodesmium, em consequência das alterações climáticas. Segundo a reportagem da revista Scientific American, essa bactéria é fundamental para a vida marinha, pois converte o nitrogénio da atmosfera numa forma de nitrogénio que pode ser absorvida pela cadeia alimentar.
Um estudo do ARC Centre of Excellence for Coral Rief Studies da Universidade de Queensland, Austrália, mostra que toda a biodiversidade marinha está a ser afetada de modo geral e que sofrerá impactos ainda maiores com o agravamento do aquecimento global. Publicado na revista científica Nature Climate Change noticiado pelo Science Daily, o estudo aponta, entre os desdobramentos, a migração de espécies para outras regiões, impondo nova competição e predação com espécies já existentes. Também fala em menos diferenciação de comunidades biológicas de uma mesma região, o que pode causar o declínio de espécies.
E ainda o relatório da agência norte-americana NOAA, que mostra a forte queda nos stocks pesqueiros, segundo notícia do The Sault. Entre as razões, a redução do fitoplâncton – alimento base para a maioria dos filhotes de peixes. O Atlântico Norte é apontado como o local onde este efeito das mudanças climáticas está mais intenso.
Mas a ciência ainda não tem uma noção completa do comportamento dos oceanos face à mudança do clima, o que traz mais incertezas sobre o futuro. Um exemplo vem de estudo publicado na Science e noticiado pelo Guardian. Os pesquisadores constataram um novo ciclo de absorção de carbono no oceano do hemisfério Sul do planeta, um dos principais sumidouros de gases de efeito estufa da Terra.
Outra descoberta que traz uma certa esperança em relação ao sequestro de carbono veio de uma pesquisa feita com bactérias Thiomicrospira crunogena, encontradas nas profundezas do oceano. Cientistas da UF College of Medicine, que descobriram que ela produz anidrase carbónica, uma enzima que ajuda a remover o dióxido de carbono de organismos. A ideia é estudar a aplicação dessas bactérias em processos industriais para reduzir a emissão de CO2, explica o artigo do Tech Times.
Enquanto essa e outras soluções não se concretizam, os oceanos continuam o processo de aquecimento das águas e de acidificação e os sinais multiplicam-se à velocidade da Internet.

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