sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Síria deixa entrar ajuda em Madaya, onde há pessoas "a morrer à fome"

A ONU diz que há pelo menos 15 localidades cercadas na Síria onde milhares sobrevivem desesperadamente KARAM AL-MASRI/AFP
Cerco à cidade pelas forças de Bashar al-Assad deixou mais de 40.000 pessoas sem comida e sem pontos por onde escapar. ONU diz que recebeu "relatos credíveis" sobre pessoas a morrer à fome.
As atenções internacionais sobre os horrores da guerra na Síria centraram-se nos últimos dias numa cidade perto da fronteira com o Líbano, onde 42.000 pessoas estão cercadas há quase seis meses por forças do regime de Bashar al-Assad. Esta quinta-feira, as Nações Unidas anunciaram que o Governo sírio concordou em aligeirar o cerco e abrir as portas para a entrada de ajuda humanitária em Madaya, uma cidade em que "há pessoas a morrer à fome e a ser mortas quando tentam fugir".
Os relatos que chegam de Madaya dão conta de uma situação insustentável, com famílias a tentar sobreviver alimentando-se de folhas e até de cães e de gatos. As redes sociais têm sido determinantes na chamada de atenção para Madaya, com a partilha de várias imagens em que surgem crianças transformadas em autênticos esqueletos, e outras, mais velhas, transportadas em carrinhos de bebé por já não se conseguirem deslocar pelos seus próprios meios.
"Já não há gatos ou cães vivos na cidade. Até começam a escassear as folhas das árvores que temos comido", disse ao canal Al-Jazira, por telefone, um dos habitantes da cidade, Abu Abdul Rahman. "Descrever a situação como sendo trágica é pouco quando vemos a realidade no terreno."
Esta quinta-feira, num anúncio inesperado, o departamento da ONU responsável pela distribuição de ajuda humanitária às populações da Síria avançou que o Governo sírio tinha permitido o acesso a Madaya, no Sudoeste do país, junto à fronteira com o Líbano, mas também às cidades de Foua e Kefraya, no Norte, mais perto da fronteira com a Turquia.
No comunicado, a agência das Nações Unidas dedica a quase totalidade do texto às preocupações com a situação em várias cidades cercadas na Síria – tanto pelas forças do regime como pelos combatentes da oposição –, e não avança pormenores nem datas sobre a distribuição de ajuda humanitária: "A ONU congratula-se com a aprovação do Governo da Síria de permitir o acesso a Madaya, Foua e Kefraya, e está a preparar-se para entregar ajuda humanitária nos próximos dias."
Yacoub El Hillo, coordenador da ONU na Síria, e Kevin Kennedy, que coordena a entrega de ajuda humanitária aos sírios afectados pela guerra que começou em 2011, não comentam as imagens de crianças a morrer à fome que têm circulado pelas redes sociais – e que têm sido republicadas por vários jornais um pouco por todo o mundo –, mas dizem que as Nações Unidas "receberam relatos credíveis sobre pessoas a morrer à fome e a ser mortas quando tentam fugir".
"A última vez que Madaya recebeu uma caravana [com ajuda humanitária] e em que foram resgatadas pessoas com ferimentos foi em Dezembro, mas a cidade ficou inacessível desde então, apesar dos vários pedidos de acesso", disseram os responsáveis das Nações Unidas. Quanto a casos em particular, o comunicado relata "a informação de que um homem de 53 anos morreu à fome no dia 6 de Janeiro de 2016 [quarta-feira], enquanto a sua família de cinco elementos continua a sofrer de má nutrição severa".
Devido ao cerco imposto pelas forças do regime de Bashar al-Assad, não há relatos em primeira mão no terreno por parte de jornalistas independentes – a informação que sai de Madaya é geralmente obtida ou por telefone ou através de declarações de activistas próximos de um dos vários grupos de rebeldes que combatem contra o Exército sírio.
Mas as descrições feitas por uns e outros dão conta de um cenário horrível, com a morte a espreitar em cada esquina: "Morrer subitamente em bombardeamentos do Exército sírio é mais misericordioso do que a morte lenta que enfrentamos todos os dias", disse um activista dos direitos humanos que vive em Madaya, Manal al-Abdullah, ao site Al-Monitor, via Skype.
"Estamos a morrer na enorme prisão que é Madaya. Chegámos a um beco sem saída depois do falhanço do acordo de cessar-fogo. Eles não nos deixaram sair, nem deixaram entrar comida. Não há solução à vista para a crise de fome. Pedimos ao regime e à oposição que resolvam os seus problemas políticos longe dos civis. Não podemos aguentar esta situação por mais tempo", disse Manal al-Abdullah.

Nenhum comentário:

Postar um comentário