sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Quem conseguirá deter Hillary agora?

A ex-secretária de Estado e candidata democrata à presidência Hillary Clinton testemunha perante comitê na Câmara dos Representantes sobre ataque a diplomatas em Benghazi, na quinta (22)











O caminho de Hillary Clinton rumo à Casa Branca ficou mais fácil. Não apenas pela desistência do vice-presidente Joe Biden, ao declarar que não se candidatará à sucessão de Barack Obama. Sobretudo porque, desde o último debate entre os pré-candidatos democratas, a campanha de HIllary encontrou o eixo. Isso ficou ainda mais claro ontem, no depoimento que ela prestou no comitê da Câmara montado para investigar o atentado de Benghazi, na Líbia, que matou o embaixador Chris Stevens e outros três americanos em 11 de setembro de 2012.

Naquele dia, terroristas invadiram o complexo diplomático americano na cidade líbia sem enfrentar problemas, provocaram o incêndio que matou Stevens e ainda atacaram instalações próximas da Agência Central de Inteligência (CIA), onde mataram mais dois agentes. Durante as investigações, ficou claro que o Departamento de Estado, liderado na ocasião por Hillary, ignorou duas dezenas de pedidos de Stevens por mais segurança.

A versão inicial dada pela embaixadora Susan Rice nas Nações Unidas na mesma semana do atentado foi que se tratava de uma manifestação espontânea, espalhada pelo mundo árabe por causa de um filme ofensivo ao islamismo disseminado pelo Youtube. Tal versão se mostrou falsa, quando veio à tona o envolvimento de alguns terroristas ligados à rede Al Qaeda. A própria CIA sabia disso e preferiu no início omitir os fatos do público, para preservar seus informantes.

Os republicanos transformaram o caso num escândalo contra o governo Obama, numa tentativa de comprovar sua complacência com o terrorismo e a manipulação das informações divulgadas ao público. O atentado já foi objeto de oIto investigações diferentes. Em todas elas, a omissão do Departamento de Estado ficou flagrante, mas Hillary conseguiu convencer a todos de que não era sua responsabilidade pessoal cuidar da segurança da missão diplomática. A palavra “Benghazi” se tornou uma espécie de senha nos programas de rádio e TV conservadores, para acusar Hillary de duplicidade.

Foi durante as investigações que veio à tona que ela usava um servidor particular de e-mail para conduzir negócios de Estado. Hillary se viu obrigada a entregar ao comitê da Câmara todas as suas mensagens e levou mais de quatro meses para pedir desculpas pela gafe, também transformada em escândalo. No debate televisivo entre os pré-candidatos democratas à presidência, o socialista Bernie Sanders, adversário de Hillary nas primárias, fez pouco do assunto ao dizer que estava farto de ouvir falar nos tais e-mails e que preferia debater questões reais. Hillary deu risada, agradeceu e marcou pontos com o eleitorado.

O objetivo da nova audiência na Câmara era um só: criar um novo embaraço para a candidatura dela à presidência. Isso foi dito com todas as letras pelo líder republicano na Câmara, Kevin McCarthy, que chegou a perder a indicação à presidência da casa depois da declaração desastrada. Ao longo das onze horas de depoimentos ontem, Hillary conseguiu frustrar esse objetivo. Não que ela tenha dado respostas especialmente brilhantes ou diferentes de tudo o que já se sabia. Mas porque soube manter a pose – em apenas um momento deu risada de uma questão – e usar o evento para transmitir aos eleitores a sensação de que era vítima de uma perseguição política.

O presidente do comitê, o deputado republicano Trey Gowdy, chamou a atenção mais por seu improvável corte de cabelo do que pelo brilho nas perguntas. A certa altura da manhã, Gowdy chegou a bater boca com o democrata Elijah Cummings, a propósito da comunicação entre Hillary e um aliado que não fazia parte do governo, mas trocou frequentes mensagens com ela a respeito da Líbia e atuava como uma espécie de conselheiro informal. Clinton ficou apenas observando – e não precisou intervir para que a questão se esvaziasse por si só.

Os republicanos apresentaram evidências de que ela mencionara o envolvimento da Al-Qaeda ao primeiro-ministro egípcio 24 horas depois do atentado – embora ele fosse apresentado ao público como manifestação espontânea. Hillary disse que havia informações desencontradas no início e soube driblar a pergunta sem se chamuscar, com a competência de quem faz política há décadas. Está claro que o Departamento de Estado errou, e ela há muito assumiu a responsabilidade pela falta de condições adequadas de segurança. Há pouco, além disso, a fazer sobre o assunto.

O depoimento serviu para que Hillary novamente parecesse mais humana. Sua presença altiva ao longo de onze horas contribuiu para combater a imagem de artificialidade que costuma ser associada a seu nome. Ela ganhou mais pontos com os eleitores. Depois da desistência de Biden e do desempenho bem-sucedido no debate da semana passada (em que se livrou do escândalo dos e-mails), Hillary agora parece ter deixado o fantasma de Benghazi para trás. Mais um passo naquela que começa a ser uma trajetória irresistível rumo à Casa Branca, que nenhum republicano parece ter a força necessária para deter.

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