quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cunha interrompe entrevista após ser alvo de vaias e gritos de manifestantes Grupo que protestava contra projetos do peemedebista pediu sua renúncia. Presidente da Câmara disse que Casa é 'democrática' e pode ter protestos.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi alvo de vaias e pedidos para que renuncie enquanto concedia uma entrevista coletiva nesta quarta-feira (21), no Salão Verde da Casa. Munidos de máscaras de papel com a foto do peemedebista, manifestantes gritaram palavras de ordem, como: "Fora, Cunha" e "Vá para a Suíça".
Na última sexta-feira, documentos do Ministério Público da Suíça revelados pela TV Globo mostraram que Cunha é titular de contas em bancos na Suíça. Em março, em depoimento à CPI da Petrobras, ele afirmou que não tem contas no exterior. Cunha é alvo de umarepresentação no Conselho de Ética da Câmara dos partidos PSOL e Rede, que tentam cassar o mandato de deputado do presidente da Casa.
Parte do público que participou do protesto havia ido à Câmara acompanhar a votação, na Comissão de Direitos Humanos, de um projeto de autoria de Cunha que prevê punição a quem discriminar heterossexuais.
O projeto é conhecido por instituir a figura da “heterofobia”. Outro grupo havia participado da votação, na CCJ, de outra proposta de autoria do presidente da Câmara, que torna crime auxiliar uma gestante a abortar.
Também reforçaram os gritos de “Fora, Cunha” servidores do Judiciário que reivindicam a derrubada do veto da presidente Dilma Rousseff a um projeto que previa reajuste salarial de até 78% para a categoria.
A deputada Clarissa Garotinho (PR-RJ) se incorporou ao protesto e aderiu aos gritos para que o presidente renuncie. A parlamentar é filha do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, desafeto de Cunha.
O presidente da Câmara tentou ignorar os protestos e prosseguir com a entrevista, que já durava cerca de 10 minutos. Ele chegou a responder mais algumas perguntas, mas o barulho aumentou e inviabilizou a conversa com os jornalistas. Enquanto Cunha deixava o Salão Verde alguns integrantes do Movimento Brasil Livre também gritaram “Fora, Dilma”.
Antes de deixar o local, ele foi perguntado sobre o que achou da manifestação. “Essa é uma Casa democrática. Todos tem o direito de se manifestar”, respondeu. Questionado sobre a presença da deputada Clarissa Garotinho, Cunha disse:  “Foi só um parlamentar. A casa tem 513”.
O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) comentou a manifestação ocorrida no Salão Verde. Ele defende o afastamento de Cunha desde as primeiras denúncias de que o peemedebista poderia ter envolvimento no esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato.A servidora pública Rosa Ciminiana dos Santos era uma das manifestantes mais exaltadas. Ela estava na Câmara para protestar contra o projeto da “heterofobia” e aproveitou a entrevista no Salão Verde para cobrar a renúncia de Cunha. “Como que um homem que tem contas na Suíça, comprovadas pelo Ministério Público da Suíça, está solto aqui?”, questionou.
“O parlamento está tenso, desgastado, perdeu a capacidade de atuar. Eu conversei com alguns parlamentares entusiastas do impeachment de Dilma e falei que esse procedimento, com Cunha na presidência, fica sob suspeita, sob suspeita de barganha. Espero que, nas ruas, haja um clamor em relação a toda essa corrupção”, disse.
Antes do protesto, Cunha havia sido homenageado pela bancada do PMDB na Câmara com a inclusão da foto do presidente da Câmara na galeria dos ex-líderes do partido na Casa.
'Motocicletas'
Antes de interromper a entrevista, Cunha respondeu a perguntas sobre a possibilidade de o governo rever a meta fiscal prevista para 2015. Segundo o Blog do Camarotti, integrantes da Junta Orçamentária do governo devem apresentar à presidente Dilma Rousseff, em reunião nesta quarta, uma projeção de déficit de, no mínimo, R$ 50 bilhões no Orçamento deste ano.
Mais cedo, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, afirmou que há uma perspectiva de "frustração de receitas" antes esperadas para este ano e que isso pode gerar a necessidade de uma nova revisão da meta fiscal fixada para o ano de 2015. 
Além da frustração de receitas, as chamadas "pedaladas fiscais" - que consistem no atraso dos repasses para bancos públicos do dinheiro de benefícios sociais e previdenciários - também estão sendo consideradas pelo governo na possibilidade de revisão da meta fiscal deste ano. Isso porque, em algum momento, esses valores terão de ser pagos, o que impactará o resultado da contas públicas.
Eduardo Cunha classificou as pedaladas fiscais de “motocicletas”, devido ao volume de recursos que deixou de ser pago aos bancos públicos, e criticou o que chamou de “contas mascaradas do governo”.
“No ano passado, quando o governo enviou a meta da LDO o governo já deveria ter zerado as contas das chamadas pedalas. Não fez. Empurrou a conta para esse ano. Não tem condição de você conviver com contas mascaradas. O governo continuar fingindo. O governo tem que aprender a fazer superávit real. O governo não conseguiu fazer isso até hoje”, disse.
Ele afirmou considerar “correto” que a equipe econômica seja clara quanto à verdadeira situação fiscal do país esse ano, ainda que reveja o resultado para o déficit de mais de R$ 50 bilhões.
"Com esses erros do governo você diminuiu a arrecadação e aumentou o buraco para chegar a 50 bilhões. O governo tem que dar um basta e corrigir. Acho que, se for fazer isso, reconhecer, pagar tudo e colocar a conta real, acho correto. A pedalada já está virando motocicleta. Saiu da bicicleta e foi para motocicleta.”

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