segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que Brasília ainda precisa aprender: é a confiança, estúpidos

Governo e Congresso tentam reagir à erosão provocada por decisões equivocadas nos úlitmos dias. Dúvida é se ainda é possível recompor

Por: Marta Sfredo

27/11/2016 - 18h48min | Atualizada em 27/11/2016 - 18h48min


Hoje quase todos sabem a origem da expressão acima, mas não custa lembrar. "É a economia, estúpido" foi a frase com a qual o assessor do então candidato Bill Clinton acentuou o foco na retração econômica, na campanha de 1992, para impedir o segundo mandato de George Bush pai. E hoje quase todos sabem, no Brasil, que a primeira de todas as retomadas tem de ser a da confiança. Parecia estar dada, até os frágeis sinais começarem a oscilar mais do que o esperado. 
É nesse cenário que a soma dos escândalos em torno do tráfico de influência do já ex-ministro Geddel Vieira Lima, da ameaça de anistia para a prática de caixa 2 e da não menos infame inclusão de parentes de políticos na regularização simplificada de recursos irregulares mantidos no Exterior que o governo e o Congresso erraram a mão. E feio.
A percepção do tamanho da encrenca provocou a reunião de emergência de ontem, com anúncio de um burocrático "ajustamento institucional". Na prática, uma tentativa de corrigir decisões que afetaram o mercado, incendiaram aliados fora dos círculos políticos e colocaram em risco a perspectiva de retomada.
A primeira de todas, a da confiança. Vários termômetros desse ingrediente tão essencial quanto volátil mostravam avanço considerável até o terceiro trimestre. Alguns tiveram inflexão, como o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da Fundação Getulio Vargas, que caiu 3,3 pontos em novembro depois de seis altas consecutivas.
Apesar do discurso de correção de rumos dado pela trinca Michel Temer, Renan Calheiros e Rodrigo Maia, a dúvida que segue no ar é sobre a capacidade de reverter a inflexão da confiança – logo, da retomada. A pior consequência das trapalhadas do Executivo e do Legislativo – para dar o benefício da dúvida – é comprometer a credibilidade de medidas que fazem – ou faziam – sentido por conta do aperto das finanças.
Se o governo considera natural "arbitrar conflitos" envolvendo a potencial propriedade de um ministro, como vai defender a necessária revisão dos projetos da Petrobras, por exemplo, já atacada como "entreguista"? Sombras de suspeita minam a confiança. Faz tempo, a coluna já ponderava: reformas impopulares exigem mãos limpas. Caso contrário, o ingrediente essencial para tirar o país do atoleiro desanda.   

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