sábado, 4 de julho de 2015

Aliança do Pacífico aceita novos observadores e mira em PMEs


A presidente chilena, Michelle Bachelet, e o presidente peruano Ollanta Humala durante a cúpula da Aliança do Pacífico, em Paracas, Peru, no dia 3 de julho de 2015
A X Cúpula da Aliança do Pacífico terminou nesta sexta-feira no Peru com a incorporação de dez novos países observadores e um projeto para incluir as pequenas e médias empresas (PMEs) no fortalecimento de seu comércio e nos planos de luta contra a pobreza.
A projeção internacional desse bloco comercial, conformado por Peru, Colômbia, México e Chile, tem como eixo a afinidade em torno do livre-comércio e da democracia para somar forças e sinergias e despertou amplo interesse. Agora, conta com 42 países observadores.
"A Aliança do Pacífico (AP) é um grande motor que dinamiza nossas economias, é uma janela de oportunidade para os quatro países para melhorar a qualidade de vida que quer projetar para o mundo", disse o presidente peruano, Ollanta Humala, durante o fechamento do evento que começou na noite de quinta-feira na baía de Paracas (260 km ao sul de Lima).
Na Declaração de Paracas, assinada pelos presidentes Michelle Bachelet, do Chile; Humala, do Peru; e Enrique Peña Nieto, do México; além da chanceler da Colômbia, María Ángela Holguín, ficou acordada a criação de um fundo de capitalização para pequenas e médias empresas.
"O Fundo de Capital Empreendedor dos países da Aliança do Pacífico deve iniciar operações no ano 2017", afirma o texto.
"Não é um acordo de livre-comércio avançado, é um espírito de integração que não olha apenas para temas econômicos e comerciais como para outros temas, como educação e os níveis de pobreza", acrescentou Humala em uma tácita crítica aos presidentes da região, como o boliviano Evo Morales, que questionam o bloco.
O PIB conjunto dos quatro integrantes representa a oitava economia do mundo.
Neste encontro, a Aliança aceitou a incorporação de outros dez países como "estados observadores". Entre eles estão Indonésia, Tailândia, Grécia, Austrália e Polônia, afirmou a chanceler colombiana.
Ainda não se falou da possível inclusão, como membros plenos, dos aspirantes Panamá e Costa Rica.
"A Aliança do Pacífico é um dos instrumentos mais poderosos e dinâmicos da região e do mundo", enfatizou Bachelet.
A presidente chilena ressaltou a importância de projetar o bloco comercial para outras regiões, mencionando os países do Sudeste Asiático e do Mercosul.

O presidente peruano, Ollanta Humala, durante a cúpula da Aliança do Pacífico, em Paracas, Peru, no dia 3 de julho de 2015
Em Paracas, o bloco enfatizou a cooperação entre os setores da educação e das pequenas empresas como parte do impulso necessário para sair da pobreza e melhorar a qualidade de vida.
Um dos acordos alcançados foi a criação de um Fundo de Capitalização para Pequenas e Médias Empresas, que funcionará com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Corporação Andina de Fomento (CAF).
Em 2016, o BID implantará um fundo global de apoio a PMEs e parcerias público-privadas de US$ 2 bilhões, disse em Paracas o presidente do banco de fomento, Luis Alberto Moreno.
Parte do montante iria para a Aliança.
Os quatro países da Aliança reúnem 216 milhões de habitantes e têm um PIB de US$ 2,1 bilhões, que representa 37% do total da América Latina.

“Eu daria um Nobel a Jorge Amado, porque ele deu a mim o seu Brasil” Ngugi wa Thing’o, autor de um clássico da literatura africana, finalmente aterrissa no Brasil

Ngugi wa Thiong'o. / DIVULGAÇÃO
Ngugi wa Thing’o, de 77 anos, está pela primeira vez em sua vida na América do Sul por ocasião da 13ª Festa Literária de Paraty. O escritor queniano, uma das maiores referências da África em literatura que está sempre às portas de um prêmio Nobel, tem uma história de luta pela libertação de seu país. Na década de 60, quando a colonização do continente africano estava em cheque, terminando na queda de vários governos, ele lutou pela emancipação do Quênia das mãos dos britânicos ao lado de jovens intelectuais que, como ele, eram recém-saídos da universidade.
O livro tornou-se um clássico da literatura africana do século passado e, lançado pouco depois da independência do Quênia, fala dos conflitos entre colonizadores e nativos nesse contexto específico. Assim como Sonhos em tempos de guerra, de 2010, o primeiro número de sua ainda inacabada trilogia de memórias, e outro título a ser lançado no país por ocasião da Flip – desta vez, pela Biblioteca Azul.Em paralelo ao seu trabalho permanente em teatro, escreveu um primeiro romance, Weep not, child, em 1964. Mas foi com Um grão de trigo – lançado três anos depois, e só publicado no Brasil pela Alfaguara no final de 2014 – que ele alcançou reconhecimento mundial.
Segundo Ngugi [lê-se gugui], o tema da colonização, que permeia toda sua obra, também é responsável por sua vinda ao Brasil, que “tantas semelhanças” guarda com sua terra natal. É leitor entusiasmado de Jorge Amado, autor brasileiro a quem ele entregaria um prêmio Nobel, e diz que a questão da disputa pela terra, presente na obra do baiano, o leva de volta ao Quênia, assim como o tema da escravidão. "Quando estou em Paraty, banhada pelas águas do oceano Atlântico, estou de frente para a África, especialmente para Angola. Muitos africanos vieram para cá contra a sua vontade, para participar da construção de cidades como essa. Mesmo andando nessas ruas de pedra, estou muito consciente dessa história de sangue”, diz.
Pergunta. Qual é a importância de estar na Flip hoje e visitar o Brasil pela primeira vez?
Resposta. Estou muito feliz de estar aqui. Já tinha escutado falar do evento e vim a convite da minha editora, que está publicando dois dos meus livros em português. O Brasil tem uma grande presença de africanos e é um país importante para nós. Está sempre presente em nossas mentes. Li Jorge Amado – Gabriela, cravo e canela – e tenho uma proximidade com alguns intelectuais do país através do meu trabalho em teatro comunitário no Quênia, em que fui muito impactado pelo trabalho de Paulo Freire, que escreveu Pedagogia do oprimido. Outro brasileiro que me impactou muito, também no teatro, é Augusto Boal. Eu estava preso em 1977 e, na prisão, usava o trabalho dele. Também fomos parte, os dois, do conselho de uma revista teatral chamada Drama Magazine, mas nunca o conheci em pessoa. Estou muito animado. E estou curioso de ver como a questão do negro é vista aqui.
P. O escritor cubano Leonardo Padura, que também está nesta Flip, acredita que um escritor deve antes de tudo escrever bem e depois, se for o caso, falar de política. O que você acha?
R. Faço das palavras dele as minhas. Seja o que for que um escritor faça ou pense, ele precisa primeiro saber escrever bem. Um escritor não é um historiador, nem um cientista político, nem um economista. É um artista. Dito isso, as condições econômicas e políticas e também as práticas sociais impactam no trabalho do artista. Ninguém pode escapar disso. Como escritor, estou interessado na qualidade da vida humana, em como acontece a distribuição da riqueza e também no impacto das relações. Como africano, me interessam também as questões de raça, a condição da raça negra, como ela é afetada, sua visibilidade. Na África e especialmente no Quênia, há uma distância cada vez maior entre ricos e pobres – cresce a concentração de renda à medida que o continente vai se desenvolvendo. Olho para o mundo, como escritor, e vejo um grupo bem pequeno, em geral de países do Ocidente, que são ricos, e uma enorme maioria de países pobres. Mas esses ricos dependem muito dos recursos dos pobres, especialmente da África. Quando visito um país, sempre presto atenção em quantos mendigos e sem-tetos há na rua e também na população carcerária. É aí que você mede o nível de desenvolvimento de um lugar. Nos Estados Unidos, por exemplo, você tem dois milhões de pessoas encarceradas. São quatro Islândias na prisão! A riqueza não se mede pela quantidade de milionários de um país.
P. Você já foi muitas vezes apontado como um forte candidato ao prêmio Nobel. Que importância isso tem para você?
R. Claro que fico muito lisonjeado e feliz que o meu trabalho possa valer um Nobel. Mas meu verdadeiro Nobel é quando alguém me diz como um livro o impactou, como aquela situação que descrevo é de alguma maneira semelhante ao que ele vive ou viveu. Isso me diz que vale a pena todo o esforço de escrever. Se alguém puder sentir mais esperança na possibilidade do mundo mudar, sinto que a minha imaginação vale a pena. Se meu trabalho serve para imaginar um mundo melhor, não aceitar a derrota, pensar que é possível de fato abolir a pobreza do mundo, sinto que já ganhei meu Nobel.
P. No Brasil, há quem acredite que nenhum autor tenha ganhado o Nobel em grande parte porque o português não é um idioma muito falado no mundo.
R. Verdade, mas é preciso lembrar que o Nobel é um prêmio dado uma vez ao ano. O verdadeiro prêmio é aquela conexão que se cria entre o escritor e um leitor em especial. No Brasil, eu daria o Nobel aJorge Amado, porque ele deu a mim o seu Brasil, ou seja, conseguiu me transmitir ao menos o Brasil dele, que é o que um escritor deve fazer.
P. Você começou escrevendo livros em inglês nos anos 50 e depois assumiu seu idioma natal, o gikuyu, na década de 1970. O que significa, para você, escrever em sua própria língua?
R. Escrevi em inglês meus primeiros quatro romances, inclusive Um grão de trigo. Quando fui preso, em 1977, foi porque escrevi uma peça de teatro em gikuyu. Por isso, tomei a decisão política, de resistência, de escrever sempre no meu idioma original. No livro A mente colonizada, eu falo dessa questão. As línguas pra mim são muito importantes e acho que ninguém deveria perder a sua língua materna. Se vou para o Japão, gosto de escutar japonês; se estou no Brasil, o português. Por que não acontece o mesmo com as línguas africanas, quando estou na África? É por isso que fiz essa mudança. Não há contradição em manter sua própria língua e adquirir novas. É mais poder. Não estamos tirando nada. A perda de qualquer idioma no mundo, ainda que pequeno, é uma grande perda para a cultura da humanidade.
P. Muitos escritores preferem se afastar de sua história pessoal para imaginar histórias distantes de suas vidas. Você mergulha em cheio na sua própria vida para escrever. Isso é difícil?
R. De fato, muito da minha história pessoal e principalmente da história do meu país faz parte do meu trabalho. O Quênia é um país que foi colonizado pela Inglaterra, assim como o Brasil foi por Portugal. Em Jorge Amado, li sobre a questão agrária, dos latifúndios aqui, e ela é muito parecida à realidade que vivi: a terra sendo tirada de pessoas comuns, que têm direito a ela. Eu uso isso no livro Um grão de trigo. Falo de homens e mulheres que foram às armas para lutar por terra, porque sentiram que era possível. Por outro lado, acho que imaginar tudo é mais difícil na hora de escrever, ainda que nem sempre a fantasia seja completamente inventada. Fantasias fazem parte do nosso ser social – e elas são fascinantes. A fantasia e a arte ajudam na expansão da nossa imaginação. São produto dela, mas a alimentam de volta. Assim como o corpo precisa de comida e água, a alma precisa de espiritualidade e a imaginação, desse alimento.
P. Como foi crescer com quatro mães e um pai?
R. Onde nós vivíamos, havia quatro cabanas dispostas em um semicírculo, uma para cada esposa do meu pai, e essa área comum era onde todas as noites contávamos muitas histórias. Do ponto de vista das crianças – não estou falando das mães – era fantástico. Depois minha mãe se separou, e eu passei a viver só com uma mãe e nenhum pai. Ambas as experiências foram felizes. Li um livro recentemente em que o autor tinha nove irmãos, e aplicava a teoria dos conjuntos e semiconjuntos para calcular a quantidade de combinações que havia entre eles. No meu caso, são 25 irmãos. Imagine quantas possibilidades...

Sérgio Moro cita Homem-Aranha: “Mais poder, mais responsabilidade” Magistrado que prendeu empreiteiros diz que Lula não é seu alvo e só pensa em tirar férias Moro: O juiz que sacode o Brasil

O juiz Moro durante evento da Abraji, em São Paulo. / LALO DE ALMEIDA (FOLHAPRESS)
Alçado ao status de celebridade nacional e super herói antipetista, o juiz federal Sérgio Moro (Maringá, 1972) diz que não tem prazer em condenar criminalmente ninguém. Responsável por mandar para a cadeia, ainda que temporariamente, dezenas de empreiteiros, lobistas e políticos, o jovem magistrado paranaense não se vê como uma referência nacional e até demonstra um certo desconforto com isso. “Não sou uma celebridade”, disse nesta sexta-feira para uma plateia com quase 500 jornalistas e estudantes de comunicação do Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo.
Em pouco mais de uma hora de conversa, Moro não tratou especificamente da Lava Jato porque é um caso que vai julgar futuramente e não quer ter sua decisão tecnicamente questionada. Apenas negou que seu objetivo seja prender o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).Ao vivo, não soa vulcânico como nos despachos em que dialoga com o noticiário e defende as prisões que faz. Optou por um discurso de humildade ao tratar da importância de seu papel na Operação Lava Jato: “Sou uma peça dentro de um processo muito mais amplo”. De fato, é. Magistrado de primeira instância, Moro só age em resposta à rígida atuação de uma força-tarefa formada por procuradores da República e policiais federais. Além disso, por mais que suas decisões tenham tido repercussão internacional, já que raramente se vê tanta gente endinheirada atrás das grades, elas ainda poderão ser revistas em dois ou três tribunais superiores.
Durante um descontraído bate-papo com os participantes do evento, ele evitou dar detalhes de sua vida pessoal. Não falou quantas horas trabalha por dia, se gosta de ler livros ou assistir à televisão e muito menos tratou de sua segurança pessoal. “Não falo sobre segurança por questões de segurança”. Evitou também opinar sobre questões que não são de sua esfera de atuação – lavagem de dinheiro –, como a redução da maioridade penal aprovada em primeira votação pela Câmara dos Deputados nesta semana. Analisando o sistema judiciário nacional o classificou como moroso, especialmente quando se trata de crimes de colarinho branco.
Sou uma peça dentro de um processo muito mais amplo
Sergio Moro, juiz federal
Sobre as críticas (algumas bastantes duras) que recebe por conta de suas decisões e rígidos despachos foi categórico: “Não sou nenhuma besta-fera”. Disse que atua de maneira reativa e, em outro momento, afirmou que julga sempre de acordo com as provas que constam do processo e nem sempre consegue responder a tudo que se fala sobre a operação. “Não se pode jogar uma pedra em todo cão que ladra.”

Economia

Desde que a Lava Jato estourou, representantes do Governo Dilma Rousseff (PT) se adiantaram numa operação para tentar resguardar a atuação das empresas investigadas em obras públicas. O principal argumento utilizado era que, sem elas, a economia do Brasil poderia sofrer um retrocesso porque boa parte da infraestrutura brasileira que está em construção depende dessas construtoras.
Diante desse argumento e questionado pelo mediador do evento, o apresentador Roberto d’Ávilla , Moro usou uma metáfora que ele próprio não considera tão feliz, mas válida. “O policial que descobre o cadáver não é culpado por homicídio. Acho que uma série de problemas vinham se acumulando há tanto tempo sem uma resposta adequada por parte de nossas instituições e, de repente, esses problemas apareceram de maneira bastante clara e o custo de solução deles é bastante grande. Mas eu indago: qual seria o custo se esse esquema tivesse continuidade?”.
Num outro momento, usaria uma frase do Homem-Aranha (mais precisamente, do tio de Peter Parker, Ben) para criticar o foro privilegiado — a possibilidade de que políticos sejam julgados em tribunais superiores — que, segundo ele, é "o contrário da igualdade". “Como eu gostava muito de revista em quadrinhos, lembro daquelas frases do Homem-Aranha onde dizia ‘quanto maior o poder, maior a responsabilidade’”
O pouco que falou de si foi que a operação Lava Jato o colocou em um processo de intenso estresse. Até por isso, quando tem de planejar sua vida a longo prazo, só consegue pensar uma coisa. “Quero tirar longas férias depois disso tudo."

Sede legal da Ferrari deve ser levada para a Holanda Afirmação é do presidente da montadora, Sergio Marchionne

Ferrari será separada da Fiat Chrysler Automobiles (foto: ANSA)
Ferrari será separada da Fiat Chrysler Automobiles (foto: ANSA)TURIMZLR
(ANSA) - O presidente da Ferrari, Sergio Marchionne, afirmou nesta sexta-feira (3) que a sede legal da montadora "provavelmente" será transferida da Itália para a Holanda após a sua abertura de capital, assim como aconteceu com a Fiat Chrysler Automobiles (FCA), grupo do qual ele é CEO.
    "Mas ela pagará todas as taxas na Itália, onde produz", garantiu Marchionne. Neste caso, a Ferrari vai se diferenciar da FCA - que é sua controladora -, cuja base fiscal foi levada para Londres, no Reino Unido.
    Além disso, o CEO disse esperar que a montadora de Maranello arrecade pelo menos 10 bilhões de euros em seu IPO, que deve acontecer ainda no segundo semestre deste ano. (ANSA)
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Após quase 5 dias, Solar Impulse 2 chega ao Havaí Percurso era o mais difícil da viagem de volta ao mundo

Imagem do avião Solar Impulse 2 (foto: EPA)
Imagem do avião Solar Impulse 2 (foto: EPA) ROMAZLR
(ANSA) - Quase cinco dias depois de ter decolado de Nagóia, no Japão, o avião Solar Impulse 2 aterrissou nesta sexta-feira (3) no Havaí (EUA), concluindo assim a etapa mais longa de sua viagem de volta ao mundo para promover as energias renováveis.
    O pouso aconteceu no aeroporto de Kalaeloa, após um voo ininterrupto de exatos quatro dias, 21 horas e 51 minutos. Durante o percurso, o piloto suíço André Borschberg ficou em uma cabine não pressurizada e exposta a uma grande variação térmica e não pôde dormir por mais de 20 minutos consecutivos. Para relaxar, ele praticava ioga.
    Em sua travessia, Borschberg estabeleceu pelo menos três recordes: o voo solitário mais longo de todos os tempos e o maior, tanto em distância como em duração, entre aqueles movidos por energia solar. Ao todo, a aeronave, que funciona por meio de células fotovoltaicas instaladas em suas asas, irá percorrer 35 mil km, divididos em 12 etapas. (ANSA)
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Sífilis aumenta em 13 de 14 estados com dados disponíveis sobre doença Especialistas dizem que pessoas estão deixando de usar camisinha. No estado de São Paulo, casos aumentaram 603% entre 2007 e 2013.

Os casos de sífilis aumentaram em 13 dos 14 estados do Brasil que têm dados disponíveis sobre a sífilis adquirida (aquela em que a transmissão ocorre por via sexual e não da mãe para o bebê). O G1 pediu informações sobre o número de infecções para todos os estados, além do Distrito Federal, mas apenas 14 possuíam esse registro.
A sífilis é uma doença sexualmente transmissível que, se não tratada, pode comprometer o sistema nervoso central, o sistema cardiovascular, além de órgãos como olhos, pele e ossos.
O tratamento, simples e eficaz, consiste em injeções de penicilina benzatina, medicamento conhecido pelo nome comercial de Benzetacil.A droga está atualmente em falta no Brasil, tanto no setor público como no setor privado. O crescimento da doença, porém, não tem relação com o desabastecimento da droga e sim com o descuido no uso da camisinha, segundo a opinião de especialistas (leia mais abaixo).
O aumento  de infecções chegou a 603% no estado de São Paulo, onde os casos passaram de 2.694 para 18.951 entre 2007 e 2013. A maior parte dos estados, porém, não tem registros tão antigos.
Na comparação entre 2013 e 2014, os estados que registraram aumento foram Acre (96,1%), Pernambuco (94,4%), Paraná (63,1%), Tocantins (60%), Bahia (47%), Santa Catarina (34,1%), Distrito Federal (22%), Mato Grosso do Sul (6%), Mato Grosso (4,1%) e Sergipe (3,8%).
No Espírito Santo e no Rio Grande do Norte, que têm dados disponíveis só até 2013, o aumento registrado entre 2012 e 2013 foi de, respectivamente, 31% e 31,5%.
O estado do Amazonas foi o único que registrou queda do número de casos. Entre 2013 e 2014, as ocorrências diminuíram 20,2%.
Os dados sugerem, de acordo com Uip, que as pessoas estão deixando de usar o preservativo. Esta também é a opinião da médica Ana Escobar, consultora do Bem Estar (veja o vídeo). Ela observa que, desde que a disponibilidade do coquetel anti-HIV promoveu a diminuição da mortalidade por Aids, tem havido um descuido quanto à principal medida de prevenção contra todas DSTs, incluindo a sífilis: o uso da camisinha.'Tendência mundial'
Para o secretário de Estado da Saúde de São Paulo, David Uip, trata-se de uma tendência mundial. Ele observa que os dados de São Paulo mostram muito claramente o aumento das doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a Aids, em grupos específicos como o de homens jovens que fazem sexo com homens. "No caso da sífilis, só o [Instituto de Infectologia] Emílio Ribas fez o diagnóstico de 9 novos casos por dia em 2013", citou em uma entrevista coletiva, em junho.
Vimos um aumento de casos de sífilis no país e um aumento extremamente preocupante dos casos de sífilis congênita. O que isso indica? Que as pessoas não estão se protegendo"
David Uip, sec. de Estado da Saúde de SP
Notificação recente
Segundo o Ministério da Saúde, até agora a sífilis não era uma doença de notificação compulsória, ou seja, os casos não tinham que ser comunicados individualmente para as autoridades de saúde. Essa exigência deve passar a valer este ano, ainda segundo o Ministério, e é por isso que muitos estados não têm esses dados disponíveis.
"Uma parte desse aumento enorme corresponde aos casos que já ocorriam, mas não eram notificados”, diz o médico sanitarista Artur Kalichman, coordenador-adjunto do Programa Estadual DST/Aids de São Paulo. “Mas só isso não explicaria. O que está acontecendo também é o aumento de novos casos da doença."
O crescimento tem sido notado inclusive nos consultórios particulares, segundo o infectologista Luis Fernando Aranha Camargo, da Sociedade Brasileira de Infectologia. "Embora não existam dados sobre isso, a impressão que eu tenho a partir da experiência no consultório é que tem tido um relaxamento nas medidas de prevenção. O interessante seria entender o porquê."
Ampolas de penicilina benzatina (Foto: Reprodução/TV Morena)Penicilina benzatina é o antibiótico usado para tratar
a sífilis (Foto: Reprodução/TV Morena)
Sífilis congênita
Já os casos de sífilis em gestantes e bebês que foram infectados por suas mães (sífilis congênita) têm sido registrados em todo o país há mais tempo. Segundo o Ministério da Saúde, de 2005 a 2013, os casos de grávidas com sífilis passaram de 1.863 para 21.382, aumento de mais de 1000%. As ocorrências de sífilis congênita passaram, no mesmo período, de 5.832 para 13.705, aumento de quase 135%.
"A sífilis congênita é um problema de saúde e a meta do governo é reduzir o número de casos a zero porque é uma doença evitável se o pré-natal for bem feito", disse a ministra interina da Saúde, Ana Paula Menezes, em um evento em São Paulo este mês. Ela enfatizou a importância do pré-natal para a prevenção de casos de sífilis congênita. O teste deve ser feito na gestante logo na primeira consulta do pré-natal, no terceiro trimestre da gestação e no momento do parto.
Treponema palliudm é a bactéria que provoca a sífilis  (Foto: CDC/ Dr. David Cox via Wikimedia Commons)'Treponema pallidum' é a bactéria da sífilis (Foto:
CDC/ Dr. David Cox via Wikimedia Commons)
Se uma gestante com sífilis não se tratar, as consequências podem ser aborto espontâneo, nascimento prematuro e morte do recém-nascido, além de surdez, problemas visuais e retardo mental da criança.
Sinais da sífilis
Os primeiros sinais da sífilis são pequenas feridas que surgem no pênis ou na vagina. Elas não doem e, no caso das mulheres, pode ser difícil identificá-las se aparecerem no colo do útero. Depois de um período, essas feridas desaparecem.
Após um período sem sintomas, aparecem manchas na pele que podem atingir todo o corpo, principalmente a planta dos pés e a palma das mãos.
Se a doença não for tratada nessa fase, ela pode acometer o sistema nervoso central, o sistema cardiovascular e vários órgãos do corpo. Nesta fase, ela pode até matar.
É importante que as pessoas que observem esses sitnomas procurem seu médico ou uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Há vários tipos de exames para detectar a doença disponíveis na rede pública.
*Colaboraram G1 AC, G1 AL, G1 AM, G1 AP, G1 BA, G1 CE, G1 DF, G1 ES, G1 GO, G1 MA, G1 MG, G1 MS, G1 MT, G1 PA, G1 PE, G1 PI, G1 PB, G1 PR, G1 RJ, G1 RN, G1 RO, G1 RR, G1 RS, G1 SC, G1 SE, G1 SP e G1 TO

Laep Investiments, uma empresa que deu um golpe de R$ 5 bilhões Com sede numa caixa postal nas Ilhas Bermudas e parceiras-fantasmas, ela deu o maior prejuízo do mercado de capitais brasileiro

Uma pequena empresa de investimentos sediada numa caixa postal nas Ilhas Bermudas, com patrimônio de R$ 19, conseguiu a façanha de captar R$ 2,4 bilhões na Bolsa de Valores e de receber um aporte de R$ 700 milhões do BNDES num de seus negócios. Parecia um caso de sucesso. Só parecia. Por trás do dinheirão todo, está uma fraude sem precedentes. Ex-dona da butique Daslu e da marca Parmalat no Brasil, a Laep Investiments, fundada em 2006 pelo empresárioMarcus Elias, entra para a história por ter dado um golpe de R$ 5 bilhões entre 2008 e 2013 no governo e em cerca de 18 mil investidores. A conta inclui dinheiro roubado de pequenos acionistas e grandes investidores, além de tributos não pagos. Torna-se, assim, o maior prejuízo do mercado de capitais brasileiro, segundo uma denúncia do Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo e documentos que embasaram a investigação, obtidos por ÉPOCA.
LÁBIA Marcus Elias numa festa de aniversário num bar em São Paulo, em 2010. Segundo o MPF, ele distribuiu a parentes R$ 150 milhões roubados (Foto: Fred Chalub/Folhapress)
Há indícios de mais de dez crimes, como gestão fraudulenta,manipulação do mercado, uso indevido de informação privilegiada,lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, entre outros, segundo a procuradora da República Karen Louise Jeanette Kahn, responsável pelo caso.
Usando documentos fabricados, a Laep conseguiu burlar a legislação brasileira e colocar em prática uma estratégia insólita. Ao ter residência no exterior, mais especificamente numa caixa postal, a empresa se livrou da fiscalização dos órgãos reguladores brasileiros. Ela estava submetida às regras de Bermudas. Assim, após abrir o seu capital em 2007, passou a emitir as suas ações a rodo na Bolsa de Valores, sem nenhuma intervenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do nosso mercado de capitais. Quando colocava mais papéis em circulação no mercado, Marcus Elias podia vendê-los e assim embolsar mais dinheiro, enquanto a participação dos acionistas minoritários era diluída.
Essas operações eram precedidas por anúncios falsos ao mercado, sobre a necessidade de levantar mais dinheiro para continuar a investir em seus negócios. Um deles era a produtora de laticínios LBR, que recebeu aporte do BNDES e da companhia de participações GP Investments (investidora de companhias como o site de compras Submarino e a ferroviária ALL). A LBR entrou em recuperação judicial e se mostrou um fiasco. O discurso era uma cortina de fumaça para que o empresário Marcus Elias, apoiado por seus executivos Flávio Silva de Guimarães Souto, Rodrigo Ferraz Pimenta da Cunha e Othniel Rodrigues Lopes, conseguisse desviar recursos da Bolsapara o seu próprio bolso – e o de familiares.
Segundo documentos em posse do MPF, foi usada uma rede formada por mais de 100 empresas-fantasmas, que não possuíam nenhum empregado e eram sediadas no mesmo endereço da Laep. Essas companhias, tão verdadeiras quanto uma nota de R$ 3, eram beneficiadas com empréstimos, créditos ou transferência de bens subavaliados, feitos pela Laep para irmãos, pai, esposas e ex-esposas de Marcus Elias.
Uma das companhias-fantasmas é a Gabapem Serviços Participações, criada em janeiro de 2008. Entre seus sócios constam dois filhos de Elias. A companhia tem em seu capital social o mesmo imóvel declarado no capital da Central Veredas de Empreendimentos, que está ligada à Laep. Para o MPF, esse é apenas um exemplo de um esquema de desvio de bens em favor de pessoas relacionadas a Elias. Pelo cenário apontado até agora na investigação, o empresário e seus familiares se apropriaram de mais de R$ 150 milhões.
As irregularidades levaram a companhia à bancarrota. Desde quando abriu seu capital na Bovespa, em 2007, até hoje, as ações da empresa, que está em recuperação judicial, caíram 99,9% – ou seja, perda total. Diante de tamanho prejuízo, centenas de vítimas se uniram e formaram um grupo para denunciar as falcatruas da Laep para a CVM, Polícia Civil, Polícia Federal e Ministério Público. Em 2013, a CVM e o MPF iniciaram um ação civil pública contra a Laep. Na petição, os investigadores afirmaram: “Esse é, sem dúvida, o caso mais aviltante que já ocorreu na história do mercado de capitais brasileiro e quiçá mundial. Uma absoluta afronta e um total desrespeito não só com os investidores, mas com todos os poderes constituídos no país”.
Desde então, por meio de liminar, os bens de Marcus Elias e da Laep Investment estão bloqueados. Apesar disso, segundo a procuradora Karen, o empresário e os demais acusados continuaram tentando transferir bens e aplicar novos golpes. Em março do ano passado, Elias comprou uma empresa de gaveta chamada Moda Brasil, que adquiriu as ações da Daslu, cujos bens estavam bloqueados – e não poderia, portanto, transferir suas cotas. Procurado, o advogado Antônio Sérgio de Moraes Pitombo, que representa Marcus Elias e os demais executivos da Laep, não se pronunciou até a publicação desta reportagem.
O BNDES afirma que não teve acesso à denúncia do MPF. “A BNDES Par é sócia da LBR juntamente com (a empresa) Monticiano e outros investidores. A Monticiano, por sua vez, é controlada pelo GP Investments e tem como sócio a Laep. Não existe relação societária direta entre a BNDESPar e a Laep. Neste contexto, como parte das mais de 600 demandas de informação feitas ao longo de 2014 por órgãos de controle e outras entidades, nos foram solicitadas informações sobre a relação societária e detalhes da operação de investimento da BNDESPar na LBR, todas atendidas”, afirma a nota explicativa.