sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Como primeira 'presidenta', Dilma deixou algum legado para as mulheres?

  • 1 setembro 2016
Dilma e as mulheres
Dilma foi a primeira presidente mulher do Brasil

Na última quarta-feira, Dilma Rousseff se despediu em caráter definitivo do Planalto após a aprovação do impeachment no Senado e, assim, encerrou cinco anos e meio de mandato da primeira representante feminina no posto mais importante do país. Em seu discurso final, ela deixou uma mensagem para as mulheres.

Image copyrightNa última quarta-feira, Dilma Rousseff se despediu em caráter definitivo do Planalto após a aprovação do impeachment no Senado e, assim, encerrou cinco anos e meio de mandato da primeira representante feminina no posto mais importante do país. Em seu discurso final, ela deixou uma mensagem para as mulheres.
"Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, o machismo e a misoginia mostraram suas feias faces. Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de gênero. Nada nos fará recuar", afirmou.
Mas qual foi, de fato, o legado que a primeira 'presidenta' deixou para as brasileiras?
Para ativistas e cientistas políticas, o saldo "foi positivo, mas poderia ter sido melhor".
"Dilma fez diferença, não só por ser mulher, mas por ser mulher consciente do seu lugar no mundo e consciente das desigualdades de gênero - e por ter lutado contra isso", avaliou Jacira Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão.
As especialistas ouvidas pela BBC Brasil citaram principalmente avanços na questão do combate à violência doméstica, da representatividade na política e da independência financeira da mulher.
As maiores críticas ficaram por conta de dois temas polêmicos: os direitos reprodutivos e a questão da diversidade sexual.
A BBC Brasil preparou uma lista com algumas das principais reivindicações de grupos que defendem a igualdade de gênero e traz análises sobre o quanto esses tópicos avançaram ou retrocederam nos últimos anos, além de falar das expectativas para o próximo governo.

Representatividade da mulher na política

O Brasil ocupa o 155º lugar no ranking de igualdade entre homens e mulheres na política, segundo levantamento do IPU (Inter-Parliamentary Union) em agosto com 193 países. Atualmente, 10% da Câmara dos Deputados é formada por mulheres e, no Senado, elas são 13%.
Por tudo isso, a participação feminina em secretarias e ministérios, segundo as especialistas, seria essencial para garantir não só a representatividade delas, como também para que as questões de gênero sejam colocadas em pauta.
"A democracia não se completa sem a participação real das mulheres. Mulheres e homens, no exercício da liderança política, devem estar comprometidos com a plataforma de direitos das mulheres entre as grandes prioridades políticas", afirmou à BBC Brasil Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil.
Posse de TemerImage copyrightBETO BARATA/PR
Image captionEm cerimônia no Senado, Michel Temer tomou posse como presidente; ativistas criticam falta de representatividade das mulheres no governo dele
No aspecto dos ministérios, Dilma ganhou destaque por ter nomeado o maior número de ministras mulheres na história do país - foram 18 em diferentes momentos de seus cinco anos e meio de governo.
"Ela queria que tivesse havido paridade de ministros, metade mulher e metade homem. Mas por conta de brigas internas do PT não houve. (Mas) foi uma diferença brutal, porque nunca tivemos um governo com um número tão grande de mulheres. E isso estimula várias mulheres a participarem da política", disse Maria do Socorro Braga, professora de Sistemas Democráticos e Teoria Política Democrática da Ufscar.
Nesse ponto, a falta de mulheres nos ministérios de Temer teve repercussão negativa tanto no Brasil quanto internacionalmente. "O Brasil passou a ser um dos pouquíssimos países do mundo sem mulheres no comando de ministérios", pontuou Gasman.
"Não estamos debatendo que precisa ter mulher nesse ou naquele lugar só porque é mulher. Estamos dizendo que o Brasil no século 21 tem mulheres com capacidade para estar em qualquer um dos ministérios. E nós somos 52% da população, que ali não está representada. Temos muita gente qualificada", avaliou Jacira Melo, do Instituto Patrícia Galvão.
Em uma das medidas para amenizar as críticas, Temer nomeou Flávia Piovesan para a Secretaria de Direitos Humanos. Em entrevista à BBC Brasil em maio, ela admitiu que há necessidade de mais representatividade das mulheres - mas não só na política.
"Tem que avançar e espero que avancemos. Eu creio que temos que avançar em todas as áreas. No Executivo, no Legislativo, onde as mulheres são ainda 10%, no Judiciário. Ainda é muito reduzida nossa representatividade."
Flavia PiovesanImage copyrightENAMAT
Image captionFlavia Piovesan assumirá secretaria que ficará sob guarda-chuva do Ministério da Justiça

Direitos reprodutivos

A questão que causa mais polêmica entre as reivindicações de grupos de mulheres é a dos direitos reprodutivos - que incluem a luta pela legalização do aborto.
Com a primeira presidente mulher no poder, havia uma expectativa de que essa causa pudesse ser ao menos colocada em pauta por parte do Executivo - algo que não aconteceu.
"Para mim, uma das grandes tristezas do governo Dilma foi ver que a discussão sobre os direitos reprodutivos das mulheres não avançou em nada, pelo contrário. O tema foi totalmente silenciado", disse à BBC Brasil a antropóloga Debora Diniz, do instituto de bioética Anis.
"Mesmo com uma ministra absolutamente engajada (Eleonora Menicucci, na Secretaria de Políticas para Mulheres), nada avançou, porque ela não podia falar nada. E, para falar a verdade, foi um retrocesso se olharmos para o fato de que os serviços que oferecem aborto legal (para os casos previstos em lei) foram cortados pela metade nesse governo."
Edilson Rodrigues/Agência SenadoImage copyrightEDILSON RODRIGUES/AGÊNCIA SENADO
Image captionDilma Rousseff citou as mulheres em seu discurso de defesa no Senado: "Parceiras incansáveis de uma batalha em que a misoginia e o preconceito mostraram suas garras"
Para Nalu Faria, da coordenação nacional da Marcha das Mulheres, o debate acabou prejudicado pela conjuntura conservadora tanto do Congresso, quanto da sociedade brasileira. Ela menciona a estratégia de José Serra, então candidato à Presidência pelo PSDB em 2010, de chamar Dilma de "abortista" na campanha.
"A partir do que foi a campanha, a gente já percebeu que ia ser muito difícil (abordar essa questão). A Dilma foi colocada contra a parede. E depois disso ela não pôde ampliar o tema porque havia um conjunto de forças desfavoráveis", afirmou. "Mas com certeza faltou um posicionamento mais forte dela."
As perspectivas para essa questão não agradam as analistas. A ex-deputada Fátima Pelaes, que assumiu a Secretaria da Mulher no governo de Temer, era a favor da descriminalização do aborto, mas mudou de posição ao se tornar evangélica.
Em entrevista ao jornal Mensageiro da Paz, Pelaes disse que "como ainda não conhecia Jesus Cristo", defendia a bandeira por entender que "a mulher era 'dona' de seu corpo".
"Coloquei o mandato à disposição de Deus. Hoje, eu defendo o direito à vida, o direito de viver tem que ser dado para todos."
A professora Maria do Socorro Braga afirma que, diante de um cenário 'tão consevador" no Senado e na Câmara, não vê um avanço da discussão.
Gabinete do presidente interino Michel Temer é formado apenas por homensImage copyrightAP
Image captionGabinete do presidente interino Michel Temer é formado apenas por homens
"Na última eleição, os partidos grandes perderam cadeiras para os mais conservadores, de origem cristã. Eles aumentaram muito seu poder dentro do Congresso e por isso a tendência é que esse debate não aconteça", disse a professora da Ufscar.
"Cada vez mais estamos virando uma teocracia. Além disso, temos uma sociedade conservadora, que promove a santificação da maternidade. E com essa sobreposição da questão religiosa e desse fator cultural, a discussão não avança mesmo", observou Débora Diniz.

Igualdade no mercado de trabalho

Entre os avanços que veem no governo Dilma as entrevistadas citam a maior presença das mulheres no mercado de trabalho formal. Segundo elas, programas como Bolsa Família e políticas públicas de acesso à educação, como o Pronatec, permitiram que mais brasileiras tivessem registro em carteira.
Segundo relatório da ONU Mulheres Brasil de 2015, as mulheres são maioria entre as beneficiárias de programas sociais. E também estão mais presentes nas empresas e escolas.
"O programa do governo de Dilma em termos de políticas públicas teve um impacto significativo na vida das pessoas mais pobres, especialmente das mulheres negras", diz Nadine Gasman, da ONU Mulheres Brasil.
Dados da entidade também mostram aumento de 800% no número de microempreendedoras individuais em seis anos, passando de 21 mil em 2009 para 2,1 milhões em 2014. Desse total, mais de 495 mil pertenciam ao Bolsa Família.
Para Jacira Melo, o programa teve uma participação importante na emancipação feminina já que nos mandatos de Dilma mulheres se tornaram titulares do benefício nas famílias. Antes, com Lula, homens também poderiam ser responsáveis pelo cartão.
"(Essa mudança) só acontece quando o governante tem a percepção de que, na família, as mulheres são uma unidade, não só um indíviduo. O parceiro, quando tem a titularidade, pode passar para frente o Bolsa Família, gastar com outras coisas; a mulher não."
No governo Dilma, mulheres passaram a ser titulares do Bolsa FamíliaImage copyrightAGÊNCIA SENADO
Image captionNo governo Dilma, mulheres passaram a ser titulares do Bolsa Família
Além da concessão do Bolsa Família, a coordenadora da pós-graduação em Ciência Sociais da UERJ Clara Araújo cita as condições mais flexíveis de empréstimos no Minha Casa Minha Vida e em outros programas de crédito habitacional, o que beneficiaria as mulheres.
"Quando são chefes de família sem cônjuge e com filhos, as mulheres têm uma renda menor. Se não houver um olhar em relação a isso, elas serão sempre excluídas."
Condições mais flexíveis do Minha Casa Minha Vida para mulheres foram elogiadas por especialistasImage copyrightROBERTO STUCKERT FILHO/PR
Image captionCondições mais flexíveis do Minha Casa Minha Vida para mulheres foram elogiadas por especialistas
No entanto, a professora critica o foco da maioria das políticas nas mães, deixando de lado as necessidades e desejos das mulheres mais jovens ou solteiras.
"Há sempre uma tensão entre afirmar as mulheres como sujeitas de si, como pessoas de direito só por serem mulheres, e o discurso da maternidade, de vê-las sobretudo como mães."
Segundo as entrevistadas, outra medida favorável à emancipação feminina no governo Dilma foi a aprovação da "PEC das Domésticas", emenda constitucional que amplia os direitos das empregadas domésticas. O texto que regulamenta a PEC foi publicado no Diário Oficial em junho de 2015 e garante sete novos direitos a essas profissionais, como auxílio-creche, seguro-desemprego e salário-família.
A lei que permite às empresas ampliarem a licença-paternidade de 5 para 20 dias também é mencionada como tópico positivo. Em março, Dilma sancionou o texto, que cria a Política Nacional Integrada para a Primeira Infância e permitiria que pais dividissem os cuidados com as crianças por mais tempo.
Por fim, a representante do Instituto Patrícia Galvão aponta que o feito mais importante de Dilma com relação a esse tema é a "construção cultural".
"Tenho certeza que todas as gerações de mulheres agora veem como uma possibilidade real ocupar uma Presidência da República ou mesmo estar onde elas decidirem que querem estar no mercado de trabalho. Isso ninguém vai tirar, nem o impeachment."

Combate à violência e ao feminicídio

Colocar todas as ações previstas na Lei Maria da Penha em prática foi para Jacira Melo, do Patrícia Galvão, um importante destaque do governo Dilma no combate à violência doméstica - tópico bem avaliado pelas especialistas consultadas.
"A sensibilidade (do governo) possibilitou ações significativas para acesso à Justiça e o acolhimento das mulheres nos espaços urbanos e rurais. Isso foi absolutamente novo", diz Melo.
Ela cita também a lei que tipifica o crime de feminicídio (homicídios cuja motivação envolve o fato de a vítima ser mulher) e aumenta as penas previstas pelo Código Penal. O texto foi sancionado no Brasil em março de 2015.
A inauguração de centros de acolhimento de vítimas de violência, as Casas da Mulher Brasileira, está incluída nessas medidas, segundo Nalu Faria, da Marcha das Mulheres. No entanto, pondera, a ampliação dos centros não cumpriu o prometido - até agora, duas unidades foram abertas.
"O programa previa uma casa por capital, o que não foi feito, mas ao menos cria uma referência interessante para ser implementada."
Flavia Piovesan, titular da Secretaria de Direitos Humanos no governo Temer, afirmou à BBC Brasil que o combate à violência contra a mulher é uma das prioridades do governo, junto às ações afirmativas para negros.
"(A prioridade) é como combater, prevenir e implementar de maneira mais plena a Lei Maria da Penha em todo o país."
Inauguração de uma das Casas da Mulher Brasileira, medida elogiada por especialistasImage copyrightROBERTO STUCKERT FILHO/ PR
Image captionInauguração de uma das Casas da Mulher Brasileira, medida elogiada por especialistas

Questão de gênero e diversidade sexual nas escolas

Uma das grandes polêmicas durante o governo Dilma foi a da cartilha formulada pelo Ministério da Educação para abordar a questão de gênero e a diversidade sexual nas escolas públicas. Essa também era uma das pautas dos ativistas pela igualdade de gênero e acabou não avançando.
Logo que a notícia da cartilha, chamada "kit anti-homofobia", surgiu em 2011, houve uma enxurrada de críticas, além de pressão da bancada evangélica e católica do Congresso - forçando um recuo de Dilma.
O kit era parte do projeto "Escola sem Homofobia" e tinha como objetivo abrir um debate nas escolas sobre temas como gênero e suas desigualdades, homofobia, diversidade sexual e luta pela cidadania LGBT.
Protesto pela Lei Maria da PenhaImage copyrightAGENCIA BRASIL
Image captionCom o lema "Por uma vida sem violência: para mim, para nós, para todas", mulheres protestam pela implementação da Lei Maria da Penha
"Não se trata de recuo. Se trata de um processo de consulta que o governo passará a fazer, como faz em outros temas também, porque isso é parte vigente da democracia", disse Dilma à época. O tema não voltou mais à tona desde então.
Para Maria do Socorro Braga, assim como a discussão o aborto, essa também não vai evoluir por causa do Congresso "conservador".
"Essas questões não vão ser colocadas em pauta em um Congresso tão conservador. Além disso, hoje temos uma grande parte da população que rejeita a pauta mais progressista", analisou.
Já Flávia Piovesan considera esse tema como uma de suas prioridades.
"Acho muito importante termos o diagnóstico: onde estamos e para onde vamos. E uma das minhas prioridades é trabalhar a questão da homofobia. Não podemos admitir desperdício de vidas em razão da intolerância pela diversidade sexual."

ADVOGADO CONSTITUCIONALISTA | EDUARDO MENDONÇA “Forçaram a barra na decisão de manter os direitos políticos de Dilma”

Advogado afirma que, no mínimo, Senado deveria ter analisado primeiro se aceitava fatiar ou não pena

Foto oficial de Dilma no chão do Palácio do Planalto após ser retirada da parede.
Foto oficial de Dilma no chão do Palácio do Planalto após ser retirada da parede. REUTERS


Doutor em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autor do livro A Constitucionalização das Finanças Públicas no Brasil Eduardo Bastos Furtado de Mendonça caracterizou a decisão do Senado de manter os direitos da presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) como “esquisita”. De acordo com ele, se o Supremo Tribunal Federal não modificar o posicionamento dos senadores, a petista poderá concorrer a qualquer cargo eletivo em 2018, menos à presidência. Se quiser voltar a essa função, terá de esperar o pleito de 2022.
Professor na UNICEUB, em Brasília, e ex-assessor do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, Mendonça diz ainda que o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB), ou qualquer outro parlamentar que venha a ser cassado, não será beneficiado pelo fatiamento do impeachment de Rousseff, à diferença de outros analistas, para quem a estratégia de apresentar destaques anima os apoiadores de Cunha a propor uma pena alternativa na sessão que votará a cassação. Eis os principais trechos da entrevista:
Pergunta. Qual a sua avaliação da decisão do Senado de manter os direitos políticos de Dilma Rousseff?
Resposta. Foi muito esquisita. Acho que forçaram a barra. Fez-se o impeachment pela alegação do descumprimento da legislação. Mas na hora de se concluir o impedimento, se dá uma interpretação forçada à Constituição. A gente tem de escolher se somos um Estado de Direito que cumpre a lei ou se somos uma nação de camaradas.

PSDB, PMDB E OUTROS RECORREM DE MEDIDA; MINISTROS DO STF CRITICAM

O dia seguinte à decisão do Senado de manter os direitos políticos de Dilma Rousseff foi de protestos e negociações. Nesta quinta-feira, depois de idas e vindas, o PSDB decidiu entrar com ação no Supremo Tribunal Federal para questionar a medida que extinguiu parte da pena da ex-presidente no processo de impeachment com votação em separado. A ação foi apoiada pelo DEM e pelo PPS. O PMDB, cuja parte expressiva da bancada apoiou o fatiamento, anunciou adesão à iniciativa, que provocou um racha na base aliada de Michel Temer.  A associação dos Magistrados Brasileiros, o senador Álvaro Dias (PV-PR) e o Movimento Acorda Brasil também assinarão a petição.
Dois ministros do Supremo, Gilmar Mendes e Celso de Mello, criticaram a estratégia de dividir a votação no Senado. Mendes classificou o formato de "bizarrro" e Mello disse que o artigo em questão é "incindível". 
P. Juridicamente há algum problema na não inabilitação da ex-presidenta?
R. Vejo dois problemas. Acho que o artigo 52 da Constituição não é compatível com essa cisão. Ele diz que, uma vez julgada procedente a acusação, se dá o afastamento do cargo com a inabilitação. E é o que faz todo sentido. A inabilitação é uma consequência, uma forma de proteção constitucional. O argumento de que o STF teria visto este espaço em 1992 não me convence. Naquele caso, o Fernando Collor renunciou. O segundo problema é: se vamos assumir que essa posição seja possível à luz do texto, o Senado teria de ter se manifestado previamente. Não se colocou no Senado se os senadores poderiam fazer essa avaliação.
P. O que está dizendo é que o ideal era que o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, tivesse consultado os senadores antes de dividir a votação. O que acha?
R. Sim. O presidente da sessão decidiu sozinho. Se o Senado tivesse de decidir a priori, em tese se tinha ou não competência para dividir essa questão, a maioria aplicada seria a simples. [O julgamento do quesito direitos políticos terminou com a votação de 42 a 36]. Ou seja, havia uma maioria para que ele não ocorresse.
P. Quer dizer que, se o plenário fosse consultado, o fatiamento seria impedido. É isso?
R. É uma questão substancial, se o Senado tem ou não de aplicar essa pena. Os senadores entenderam que o Senado não podia fatiar. A maioria que se formou talvez nem ache que o Senado tenha esse poder. Significaria uma certa autocontenção do Supremo. Não é que o STF não poderia rever, mas ele seria mais contido. Nem isso eu sei se aconteceu.
P. Acredita na revisão dessa decisão pelo STF?
R. É possível porque você tem uma quantidade relevante de atores que podem levar a situação ao Supremo, com interesse diferente e visão estratégica diferente. Nada impede que alguém leve a questão ao STF.
P. Nenhum dos 24 recursos apresentados ao STF até o momento vingou. Qual a chance de um pedido como esse prosperar?
R. Este caso dos direitos políticos não trata do mérito do impeachment. O que se discutiria aqui seria uma questão institucional, se o Senado tem ou não esse poder de definir a pena, já que não está prevista na Constituição. É uma questão tipicamente constitucional. O que pode ocorrer é o STF aplicar a autocontenção. Acredito que não está em discussão a revisão do mérito, que ele não pode fazer. Isso, sim, seria inconcebível.
O constitucionalista Eduardo Mendonça.IPRADE
P. Então, se o Supremo entender que a decisão do Senado de manter os direitos políticos de Rousseff foi inconstitucional, ela automaticamente perderia esses direitos?
R. Se não podia fatiar, só tem duas soluções: automaticamente perde os direitos políticos ou a defesa de Dilma pediria a anulação de todo o processo. Se o STF se meter na questão dos direitos políticos, seria para entender que a inabilitação da presidente é automática. O STF é um tribunal cuidadoso em um julgamento de carga política como essa. É possível que o STF não se meta, mas se resolver mexer nisso, não é mexer no mérito do impeachment. Se modificar o mérito, o Supremo estará atravessando a rua. A competência neste caso é do Senado.
P. Com essa decisão, Dilma Rousseff poderá se candidatar a algum cargo eletivo?
R. O sistema ficou capenga, mas é preciso lembrar que a Lei da Ficha limpa não alcança o presidente. Quando ela foi criada imaginou-se que a Constituição já deixava bem clara a punição ao presidente, que era a inabilitação, mas isso se modificou no Senado. Por isso, em 2018, ela pode concorrer a qualquer cargo, menos à presidência. Para presidente, só poderia, em 2022, porque já foi eleita para dois mandatos consecutivos. Isso está previsto no capítulo quinto do artigo 14 da Constituição.
P. Na sua opinião, por que a proposta de manter os direitos políticos da ex-presidenta foi apresentada?
R. Ouvi tantas teses: de auto salvação, de troca de favor. Cada um pode ter tido uma motivação diferente. Alguns tinham um desconforto por ter um respeito pessoal pela presidente, que achavam que ela seria honesta. Não acho que tenha tido uma concertação.
P. De que forma o deputado Eduardo Cunha pode ser beneficiado desse imbróglio jurídico?
R. Não vejo como ele se beneficiar. A sanção imposta para um presidente está prevista no artigo 52 da Constituição Federal. E ela só prevê para presidente, não pode ser estendida a outros políticos. Os demais caem na Lei da Ficha Limpa. Em caso de condenação, ficam inelegíveis. E veja, a inelegibilidade é menos do que a inabilitação política.
P. Isso significa que Cunha ou outro cassado poderia se tornar secretário de Estado, por exemplo?
R. Sim. Se ele não tiver outra condenação que o impeça, sim. O que ficou muito estranho é que, com essa decisão, um deputado cassado não pode concorrer a eleição, mas um presidente cassado, pode.
P. Conversei com algumas pessoas que eram pró e contra o impeachment. Todas estavam em um clima de ressaca nesta quinta-feira. A sensação que fica, por enquanto, é essa?
R. Sim, hoje já houve uma impugnação da decisão de ontem. Há uma sensação de exaustão generalizada. Até por isso, ninguém cogita a sério que isso pode ser revertido com esse mandado de segurança [apresentado pelos defensores de Rousseff]. As pessoas querem virar essa página da história, e me parece que a só a ex-presidente insiste, um pouco sozinha, de não deixar essa página ser virada.



Polícia Civil apreende computadores na Secretaria de Saúde do DF





Michael Melo/Metrópoles

Equipamentos eram usados por Rondinelly Rosa Ribeiro, investigado na Operação Mister Hyde




A Polícia Civil do Distrito Federal esteve, na tarde desta quinta-feira (1º/9), na Secretaria de Saúde do DF (SES), atrás de computadores que eram usados por um dos investigados na Operação Mister Hyde.


Os equipamentos eram acessados por Rondinelly Rosa Ribeiro, coordenador de cabeça e pescoço da SES e que, segundo a polícia, participou de um suposto esquema de recebimento de propina para indicação de empresas fornecedoras de órteses, próteses e materiais especiais.
Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde informou que o funcionário é investigado por corrupção na rede particular de saúde, e não no órgão. “A pasta considera graves os fatos noticiados e ressalta que não haverá tolerância com irregularidades. Já foi solicitada à Corregedoria de Saúde que apure os fatos e, caso sejam verificados ilícitos no âmbito da Secretaria de Saúde, os responsáveis serão processados e exemplarmente punidos.”
  

Polícia cumpre mandados no Palácio do Buriti e na Câmara Legislativa

02/09/2016 07h07 - Atualizado em 02/09/2016 07h51

Ação cumpre mandados de busca e apreensão na Casa Militar.
Gabinetes da Mesa Diretora da Câmara também foram alvo de policiais.

Gabriel LuizDo G1 DF

Carro da Polícia Civil diante do Palácio do Buriti (Foto: Alexandre Bastos/G1)Carro da Polícia Civil diante do Palácio do Buriti (Foto: Alexandre Bastos/G1)
A Polícia Civil iniciou o cumprimento mandados de busca e apreensão nesta sexta-feira (2) no Palácio do Buriti. A ação busca documentos e computadores na Casa Militar – instituição criada para garantir a segurança da governadoria.

O dinheiro, segundo o PM aposentado, veio dos cofres públicos, por meio de emenda do deputado distrital Agacial Maia (PR), oferecido por Paulo Tadeu, ex-secretário de governo e atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do
 Distrito Federal. Agaciel Maia e Paulo Tadeu negaram as denúncias.O policial militar aposentado João Dias é um dos alvos desta operação. Dias é investigado por supostamente apresentar vídeos forjados sobre a denúncia de que recebeu cerca de R$ 150 milde pessoas ligadas ao ex-governador Agnelo Queiroz para não falar sobre sua relação com o político. À época, em 2012, a assessoria do ex-governador classificou as denúncias de "fantasiosas".
“São R$ 150 mil vindos do cofre público de Brasília através do senhor Agaciel Maia, Paulo Tadeu e GDF [com o objetivo de] tentar me calar, de cooptar, de fazer acordo, de me prometer outros favores, de me dar cargos no governo”, disse Dias.
Ação na Câmara
Paralelamente, a polícia também passou a cumprir mandados de busca e apreensão em gabinetes da Mesa Diretora da Câmara Legislativa. Este é um desdobramento da Operação Drácon, queacabou afastando a Mesa Diretora por suspeita de beneficiamento em troca de liberação de verbas de emendas parlamentares para serviços de UTI.
Carros da Polícia Civil em frente à Câmara Legislativa (Foto: Alexandre Bastos/G1)Carros da Polícia Civil em frente à Câmara Legislativa (Foto: Alexandre Bastos/G1
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‘Necessário' ou 'sinistro'? Imprensa internacional começa a escrever sua história do impeachment

1 setembro 2016
ImpeachmentImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionApoiadora do PT diante do Palácio do Alvorada antes de declaração de Dilma Rousseff sobre impeachment; imprensa internacional reconhece legalidade de processo, mas questiona aspectos da legitimidade de novo governo
Horas após ser consumado, o impeachment de Dilma Rousseff começa a ter sua história escrita também pela imprensa internacional.
Em editorial, artigo que apresenta a opinião do grupo responsável pela publicação, o jornal americano The Washington Post classificou o desfecho do processo como "difícil, mas necessário".
A publicação de 140 anos, comprada em 2013 pelo CEO da Amazon, Jeff Bezos, considera que o impeachment foi "legal, politicamente legítimo e abre caminho para reformas que o Brasil precisa desesperadamente".
Outras publicações trouxeram opiniões que questionam a legitimidade do processo – ou seja, se foi justo, democrático.
"Todos os impeachments são politicos. Mas o do Brasil foi mais sinistro?", questiona Amanda Taub em artigo no The New York Times.
ImpeachmentImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionManfestantes pró-impeachment festejam em São Paulo após votação no Senado; para britânico Guardian, pesquisas e protestos de rua mostram que 'eleitores estão cheios de quase todos os políticos'.
Para a colunista, a mudança no Brasil não é golpe no sentido estrito da palavra, ou seja: uma tomada ilegal de poder, mas seria uma "exploração da vontade popular e da letra da lei" para servir interesses políticos, e não democráticos.
A ex-advogada de direitos humanos, que escreve sobre ideias e contextos de grandes eventos mundiais, vê a crise política "enraizada em problemas que afetam todo o sistema político brasileiro, não apenas a esquerda ou a direita".
Taub lembra que o escândalo de corrupção investigado pela Operação Lava Jato envolve integrantes do novo governo e cita a frase do senador Romero Jucá (PMDB) – em diálogo gravado em março pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado – sobre "estancar a sangria" representada pela operação.
Por outro lado, ela critica como "caricatura" a visão de "devotos do PT" que concebem o impeachment em termos de luta de classes, de elite contra povo. Para sustentar a sua opinião, cita uma pesquisa do Datafolha de agosto de 2015 que indicou 66% de apoio à abertura do impeachment e apenas 11% de aprovação a Dilma.
TemerImage copyrightREUTERS
Image captionPanos de chão com críticas a Temer no Rio de Janeiro; colunista diz que discurso do PT sobre 'luta de classes' na crise é 'caricatura' da situação real
No editorial, em que defende a legalidade e a necessidade do impeachment, oWashington Post classificou como "falsas" e "irônicas" as alegações de Dilma sobre o impeachment supostamente ter sido um "golpe".
"Esses protestos tem uma ironia própria, à luz de sua defesa dura da destruição da democracia venezuelana por Hugo Chávez e de seus negócios de pai para filho com o regime dos Castro em Cuba", diz o jornal.
O espanhol El País também dedicou editorial ao impeachment de Dilma. Descreveu o desfecho do processo como "golpe baixo ao funcionamento institucional de um país que durante décadas e com esforço se havia convertido em exemplo de democracia consolidada para toda a região".
"Os partidos políticos responsáveis pelo afastamento usaram de modo abusivo um procedimento de destituição previsto na Constituição para casos extremamente graves e o ajustaram aos jogos políticos de curto prazo sem se importarem com o dano à legitimidade democrática", anotou a publicação.

Votação esmagadora

"Brasil derruba Rousseff depois de votação esmagadora no Senado", titulou o jornal britânico The Guardian.
Em texto assinado do Rio de Janeiro e de Brasília, a publicação analisa a queda de popularidade de Dilma como a soma de "declínio econômico agudo, governo paralisado e um escândalo de corrupção que envolveu quase todos os grandes partidos".
A publicação diz ainda que o processo pode reforçar para alguns a "impressão de que a classe política do país ainda se sente desconfortável com a democracia".
Em uma escala de gravidade de 1 a 10, o jornal afirma que a crise do Brasil bate hoje em 11. Também lembra a gravação em que Romero Jucá aparece, segundo o diário, em uma "trama para remover a presidente e suspender a investigação da Lava Jato" – algo que o senador nega – e a intervenção do senador e ex-jogador Romário na maratona de discursos que precedeu a votação.
WPImage copyrightREPRODUÇÃO
Image captionWashington Post: jornal do CEO da Amazon foi um dos primeiros a defender o resultado do processo de impeachment como bom para o Brasil
O diário econômico Financial Times menciona o papel de "políticas intervencionistas" de Dilma na crise econômica e o "desafio" de Temer nessa área, reforçado pela divulgação da contração de 0,6% do PIB no segundo trimestre de 2016.
"Embora não haja um problema de legalidade (no impeachment), há claramente uma questão de legitimidade", afirmou ao diário o analista Paulo Sotero, do Wilson Center (EUA). "Ele (Temer) tem apenas um tiro para resolver isso, que é reverter a recessão e começar a mostrar que pode tirar o Brasil desse buraco para crescer de novo."
O britânico The Daily Telegraph destaca a decisão da defesa de Dilma de questionar a votação no Supremo Tribunal Federal e a promessa da ex-presidente de fazer uma oposição "firme, incansável e energética".

Impacto regional

Colunista do jornal argentino La Nación, Carlos Pagni lembrou as consequências econômicas e políticas do impeachment para o país vizinho.
Para ele, o rumo do PIB brasileiro será uma variável importante para o governo de Maurício Macri, que tenta reerguer a própria economia, e ainda haverá repercussões políticas, já que a ex-presidente Cristina Kirchner também abraçou o discurso do "golpe" para rebater suspeitas de enriquecimento ilícito.
O colunista lembra como Macri apoiou Temer "desde a primeira hora", sobretudo pela vinculação do novo presidente brasileiro aos tucanos Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso.
O artigo no La Nación considera que Dilma foi retirada do poder mediante um "procedimento legal inquestionável", mas também diz que Temer precisa "fortalecer a legitimidade" de sua gestão, e que buscará isso de forma "hiperativa" no campo diplomático, citando a presença do peemedebista na cúpula do G20 na China já nesta semana.
DilmaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionDilma em discurso de despedida: jornais destacaram o tom duro de oposição e a tentativa de reverter decisão na Justiça
O jornal chileno La Tercera, em texto do repórter Alejandro Tapia, narrou a queda de Dilma como a de uma tecnocrata "desconfiada", "soberba" e "fria".
"Segundo analistas políticos, brasileiros, Rousseff cavou sua própria cova em dois sentidos: a sua aposta econômica também se revelou um fracasso", escreveu.

PT 'no inferno'

Para o jornal francês Le Monde, o afastamento permanente da petista representa "a descida ao inferno do Partido dos Trabalhadores".
"O impeachment decidido por mais de dois terços dos senadores marca o fim de um ciclo, aberto em 2003 com a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva, o outrora menino pobre do Nordeste transformado em porta-voz dos esquecidos, dos pobres e dos sem-voz", diz o diário, em texto assinado pela correspondente.
Le Monde também assinala que o processo que culminou na saída definitiva da petista foi uma "tragédia sem suspense".
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Image captionMichel Temer durante posse, ao lado do presidente do STF, Ricardo Lewandowski (à dir.), e do presidente do Senado, Renan Calheiros
"A dramatização de sua queda, a denúncia de um 'golpe de Estado' ameaçando a jovem democracia brasileira, o seu passado de guerrilheira, o seu sofrimento e a sua resistência à tortura sob a ditadura militar (1964-1985) não garantiram a leniência de seus juízes (senadores)."
Em outro artigo, assinado pela mesma correspondente, o jornal ainda pergunta se Michel Temer, que substitui Dilma na Presidência, será "o Maquiavel ou o salvador" do Brasil.
"Tão impopular quanto a sua antecessora, este habitué dos bastidores da política se vê à frente de um país endividado, mergulhado em recessão, desemprego e inflação. Se ele é estimado nos círculos financeiros, não lhe será concedido nenhum estado de graça", diz o diário.