sábado, 2 de janeiro de 2016

Depois de Ramadi, Bagdad olha para Mossul mas reconquista continua distante

O primeiro-ministro Haider al-Abadi em Ramadi REUTERS
Militares americanos admitem que ainda há 700 combatentes do Estado Islâmico na cidade que o Governo iraquiano disse ter sido libertada

O Exército iraquiano anunciou a libertação de Ramadi, capital da província e bastião sunita de Anbar, e o primeiro-ministro Haider al-Abadi não esperou pelo fim das operações para visitar cidade resgatada ao Estado Islâmico (EI). Os jihadistas sofreram ali um dos piores reveses militares até à data, mas a reconquista de Mossul – que Bagdad prometeu para os próximos meses – continua tão distante quanto incerta.
Mais do que estratégica, a tomada de Ramadi, a única grande cidade que o EI capturou desde que Abadi chegou ao poder, em Setembro de 2014, tem uma importância simbólica para Bagdad e o primeiro-ministro não poupou nas palavras nem nos gestos. “2016 será o ano da grande e final vitória, quando nos livraremos da presença do Daesh no Iraque”, disse Abadi, segunda-feira, numa discurso na televisão. Menos de 24 horas depois, viajou de helicóptero até à cidade, a Oeste da capital, e passeou-se pelas ruas do centro sob forte protecção militar, antes de se reunir com soldados no complexo governamental tomado domingo aos jihadistas, hasteando frente ao edifício a bandeira nacional.
O entusiasmo foi temperado pela queda de três morteiros a cerca de 500 metros de um dos locais que visitou (o que obrigou à sua saída precipitada), contam as agências. Já nesta quarta-feira, um responsável da coligação militar liderada pelos Estados Unidos revelou que haverá ainda 700 jihadistas entrincheirados em Ramadi e nos subúrbios a Leste, e que o centro da cidade está literalmente semeado de engenhos explosivos.
A reconquista, concordam os analistas, é moralizadora para o Exército iraquiano, que ruiu como um castelo de cartas quando, há ano e meio, o EI avançou sobre Mossul e abocanhou a província de Anbar, proclamando um califado sobre territórios que se estendem até à Síria. Ainda mais porque, ao contrário de sucessos anteriores, foram os militares iraquianos a protagonizar a ofensiva e não os peshmergas curdos (como em Sinjar) ou as milícias xiitas (caso de Tikrit).
Ramadi, tal como Falluja, é território sunita e a população teme mais as forças irregulares apoiadas por Teerão do que os jihadistas. Abadi, pressionado por Washington, relegou-as para segundo plano nesta operação e garante que a cidade ficará entregue a combatentes das tribos locais, que à semelhança das forças especiais que conduziram a ofensiva foram treinados e armados nos últimos meses pela coligação internacional contra o EI. “Ramadi é um exemplo daquilo que o Exército quer para as próximas batalhas”, disse à Reuters o analista iraquiano Hisham al-Hashimi.
Os militares americanos dizem-se convictos de que os iraquianos serão capazes de segurar Ramadi (uma cidade que não é estratégica para os intentos do EI, explicam observadores). Mas são os primeiros a relativizar a promessa de Abadi de libertar Mossul em breve e “desferir o golpe fatal” sobre os jihadistas. Reconquistar a segunda maior cidade do Iraque “vai exigir muito esforço, muito treino, muito equipamento e muita paciência”, disse o coronel Steve Warren, porta-voz da coligação. Antes disso está Falluja, a segunda maior cidade de Anbar e que, como Mossul, é mais densamente povoada e está há mais tempo em poder dos jihadistas, recorda o New York Times.
Além do pesadelo operacional e do risco de arrastar o Exército para um cenário de guerrilha urbana, a ofensiva sobre Mossul é ainda complicada pelas tensões entre curdos, árabes sunitas e xiitas, todos com interesse em dominar a grande cidade. Bagdad teme que os curdos aproveitem a operação para se apoderar da metrópole, mas o ministro das Finanças, Hoshiyar Zebari, um curdo, admitiu numa entrevista à Reuters que “não será possível tomar Mossul sem os peshmerga”.

Setor financeiro “lidera” corrupção Investigadores do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (Obegef), da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, estimam que o crime económico atinga um valor anual de cerca 50 mil milhões de euros.

"A maioria do dinheiro proveniente do crime tem de passar pelo setor financeiro”, diz Aurora Teixeira.
Perante esta análise, revelada pelo Jornal de Notícias, aquele organismo afirma que há uma tendência de crescimento deste tipo de crime que se situa entre três a quatro milhões de euros anuais.
  O Obegef refere que vários relatórios de universidades, observadores independentes e internacionais apontam para o aumento do chamado crime de “colarinho branco” uma vez que o setor financeiro é aquele que surge mais associado à evasão fiscal e ao branqueamento de capitais no quadro de atos de corrupção, entre outros ilícitos criminais.
Para Aurora Teixeira do Obegef, o crime económico acaba por interligar muitas atividades. E explica : “digo muitas vezes que o tráfico de droga tem também a vertente económica e dou como exemplo o branqueamento de capitais”.
Para a investigadora o próprio terrorismo, que é financiado pelo tráfico de pessoas ou de estupefacientes e pelo branqueamento de capitais, abarca o crime económico.
Neste contexto,Aurora Teixeira disse ainda ao Jornal de Notícias que “o combate ao crime económico passa pelo combate ao terrorismo" tendo ainda adiantado que a “maioria do dinheiro proveniente do crime tem de passar pelo setor financeiro”.
Depois da área financeira,seguem-se as atividades ligadas às tecnologias de informação e comunicação onde se registam várias “fraudes” ou “burlas” com cartões bancários.
No setor da venda a retalho predomina a “manipulação” de preços ou a “ausência” de declaração ao fisco.

Irã tem mais mísseis do que é capaz de armazenar, diz general


Imagem de 11 de outubro de 2015 mostra lançamento de míssil no Irã
Os Guardiões da Revolução iraniana têm em seu poder tantos mísseis que não sabem onde armazená-los, afirmou nesta sexta-feira um militar iraniano de alto escalão, num momento em que os Estados Unidos ameaçam impor novas sanções à República Islâmica.
"Falta-nos espaço para armazenar nossos mísseis", declarou o general Hossein Salami, número dois dos Guardiões da Revolução, durante a oração semanal.
Temos "centenas de túneis cheios de mísseis prontos para ser lançados, para proteger sua integridade, sua independência e sua liberdade", disse aos fiéis em Teerã, prometendo que o Irã jamais deixará de desenvolver uma defesa dissuasiva.
A televisão estatal iraniana divulgou em outubro imagens inéditas de uma destas bases subterrâneas onde os mísseis são guardados.
Estas declarações são feitas num contexto de crescente tensão com os Estados Unidos, após o anúncio de Washington de uma nova série de sanções econômicas (depois suspensas) ligadas a dois testes recentes com mísseis balísticos por parte do Irã.
No mês passado, especialistas da ONU concluíram que estes testes realizados em outubro violavam uma resolução que proíbe o Irã de utilizar mísseis balísticos pela possibilidade de que estejam dotados de uma ogiva nuclear.
A ameaça de novas sanções colocou em evidência a deterioração das relações americanas-iranianas e arriscaram o histórico acordo concluído em 14 de julho entre o Irã e seis grandes potências, entre elas os Estados Unidos, que deve entrar em vigor oficialmente em algumas semanas.
O presidente iraniano, Hassan Rohani, denunciou na quinta-feira intervenções hostis e ilegais por parte de Washington e ordenou a intensificação do desenvolvimento de medidas que permitam melhorar a defesa do país.
O Irã sempre negou querer se dotar de uma arma nuclear e afirma que seus mísseis não estão concebidos para suportar esta bomba.

Opositor López defende queda de Maduro, se desrespeitar urnas


O líder de oposição Leopoldo López (centro-esq.) ao ser detido, durante protesto em Caracas, em 18 de fevereiro de 2014
O líder opositor preso Leopoldo López afirmou, nesta sexta-feira, que será necessário "remover" o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, caso desrespeite os resultados eleitorais.
As urnas deram ampla maioria à oposição na próxima legislatura.
"Se Maduro e o restante das cabeças dos poderes sequestrados por uma elite corrupta e antidemocrática torpedearem a mudança, desconhecendo pela via dos fatos os resultados de 6 de dezembro passado, será preciso removê-los", escreveu López, em uma carta para se despedir de 2015, enviada da prisão.
Condenado a quase 14 anos de prisão por estimular a violência nos protestos contra o governo no início de 2014, López acrescentou que a oposição deve ativar os mecanismos para interromper o mandato de Maduro (2013-2019) "pela via constitucional, o mais rápido possível".
Na quarta-feira, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) considerou "procedente" um recurso no Amazonas (sul), ordenando "de forma provisória e imediata a suspensão de efeito dos atos de totalização, adjudicação e proclamação" dos candidatos eleitos nesse estado.
A sentença deixou a Mesa da Unidade Democrática (MUD), de oposição, temporariamente sem a maioria de dois terços (112 de 167 cadeiras) conquistada nas últimas eleições parlamentares. Mantém ainda, contudo, a maioria qualificada de três quintos.
Desafiando a decisão judicial, a MUD enviou um comunicado para anunciar que seus 112 deputados eleitos vão assumir o cargo na semana que vem, em 5 de janeiro, "com a força da Constituição, com a força da lei e a força do povo".
Hoje, a líder de oposição María Corina Machado postou em sua conta no Twitter que a sentença do TSJ é "inexistente", porque "seus magistrados foram designados inconstitucionalmente".

O novo jihadista do Estado Islâmico é gangster e terrorista ANTHONY FAIOLA e SOUAD MEKHENNET

Molenbeek, o bairro de Bruxelas com muitos imigrantes do Norte de África de onde são originários vários jihadistas europeusYOUSSEF BOUDLAL/REUTERS
Há muito que as prisões europeias são terreno fértil para radicais islamistas, mas criminalidade e extremismo estão agora mais interligados. Os pequenos crimes de recrutas prosseguem mesmo depois de verem “a luz” do Islão radical.
Os ataques terroristas em Paris iluminaram os contornos do crescimento de uma nova estirpe de jihadistas, que esbate as fronteiras entre o crime organizado e o extremismo islâmico, que usa ferramentas afinadas a violar a lei ao serviço do radicalismo violento.
O Estado Islâmico está a construir um exército de fiéis a partir da Europa que inclui um número cada vez maior de rufias e antigos presidiários, enquanto a natureza da radicalização se modifica na era do seu autoproclamado califado. Em vez de deixarem para trás as suas vidas de crime, alguns dos adeptos servem-se dos seus talentos ilícitos para financiar círculos de recrutamento e custos de viagem para combatentes estrangeiros, mesmo que o seu passado lhes possa dar acesso mais fácil a dinheiro e armas – o que representa um novo desafio para as autoridades europeias.
Antes de se transformar no célebre orquestrador dos ataques terroristas de Novembro em Paris, Abdelhamid Abaaoud, 28 anos, esteve ligado a uma quadrilha de ladrões radicalizados liderados por um homem alcunhado Pai Natal. O gangue – que incluia homens que acabaram por ir lutar na Síria e no Iraque – assaltava turistas e lojas, e construíu assim uma organização de pequeno crime ao serviço do Estado Islâmico, dizem as autoridades.
A imagem que emerge agora das maquinações do Estado Islâmico (EI) na Europa é diferente da evolução da Al-Qaeda, que nos seus primeiros anos dependia em larga medida de recrutas ostensivamente pios e patrocinadores estrangeiros ricos.
Criminoso reincidente
Abaaoud, filho de imigrantes marroquinos na Bélgica, era um criminoso reincidente que foi posto fora de casa com 16 anos. Radicalizou-se e partiu para combater na Síria em 2013. Mas continuava a cometer roubos, mesmo no seu breve regresso à Bélgica, nesse mesmo ano. Usou os ganhos para financiar uma nova viagem para a Síria, em Janeiro de 2014, desta vez com o seu irmão de 13 anos, Younes, segundo afirma um agente de topo nos serviços de informação que interrogou um familiar de Abaaoud. Como outros responsáveis entrevistados, prestou declarações sob anonimato, por estar a discutir uma investigação em curso. 
A rede terrorista de Abaaoud em Paris, dizem os investigadores, era diferente do círculo de pequenos crimes de Bruxelas, que não executou ataques em solo europeu, mas em vez disso recrutava combatentes e financiava o seu trânsito para o Médio Oriente. Mas a maioria dos atacantes de Paris tinha também um passado criminoso. Dois deles – Brahim Abdeslam, que se fez explodir a 13 de Novembro, e o seu irmão, Salah Abdeslam, ainda em fuga – geriam um café em Bruxelas, encerrado em Agosto, dada a sua actividade relacionada com o tráfico de drogas.
Um responsável francês ligado à investigação de Paris disse também que as análises forenses detectaram vestígios de Captagon – uma droga muito traficada no Mèdio Oriente, apesar da proibição de produtos intoxicantes no Islão, que normalmente é uma mistura de anfetaminas e teofilina – em restos mortais de vários dos atacantes.
“Esta ligação ao mundo do crime não se veria com [Osama] bin Laden”, diz Mohammad-Mahmoud Ould Mohamedou, vice-director do Centro para as Políticas de Segurança de Genebra. “Havia um certo fundamentalismo dentro do terror.”
Terreno fértil 
Há anos que as prisões europeias são terrenos férteis para radicais islamistas, particularmente em França e na Bélgica. Mas, recentemente, extremismo e criminalidade começaram a estar ainda mais interligados, e o comportamento ilegal dos recrutas prossegue mesmo depois de lhes ter sido mostrada “a luz” do Islão radical.
“Muitos viviam vidas de delinquentes, tiveram uma epifania e tornaram-se religiosos, mas as ligações à criminalidade não desaparecem”, diz Peter Neumann, especialista em radicalização no King’s College de Londres. “Vejo isto como um aspecto operacional do EI.”
Num exemplo da nova tendência, um tribunal em Colónia, Alemanha, está a julgar o caso de oito homens suspeitos de fazer assaltos a igrejas, escolas e empresas, entre Agosto de 2011 e Novembro de 2014, como forma de apoiar combatentes islamistas na Síria. Numa só igreja, roubaram alegadamente objectos religiosos no valor de dez mil euros. Não é ainda evidente qual o grupo que apoiavam, mas “todas as provas apontam para o Estado Islâmico”, diz o porta-voz do tribunal, Achim Hengstenberg.

Limitar a venda de armas nos EUA pode ser a última grande guerra de Obama


A reforma tem como objectivo tapar alguns buracos na lei actual JIM WATSON/AFP

À entrada para o último ano na Casa Branca, o Presidente norte-americano prepara-se para alterar a lei através de uma ordem executiva. Críticos dizem que isso não vai travar massacres em escolas ou cinemas.

Depois de várias derrotas em braços-de-ferro com o Congresso para mudar as leis de compra e posse de armas, o Presidente dos EUA, Barack Obama, começou o seu último ano na Casa Branca decidido a fazer alterações com a força da caneta presidencial. Na primeira mensagem de 2016, divulgada nesta sexta-feira, Obama indicou que vai usar o seu poder executivo para tornar mais difícil a venda de armas sem uma verificação dos antecedentes criminais e do perfil psicológico dos compradores.

Os advogados da Casa Branca estão a preparar há meses um decreto presidencial que não seja facilmente posto em causa nos tribunais devido à falta de consenso no Congresso – sem a aprovação dos legisladores da Câmara dos Representantes e do Senado, o Presidente não tem poderes suficientes para fazer reformas profundas que se apliquem a todos os estados, e por isso tem de acautelar que as suas ordens executivas sejam sólidas.

Esta exigência do sistema norte-americano é ainda mais sensível no caso do direito a ter armas – um dos assuntos que despertam mais paixões nos EUA, devido à interpretação da Segunda Emenda da Constituição, que protege o direito à posse de armas, e aos constantes tiroteios nas ruas e massacres em escolas e cinemas, que matam milhares de pessoas todos os anos.

Foi na sequência de um desses massacres, na escola de Sandy Hook, em Dezembro de 2012, quando o atirador Adam Lanza matou 20 crianças de seis e sete anos de idade e seis professores e outros funcionários, que se abriu um caminho de esperança para que o Congresso aprovasse algumas alterações às leis.

Mas, apenas cinco meses depois do choque inicial, os 55 representantes que então davam a maioria ao Partido Democrata no Senado não foram suficientes para fazerem passar uma proposta para reforçar as verificações de antecedentes de quem quer comprar uma arma, que exigia pelo menos 60 votos. Pior do que isso, quatro dos 55 senadores democratas votaram ao lado do Partido Republicano e deixaram o Presidente Obama ainda mais indignado, afirmando na altura que tinha sido "um dia vergonhoso para Washington" e que os senadores tinham "cedido à pressão" do lobby das armas e, em particular, da influente National Rifle Association (NRA).

Desde esse dia, a Casa Branca começou a pensar em formas de introduzir alterações à lei sem necessitar da aprovação do Congresso. Num primeiro momento, o vice-presidente, Joe Biden, foi posto a liderar essa iniciativa, mas os meses foram passando com propostas a menos e tiroteios a mais – seis mortos perto da Universidade da Califórnia; nove numa igreja em Charleston, na Carolina do Sul; cinco em bases militares em Chattanooga, no Tennessee; nove na universidade comunitária Umpqua, em Roseburg, Oregon; três numa clínica de saúde reprodutiva em Colorado Springs, no Colorado.

Tapar os "buraco legais"

À imagem da proposta que não passou no Senado em 2013, a ordem executiva que o Presidente Barack Obama se prepara para anunciar (o que deverá acontecer na próxima semana, depois de uma conversa final com a procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch, marcada para segunda-feira) pode ser considerada modesta vista a partir da Europa, mas qualquer vislumbre de mudança ateia nos EUA uma fogueira de paixões.

"Há três anos, uma proposta sensata e bipartidária exigia uma verificação de antecedentes para quase toda a gente que compra uma arma. Recordem-se que esta medida era apoiada por quase 90% do povo americano. Era apoiada pela maioria das famílias com sócios da NRA. Mas o lobby das armas mobilizou-se contra ela. E o Senado bloqueou-a", disse Obama na declaração desta sexta-feira.



Sem avançar pormenores sobre o que está em cima da mesa, as palavras do Presidente dos EUA indicam que o decreto vai centrar-se naquilo a que os americanos chamam o "buraco legal das exposições de armas".

Segundo a lei actual, apenas as empresas que estão "envolvidas no negócio" da venda de armas são obrigadas a certificar-se de que um comprador preenche todos os requisitos exigidos – como, por exemplo, não ter sido condenado a penas de prisão superiores a um ano; não estar a ser procurado pela polícia; ou não ter sido internado numa instituição de saúde mental. O que a Casa Branca pretende é alargar estas exigências a quase todas as transacções de armas, e que actualmente não se aplicam a quem vende armas numa exposição, a um familiar ou vizinho, ou em muitas outras situações que foram aparecendo para contornar a lei.

‘Bancada da bala’ desafia consenso sobre risco de liberar porte de arma

Enquanto grupo de deputados faz ofensiva para derrubar Estatuto do Desarmamento, produção acadêmica e ONU apontam relação entre quantidade de armas em circulação e incremento da violência


O soldado da Polícia Militar de São Paulo Anderson Silva Silva, de 32 anos, estava com amigos em um bar de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, quando três homens se aproximaram em duas motos e anunciaram o assalto. Silva reagiu, sacou sua pistola e foi baleado duas vezes. Chegou morto ao hospital. O triste caso do jovem, PM experiente e treinado no manejo de armas de fogo, é uma gota em oceano de casos semelhantes -—o site de buscas Google registra mais de 500.000 ocorrências para os termos “policial morre após reagir a assalto”. No entanto é precisamente isso que os deputados da bancada da bala, nome dado ao grupo de parlamentares ligados aos interesses dos fabricantes de armamentos, querem que o cidadão comum – sem experiência em combate– faça:reaja e atire de volta. Ou morra tentando.
Protesto contra projeto que relaxa estatuto do desarmamento.  Lucio Bernardo Junior / Câmara dos Deputados
Em outubro deste ano uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou um relatório que na prática acaba com o Estatuto do Desarmamento, que entre outras coisas proibia o porte de armas para pessoas que não agentes da lei. O relator da matéria, Laudivio Carvalho (PMDB-MG), defendeu o texto, afirmando que a mudança - que ainda precisa ser aprovada no plenário da Câmara e no Senado - vai evitar que a população seja “refém de delinquentes”. No entanto, não existe nenhum estudo científico ou especialista da área que estabeleça a relação entre aumento no número de armas e queda do número de assaltos. “Até policiais treinados morrem reagindo", afirmou Bruno Langeani, coordenador de do Instituto Sou da Paz.
Na verdade, a literatura acadêmica produzida no país aponta no sentido contrário: menos armas, menos mortes. O Mapa da Violência, estudo mais completo sobre mortes por arma de fogo no país, produzido pela Falculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), apontou que o Estatuto do Desarmamento foi responsável por salvar 160.000 vidas desde que foi sancionado pelo então presidente Lula em 2003. O diretor de de Estudos e Políticas do Estado do Instituto de Pesquisa Econômica Avançada (Ipea), Daniel Cerqueira, disse perante a comissão especial da Câmara que o Estatuto “foi uma das leis mais importantes nas últimas décadas no Brasil”. “Há uma relação de causalidade entre a redução do número de armas com a queda dos homicídios. Onde se tem uma maior difusão de armas de fogo, a taxa de homicídios aumenta em 1% ou 2%”, afirmou perante uma plateia de deputados desinteressados em seus argumentos científicos. Já o relatório da ONU Global Study on Homicide, afirma que "o grande número de homicídios nas Américas mostra que, dependendo do contexto, o acesso facilitado às armas pode ter um efeito significativo no número de mortes".
Além do Ipea, da Flacso e da ONU, a produção acadêmica que aponta para uma relação entre aumento na quantidade de armas em circulação com um incremento na violência conta com teses de mestrado e doutorado daUniversidade de São PauloFaculdade Getúlio Vargas e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Mas não são apenas acadêmicos que consideram o fim do estatuto ruim para a sociedade - policiais e secretários de Segurança Pública também engrossam o coro. José Mariano Beltrame, titular da pasta no Rio de Janeiro, e o coronel da PM Robson Rodrigues, chefe do Estado Maior Geral da PM do Rio, assinaram, ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e de mais de 70 pesquisadores de dezenas de universidades, carta aberta ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pedindo a manutenção da legislação atual. Em entrevista, Beltrame chegou a dizer que é preciso “desarmar as pessoas e não armá-las”, e afirmou que “se os parlamentares querem efetivamente ajudar, que canalizem esta energia, este esforço no sentido de ampliar as condições para que a segurança pública no país possa é melhorar”.
É preciso desarmar as pessoas e não armá-las
Nada disso sensibilizou a comissão, que votou pela flexibilização do estatuto. Em suas fileiras, o colegiado conta com 11 parlamentares que já receberam doações de empresas de armas - entre eles o presidente do órgão, Marcos Montes (PSD-MG), que teve a campanha financiada pela Forjas Taurus, uma das maiores empresas do ramo de armamentos do país, e pela Companhia Brasileira de Cartuchos, fabricante de munições.
O professor da Universidade de Harvard David Hemenway realizou entrevistas com 150 pesquisadores que trabalham com a questão da violência e do controle de armas nos Estados Unidos. Assim como no caso brasileiro, houve praticamente um consenso com relação ao perigo de se ter uma arma. Dos acadêmicos entrevistados, 64% concordam que uma pistola ou revólver em casa torna o local mais perigoso (apenas 5% pensam que o lar fica mais seguro). 72% dos entrevistados também acreditam que ter armas no domicílio aumenta o risco de uma mulher residente ser vítima de homicídio. “Há consenso de que as armas não são usadas para autodefesa com muito mais frequência do que são usadas para crimes (73% contra 8%), e que a mudança para leis mais permissivas de porte de arma não reduziu as taxas de crime (62% ante 9%)”, escreve Hemenway, que conclui dizendo que “há consenso de que leis rígidas de controle de armas de fogo reduzem os homicídios (71% vs. 12%)”.
Praticamente a única literatura acadêmica citada pelo autor do projeto de lei que quer acabar com o Estatuto, o deputado Peninha Mendonça (PMDB-MG), é um relatório intitulado Would Banning Firearms Reduce Murder and Suicide? (Banir armas de fogo reduz homicídios e suicídios, em tradução livre), dos professores Don B. Kates e Gary Mauser. O texto foi parcialmente financiado pela National Rifle Association, a maior entidade ligada aos fabricantes de armas do mundo, o que, na visão de estudiosos, compromete sua imparcialidade.
No Brasil também parece haver consenso com relação à questão. Resta saber se os parlamentares irão prestar atenção a ele.