sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os homens da luta


Tudo vai aquecer com a chegada a Portugal dos emigrantes lesados pelo papel comercial do BES. Conheça os organizadores da contestação e saiba o que preparam. Têm uma agenda cheia 
São de esquerda, de direita, do centro; do Benfica, do Sporting, do Porto; católicos, evangélicos e ateus; patrões, empregados e desempregados; querem partir tudo e não querem partir nada.
Só existe uma coisa a unir as 800 pessoas que se juntaram na Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC): investiram o seu dinheiro em papel comercial do Banco Espírito Santo e estão em risco de perder as "poupanças de uma vida", como lhe chamam.
Por isso os vemos, praticamente todas as semanas, na rua, a protestar ou a invadir agências bancárias do Novo Banco, com cartazes de aspeto amador, feitos em casa, e de megafone na mão. Dizem que não arredam pé enquanto não tiverem o seu dinheiro de volta. E preparam um verão quente, com o reforço dos emigrantes lesados que hão de vir.
Começa esta quinta-feira, 2, frente ao Novo Banco, em Lisboa, com nova manifestação. Continua no dia 10 de agosto, também em Lisboa, na Avenida da Liberdade, um protesto que está a ser preparado com cautela. "Os emigrantes não estão a libertar adrenalina semanalmente como nós. Além disso, são pessoas que foram obrigadas a sair do País para terem uma vida melhor, privaram-se muito mais do que nós, com dois ou três empregos... e agora onde estão as suas poupanças? ?O perigo é gigante", avisa Ricardo Ângelo, o presidente da AIEPC.
A seguir, vem a campanha eleitoral para as eleições legislativas, com a promessa de uma marcação cerrada à coligação de Governo. Para "desgosto" de alguns sociais-democratas da associação, mas que acabam por entender que valores mais altos se levantam... os do seu dinheiro. Assim, onde houver comício, haverá indignados. Certeza só têm uma: "A luta só acaba quando o dinheiro for devolvido a 100 por cento."
E quanto mais a situação se arrasta, mais lesados se juntam ao movimento, que ganhou nas ruas a sua grande notoriedade. Mas, afinal, como é que isto começou? E quem está por detrás destes protestos?
Promessas em papel molhado
Mesmo depois da queda do Banco Espírito Santo e da separação entre o "banco bom" e o "banco mau", os 2 508 clientes não institucionais, do retalho, que investiram no papel comercial estavam descansados da vida. Logo em agosto de 2014, os clientes que contactavam o Banco de Portugal sobre o assunto, recebiam como resposta que "a provisão que acautela o risco relacionado com o reembolso aos clientes do retalho do BES de papel comercial do GES [Grupo Espírito Santo] foi transferida para o Novo Banco. Compete ao Novo Banco decidir sobre o reembolso do papel comercial do GES".
Já no site do Novo Banco estava escrito que "o papel comercial emitido pela ESI [Espírito Santo International] e Rio Forte transitam para o Novo Banco, e este mantém a intenção de assegurar o reembolso, na maturidade, do capital investido pelos seus clientes não institucionais junto das redes comerciais do Grupo BES de então".
Até aí tudo bem. Mas, em janeiro deste ano, esta informação desapareceu do site do Novo Banco e Ricardo Ângelo, um médico dentista de 34 anos, ficou de pé atrás. Trocava impressões, com outros clientes do BES, no fórum do Jornal de Negócios Caldeirão de Bolsa, e combinaram uma primeira reunião num apartamento que Ricardo tem em Matosinhos. Mas, como se juntaram mais de 60 pessoas, acabaram por ir para um hotel.
Nesse encontro fundador, o dentista, residente em Viseu, foi nomeado presidente. E o grupo começou a sair à rua, conforme decorriam as audições sobre o BES no Parlamento. Ali ficou a saber-se que a provisão, de quase 700 milhões de euros, para reembolsar os clientes do papel comercial tinha ficado, afinal, no "banco mau", que está falido.
E Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, começou a mostrar-se irredutível na posição de não permitir que os lesados recebam o seu investimento. "Quando as pessoas assumem riscos, têm de perceber que o risco é inerente à aplicação financeira", disse há tempos no Parlamento.
O Banco de Portugal teme que, devolvendo o dinheiro aos clientes não institucionais, esteja a abrir um precedente jurídico, que leve os outros a exigir também o reembolso. Só a Portugal Telecom tem quase 900 milhões de euros em papel comercial da Rioforte. Para Carlos Costa, têm de ser as entidades emitentes (que estão em insolvência) a reembolsar os lesados.
Na rua ou no gabinete?
No total, há 2 508 lesados não institucionais do papel comercial, tendo investido, no seu conjunto, 550 milhões de euros. Destes, menos de 200 investiram mais de 500 mil euros e 60 aplicaram mais de um milhão de euros (entre eles o próprio Estado, que investiu seis milhões de euros em papel comercial através do Fundo de Apoio à Inovação, do Ministério do Ambiente).
A AIEPC (agora com uma direção, vice-presidentes, coordenadores regionais, assembleia-geral e conselho fiscal), representa cerca de 800 lesados, num total de €170 milhões de euros investidos. Apenas dois sócios da associação aplicaram mais de um milhão de euros, garante Ricardo Ângelo, mostrando que a esmagadora maioria "é gente que trabalhou toda uma vida para juntar 50 ou 100 mil euros e agora, sem o dinheiro, vive com pensões muito baixas". Mais de 70% dos sócios da AIEPC tem mais de 65 anos.
Curiosamente, no núcleo duro da associação, há poucos cabelos brancos. Alguns estão em representação dos pais e até dos avós. A função deste grupo de duas dezenas de homens e mulheres, que encontramos na tarde de um domingo de junho, num hotel em Coimbra, é a de manter a união e conduzir a luta.
O tema do dia são os avisos de Marques Mendes, na noite anterior, na SIC. Dizia este antigo presidente do PSD, que os "lesados deviam mudar a sua estratégia porque o Estado e as autoridades não negoceiam com quem está na rua".
O discurso duro dos manifestantes, frequentemente insultuoso e algumas vezes envolvendo ameaças de morte (sobretudo ao Novo Banco e ao Banco de Portugal) tem sido bastante criticado pela opinião pública.
Os excessos de linguagem estão agora entre as principais preocupações da AIEPC, numa altura em que a estratégia é a de iniciar uma fase de negociação. Mas não vai ser fácil. "Há fações que preferem ir para a rua partir tudo. E há fações que acham que temos rua a mais, que é preciso é conversar", explica um dirigente.
Sair deste fio da navalha implica longas horas ao telefone com os associados mais ativos. Rui Alves, 61 anos, um reformado de Matosinhos, tem a sua estatística pessoal: "Mês de maio: 240 chamadas do meu telefone; a mais curta durou um minuto e a mais longa 1h25m. Há pessoas que precisam de desabafar e eu faço um bocadinho de psicólogo também", conta. Rui tem como função angariar lesados na zona norte e levá-los para as manifestações.
As armas e o risco
Este núcleo duro emanou naturalmente do grupo de associados, conforme se iam conhecendo e se iam apercebendo das capacidades de cada um. O lisboeta João Salva, por exemplo, um engenheiro mecânico de 59 anos, é sempre ouvido com muito respeito, pelas suas opiniões sensatas. Está na associação desde a reunião fundadora e é considerado um estratega. É também o responsável pela logística da marcação das manifestações, fazendo a ponte com a polícia e com as autarquias.
Outro alfacinha, Nuno Lopes Pereira, de 44 anos, é diretor comercial numa empresa. Mas no encontro de Coimbra parece um economista experiente, desenhando cenários macroeconómicos para o futuro. "Não pensem que isto da Grécia não vai ter efeitos. Daqui a 5 anos, a inflação vai estar bem mais alta e as taxas de juro também", avisa, numa previsão necessária para a elaboração de uma proposta, a apresentar ao Novo Banco e ao Banco de Portugal, de forma a que os lesados possam reaver o seu dinheiro, com juros, daqui a 2, 5 ou 10 anos.
"Querem 100% do capital e juro a 0%; ou querem 60% do capital e juro alavancado?", exemplifica Nuno que, com meia dúzia de associados, prepara duas propostas diferentes para levar à assembleia-geral da AIEPC no próximo sábado, 4 de julho. Uma coisa está decidida: é urgente dar liquidez aos "velhotes que ficaram sem nada e têm uma reforma de 200 euros".
Há quem olhe para o exemplo do BPP (Banco Privado Português), em que os investidores tiveram um final satisfatório: até aos 250 mil euros, recuperaram o seu capital na totalidade; acima disso, contentaram-se em receber 80% do seu dinheiro. Uma solução destas, por nível de investimento, não está fora de questão.
Chegou a hora de negociar, decide o núcleo duro em Coimbra. Mas continuarão a fazer barulho na rua. Paralelamente às manifestações de rua e, agora, à elaboração de propostas para negociação, os lesados e indignados contrataram o advogado Luís Miguel Henrique, com experiência neste tipo de ações. Foi ele quem liderou um grupo de lesados do BPP.
Para já, a estratégia destes pequenos investidores reunidos na AIEPC passa por processar funcionários do antigo BES, como os gestores de conta, diretores, diretores regionais, administradores e todos os quadros superiores que transitaram do BES para o Novo Banco. Acusam-nos de "burla qualificada" e as queixas-crime já se contam em 300.
Tem havido problemas entre os lesados e os agora funcionários do Novo Banco. A comissão de trabalhadores da instituição acusa os primeiros de violência, à porta das instalações, falando em "vestes rasgadas, empurrões, insultos e demais ameaças".
Um fantasma a pairar
E Ricardo Salgado? Não é um alvo? Um dos dirigentes propõe, no encontro em Coimbra, que se vá a casa dele, fazer barulho à porta. "Isso é o que o Carlos Costa quer!", responde-lhe outro. De facto, Ricardo Salgado já não é um número nesta equação - nada tem para oferecer aos lesados, nada pode fazer para lhes resolver o problema.
Assim, as atenções focam-se em Carlos Costa, Pedro Passos Coelho, Eduardo Stock da Cunha (presidente do Novo Banco) e até nos donos que se seguem - o "banco bom" que saiu do BES está em processo de venda. O Banco de Portugal recebeu três propostas vinculativas para a compra da instituição bancária.
A todos, associação já enviou cartas a avisar que não vai baixar os braços. A sua grande preocupação é separar o trigo do joio. Insiste que os seus associados estavam inscritos no BES como tendo um perfil conservador, ou seja, que apenas colocavam o dinheiro em depósitos a prazo, recusando os produtos de risco, e que confiaram cegamente no que os seus gestores de conta recomendavam. O papel comercial das empresas do Grupo Espírito Santo (a Rioforte, a ESI ou a Espírito Santo Property) era vendido como sendo um "produto do banco, uma espécie de depósito a prazo que pagava juros melhores".
E por isso há quem perca a cabeça, na dificuldade de lidar com o sentimento de ter sido enganado. Ricardo Ângelo já recebeu um telefonema de um lesado a dizer que estava a sair de casa, com uma caçadeira, para ir matar o gestor de conta.
Estes desesperos, de gente que já não tem muito mais a perder, são geridos com "pinças". A associação proíbe mesmo alguns associados de participar nas manifestações, uns por razões médicas, outros porque já tentaram ir armados... "Tem sido difícil dissuadir atitudes imponderadas", desabafa Ricardo Ângelo, que se estreia no associativismo logo com o papel principal. Fala a língua do pobre e do rico, do jovem e do idoso e tem os ouvidos de todos.
Muitos deles estão a ir a manifestações pela primeira vez na vida. A associação, que cobra uma joia de 50 euros no ato da inscrição, gasta dinheiro apenas no aluguer de autocarros. Tudo o resto é trabalho voluntário e luta. Com um só objetivo: chegar àquele dinheiro, muitas vezes suado, que continua a aparecer nos seus extratos bancários, mas ao qual não têm acesso. E que parece cada vez mais inalcançável.
Números
  • 2 508 - Número de lesados do papel comercial
  • 8 mil - Número de lesados entre os emigrantes com papel comercial e outros produtos complexos como o Poupança Plus, Euro Aforro, Top Renda e EG Premium
  • €550 milhões - Investimento total dos lesados (com exceção das grandes empresas e fundos de investimento)
  • 60 - Número de lesados que investiu mais de 1 milhão de euros
  • 800 - Os sócios da Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial
A caixa de Pandora
Para os lesados do papel comercial, o grande mau da fita é Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal. E quase todo o discurso mais violento que se ouve nas manifestações é dirigido a ele. No Parlamento, Carlos Costa foi explicando a sua posição.
"É óbvio que me custa muito que alguém vá para a porta da minha casa chamar-me gatuno. Foi a pior coisa que me chamaram em toda a vida", disse, garantindo que há casos de pessoas enganadas que o "emocionaram". No entanto... "Se se abre uma caixa de Pandora, isto não tem limites, porque ninguém sabe qual o valor do papel comercial que anda por aí fora.
Vão ser os contribuintes a salvar a família Espírito Santo?", perguntou. Curiosamente, corre o rumor de que a própria família Espírito Santo estará a vender o seu papel comercial ao "preço da chuva". "Isso mesmo foi-nos dito numa reunião com o Banco de Portugal [BdP]", afirma Ricardo Ângelo, presidente da associação dos indignados. Mas o BdP desmente. "O Banco de Portugal não poderia ter transmitido essa informação porque não a tem", garante fonte oficial. A posição atual do Banco de Portugal é clara: apurar, de entre os 2 508 lesados, os que foram de facto enganados.
Esses serão credores diretos do BES, passarão à frente dos outros credores, e serão ressarcidos. Os outros - clientes do papel comercial cientes do produto de risco em que investiam - poderão tentar a sua sorte na justiça e, ao mesmo tempo, aguardar pela proposta comercial que o Novo Banco tarda em apresentar. Uma proposta que pode significar a perda de uma grande percentagem do dinheiro e a recuperação do restante num longo espaço de tempo.
A única condição que o BdP coloca é que essa proposta não tenha implicações negativas no rácio de capital e "seja geradora de valor para o banco". Ora, isso é contraditório com a reivindicação dos lesados de recuperarem a totalidade do investimento. O atual impasse nesta situação deve-se em muito ao conflito que existe entre o BdP e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, uma vez que a CMVM tem outro entendimento.
Para a instituição liderada por Carlos Tavares, a responsabilidade pelo reembolso transitou para o Novo Banco, ou seja, os lesados são credores do Novo Banco e não do falido BES. Por cima de tudo isto está o Banco Central Europeu. Numa carta enviada esta semana à associação dos indignados, o BCE coloca a batata quente nas mãos das "autoridades portuguesas", descartando qualquer papel no processo de resolução do BES. No entanto, há tempos, o próprio BCE enviou um email ao Banco de Portugal, alertando para o facto de ser necessário ter conhecimento de uma eventual solução para o papel comercial, uma vez que está por afetar o rácio de capital do Novo Banco. 


Ler mais: http://visao.sapo.pt/os-homens-da-luta=f825131#ixzz3fUdh8WfO

Ex-presidente do BCE adverte para riscos de 'Grexit'


Jean-Claude Trichet adverte que credores da Grécia terão que renunciar à quase totalidade dos pagamentos de empréstimos no caso de saída do país da zona do euro
Os credores da Grécia terão que renunciar à quase totalidade dos pagamentos de empréstimos no caso de saída do país da zona do euro e subestimam o "risco geopolítico" de um "Grexit", advertiu o ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Jean-Claude Trichet.
Um "Grexit" custaria caro para a Europa, considera Trichet em um artigo publicado no jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Não apenas para os gregos, forçados a viver em uma "convulsão terrível e dolorosa", mas também para os credores que "teriam que renunciar à quase totalidade dos reembolsos", alertou.
"A redução da dívida (grega) por parte dos europeus está descartada nas negociações com Atenas", destacou.
O governo grego entregou na quinta-feira à noite uma última lista de reformas a Bruxelas. A Alemanha descarta qualquer redução da dívida grega, mas deixou a porta aberta par um eventual "reescalonamento".
"Se subestima o risco de um contágio na Europa, em particular na Alemanha", adverte Trichet.
Para o ex-presidente do BCE, "a Europa tem uma responsabilidade histórica de ancorar os países que integravam o grupo comunista".
No caso de saída de Atenas da zona do euro é necessário ter em mente "a proximidade cultural dos gregos com a Ucrânia e a Rússia graças ao vínculo da religião ortodoxa", completou.
Desde que chegou ao poder, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras demonstrou sua proximidade com o presidente russo Vladimir Putin, sobretudo nos momentos críticos das negociações entre Atenas e seus credores. Moscou afirma que Atenas não solicitou ajuda financeira.

E-mails mostram poder da Odebrecht na Petrobras Mensagens têm indícios de acesso a informações sigilosas da estatal POR CLEIDE CARVALHO, GERMANO OLIVEIRA E RENATO ONOFRE 10/07/2015 6:00 / ATUALIZADO 10/07/2015 7:15 Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/e-mails-mostram-poder-da-odebrecht-na-petrobras-16721730#ixzz3fUPtGYAP © 1996 - 2015.



SÃO PAULO E RIO — A íntegra de um relatório da Polícia Federal, anexado esta semana a um dos inquéritos da Operação Lava-Jato que investigam a Construtora Norberto Odebrecht, comprova declarações de delatores de que a maior empreiteira do país tinha acesso a informações privilegiadas da Petrobras e o poder de influenciar licitações da estatal. É o que mostra o objeto principal do relatório: uma série de e-mails trocados entre diretores da empreiteira com relatos sobre encontros com dirigentes da estatal para tratar de concorrências e contratos.
Em pelo menos duas mensagens de 2007, recuperadas pela Polícia Federal, Rogério Araújo, então diretor da Odebrecht Plantas Industriais e que hoje é um dos presos da Lava-Jato, traça uma estratégia para a participação da empreiteira na licitação para as obras de terraplanagem da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, a partir de informações que teria obtido de “interlocutores” na estatal sobre o “orçamento interno” do projeto. O GLOBO cruzou o conteúdo das mensagens com a cronologia da contratação do serviço: naquele momento, o “orçamento interno” era uma informação confidencial da Petrobras. A obtenção desse dado permite às concorrentes fraudar a competição.

No dia 22 de junho, a Petrobras recebeu cinco propostas. A menor foi justamente a do consórcio liderado pela Odebrecht (com Camargo Corrêa, Galvão Engenharia e Queiroz Galvão, todas investigadas na Lava-Jato), de R$ 433,5 milhões. O preço ficou bem próximo ao intervalo de preços estimado pela Petrobras, observa a PF. Segundo documento da diretoria da Petrobras, que aprovou a contratação do consórcio em 12 de julho de 2007, o valor ficou apenas 5,32% abaixo do que o diretor da Odebrecht chamava de “orçamento interno” da estatal. Depois de uma nova negociação, o desconto aumentou para 6,27%. Araújo, ao que parece, logrou êxito. De fato, o valor estimado pela estatal para o projeto, revelado quatro dias depois da troca de mensagens na Odebrecht, foi maior do que o dobro dos R$ 180 milhões citados pelo diretor da empreiteira como uma cifra “que obviamente não dá”.A concorrência para as obras de terraplanagem do terreno onde foi instalada a refinaria foi aprovada pela diretoria da Petrobras no dia 3 de maio de 2007, de acordo com documentos internos da estatal obtidos pelo GLOBO. No dia 10 de maio, a companhia convidou dez participantes. Pouco mais de um mês depois, no dia 18 de junho, Araújo enviou um e-mail para outros dois executivos da empreiteira relatando saber que o orçamento interno da Petrobras ficaria entre R$ 150 milhões e R$ 180 milhões. Segundo a reprodução das mensagens no relatório da PF, ele diz ter falado com “interlocutores” e avisa que “Engenharia” já trabalhava na revisão do orçamento, como queria a Odebrecht. “A revisão do orçamento vai indicar um novo número, acima dos indicados acima”, antecipa. No texto, ele ainda registra que o valor só seria tornado público com a abertura das propostas dos concorrentes, que aconteceria quatro dias depois.
“TEATRO” PARA LULA

O fácil acesso a informações da Petrobras fica claro em um outro e-mail de Araújo, sobre uma cerimônia simbólica do início do contrato no terreno onde seria construída a refinaria, em Pernambuco, com a presença do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Araújo explica que a assinatura do contrato se daria no Rio, mas que seria preciso criar um cenário de obra em andamento para Lula, em meio a tratores e máquinas. “Vai haver uma solenidade no Recife, no dia 16 de agosto, para dar início aos serviços de terraplenagem, com a presença do presidente Lula. Neste dia, teremos que ter alguns equipamentos já mobilizados, para fazer parte do ‘teatro’!”
A cena montada pela Odebrecht ainda atrasou 19 dias. Só no dia 4 de setembro, o então presidente Lula discursou sob intensa chuva no palanque montado pela construtora ao lado do então presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. Animado pelo gigantismo da refinaria, Lula comparou o empreendimento à construção da Muralha da China. “Temos uma verdadeira muralha da China para construir e vamos construir”, prometeu. A Refinaria Abreu e Lima só iniciou operação em 2014 e custou pelo menos sete vezes o valor orçado inicialmente pela estatal. Laudo da PF sobre o contrato de terraplanagem detectou um sobrepreço de R$ 106,1 milhões no contrato de compactação de aterro. Só o custo do metro cúbico compactado de solo pulou de R$ 2,70 para R$ 6,37 sem justificativa plausível.
O relatório da PF tem outras trocas de mensagens com indícios de que a influência da Odebrecht alcançava até negócios da Petrobras no exterior. Em um e-mail de 2008, Araújo cita a intervenção do então diretor Internacional da Petrobras Jorge Zelada (preso na semana passada) e de Ricardo Abi-Ramia, que foi gerente executivo de Desenvolvimento de Negócios da área Internacional para falar com Hércules Ferreira da Silva, ex-gerente da Petrobras Angola. No fim daquele ano, a empreiteira foi contratada para fazer o acesso à refinaria Sonaref, na cidade de Lobito, em Angola. (Colaboraram Alexandre Rodrigues e Danielle Nogueira)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Microsoft cortará vagas de trabalho no Brasil Plano é para demitir 7,8 mil funcionários do Windows Phone no mundo todo. Com 2,4 mil postos no Brasil, empresa não revela tamanho do corte no país.

Depois de anunciar que demitirá 7,8 mil funcionários, a Microsoft informou nesta quarta-feira (8) que sua força de trabalho no Brasil será afetada pelos cortes.
As demissões fazem parte de uma reestruturação na unidade do Windows Phone da companhia. As demissões afetarão especialmente as atividades assumidas com a compra da fabricante finlandesa de telefones Nokia, concluída no ano passado.
Ao ser questionada pelo G1, a empresa não informou qual será o tamanho do corte de postos no Brasil. A Microsoft não revela quantos brasileiros são empregados na área de Windows Phone, mas informa possuir 2,4 mil trabalhadores no país.
A empresa vai reservar uma quantia entre US$ 750 milhões e US$ 850 milhões para arcar com os desligamentos em todo o mundo.Os smartphones da Microsoft vendidos no Brasil são produzidos tanto nacionalmente, pela fábrica na Zona Franca de Manaus, quando importados, vindos de vários países.
"Nós estamos mudando de uma estratégia de crescer em um negócio apenas de telefone para uma estratégia de crescer e criar um vibrante ecossistema Windows", afirmou o presidente-executivo da Microsoft, Satya Nadella, em um comunicado.
A empresa lançará em 29 de julho o Windows 10, novo sistema operacional que rodará não só em computadores mas também em smartphones e tablets. Antes dessa unificação, os celulares inteligentes da empresa rodavam um sistema específico.

Airbag “explosivo” leva Honda a recolher 4,5 milhões de carros

Defeito pode levar o mecanismo a explodir, projectando estilhaços metálicos na direcção do condutor e do passageiro. Em Portugal, a marca vai chamar cerca de quatro mil carros.
A Honda anunciou esta quinta-feira que vai chamar às oficinas 4,5 milhões de veículos devido a defeitos no sistema de airbag da empresa Takata, instalado em carros que o fabricante japonês comercializou em todo o mundo.
A decisão eleva para 24,5 milhões o total de veículos que a empresa já chamou à revisão, depois de os airbags defeituosos terem estado ligados à morte de oito pessoas.
O defeito pode levar o mecanismo a explodir, projectando estilhaços metálicos na direcção do condutor e do passageiro.
"Tal como outros fabricantes, estamos a investigar os veículos no mercado relacionados com esta questão e descobrimos que alguns airbags têm uma densidade de gás desequilibrada, que receamos que possa causar dano", afirmou o porta-voz da Honda.
"É uma medida preventiva e, ao contrário de outras chamadas às oficinas, não vamos aguardar pelos resultados finais da investigação", acrescentou.

Quatro mil em Portugal
Honda vai chamar às oficinas cerca de quatro mil carros em Portugal, inserido na campanha mundial de 4,5 milhões de veículos devido a defeitos no sistema de airbag, que já afectou marcas como a Toyota, Mazda e Nissan.

Fonte oficial da marca japonesa em Portugal confirmou que este "é o quinto recall feito pela Honda após a descoberta do defeito do fornecedor de airbags Takata", acrescentando que este tipo de acções "deve ser valorizado porque demonstra a preocupação da marca para com os seus clientes".

Para a mesma fonte esta chamada às oficinas "é apenas uma medida de prevenção" e que vai afectar cerca de 140 mil veículos em toda a Europa.

A Takata tem estado sob fogo por causa desta crise, uma vez que enfrenta acções judiciais e os reguladores acusam a empresa japonesa de saber do problema e ter escondido os perigos.

Lucro e receitas da PepsiCo superam estimativas

(Reuters) - A PepsiCo (PEP.N: Cotações) teve lucro e vendas melhores que o esperado no trimestre e elevou sua previsão de lucro ajustado para o ano enquanto preços mais elevados ajudaram a impulsionar o crescimento das receitas em seu negócio de bebidas pela segunda vez em quase quatro anos.
A PepsiCo, como outras fabricantes de refrigerantes, tem sofrido com a queda das vendas nos Estados Unidos, com consumidores migrando para produtos mais saudáveis que usam ingresidentes naturais.
No entanto, as receitas do negócio de bebidas da companhia nas Américas, sua maior unidade, subiram 1 por cento, para 5,34 bilhões de dólares nos segundo trimestre, enquanto a estratégia de elevação de preços para ofuscar o impacto do dólar forte tem dado resultado.
O volume de vendas orgânicas na região também subiu 1 por cento, disse a companhia.
A companhia elevou sua previsão de crescimento do lucro ajustado de 2015 para 8 por cento em bases cambiais constantes, ou cerca de 5 dólares por ação, ante 7 por cento.
O lucro líquido atribuído à PepsiCo subiu marginalmente para 1,98 bilhão de dólares, ou 1,33 dólar por ação, no segundo trimestre finalizado em 13 de junho, ante 1,98 bilhão de dólares, ou 1,29 dólar por ação, um ano antes.
(Por Sruthi Ramakrishnan em Bangalore)

JOSÉ DE SOUZA MARTINS | AUTOR DO LIVRO 'LINCHAMENTOS - A JUSTIÇA POPULAR NO BRASIL' “Brasil tem um linchamento por dia, não é nada excepcional” Homem morto por vizinhos no Maranhão escancara a rotina da violência no Brasil E se ela fosse culpada?

Cleidenilson da Silva morreu linchado no Maranhão. / BINÉ MORAIS (AGÊNCIA O GLOBO )
A cena de mais um linchamento pinçou de novo estômagos e consciências em boa parte do Brasil. Nesta segunda-feira, Cleidenilson da Silva, de 29 anos, morreu de joelhos. Ele foi espancado até a morte por um grupo de moradores após um assalto frustrado a um bar no Jardim São Cristóvão, um bairro pobre de São Luís, no Maranhão. Amarrado pelo pescoço e pelo abdômen com uma corda a um poste, seu corpo desnudo foi exposto e fotografado frente a uma multidão curiosa, vizinhos dos que o mataram. Mãos e dedos impressos em sangue tingiram a cena, mas o episódio é mais um no Estado, mais um no Brasil. “Brasil tem um linchamento por dia, não é nada excepcional nesta rotina de violência, este caso não tem nada de diferente do resto, o não ser essa imagem que choca”, explica o sociólogo José de Souza Martins, alguém que não se surpreende mais diante a brutalidade. 
Souza Martins investiga há 20 anos os linchamentos no Brasil. O primeiro episódio do qual se tem registro aconteceu em 1585, em Salvador, quando um índio cristianizado que se achava Papa foi linchado até a morte por algo que, provavelmente, ofendeu os fiéis. O último (que conhecemos) foi Cleidenilson da Silva. 430 anos separam um do outro. A pesquisa de De Souza, baseada em 2.028 casos de linchamento, materializou-se no livro Linchamentos - A justiça popular no Brasil (Contexto, 2015). De Souza fala para EL PAÍS sobre o sentimento de que a melhor justiça é feita com as próprias mãos e que torna Brasil campeão da crueldade. "Nos últimos 60 anos, um milhão de brasileiros participaram de linchamentos", afirma no livro. Enquanto a entrevista telefônica acontecia, o diário maranhense O Estado trocava a manchete de seu site: “População tenta linchar assaltante em São Luís dois dias depois de barbárie que chocou o país”.
Pergunta. O que você pensou ao ver o novo linchamento acontecido no Maranhão?
Resposta. É mais um linchamento. Brasil tem uma media de um linchamento por dia, não é nada excepcional nesta rotina de violência, este caso não tem nada diferente do resto ao não ser a imagem, que choca outras pessoas. A atenção publica é atraída mais pelas imagens, que pelo fato de ter virado rotina.
R. Não existe uma avaliação do efeito que produz assistir a essas imagens, mas é de se presumir que o efeito é de reproduzir essa prática, porque o modelo se repete. Trata-se do mesmo tipo de espetáculo, o poste... Muitos elementos são reproduzidos, a divulgação acaba estimulando a repetição das ocorrências.P. Que efeito causa a divulgação de casos de linchamentos?
P. Que significado tem, no cenário cruel de um linchamento, atar a vítima a um poste?
R. Não tem nenhum. Os linchamentos se desenvolvem em formatos muito variados, amarrar à vítima num portão ou num poste é porque esse elemento era parte do cenário onde se motivou o linchamento. É algo causal, mas justamente é o poste que motiva o interessa a audiência, mas a população não sabe o que é pelourinho.
P. O senhor constatou que o preconceito racial não motiva os linchamentos no Brasil, mas aumenta o índice de crueldade. Por que com os negros os linchamentos são mais brutais? O que se vê de diferente no linchamentos de um negro?
R. O que eu constatei é que a cor da pele não é a primeira motivação para linchar alguém. Nos primeiros dez minutos o padrão se repete e não há nenhuma diferença. Independentemente de a vítima ser branca ou negra, você vê pedradas, pauladas, pontapés. A diferença se manifesta no decorrer do ato, de forma muito mais sutil do modo como o racismo é concebido no Brasil. Ele se torna mais violento. Se o linchado for negro, a probabilidade de aparecerem outros componentes mais violentos como mutilação, furar olhos ou queimar viva a vítima, aumenta.
P. Há precedentes de punição dos autores de linchamentos?
R. Há casos de abertura de processo, de julgamento, mas é muito difícil identificar os autores. No caso da mulher do Guarujá[linchada em maio de 2014 após um bulo nas redes se espalhar], eram 1.000 pessoas. Identificaram meia dúzia e abriram processo contra elas. Em geral, a polícia abre processos por violência ou assassinato, tenta identificar pessoas, vai pegar dois ou três, vai abrir processo, mas se forem a julgamento os advogados podem invocar o Código Penal brasileiro e pedir a atenuação da pena por crime coletivo e, provavelmente, não vai acontecer nada.
P. Brasil é o país onde mais se lincha? O que fazer para reduzir estes episódios?
R. Os linchamentos se repetem em muitos países, mas a frequência no Brasil é muito maior. Nós temos uma media de um linchamento por dia. Tudo tende a se resolver com o linchamento. Nos EUA, o país que mais linchou no mundo, foi a resposta da sociedade civil que parou a prática. No Brasil o que está acontecendo é que as pessoas acabam ligando a polícia. Em 90% dos casos de linchamento no país, a polícia salvou a vítima.
P. Como explica que a grande maioria dos comentários das notícias sobre linchamentos sejam favoráveis à justiça popular aplicada com violência?
R. As redes sociais não são representativas de nada. O que conta nos casos dos linchamento é o fato de uma pessoa ligar para a polícia, não precisam ser dez pessoas, só uma, e isso acontece em um número muito alto de ocasiões.
P. O que explica que estes episódios continuem acontecendo no Brasil?
R. Pelo mesmo motivo que se repetem no Moçambique, no México,na Argentina, na Guatemala... As instituições não funcionam. A Justiça é morosa, é cara, é complicada, é lenta. Você não vai discutir a legalidade do linchamento em um grupo que viu uma criança estuprada por um adulto. Ninguém vai esperar um processo porque já está convencida de quem cometeu o crime. A instituição judiciária no Brasil sempre foi um luxo para quem pode pagar um advogado, para quem conhece as regras. Nós temos duas sociedades, uma que segue as regras do estabelecido e outra que não as segue porque não concorda com elas.