quarta-feira, 24 de junho de 2015

Em encíclica, Papa exige novo modelo de desenvolvimento Documento papal "Laudato Si" fou publicado mundialmente hoje

Em encíclica, Papa exige novo modelo de desenvolvimento (foto: ANSA)
Em encíclica, Papa exige novo modelo de desenvolvimento (foto: ANSA) CIDADE DO VATICANOZBF
(ANSA) - A encíclica sobre ecologia do papa Francisco, publicada nesta quinta-feira (18), faz um duplo apelo para que as comunidades e lideranças políticas protejam a Terra, controlando as mudanças climáticas, e substituam o modelo de desenvolvimento atual por um sustentável e integral.
O documento, considerado a obra mais importante de um líder da Igreja Católica, foi mundialmente apresentado hoje e leva o título de "Laudato Si" ("Louvado Seja"). Ao longo das cerca de 190 páginas da encíclica, Jorge Mario Bergoglio afirma que a população mundial foi obrigada a "pagar a todo custo" o resgate dos bancos durante a mais recente crise financeira e econômica.
"Hoje não devemos fazer os povos pagarem a qualquer o preço custo do crescimento. Devemos diminuir o passo e apontar para um estilo de vida conciliável com a defesa integral do ambiente", escreveu.
Segundo ele, o "mercado cria um mecanismo compulsivo para promover os seus produtos", mas este não pode ser o "paradigma" de vida da humanidade. Francisco também criticou que os apelos por mudanças partam majoritariamente da imprensa e de cientistas que, na verdade, "discursam de casa" e não vivem a realidade dos mais afetados. "Profissionais, comentaristas, meios de comunicação e centros de poder estão distantes das áreas interessadas, sem contato direto com seus problemas", observou.
"A aproximação ecológica deve ser social". De acordo com o Papa, caso o problema do desabastecimento e da fome não sejam resolvidos, "a exaustão de alguns recursos cria um cenário favorável para novas guerras, as quais, por sua vez, provocam graves danos ao ambiente e à riqueza cultural dos povos. Os riscos se tornam enormes se considerarmos as armas nucleares e biológicas existentes na atualidade".
Em uma coletiva de imprensa no Vaticano, o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, contou que a encíclica foi preparada com contribuições de bispos do mundo todo, através de trocas de e-mails com o Papa.
"É um documento com relevância eclesial, preparado de maneira nova. Há um mês, aproveitando dos modernos meios de comunicação, o Papa 'promulgou' a encíclica junto com bispos do mundo todo, através de e-mails", disse Lombardi. (ANSA) http://www.papafrancesconewsapp.com/por/
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Hollande, Sarkozy e Chirac foram alvos da NSA, diz WikiLeaks Líderes franceses tiveram suas conversas grampeadas por 6 anos

Hollande, Sarkozy e Chirac foram alvos da NSA, diz WikiLeaks (foto: EPA)
Hollande, Sarkozy e Chirac foram alvos da NSA, diz WikiLeaks (foto: EPA)
24 JUNHO, 08:19SÃO PAULOZBF
(ANSA) - Em mais uma revelação de segredos de Estado norte-americano, o WikiLeaks informou que a Agência de Segurança Nacional (NSA) grampeou telefones do atual e dos ex-presidentes franceses François Hollande, Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac. A espionagem teria ocorrido entre os anos de 2006 e 2012.
De acordo com o WikiLeaks, ministros e outros funcionários de alto escalão do governo francês também tiveram suas conversas telefônicas interceptadas por mais de seis anos. A organização teve acesso a documentos com resumos de ligações grampeadas sobre a crise financeira de 2008, a dívida grega, a liderança da União Europeia, as nomeações de Chirac para as Nações Unidas e a relação de Sarkozy com o conflito entre Israel e Palestina.
Segundo os documentos, Sarkozy estava disposto a reiniciar conversas de paz entre israelenses e palestinos sem o consentimento do então mandatário norte-americano, George W.Bush.
Em uma nota, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, que está refugiado na embaixada do Equador em Londres sob risco de extradição, disse que "os franceses têm o direito de saber que seus governantes eleitos estão sujeitos à vigilância hostil de um suposto aliado".
Logo após as revelações, Hollande convocou uma reunião do conselho de Defesa da França, já que os EUA são considerados um dos principais parceiros do país. (ANSA)
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Cristiano Araújo sofre acidente de carro e tem quadro grave, em GO Cantor foi transferido de Morrinhos para o Hospital de Urgências de Goiânia. Empresário diz que namorada do sertanejo morreu no capotamento.

O cantor Cristiano Araújo, de 29 anos, sofreu um acidente de carro na madrugada desta quarta-feira (24) na BR-153, no km 614, entre Morrinhos e o trevo de Pontalina, em Goiás. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o cantor voltava de um show em Itumbiara, no sul do estado, quando veículo em que ele estava, um Range Rover, saiu da pista e capotou. Empresário do cantor, Antônio Pereira dos Santos confirmou que a namorada de Cristiano, identificada como Allana Moraes, estava com ele e morreu no local.

Já o sertanejo foi socorrido em estado grave e levado ao Hospital Municipal de Morrinhos, onde o recebeu os primeiros atendimentos. Em seguida, foi transferido em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Móvel para o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo).

Cristiano Araújo postou foto com a namorada antes se seguir para Itumbiara, Goiás (Foto: Reprodução/Instagram)"Ele teve um trauma na parte traseira do crânio, mas não sei se ele está consciente. Me passaram que o estado dele é grave, porém estável", afirmou o empresário do cantor ao G1.

Ainda segundo Santos, o corpo de Allana foi levado ao Instituto Médico Legal (IML) de Morrinhos. "Familiares dela foram até o local para fazer a liberação", destacou.

Além do sertanejo e da namorada, outras duas pessoas seguiam no veículo. Segundo os bombeiros, elas tiveram ferimentos leves e foram levadas ao hospital em Morrinhos. Logo depois, elas também foram encaminhadas a um hospital na capital.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que as causas do acidente ainda são apuradas. “Fizemos um levantamento no veículo, que é do ano de 2015, e ele estava em perfeitas condições. A suspeita inicial é que o motorista tenha dormido ao volante, mas tudo isso ainda é devidamente apurado”, afirmou o inspetor Newton Moraes.

Segundo o empresário, o cantor costumava viajar com um motorista particular para que "pudesse dormir após o show" e não precisasse dirigir. Ele ressaltou, ainda, que o condutor "é experiente e acostumado a guiar de madrugada".

Shows
Na última terça-feira (23), o cantor publicou em sua página no Instagram uma mensagem dizendo que estava partindo da Bahia, ao lado na namorada, com destino a Itumbiara. Após o acidente, muitos fãs comentaram na imagem sobre o ocorrido e mandam mensagens de solidariedade ao cantor.

O próximo show de Cristiano Araújo estava marcadado para acontecer na noite desta quarta-feira em Caruaru, em Pernambuco.
Cristiano Araújo postou foto com a namorada antes se seguir para Itumbiara (Foto: Reprodução/Instagram)
Capotamento aconteceu na BR-153, entre Goiatuba e Morrinhos, em Goiás (Foto: Divulgação/PRF)Capotamento aconteceu na BR-153, entre Goiatuba e Morrinhos, em Goiás (Foto: Divulgação/PRF)
Bombeiros dizem que cantor e outras três pessoas estavam no carro; mulher morreu. (Foto: Divulgação/PRF)Bombeiros dizem que cantor e outras três pessoas estavam no carro; mulher morreu. (Foto: Divulgação/PRF)
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Lula não é investigado da Lava Jato neste momento, diz procurador do MPF



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não faz parte das investigações da Lava Jato neste momento, disse à Reuters nesta terça-feira o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, do Ministério Público Federal (MPF).
 Foto: Rodolfo Buhrer / Reuters
Procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, do Ministério Público Federal (MPF), concede entrevista à Reuters, em Curitiba, nesta terça-feira. 23/06/2015
Foto: Rodolfo Buhrer / Reuters
"Neste momento, o ex-presidente não faz parte da investigação", disse Santos Lima, que integra a força-tarefa da investigação do escândalo bilionário de corrupção envolvendo a Petrobras, funcionários da estatal, executivos de empreiteira, políticos e partidos.
"O que nós temos até agora (sobre Lula) são só notícias da imprensa", disse.
"O fato é que se encontramos elementos, investigaremos (Lula) como qualquer outro", afirmou o procurador, ao ser indagado sobre o fato de o ex-presidente não ter mais foro privilegiado.
A prisão do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, na última sexta-feira, gerou especulações na imprensa de que a Lava Jato estaria mais perto de alcançar Lula, devido à proximidade do ex-presidente com o influente empresário à frente do maior grupo de construção e engenharia da América Latina.
O presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques Azevedo, também foi detido na sexta-feira.
Em uma longa entrevista, Santos Lima disse que a operação Lava Jato ainda deve levar ao menos mais dois anos para ser concluída e que "há muita coisa para denunciar ainda".
As investigações já extrapolaram a Petrobras e, segundo o procurador, apontam para corrupção nos contratos de grandes empreendimentos no setor elétrico, como as usinas de Belo Monte e de Angra 3, ambas com participação da estatal Eletrobras.
Lima disse que não tem dúvida de que a Odebrecht e a rival Andrade Gutierrez lideraram um "cartel" que superfaturou projetos da Petrobras e repassou o excesso a executivos e políticos.
Os procuradores acusaram executivos de corrupção e lavagem de dinheiro, mas não por formar um cartel que, segundo eles, começou há 10 ou 12 anos.
A Odebrecht nega ter participado de um cartel e considerou as prisões ilegais.
Santos Lima também afirmou que os advogados da Odebrecht e de outros executivos presos na sexta-feira não deram qualquer sinal de interesse em fazer acordos, o que tem sido um fator-chave na condução da investigação até agora.
"Se alguém de dentro da Odebrecht resolver fazer colaboração, quem sabe a gente tem uma informação a respeito dessa parte política também", disse.
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Conselho de Estado da Itália decide suspender extradição de Pizzolato Conselho pediu mais documentos e determinou suspensão até setembro. Justiça suspendeu extradição no dia 12 de junho, após pedido da defesa.

O Conselho de Estado da Itália, última instância da justiça administrativa do país europeu, anunciou nesta quarta-feira (24) que decidiu suspender a extradição do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado no processo do mensalão do PT a 12 anos e 7 meses de prisão. O Conselho de Estado pediu ao Ministério da Justiça italiano que forneça mais documentos e vai continuar analisando o pedido da defesa, de que ele cumpra a pena na Itália. A suspensão vale até dia 22 de setembro.Enquanto isso, Pizzolato continua preso na Penitenciária de Modena.
Em 2012, Pizzolato foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro. No ano seguinte, antes de ser expedido o mandado de prisão, ele fugiu para a Itália. Pizzolato tem cidadania brasileira e italiana.
No último dia 12 de junho, a Justiça da Itália suspendeu o envio do ex-dirigente do banco público ao Brasil, após acolher recurso da defesa que questiona as condições do presídio onde o executivo condenando no julgamento do mensalão do PT ficará se for extraditado.
O principal argumento da defesa de Pizzolato é que a ala do presídio da Papuda, em Brasília, na qual as autoridades brasileiras dizem que ele ficará preso, é "vulnerável". Nos julgamentos na Itália sobre a extradição, o Brasil argumentava que essa ala da Papuda tem condições de preservar os direitos do preso.
Declarado foragido em 2014, ele foi encontrado e preso pela Interpol em Maranello, município do norte da Itália. Após Pizzolato ser detido, o governo brasileiro pediu sua extradição à Justiça italiana.

A solicitação do Brasil foi negada na primeira instância pela Corte de Apelação de Bolonha, mas a Procuradoria-Geral da República recorreu e a Corte de Cassação de Roma decidiu, em fevereiro deste ano, conceder a extradição. Em 24 de abril, o governo da Itália autorizou que ele fosse enviado ao Brasil para cumprir a pena do mensalão.
O tratado de extradição, que foi suspenso no dia 12 de junho, prevê que a Itália deverá informar ao Brasil o lugar e a data a partir da qual a entrega do ex-diretor poderá ser realizada. A norma também permite que o Brasil envie à Itália, com prévia concordância, agentes devidamente autorizados para conduzirem Pizzolato de volta, segundo informou a PGR.
O tempo de pena que o ex-diretor cumpriu na Itália – quase 11 meses – pode ser descontado da pena total de 12 anos e 7 meses.

Com Lei de Drogas, presos por tráfico passam de 31 mil para 138 mil no país Tráfico é crime que mais encarcera; aumento foi de 339% desde lei de 2006. Para especialistas, aplicação é falha e teve efeito perverso sobre usuários.

T. é atendida pela Defensoria Pública do Dipo, departamento que concentra os flagrantes na capital paulista. O irmão, preso por tráfico, teve a prisão em flagrante convertida em preventiva. Ela acabou perdendo a audiência de custódia, que ocorria enquanto (Foto: Rosanne D'Agostino/G1)T. é irmã de um jovem de 18 anos preso por tráfico na capital paulista. Ela diz que o irmão é usuário, nunca foi traficante, mas ele teve a prisão em flagrante convertida em preventiva (sem prazo). Ela tenta reverter essa decisão com a ajuda da Defensoria Pública, pois não pode pagar um advogado. (Foto: Rosanne D'Agostino/G1)
L. foi preso em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, a caminho de um churrasco com sete amigos. Levava 25g de maconha dentro de uma sacola. O grupo alegou que carregava a droga para uso próprio. Foram presos em flagrante por tráfico de entorpecentes. "Injustiça, porque só usava maconha. Não tinha contato com o crime. E se ficasse mais dias por lá [preso], não dá para saber o que ia acontecer. Muita gente ruim", disse ao G1(Leia a íntegra do relato)
Processos mostram usuários presos como traficantes (Foto: Arte/G1)
M. foi presa em 2012 com 1 grama de maconha. Foi condenada por tráfico a uma pena de 6 anos e nove meses de prisão e pagamento de 680 dias-multa. A decisão foi mantida em segunda instância. Em março, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou seu habeas corpus. Ela só foi solta em abril, após mais de três anos de cárcere, por decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
G1 listou alguns desses casos (veja na tabela)que refletem os milhares de processos semelhantes que têm chegado aos tribunais desde a entrada em vigor da Lei de Drogas, em 2006.
A aplicação falha da lei é apontada como a causa da superlotação dos presídios na última década.Presos por tráfico de drogas já superam os de todos outros crimes no país, segundo dados do Ministério da Justiça.
Um desses processos está no STF e deve ser julgado ainda este ano. O caso é o de um presidiário de Diadema (SP) condenado como usuário de maconha, que quer derrubar essa decisão.
Em razão da grande quantidade de processos parecidos, o STF reconheceu a repercussão geral. A decisão adotada deverá ser a mesma em todos os demais. Se aceito o recurso, na prática, o porte de drogas para consumo próprio deixa de ser crime no Brasil.
Crescimento vertiginoso
Em 2006, quando a Lei 11.343 começou a valer, eram 31.520 presos por tráfico nos presídios brasileiros. Em junho de 2013, esse número passou para 138.366, um aumento de 339%. Nesse mesmo período, só um outro crime aumentou mais dentro das cadeias: tráfico internacional de entorpecentes (446,3%).
Nesta terça (23), o Ministério da Justiça divulgoudados de 2014 sobre o sistema carcerário brasileiro, mas nem todos os estados informaram a estatística sobre os crimes cometidos. O levantamento mostra, no entanto, que proporção dos presos por tráfico se manteve também no ano passado. Eram 25% do total entre os homens e 63% entre as mulheres.
Só em São Paulo, posse e tráfico de drogas motivaram 25,27% das prisões de incluídos no sistema prisional entre 15 de abril e 14 de maio deste ano. Foram 837 novos presos de um total de 3.311 no período de um mês, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Outros 10,72% (355 presos) entraram por outros crimes praticados em função do vício em substância tóxica.
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Número de presos por tráfico aumentou muito mais do que os de outros crimes nas prisões brasileiras (Foto: Arte/G1)
Usuário x traficante
Pela lei, para definir se o preso é um usuário de drogas ou um traficante, o juiz levará em conta a quantidade apreendida, o local, condições em que se desenvolveu a ação, circunstâncias sociais e pessoais, além da existência ou não de antecedentes. Essa mesma interpretação é feita pelo policial, quando prende, e pelo promotor, quando denuncia.
O porte para consumo próprio é crime, mas as penas são advertência, prestação de serviços à comunidade ou medida educativa. O sujeito é detido, assina um termo circunstanciado, e é liberado para responder em liberdade.
A pena para o tráfico vai de 5 a 15 anos. Na lei anterior, ia de 3 a 15 anos. O sujeito é preso em flagrante, que pode ser convertido em uma prisão preventiva (sem prazo). E o juiz não podia conceder liberdade provisória até 2012, quando o STF derrubou essa regra.
A mudança na lei em 2006 tinha o objetivo de abrandar o tratamento penal dado ao usuário, mas, na prática, acabou havendo um efeito reverso, e perverso, segundo especialistas.
Processos recebidos às centenas pelas Defensorias Públicas, o órgão de defesa de quem não tem condições para pagar por um advogado, mostram casos em que apreensões de pouca quantidade de drogas se reverteram em penas de mais de 5 anos.
Tráfico de drogas nos estados (Foto: Arte/G1)
Em muitos casos, o preso alegou ser usuário, mas foi enquadrado como traficante sem provas. Aquele que vende para sustentar o vício, por sua vez, se vê diante de uma pena mínima de 5 anos que, se é diminuída, chega no patamar de 1 ano e 8 meses em regime de reclusão.
“O resultado prático é que pessoas pobres são presas como traficantes e os ricos acabam sendo classificados como usuários. Um sistema assim não é bom para ninguém”, afirmou ao G1o ex-secretário nacional de Justiça Pedro Abramovay, que foi demitido do governo Dilma Rousseff após defender publicamente a extinção de penas para pequenos traficantes.
Para ele, “as prisões por drogas hoje são uma fonte perversa de criminalização da pobreza”. “A política criminal brasileira nos últimos anos reforçou a lógica do ‘pega ladrão’. A grande maioria dos presos está lá porque foi preso em flagrante, sem investigação prévia”, complementa.
Maria Tereza Uille Gomes, que presidiu o Conselho Nacional de Secretários de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Administração Penitenciária (Consej), aponta uma “lacuna” a ser preenchida na lei. “Falta um critério de regulamentação, requisitos objetivos. Não tem como saber se tal quantidade de drogas é muito ou é pouco. A polícia não tem um critério de quem é usuário, quem é traficante”, avalia.
Segundo ela, o Conselho Nacional de Políticas Sobre Drogas (Conad) poderia fazer essa regulamentação. “A prisão acaba funcionando como um substitutivo da ausência de políticas públicas de internação, facilitando a inserção em organizações criminosas. Essas pessoas que não têm periculosidade se misturam com latrocidas, homicidas, e, quando saem, acabam se transformando em traficantes”, afirma.

Para Eugênio Coutinho Ricas, secretário de Justiça do Espírito Santo, um dos poucos estados que conseguiu reverter um histórico de guerra entre facções em seus presídios, o controle passa por investimento em segurança e ressocialização dos presos. “Ele precisa ter um trabalho, condições de estudar, para que saia um ser humano melhor, que não vai voltar ao tráfico e outro tipo de crime”, diz.
A droga nos presídios

A grande proporção de presos por tráfico se reflete na presença de drogas dentro das penitenciárias. No Maranhão, onde está a Penitenciária de Pedrinhas, palco de uma guerra interna de facções de traficantes que culminou em dezenas de decapitações, o número de presos por tráfico mais que dobrou em seis anos. O novo panorama dentro das prisões é apontado como uma das causas de aumento das rebeliões, o que fez com que alguns estados adotassem medidas de controle interno para contê-las.
“Às vezes, um pequeno tráfico, dependendo da legislação que o país tivesse, poderia ser considerado como uso. Esse é o crime que aparece com maior número de presos aqui no estado”, complementa.
Em Fortaleza, a população carcerária do presídio feminino dobrou devido ao aumento vertiginoso de presas por tráfico, em proporção que chega ao triplo da dos homens. Atualmente, são 719 presas para 374 vagas no Instituto Penal Feminino Auri Moura Costa. "Era um presídio modelo, dava para trabalhar a ressocialização. Por conta dessa questão do tráfico, está superlotado", relata a promotora de Justiça Camila Gomes Barbosa, titular da 3ª Promotoria de Execuções Penais e presidente do Conselho Penitenciário do Ceará.
Epidemia de flagrantes
Na capital paulista, a Defensoria Pública do Dipo (Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária), que concentra os flagrantes da cidade, recebe diariamente familiares dos presos em busca de informações e auxílio sobre essas prisões.
Ligaram falando que ele tinha sido enquadrado. Não falaram quanto de droga. Ele é usuário de maconha. Eu já vi, já briguei. Ele chorou, pediu desculpas para mim e para minha mãe."
T., irmã de jovem de 18 anos preso por tráfico em SP
T. é irmã de um jovem de 18 anos preso na terça-feira (16) por tráfico em Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade. "Ligaram falando que ele tinha sido enquadrado. Não falaram quanto de droga. Ele é usuário de maconha. Eu já vi, já briguei", disse ela no Fórum Criminal da Barra Funda, onde aguardava notícias do irmão. "Ele chorou, pediu desculpas para mim e para minha mãe", relata.
O irmão teve a prisão em flagrante convertida em preventiva em razão da gravidade do crime de tráfico. "Ele andava com um pessoal, usuário. Mas com traficante ele nunca andou não. É que ali no bairro, tem muito. Mas a gente sabe quem são", diz a irmã.
Ao lado, M., 22, tem uma história parecida. O marido foi preso em 2013 por tráfico, junto com seu irmão, em Sapopemba, Zona Leste. "Eles estavam sentados, comendo. A polícia chegou, encontrou cocaína e maconha. Já enquadraram por tráfico. O policial falou que meu marido era patrão [traficante]. Acho que é porque ele era alemão, tinha olho azul. Ele ficou seis meses esperando a audiência", conta.
Segundo M., o marido trabalhava em uma obra do monotrilho. Começaram a namorar quando ela tinha 15. Aos 16, engravidou. O marido foi condenado. Ficou preso 1 ano e 8 meses, sem direito a progressão de regime. "Até venceu a pena", afirma.
M. também foi presa no último dia 28 e responde em liberdade pelo crime de suborno. "Tinha um amigo nosso metido com tráfico, que falou que precisava de um dinheiro urgente. Mas a gente não sabia que era para tráfico. Levantamos e fomos ajudar. Quando chegamos, a polícia prendeu", diz ela, que ficou no CDP de Franco da Rocha. "Meu Deus. Aquilo mais parece uma cracolândia", diz ela, comparando o presídio feminino à região onde se consome crack na capital paulista.
Pouca droga, muita pena
Um estudo da Defensoria Pública de São Paulo tentou mostrar um retrato de como se realizam as prisões de traficantes no estado. “Os dados são de 2010, mas acredito que estejam bem atuais, porque a política é a mesma”, explica a autora Gorete Marques, do Núcleo de Estudos de Violência da USP. Veja a seguir os principais resultados:
Estudo do NEV mostra panorama das prisões por tráfico em flagrante na cidade de SP (Foto: Arte/G1)
O que o STF pode decidir
Hoje o usuário é um criminoso, mesmo não estando sujeito à prisão. Essa conduta está no artigo 28 da Lei de Drogas. Se o STF julgar esse artigo inconstitucional, o porte de drogas para uso próprio deixa de ser crime. O relator é o ministro Gilmar Mendes.
O que diz o art. 28
- Quem adquirirguardar, tiver em depósitotransportar ou trouxerconsigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
§ 1o  Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeiacultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.
O caso julgado é o de um presidiário que cumpria penas que somavam mais de dez anos de prisão no CDP de Diadema e foi solto em janeiro deste ano. A polícia encontrou 3 gramas de maconha em um marmitex em sua cela. O preso foi condenado como usuário de drogas à prestação de serviços à comunidade, mas sua defesa não se conformou. O recurso defende que ninguém pode ser punido por ser usuário, pois o que se faz na vida privada não afeta terceiros.
“A maioria dos casos é assim. Quantidade muito baixa, sempre em locais pobres, pessoas jovens, geralmente primárias. Daria para fixar a pena de 1 ano a 8 meses. A gente está enxugando gelo”, diz o defensor público Leandro de Castro Gomes, que apresentou o recurso extraordinário do preso ao STF.
Na verdade, essa decisão tem um caráter simbólico, para mostrar que a gente precisa repensar a política pública em relação as drogas"
Leandro de Castro Gomes, autor do recurso extraordinário no STF
Os ministros do Supremo devem responder à seguinte questão: o usuário de drogas afeta terceiros com sua conduta? Se sim, deve ser punido, em nome da saúde pública. É o argumento dos que acreditam que o usuário alimenta o tráfico. Se não, sua vida privada não deve ser invadida pelo estado, portanto, usar drogas não é crime.
Segundo o defensor, uma decisão do STF não significa a liberação das drogas. "Se o STF entender que é inconstitucional, o tráfico continua sendo crime", explica. "O que pode acontecer são alguns efeitos reflexos. A rigor, uma pessoa poderia fazer um pequeno cultivo para o seu próprio uso. Mas vai haver uma insegurança jurídica. Porque sempre vai ficar na valoração de um policial, porque a lei não tem critérios objetivos. Então se eu tiver uma hortinha, o PM pode entender que é para o tráfico", avalia.
"Na verdade, essa decisão tem um caráter simbólico, para mostrar que a gente precisa repensar a política pública em relação as drogas", complementa Gomes. "Países como os EUA, onde se iniciou esse proibicionismo, já estão tendo essa modificação."
O STF já forçou mudanças na Lei de Drogas. A liberdade provisória a presos por tráfico só foi permitida em 2012, quando a Corte, por maioria de votos, derrubou um dispositivo da lei que impedia a concessão. “A regra é a liberdade e a privação da liberdade é a exceção à regra”, disse o então ministro Ayres Britto.
O crime continua sendo inafiançável e insuscetível de sursis, graça, indulto e anistia, o que se aplica tanto ao usuário preso como ao traficante.
Critérios objetivos
A preocupação com o superencarceramento fez com que autoridades se reunissem na sede da Faculdade de Direito da USP, em São Paulo, na semana passada. O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), órgãos do Ministério da Justiça, coletaram as opiniões de membros do Judiciário, Ministério Público, polícia, administração penitenciária e saúde.
O conselho concluiu que a Lei de Drogas não cumpriu seu papel, lotando os presídios brasileiros em razão dos critérios subjetivos de distinção entre o usuário e os pequenos traficantes, e deve editar uma resolução que defina esses critérios.
“Essa distinção hoje é feita sem qualquer critério com um sem número de injustiças”, frisou Vitore André Zilio Maximiniano, secretário nacional de Política sobre Drogas. “O aumento elevadíssimo do número de presos tem impactado nas políticas públicas.”
Não adianta fazer um limite irrisório que não diga a realidade das ruas."
Cristiano Maronna, vice-presidente do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais)
Para o presidente do CNPCP, Luiz Antonio Silva Bressane, “algo precisa efetivamente ser feito”. “O CNPCP vai trabalhar para trazer essa regulamentação, oferecer um instrumento de interpretação normativo”, disse.
Uma das propostas que deve fazer parte da resolução é a de que o artigo 33 da Lei de Drogas, aquele que define o crime de tráfico, seja interpretado conforme a Constituição Federal. Assim, para condenar um traficante, seria necessária a comprovação de que sua conduta tinha intenção de lucro. Não bastaria mais a simples presença da droga no flagrante.
Já a quantidade limite de droga apreendida não teve consenso e ainda deve ser objeto de estudo. “Não adianta fazer um limite irrisório que não diga a realidade das ruas", defendeu Cristiano Maronna, vice-presidente do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), que faz parte da Plataforma Brasileira de Política Contra as Drogas, união de 18 entidades que pedem mudanças na política de drogas no país.
Isso é muito mais profundo. Temos que fortalecer a autonomia de cada instituição. O usuário que coloca uma faca no seu pescoço para conseguir dinheiro para comprar droga merece ser preso? Não subestimemos a violência do tráfico."
Alexandre de Moraes, secretário de Segurança Pública de SP
Para Renato de Vitto, diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), “hoje quem faz a gestão da política penal é a Polícia Militar”. “A PM decide na hora, muitas vezes num juízo preconceituoso, quem vai preso. Não vou demonizar a PM, mas isso mostra que o sistema deve ser melhorado. Há uma aplicação disfuncional da lei”, defendeu.
A promotora Camila Gomes destacou que falta estrutura para investigação. "No interior [do Ceará], é difícil de pegar o traficante porque eles se espalham. A gente pega aquela pessoa com pouca droga, porque eles são organizados, não guardam tudo em um lugar só", afirma.
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, rebateu o argumento e afirmou que a ligação entre o tráfico de drogas e o tráfico de armas tornou o mercado mais violento. “Segurança pública não se faz só com polícia. No caso do tráfico, há a necessidade de uma definição da Justiça. Em várias condutas são feitos termos circunstanciados, mas há casos em que ainda há dúvidas. Nossas fronteiras são um queijo suíço. Nos últimos dois dias, foram apreendidos 4,5t de drogas”, destacou.
No interior [do Ceará], é difícil de pegar o traficante porque eles se espalham. A gente pega aquela pessoa com pouca droga, porque eles são organizados, não guardam tudo em um lugar só"
Camila Gomes Barbosa, promotora de Justiça em Fortaleza
“Isso não pode ser uma discussão maniqueísta. Tente arrumar uma testemunha contra um traficante. Primeiro para ver se ela vem. Depois para ver quanto tempo ela dura. O traficante mata, coloca terror onde mora, mexe com a mulher dos outros e mata o marido. A polícia é 100%? A culpa é da polícia que prende? 91% dos presos foram condenados. Então, estão errados o promotor que denunciou, o juiz que condenou e os três desembargadores que mantiveram a condenação? Podem estar todos errados? Pode. Agora, isso é muito mais profundo. Temos que fortalecer a autonomia de cada instituição. O usuário que coloca uma faca no seu pescoço para conseguir dinheiro para comprar droga merece ser preso? Não subestimemos a violência do tráfico”, disse.
Enquanto isso, algumas iniciativas tentam diminuir distorções. No Tribunal de Justiça de São Paulo, teve início o projeto da audiência de custódia, parceria com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Agora, o preso em flagrante é apresentado ao juiz em 24 horas. Segundo o presidente do TJ-SP, José Renato Nalini, a intenção não é desafogar o sistema prisional, mas esta pode ser uma consequência.
"Não que ela vá resolver, porque nós temos uma cultura da prisão enfatizada, de enxergar a prisão como única resposta à delinquência, porém, a tendência a longo prazo será mostrar que a liberdade deverá ser preservada, que grande parte desses presos não deveria entrar no sistema prisional", completa. "Já está impactando, porque nós percebemos que praticamente metade das prisões em flagrante não são convertidas em prisão preventiva. Mas a cultura jurídica é centenária. A gente precisa é convencer a sociedade. Estamos tentando."

terça-feira, 23 de junho de 2015

Medicina USP rejeitou Enem para priorizar Fuvest e Inclusp, diz diretor 'O Enem é avaliatório, a Fuvest é seletiva', disse o diretor da FMUSP. USP aprovou a adesão parcial do exame nesta terça-feira.

Universidade de São Paulo (USP) aprovou, na tarde desta terça-feira (23), a adesão parcial ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do Ministério da Educação. A Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), no entanto, já havia rejeitado a adoção do Sisu como forma de ingresso.
O diretor da Faculdade de Medicina da USP, José Otávio Costa Auler Júnior (Foto: Cauê Fabiano/G1)O diretor da Faculdade de Medicina da USP, José
Otávio Costa Auler Júnior (Foto: Cauê Fabiano/G1)
Em entrevista ao G1, o diretor da FMUSP, José Octávio Costa Auler Júnior, disse que a decisão foi tomada por vários motivos, incluindo diferenças entre o Enem e a Fuvest e a opção pela inclusão com base no bônus do Programa Inclusp, que já existe na universidade.
"As provas são diferentes. O Enem é avaliatório, a Fuvest é seletiva. A Fuvest tem 40 anos, nunca deu problema", disse ele. "E o Inclusp precisa ser completado ainda, o próprio Inclusp ainda não foi avaliado. A inclusão está avançando, está aumentando cada vez mais. Quanto mais se inclui, mais você tem o problema da permanência, precisa ser bem visto isso, senão você começa a ter o problema da evasão", continuou.
Questionado se a inclusão de um número pequeno de vagas da medicina no Sisu garantiria que apenas fossem aprovados os estudantes com as maiores notas no Enem, Auler disse que a entrada de pessoas de fora vai aumentar o problema da permanência. "Aí vai entrar aluno de fora, e eu já tenho o maior problema de permanência para resolver. Tem que melhorar o Inclusp."
USP adota o Enem
Segundo a proposta aprovada na reunião do Conselho Universitário, classificada como "histórica" pelo reitor da USP, Marco Antonio Zago, a instituição decidiu que 1.499 das 11.057 vagas do vestibular 2016 serão preenchidas por meio da nota do Enem 2015. A adesão é considerada "experimental" pela universidade.

O valor representa 13,5% do total de vagas nos cursos de graduação da USP, mas a decisão de aderir ou não ao Sisu é feita em cada unidade. A Faculdade de Medicina da Capital, por exemplo, se recusou a aderir ao Enem. Já a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto terá 10% das vagas selecionadas pelo Sisu e 90% pela Fuvest.