quarta-feira, 25 de maio de 2016

Temer planeja liberar venda de lotes de terra a estrangeiros



Em 2010, governo Dilma proibiu negócios com medo que o domínio chinês atingesse a agropecuária
POLÍTICA NEGÓCIOSHÁ 30 MINSPOR NOTÍCIAS AO MINUTO
O governo do presidente interino Michel Temer deseja rever o parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) de 2010 que suspendeu a possibilidade de estrangeiros comprarem terras no Brasil. De acordo com O Globo, a equipe de Dilma argumentou na época que queria “assegurar a soberania nacional em área estratégica da economia e o desenvolvimento”.
O governo Dilma proibiu os négocios pois temia que empresas de outros países, principalmente chinesas, adquirissem grandes lotes de terra no país para assegurar a oferta de alimentos para seus cidadãos, eventualmente comprometendo o abastecimento dos próprios brasileiros. No entanto, uma fonte próxima ao atual governo considera que a norma é “absolutamente despropositada”.
A reportagem explica que a limitação da compra de terras por estrangeiros foi consequência de um parecer da AGU, com nova interpretação sobre a Lei 5.709 de 1971. A norma estabeleceu um controle mais rígido sobre a venda de terras agrícolas de grande porte e colocou o então Ministério do Desenvolvimento Agrário como responsável por aprovar esses negócios.
Em 2010, o governo alegou que os chineses haviam adquirido grandes lotes de terras na África para assegurar o abastecimento de grãos, e muitos dos países daquele continente perderam autonomia e controle sobre a produção agropecuária.
"A África é diferente. Aqui, nós temos legislação, bancos, política agrária, tradição no setor mais do que centenária. Tem regras de comércio que protegem a gente ", disse uma fonte próxima a Temer.
A publicação ainda destaca que o atual governo considera que a retomada da venda de terras para estrangeiros poderá aumentar a atratividade de investimentos estrangeiros em concessões de logística no país, uma vez que os chineses, entre outros, poderiam ter acesso a uma cadeia agrícola integrada: da posse da terra até o processo de escoamento dos produtos.
Em nota, a AGU disse que “até o momento, não ocorreu qualquer alteração ou pedido de revisão da legislação referente à matéria”. O jornal refere que a definição tem base em um parecer da AGU e, portanto, poderia ser alterada sem necessidade de consulta ao Congresso.

Após proposta de extinção de fundo, ação do BB cai mais de 5%


Governo interino anunciou extinção do Fundo Soberano do Brasil (FSB), que conta atualmente com R$ 2 bilhões de patrimônio

Por: Estadão Conteúdo
24/05/2016 - 20h36min | Atualizada em 24/05/2016 - 21h19min


O presidente interino, Michel Temer, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anunciaram um pacote com três medidas para conter o déficit público. Entre elas, a única com efeito direto foi o anúncio da extinção do Fundo Soberano do Brasil (FSB), que conta atualmente com R$ 2 bilhões de patrimônio. O fundo foi criado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva como destino para os recursos do pré-sal. A medida depende apenas do Executivo para ser colocada em prática, sem necessidade de aval do Congresso.
O anúncio acertou em cheio as ações do Banco do Brasil, que operavam em alta e passaram para a coluna das maiores quedas do Ibovespa. Isso porque os papéis do banco representam 96,8% do patrimônio do Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização (FFIE), fundo privado que compõe o FSB e do qual a União é cotista única. Na carteira do fundo estavam 105.024.600 papéis do BB em abril. Em um movimento de antecipação de uma possível venda dos papéis, Banco do Brasil ON fechou em queda de 5,39% e liderou as baixas do Ibovespa.
O mercado acionário brasileiro teve um dia de cautela diante das incertezas do cenário político e fechou praticamente estável nesta terça-feira, 24, depois de alternar altas e baixas ao longo da sessão. O Índice Bovespa fechou aos 49.345,18 pontos, com ganho de 0,03%. Foi a primeira alta em oito pregões e a segunda desde que Michel Temer assumiu a Presidência da República, no último dia 12. O volume de negócios totalizou R$ 5,19 bilhões, montante bem inferior à média de maio (R$ 7,024 bilhões) e um indicativo de que o investidor está em compasso de espera.
Pela manhã, o Índice Bovespa chegou a subir 1,36% (aos 50.002 pontos), sustentado pelo bom humor no cenário internacional e pela expectativa positiva da divulgação das primeiras medidas econômicas do governo Temer. Após o anúncio do pacote, as ações perderam fôlego e passaram a refletir um sentimento mais cauteloso em relação à capacidade do governo de vencer os próximos desafios. Causou certo mal-estar o imbróglio envolvendo a votação do Projeto de Lei que muda a meta fiscal, considerando o déficit fiscal de R$ 170,5 bilhões para 2016. A matéria não foi votada na Comissão Mista de Orçamento (CMO), o que levou a oposição a questionar a validade da votação em plenário.

Congresso reduz meta fiscal e autoriza déficit de até R$ 170,5 bilhões

25/05/2016 03h56 - Atualizado em 25/05/2016 09h57

Votação teve início após mais de 16 horas de sessão para análise de vetos.
Se confirmado esse déficit ao final do ano, será o pior resultado desde 1997.

Fernanda CalgaroDo G1, em Brasília


Congresso Nacional aprovou na madrugada desta quarta-feira (25), em sessão conjunta de deputados e senadores, o projeto de lei que reduz a meta fiscal de 2016 e autoriza o governo federal a fechar o ano com um déficit (despesas maiores do que receitas) de até R$ 170,5 bilhões nas contas públicas. Se confirmado esse déficit ao final do ano, será o pior resultado da série histórica iniciada em 1997. A aprovação foi por votação simbólica (sem a contagem de votos no painel eletrônico) após mais de 16 horas de sessão.

A aprovação da meta era considerada essencial pela equipe econômica do governo do presidente em exercício Michel Temer porque, sem essa permissão para fechar o ano com déficit, várias despesas teriam que ser cortadas, o que afetaria investimentos e programas sociais.

 
Segundo a equipe econômica, a meta de até R$ 170,5 bilhões é um "teto". O objetivo é que o rombo fiscal seja menor do que este valor neste ano. Inicialmente, o governo da presidente afastada, Dilma Rousseff, havia pedido uma revisão da meta fiscal, para autorizar déficit de R$ 96 bilhões. Na última sexta (20), a equipe econômica do presidente em exercício, Michel Temer, apresentou projeto revendo esse valor para R$ 170,5 bilhões.

Se o Legislativo não aprovasse a mudança na meta, o governo teria que cumprir a meta já aprovada para o ano com previsão de superávit de R$ 24 bilhões. Na prática, em meio a momento de crise econômica e com cenário de menor arrecadação, isso pode paralisar a máquina pública.

A votação da meta fiscal teve início após mais de 13 horas de sessão em que foram analisados vetos presidenciais. Os parlamentares precisavam votar antes os vetos para conseguir liberar a pauta e dar início à análise do projeto de lei da meta.
O PT liderou uma articulação em plenário com partidos contrários ao processo de impeachment de Dilma Rousseff, como PCdoB e PDT, para tentar arrastar a sessão e impedir a votação da meta em protesto ao governo de Michel Temer.
Eles haviam planejado colocar em ação o chamado “kit obstrução”, jargão legislativo para o uso de uma série de requerimentos para tentar impedir a votação, como pedido para inverter a pauta e para adiar a votação.
Renan Calheiros, porém, conseguiu barrar a apresentação de requerimentos de uma só vez. Ele invocou um artigo do Regimento Interno da Câmara que prevê que quando houver muitos requerimentos para inverter a pauta e o presidente entender que o objetivo é “tumultuar a ordem dos trabalhos”.
O conjunto dos requerimentos foi submetido a uma consulta do plenário. Formado por uma maioria aliada de Temer, o requerimento foi rejeitado e, sob protesto de petistas, Renan anunciou que nenhum outro requerimento poderia ser apresentado.
Para agilizar ainda mais a sessão, que avançava que pela madrugada, Renan encurtou o tempo de fala na fase de debates que antecede a orientação de bancadas. Em vez dos 20 minutos que o regimento da Câmara prevê, Renan argumentou que havia um entendimento no Congresso que o tempo para discutir matérias econômicas era de cinco minutos.
Petistas e outros aliados de Dilma protestaram com veemência. “Não é justo, não é correto e não é regimental”, reagiu a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM).
Diante da insistência dela para que pudesse falar além dos cinco minutos, Renan disse que iria conceder apenas mais um minuto extra. A senadora se revoltou e houve tumulto no plenário. Ela permaneceu ainda um tempo na tribuna mesmo com o microfone desligado.
O deputado Silvio Costa (PTdoB-PE), ex-vice-líder do governo Dilma, fez um discurso cheio de críticas à meta deficitária e alfinetou o senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-ministro do Planejamento, que acompanhava a sessão no plenário.
Em seguida, Jucá respondeu aos ataques e disse que se tratava de um projeto realista, diferente do “equívoco” e “engodo” que acontecia no governo Dilma, em que a meta precisava ser revista no final do ano. Ele se defendeu ainda da conversa gravada com o ex-presidente da TranspetroSérgio Machado em que propõe um “pacto” para barrar as investigações da Lava Jato.
Ele citou o episódio em que o então ministro da Educação Aloizio Mercadante foi flagrado conversando com um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral oferecendo ajuda política e financeira em troca do seu silêncio.
Jucá disse que as duas situações eram diferentes porque, ao contrário de Mercadante, que, segundo, ele, se “escondeu atrás de Dilma” e continuou no ministério, o peemedebista pediu licença, embora não tivesse cometido “nenhuma irregularidade”.
Medidas
Nesta terça-feira (24), o governo federal anunciou uma série de medidas para tentar conter o avanço dos gastos públicos e retomar o crescimento da economia brasileira. O primeiro pacote da nova equipe econômica prevê a devolução de pelo menos R$ 100 bilhões em dívida que o BNDES deve ao Tesouro Nacional, além de propostas de limitação dos gastos públicos e de extinção do fundo soberano para abate do endividamento.

Adiado aporte milionário de verba para tratar câncer na rede pública


Michael Melo/Metrópoles

Distritais deixam para a semana que vem a votação de um projeto de lei que autoriza o remanejamento de emendas parlamentares. Cinco deles se comprometeram a destinar R$ 28 milhões para a área de oncologia — R$ 2 milhões a menos do que o anunciado na segunda (23)



O aporte de recursos para o setor de oncologia da saúde pública do Distrito Federal por meio de emendas parlamentares vai ter que esperar. Por falta de acordo de líderes, ficou para a próxima terça-feira (31/5) a votação, na Câmara Legislativa, do Projeto de Lei n° 1.110/2016 que, entre outras medidas, abre a possibilidade de alterar a lei orçamentária. Com essa prerrogativa, os distritais podem remanejar as emendas parlamentares a que tem direito.


Dessa forma, um grupo de cinco distritais acertou com o GDF que cada um deles destinaria R$ 5 milhões para serem investidos no tratamento de tumores, num total de R$ 30 milhões — a contrapartida do Buriti foi se comprometer a liberar os recursos. Nesta terça (24), um dia após o acordo ser firmado, o deputado Wasny de Roure (PT) disse que só poderá destinar R$ 3 milhões, reduzindo o valor global para R$ 28 milhões.
Na reunião da Comissão de Economia, Orçamento e Finanças (Ceof) realizada na manhã desta terça (24), o acordo inicial era de inclusão do PL 1.110/2016 na pauta. No entanto, na reunião de líderes, a orientação mudou, o que irritou parte dos distritais que se comprometeram a destinar as emendas para a saúde.
“Ao não votar esse projeto hoje, vamos colocar muita gente na fila para que talvez elas saiam direto para o cemitério. É uma questão de consciência, de amor ao próximo, de Justiça. Faço um apelo para votar”, afirmou a deputada Luzia de Paula (PSB), integrante da comissão de Saúde, que foi até o Palácio do Buriti conversar com o governador.
“Essa situação das emendas é para minimizar os problemas da saúde a curto prazo. Estabelecemos uma meta: tentar transformar a realidade do tratamento de câncer no DF. Volto a pedir aos líderes para que votemos o crédito ainda hoje. É um orgulho trabalhar com os membros da comissão de Educação e Saúde que têm feito um trabalho exemplar na visita aos hospitais”, completou Reginaldo Veras (PDT).
Apesar dos apelos, a tentativa de votar o tema ainda nesta terça-feira (24) foi rechaçada. O distrital Bispo Renato Andrade (PR), por exemplo, disse que o GDF não pode jogar para a Câmara o ônus pela falta de recursos para a saúde.
“O governador pode remanejar o quanto quiser (de verba do orçamento para a saúde), na hora que quiser. Não faz porque não quer. Ninguém aqui é contra destinar recursos para o Hospital de Base. No entanto, deve prevalecer o acordo (do colégio de líderes). Ou o governo entende que tem que cumprir acordo ou procura fazer acordo no colégio de líderes”, afirmou Andrade. O deputado, no entanto, contemporizou a questão ao dizer que não haverá prejuízo para a população ao votar a matéria apenas na próxima terça-feira (31). Wasny de Roure (PT) completou, argumentando que “os acordos precisam ser respeitados”.
Prioridades
O investimento de R$ 28 milhões no setor vai dar prioridade ao pagamento a fornecedores de medicamentos quimioterápicos. De acordo com o secretário de Saúde, Humberto Fonseca, muitas empresas se recusam a entregar os remédios em função de dívidas não honradas pelo governo do Distrito Federal em 2014.
Outra parte da receita será empregada no pagamento de contratos com empresas de manutenção de equipamentos usados no tratamento contra o câncer no Hospital de Base e no Hospital Regional de Taguatinga.

Temer afirma que ‘já tratou com bandidos’ e ninguém se surpreende


Após críticas ao seu governo interino, Michel Temer bateu na mesa e disse em um discurso inflamado que “sabe governar” e que também “já tratou com bandidos”. A afirmação ocorreu durante uma reunião no Palácio do Planalto nesta manhã, onde os opositores defenderam que Temer comete equívocos e recuos constantes.
— Tenho ouvido que Temer está muito frágil. Conversa! Fui secretário de Segurança duas vezes em São Paulo e tratava com bandidos — disse, ao dar um tapa na mesa. — Quando houver equívoco, tem de rever a posição. Se o fizer, conserta-lo-ei — acrescentou.
Para a surpresa de Temer, ao falar que já lidou com bandidos, ninguém se surpreendeu. A única dúvida até o momento é se os bandidos aos quais ele se referiu são os seus aliados ou seus opositores.

E se os mais ricos ajudassem a pagar o rombo nas contas públicas?

Só volta da tributação sobre lucros e dividendos, isenção criada em 1995, daria estimados 43 bi ao caixa
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.  REUTERS
O Governo interino de Michel Temer anunciou nesta terça-feira linhas gerais de suas estratégia para reequilibrar as contas públicas. O eixo principal é criar uma regra para congelar o gasto público, incluindo limitar gastos com saúde e educação modificando a Constituição. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou, em coincidência com empresários, que a carga tributária é alta e que, neste momento, não se contempla aumento de impostos. Especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, no entanto, afirmam que há espaço para aumentar a tributação das camadas mais ricas da sociedade, distribuindo a "fatura" do ajuste imediato e de longo prazo de forma mais justa entre ricos e pobres. Defendem, como prioridade, a volta do imposto de 15% sobre lucro e dividendos recebidos por donos e acionistas de empresas.
Caso a cobrança desse tributo, que foi extinto em 1995, no Governo Fernando Henrique Cardoso, voltasse a ser cobrado, o Governo poderia arrecadar mais de 43 bilhões de reais por ano, segundo estudo feito pelos pesquisadores Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea). O montante representa, por exemplo, um ¼ do rombo esperado nas contas públicas de 2016, estimado na semana passada em 170,5 milhões de reais. A regra não foi alterada nos anos Lula e Dilma. Em 2015, o senador Lindebergh Farias apresentou projeto de lei para modificá-la, mas ele está parado no Senado.
"Hoje, grande parte do que os empresários ricos ganham não é tributada. Um trabalhador com salário de 8.000 reais paga um imposto de renda de 27,5%. Já um dono de uma grande empresa que fatura mais de 500 mil reais a título de lucros e dividendos pode não pagar nada como pessoa física", explica Orair, que ressalta que o Brasil é um dos poucos países que ainda isentam esse imposto. O sistema clássico de tributação prevê imposto na pessoa jurídica e, posteriormente, havendo distribuição de dividendos aos acionistas, também na pessoa física. Dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne economias desenvolvidas e algumas em desenvolvimento, apenas um, a Estônia, não cobra esse tributo. Alguns tributam mais na pessoa física, outros na pessoa jurídica, mas em média, de acordo com Orair, a parcela de lucros tributada pelo Estado é mais alta do que a do Brasil.
Ainda segundo o pesquisador, só após essa mudança, a progressividade das alíquotas do Imposto de Renda, outra mudança defendida por especialistas, seria efetiva, já que ela só incide sobre os salários. A volta da cobrança desse imposto seria inclusive mais interessante que a polêmica recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), na opinião do especialista. "É mais fácil argumentar sobre uma medida que vai afetar o topo da cadeia de um país tão desigual que falar na CPMF, que é um imposto regressivo (afeta de maneira proporcionalmente igual ricos e pobres)", explica.
Segundo dados do Ministério da Fazenda, 2,1 milhões de pessoas no Brasil eram acionistas ou donos de empresas em 2013. O grupo, no entanto, é diverso, já que vai desde um microempresário a um acionista de uma grande companhia. "Por isso, defendo que poderíamos pensar também em uma volta do imposto progressiva, mais justa, com valores diferentes para diferentes faturamentos", explica Orair. O projeto de lei atualmente no Senado (PLS) 588/2015 prevê o imposto sobre a distribuição de lucros e dividendos, mas sugere que a isenção seja mantida apenas para empresários inscritos no Simples Nacional, com receita bruta anual de até 3,6 milhões de reais.
Nara Cristina Taga, coordenadora de Direito Tributário Aplicado da FGV, explica que, quando o tributo sobre lucros e dividendos deixou de ser cobrado em 1995, o país vivia um momento de desenvolvimento em que houve um esforço de criar mecanismos de incentivo para o setor empresarial. "O país queria aquecer a economia criando incentivos, mas essa isenção não contribui tanto para o crescimento. Então, porque manteríamos isso?", questiona.
De lá pra cá, também houve uma revisão dos estudos de distribuição de renda e de tributação. Um dos trabalhos que ganhou maior projeção foi o do economista Thomas Piketty, autor do best-seller "Capital no século XXI". "Economistas como ele revisaram essa ideia de que não era papel da tributação distribuir renda, que ela deveria ser neutra. Essa visão não era realista, não nos levou ao crescimento e sim a concentração de renda", explica Orair. 
"Não é questão de aumentar ou diminuir a carga, mas redistribuir a carga tributária brasileira. Isso implica aumentar a tributação na renda", já defendeu Marcelo Medeiros, pesquisador da UnB e do IPEA que ao lado de outros pesquisadores aplica metodologia de Piketty no Brasil.

Imposto mais alto sobre heranças

Em sua passagem pelo Brasil em 2014, Piketty inclusive defendeu um imposto mais alto sobre heranças como instrumento para diminuir o abismo entre os mais ricos e mais pobres Brasil. Taga concorda com a medida pois considera a tributação atual de até 4% baixa em comparação com as alíquotas dos EUA, Reino Unido, Alemanha, França. "Alguns países tributam até 50% da herança. O fundamento é interessante. O herdeiro recebe aquela renda não pelo fruto do seu trabalho, mas pelo patrimônio da família. Dessa forma, o estado taxa aquela herança para fazer uma redistribuição mais igualitária", afirma a economista.
No início de maio, o ministério da Fazenda, no apagar das luzes da gestão da presidenta Dilma Rousseff, enviou uma proposta para tributar heranças acima de 5 milhões e doações de mais de um milhão. A iniciativa visa compensar a correção de 5% na tabela do IR que elevará o limite de isenção de 1.903,98 reais para 1999,8. A ideia é aplicar alíquotas de 15%, 20% e 25% sobre heranças. O pesquisador do Ipea Rodrigo Orair afirma que a medida é válida, mas que pode gerar um imbróglio uma vez que a iniciativa pode ser considerada uma bitributação. "Já existe o tributo estadual de herança [Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação] e o Governo Federal está tentando federalizar esse imposto", explica. O Governo também propôs no projeto uma aumento de impostos para as empresas, mas deixou de fora as grandes companhias.
Para o tributarista Miguel Silva, a solução mais simples para "praticar a justiça social" por meio de tributação é aplicar mais imposto sobre renda e propriedade e menos sobre o consumo. "Tributos como ICMS [Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços] é o que mais recai sobre a população mais baixa, você tributa igual desiguais", explica. "O Brasil reduz pouco da desigualdade por tributação e tem uma ação distributiva forte por meio de gasto: Bolsa Família, salário mínimo de Previdência, Assistência. Em um momento de crise de ajuste, em que você quer repensar, talvez seja o momento de tirar tanto peso do gasto e olhar mais pra tributação", resume Orair.

Impostos sobre fortuna

Outro tema polêmico para tributar os mais ricos é o imposto sobre grandes fortunas. A Constituição brasileira prevê a criação do imposto, mas ele nunca foi instituído. "Dependeria de uma lei complementar, mas há muitos interesses em jogo. Além disso há um problema, como vamos medir isso? O que é uma grande fortuna", questiona Taga. Ela ressalta ainda que os donos de grandes poderiam optar mandar o dinheiro para paraísos fiscais caso o imposto fosse instituído ou se tornarem exilados fiscais. O ator francês Gerard Depardieu é um ótimo exemplo, segundo Taga, de quem foi embora do país após a alta taxação de grandes fortunas. Ele abandonou a França para não ser obrigado a pagar a alíquota de 75% instituído na França. Mas, na opinião da especialista, há melhores formas e mais igualitárias que o imposto sobre as grandes fortunas. "Muitos países que aliaram o tributo sobre lucros e dividendos com faixas mais progressivas de imposto de renda e uma alíquota grande na herança conseguiram uma redistribuição de renda mais eficaz", conclui.

Delação de Sérgio Machado é homologada pelo STF


TASSO MARCELO/ESTADÃO CONTEÚDO


Ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras que também está na mira da Lava Jato, o executivo foi o pivô da queda do ministro do Planejamento, Romero Jucá e expôs Renan Calheiros



O ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), homologou nesta terça-feira (24/5) a delação premiada do ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras que também está na mira da operação, Sérgio Machado, pivô da queda do ministro do Planejamento nos primeiros 12 dias do governo interino de Michel Temer.Conversas gravadas pelo ex-executivo também deixaram exposto o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ex-líder do PSDB no Senado e posteriormente filiado ao PMDB, Machado pode entregar membros da cúpula do partido que assumiu o poder com o afastamento temporário de Dilma e acentuar ainda mais a crise política.


Com a homologação, a delação passa a ter valor jurídico e novos inquéritos poderão ser abertos para investigar políticos e pessoas sem foro privilegiado. A homologação ocorreu um dia após a reportagem do jornalista Rubens Valente, da Folha de S. Paulo, revelar gravações de conversas de Machado com Jucá em março, antes de ser votado pelo Congresso a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, nas quais eles falam em um “pacto nacional” para “estancar a sangria” da operação com a chegada de Michel Temer ao poder, após o afastamento de Dilma.
O episódio abalou o governo do peemedebista e levou à queda de Jucá, alvo de inquéritos da Lava Jato no Supremo sob a relatoria de Teori Zavascki. Com a homologação, além das conversas comprometedoras, Machado também entregou às autoridades novos detalhes e novos nomes de políticos implicados na maior investigação do País que avança sobre políticos dos maiores partidos do Congresso ligados à base de Temer e ao PT.
Também investigado, Machado vinha negociando o acordo de colaboração e gravou ainda conversas que manteve com o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), publicadas nesta quarta (25) pela Folha.
Apreensão
A divulgação das gravações causou grande apreensão no governo interino com a extensão do que mais poderia existir e que outras pessoas da cúpula do PMDB, com e sem ligações fortes com o Planalto, poderiam ser atingidas com as conversas.
A preocupação no PMDB é grande. O entendimento é de que Machado, para se livrar das acusações das quais é alvo na Lava Jato, entregou caciques do partido como o ex-presidente José Sarney e os senadores Renan Calheiros, Romero Jucá, Edison Lobão (PMDB-MA) e Jader Barbalho (PMDB-PA).
Segundo relatos, Machado, que foi filiado ao PSDB e posteriormente ao PMDB, tendo relação com caciques peemedebistas há pelo menos 20 anos, chegou a tentar a realizar um encontro com Jader em São Paulo, que só não foi possível em razão de o senador, na ocasião, estar internado no Hospital Sírio Libanês.
Nos diálogos com Jucá revelados, Machado fala sobre sua preocupação em ser investigado pelo juiz Moro, pois a investigação contra ele que estava no Supremo poderia ser remetida para a primeira instância, critica a prisão do ex-senador Delcídio Amaral, que foi autorizada pelo Senado, e chega a afirmar que “a solução mais fácil” para salvar os peemedebistas que estão na mira de Janot é botar Michel Temer no governo.