quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Obama assume, em lágrimas, a responsabilidade pelo controlo das armas nos EUA

Obama emocionou-se ao recordar todas as crianças mortas em ataques com armas JIM WATSON/AFP
Presidente dos EUA não aceita ficar refém dos lobbies que controlam o Congresso e avança com medidas administrativas para expandir o sistema de escrutínio e controlo da venda de armas.
O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu que a sua acção executiva para restringir a venda de armas não substitui o processo legislativo no Congresso e que as suas iniciativas unilaterais, no sentido de apertar o actual sistema de escrutínio, vigilância e controlo do comércio de armamento pessoal, “permitirá salvar apenas algumas vidas”. Mas perante anos consecutivos de oposição e inacção do Congresso, Obama não estava disposto a deixar a Casa Branca arrependido de não ter feito tudo o que podia para “poupar mais famílias à dor e perda extraordinárias" de perder alguém num tiroteio.
“Todos os anos, 30 mil americanos perdem a vida com o disparo de uma arma: suicídios, violência doméstica, tiroteios, acidentes. Não temos de aceitar esta carnificina como o preço a pagar pela liberdade”, sublinhou Obama, numa cerimónia na Casa Branca em que participaram muitos familiares de vítimas de massacres e alguns sobreviventes de tiroteios, como a antiga congressista democrata Gabrielle Giffords. “São demasiados desgostos, demasiados sacrifícios, é demasiada dor”, lamentou o Presidente. “Nunca conseguiremos travar todos os actos de maldade e violência. Mas se conseguirmos travar um…”, disse Obama, que deixou bem clara a sua tristeza e frustração com a inoperância do Congresso e o boicote dos seus adversários políticos às medidas que defende para limitar a violência armada.
Previsivelmente, antes mesmo de ouvirem o Presidente, os líderes republicanos no Congresso, e os candidatos conservadores à nomeação para as eleições presidenciais de Novembro, reagiram às medidas anunciadas pela Casa Branca com críticas inflamadas e promessas de um vigoroso contra-ataque: com recursos em tribunal para inviabilizar as decisões presidenciais; com cortes orçamentais e outras iniciativas legislativas destinadas a tornar as medidas previstas impraticáveis; e com a reversão imediata destas ordens em caso de eleição.
speaker do Congresso, Paul Ryan, classificou a iniciativa presidencial como uma “interferência perigosa e inaceitável” do ramo executivo nas acções do legislativo. “Nenhum Presidente devia poder reverter os seus falhanços por acção executiva. As suas propostas para restringir o direito às armas foram debatidas e rejeitadas pelo Senado dos Estados Unidos”, recordou.
Mas a principal arma dos republicanos neste combate político é a retórica. Aproveitando a oportunidade para gritar mais alto, os candidatos classificaram as medidas de Obama como “um assalto” às liberdades individuais e à Constituição e disseram que o Presidente quer “subverter” o funcionamento das instituições e “proibir” as armas na América.
Apesar da barragem de soundbytes dos políticos e da histórica simpatia e tolerância pelo direito de uso e porte de armas da sociedade norte-americana,a acção presidencial anunciada esta terça-feira pela Casa Branca não vai tanto contra a corrente (da opinião pública) quanto se pode pensar: sondagens e outros estudos comprovam que uma esmagadora maioria de americanos – que se descrevem como republicanos, democratas e independentes – concordam com a necessidade de, por exemplo, expandir os métodos de verificação da “probidade” de cada indivíduo que pretenda comprar uma arma, para impedir que estas vão parar às mãos de criminosos, terroristas ou doentes mentais.
Ao referir-se à violência gerada pela livre circulação de armas, Obama – que tantas vezes, no rescaldo de massacres em escolas, cinemas ou igrejas, esqueceu a prudência e o cálculo político para falar com emoção sobre o flagelo da violência armada nos Estados Unidos – teve o cuidado de eximir de responsabilidades os detentores de armas e os vendedores de armas “responsáveis” e de não diabolizar aqueles que “legitimamente” coleccionam revólveres, ensinam os filhos a caçar ou mantém uma arma para protecção pessoal.
O discurso e o tom usado pelo Presidente, calibrado para a moderação, tornam Obama a voz da razão do “senso comum”, num debate crescentemente polarizador e que nos últimos anos assumiu as proporções de uma guerra cultural. “Como é que chegamos a este ponto?”, perguntou-se.

Polícia isola gabinete de Merkel para verificar pacote suspeito

BERLIM (Reuters) - A polícia isolou o gabinete da chanceler alemã, Angela Merkel, para verificar um pacote suspeito, à medida que ministros se reuniam para uma reunião ministerial no prédio na manhã desta quarta-feira.
Os ministros realizaram a reunião de rotina normalmente depois que a polícia isolou a área no entorno da Chancelaria no centro de Berlim, disse uma testemunha da Reuters.
Quatro caixotes plásticos amarelos dos correios foram deixados do lado de fora da entrada, de acordo com testemunhas.
"Estamos investigando um pacote suspeito", disse um porta-voz da Polícia Federal alemã à Reuters.
Em 2010, a polícia interceptou um pacote com explosivos enviado da Grécia para o gabinete de Merkel.
A Europa iniciou 2016 sob elevado estado de alerta, sete semanas após militantes islâmicos terem matado 130 pessoas em ataques a tiros e atentados suicidas em Paris.
(Reportagem de Hans-Edzard Busemann e Hannibal Hanschke)

Coreia do Norte diz ter realizado com sucesso primeiro teste com bomba de hidrogênio

Por James Pearson e Tony Munroe
SEUL (Reuters) - A Coreia do Norte disse que testou com sucesso um artefato nuclear de hidrogênio em tamanho reduzido nesta quarta-feira, reivindicando um avanço significativo em suas capacidades de ataque e acionando um sinal de alerta no Japão e na Coreia do Sul.
O teste, que representa a quarta vez que o Estado isolado detona um dispositivo nuclear, foi ordenado pelo jovem líder Kim Jong Un e realizado com sucesso às 10h do horário local (23h30 de terça-feira no horário de Brasília), segundo a agência de notícias oficial norte-coreana, a KCNA.
"Que o mundo olhe para o forte e autossuficiente Estado com armas nucleares", escreveu Kim em uma nota manuscrita exibida pela TV estatal da Coreia do Norte.
O teste nuclear provocou condenação internacional. A China, principal aliado do país, expressou "oposição resoluta" e disse que vai apresentar um protesto formal junto ao governo de Pyongyang.
A Coreia do Norte busca há muito tempo o reconhecimento diplomático dos Estados Unidos, mas vê seu poder de dissuasão nuclear como crucial para garantir a sobrevivência de sua ditadura de terceira geração.

Cadê o meu carro? Servidora espera desde novembro para pegar carro recuperado pela polícia

Ary Filgueira/Metrópoles


Burocracias e perícias impedem Alynne de Sousa Farias de reaver o veículo. Polícia Civil alega agenda lotada


Além de ser vítima de um assalto, a servidora pública Alynne de Sousa Farias, 29 anos, também sofre com a burocracia no serviço público. Desde novembro, quando a Polícia Militar recuperou o carro, ela tenta retirar o veículo do pátio da unidade policial de Samambaia, mas não consegue.
A última explicação que lhe deram para manter o seu Chevrolet Onix em poder da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte) foi que faltava uma assinatura do delegado para que, enfim, a moradora do Novo Gama pudesse voltar a dirigir o veículo. Mas ele não estava na sala onde despacha as ocorrências policiais.
O sofrimento de Alynne começou na noite de 18 de outubro (domingo). Ela decidiu parar o carro para verificar as mensagens no celular, quando dois homens a abordaram na Quadra 15 do Setor Sul do Gama. Eles a mandaram descer e fugiram com o veículo.
Menos de um mês depois, policiais militares faziam uma ronda na QR 433 de Samambaia, quando se depararam com um carro que tinha placa de São Paulo. O motorista apresentou o documento do veículo, que não batia com a numeração do chassi. Ao consultar na rede interligada da polícia, descobriram que se tratava do carro de Alynne.
Mas logo o alívio deu lugar a uma sucessão de incômodos provocados pela burocracia na Polícia Civil. O carro só poderia ser retirado após passar por perícia. Mas a agenda de serviços estava cheia e só havia vaga em 22 de fevereiro deste ano. Com muita insistência, ela conseguiu antecipar para 18 de dezembro.
O exame no carro deveria ser feito no Instituto de Criminalística, que fica no Departamento de Polícia Especializada (DPE), no Parque da Cidade, e o veículo deveria ir de guincho. Porém, o caminhão só transporta um carro por dia. Alynne, então, acionou o seguro para que rebocasse o Onix.
O escrivão disse que o laudo já está concluído. Falta somente a assinatura do delegado. Isso é um absurdo. Não posso ficar sem carro, pois moro longe"
Alynne de Sousa Farias
Por meio da Assessoria de Imprensa, a Polícia Civil explicou que foi feita uma perícia no dia 8 de novembro e que verificou a necessidade de exames complementares, pois o veículo foi localizado com placa e documentos clonados. Tal exame só foi possível agendar para fevereiro de 2016.

06/01/2016 01h40 - Atualizado em 06/01/2016 08h21 Coreia do Norte diz ter feito teste com bomba de hidrogênio bem-sucedido Bomba de hidrogênio é geralmente mais poderosa que bomba nuclear. Teste acontece dois dias antes do aniversário do ditador Kim Jong-Un.

A Coreia do Norte afirmou ter feito um teste com uma miniatura de bomba de hidrogênio bem-sucedido às 12h (GTM) desta quarta-feira (6), informou a agência de notícias Associated Press. Este é o quarto teste com arma nuclear feito pelo país, no entanto, foi o primeiro realizado com bomba de hidrogênio, que é mais poderosa e pode ser até 50 vezes mais potente que uma bomba nuclear. Antes deste, o país havia realizado testes em 2006, 2009 e o último em fevereiro de 2013.
"Este último teste, produto da nossa tecnologia e da nossa mão de obra, confirma que os recursos tecnológicos que desenvolvemos recentemente são eficientes e provam cientificamente o impacto da nossa bomba H miniaturizada", destacou a apresentadora da TV estatal.O Conselho de Segurança da ONU vai se reunir para discutir o teste nuclear, segundo a France Presse e a CNN.

"Após o pleno sucesso da nossa bomba H histórica, nos juntamos ao grupo dos Estados nucleares avançados", disse a apresentadora da TV estatal, precisando que o teste envolveu um dispositivo em "miniatura".
Soldado sul-coreano passa por uma tela de televisão em estação ferroviária em Seul enquanto a Coreia do Norte anuncia ter feito teste com bomba de hidrogênio (Foto: AFP Photo/Jung Yeon-Je)Soldado sul-coreano passa por uma tela de televisão em estação ferroviária em Seul enquanto a Coreia do Norte anuncia ter feito teste com bomba de hidrogênio (Foto: AFP Photo/Jung Yeon-Je)
O teste surpresa da bomba H foi autorizado pessoalmente pelo máximo líder norte-coreano, Kim Jong-Un, dois dias antes do seu aniversário, anunciou a TV.
O dirigente norte-coreano deu a entender no mês passado, em uma inspeção a uma unidade militar, que seu país havia concluído a montagem de uma bomba de hidrogênio.
A bomba de hidrogênio ou termonuclear utiliza a fusão do átomo em cadeia e provoca uma explosão mais potente que a chamada bomba atômica, que utiliza a fissão nuclear. A bomba de hidrogênio (fusão) é mais poderosa e mais difícil de construir. Já a bomba A (fissão) é semelhante à utilizada em Hiroshima.

Dúvida
A agência de espionagem sul-coreana, no entanto, contesta que a Coreia do Norte tenha testado uma bomba de hidrogênio, segundo Lee Cheol Woo, integrante do comitê de inteligência do Parlamento, segundo a AP. O tamanho relativamente pequeno da onda sísmica levantou a suspeita. Lee diz que a agência explica que mesmo uma detonação que falhou de uma bomba de hidrogênio poderia ter desprendido.

O anúncio surpresa sinaliza que os esforços para frear o impulso do país para colocar um arsenal nuclear em funcionamento têm sido pouco eficientes.
A Coreia do Norte informou em uma transmissão ao vivo, em sua TV estatal, que o teste foi bem-sucedido.
De acordo com a AP, é provável que um teste com bomba de hidrogênio faça a ONU impor novas sanções à Coreia do Norte.
A Coreia do Sul declarou que o teste nuclear é um "grave desafio" para a paz mundial. O chefe da Organização do Tratado de Proibição Total de Testes da ONU, que monitora o mundo todo na questão de testes nucleares, diz que, se o anúncio da Coreia do Norte for confirmado seria uma violação do tratado e uma grave ameaça à paz e segurança internacionais.

Reações
O Conselho de Segurança da ONU vai se reunir para discutir o teste nuclear, segundo a France Presse e a CNN. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, qualificou o teste de "grave desafio" e "ameaça séria" à região.
"Condeno firmemente" este teste, declarou Abe à imprensa. "A prova nuclear realizada pela Coreia do Norte é uma séria ameaça à segurança do nosso país e não podemos, absolutamente, tolerar isto".
O premier japonês qualificou o teste de "grave desafio aos esforços internacionais de não proliferação" de armas nucleares.

A China, a Austrália, a França e a Rússia também condenaram o teste. Principal aliada da Coreia do Norte, a China afirmou que o teste representa um desafio à comunidade internacional e pediu que o país suspenda atos que provoquem uma escalada de tensão na região.

O ministro dos Negócios Estrangeiros australiano, Julie Bishop, afirmou em comunicado que "confirma o status da Coreia do Norte como um Estado pária e uma contínua ameaça à paz e à segurança internacional".
Já o presidente francês, François Hollande, disse em um comunicado que "a França condena esta violação inaceitável das resoluções do Conselho de Segurança e apela a uma forte reação da comunidade internacional".

A ministra de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou que o teste é uma forte violação das leis internacionais.  “As ações agravam a situação na península coreana já marcada pelo alto potencial de confronto político e militar”, declarou.
Ministro dos Negócios Estrangeiros japonês Fumio Kishida (esquerda) fala com o embaixador dos EUA para o Japão Caroline Kennedy (Foto: AFP Photo /Toshifumi Kitamura)Ministro dos Negócios Estrangeiros japonês Fumio Kishida (esquerda) fala com o embaixador dos EUA para o Japão Caroline Kennedy (Foto: AFP Photo /Toshifumi Kitamura)
Antes do anúncio
Autoridades sul-coreanas afirmaram por volta de 1h (horário de Brasília) desta quarta terem detectado um "terremoto artificial" - com ação humana - perto do principal local de teste nuclear da Coreia do Norte. Os governos da China, do Japão e da Coreia do Sul suspeitavam que fosse forte indício de que a Coreia do Norte - país com armas nucleares - poderia ter realizado seu quarto teste atômico. A suspeita foi confirmada por votla de 1h30, em anúncio feito pela Coreia do Norte.
O sismo teve magnitude de 5.1. O terremoto, registrado por volta da meia-noite (horário de Brasília), ocorreu na zona de um sítio de testes nucleares da Coreia do Norte, anunciou o Instituto Geológico dos Estados Unidos (USGS), o que indicaria uma nova prova atômica por parte de Pyongyang.
O Instituto Geológico explicou que o epicentro do tremor foi registrado no nordeste da Coreia do Norte, a cerca de 50 km de Kilju, na mesma zona onde se encontram instalações nucleares norte-coreanas, informou a agência de notícias France Presse.
O instituto norte-americano mediu a magnitude da atividade sísmica em 5,1 em seu site. Um funcionário da agência meteorológica da Coreia do Sul disse que acreditava que o terremoto foi provocado artificialmente, sem entrar em detalhes, e originou 49 km (30 milhas) ao norte de Kilju, a área nordeste onde local de teste nuclear principal da Coreia do Norte está localizado. O país realizou as três detonações atômicas anteriores lá.
Funcionários do governo sul-coreano não puderam confirmar imediatamente se o abalo sísmico ocorreu devido a uma explosão nuclear ou a um terremoto natural, de acordo com informações da agência e notícias AP.
A Coreia do Norte realizou seu terceiro teste nuclear em fevereiro de 2013. Um teste confirmou que marcaria mais um grande passo em direção à construção de uma ogiva pequena o suficiente para ser montado em um míssil capaz de atingir a costa do continente americano.

O país que virou polo de tráfico de armas pesadas na Europa Márcia Bizzotto De Bruxelas para a BBC Brasil

(Thinkstock)Image copyrightThinkstock
Image captionLegislação permissiva e falta de controle nas fronteiras explicam preferência de extremistas por país
Uma semana depois dos atentados terroristas que deixaram ao menos 130 mortos em Paris, a União Europeia estuda como fortalecer o controle de armas de fogo e deter o contrabando de material militar, do qual a Bélgica é apontada como um importante centro.
Segundo a Comissão Europeia (braço Executivo da UE), cerca de 81 milhões de armas de fogo civis circulam atualmente nos 28 países da União Europeia. Desse total, 79% seriam de origem ilícita. O cálculo é baseado em uma estimativa da organização Gun Policy.
No entanto, a instituição ressalta que "é impossível quantificar a verdadeira escala do problema".

Permissividade

"O tráfico de armas existe em toda grande cidade com um grande nível de criminalidade. Mas a Bélgica aparece como um centro de abastecimento de terroristas, em parte por causa de suas características geográficas", explicou à BBC Brasil Nils Duquet, pesquisador do Instituto de Flandres pela Paz.
O organismo registra uma média de 5,7 mil casos de posse ilegal de armas tratados a cada ano pela polícia belga, mas observa que o volume traficado deve ser muito maior.
"Somos um país pequeno, com fronteiras abertas, no centro da Europa. É muito fácil para um criminoso com conexões vir aqui, comprar um fuzil e desaparecer em duas horas."
Além disso, a longa tradição belga de produção de armas, associada a uma legislação permissiva até 2006, tornaram o país popular entre as organizações criminosas.
"Nos anos 70, o governo era reticente à ideia de frear as vendas de armas, que tinham um importante peso econômico para o país. Por isso, qualquer um podia comprar uma arma legalmente, só apresentando a carteira de identidade", analisa Brice De Ruyver, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Política Criminal na Universidade de Gante, na Bélgica.
(Foto: Reuters)Image copyrightReuters
Image captionSegundo pesquisador, posição geográfica da Bélgica impulsiona tráfico de armas
A legislação seria modificada em 2006, em resposta ao assassinato de uma criança e sua babá de origem africana por um jovem de extrema-direita em Antuérpia.

Conexões

Mas a introdução de novas exigências para a compra legal de armas não rompeu as sólidas redes de abastecimento criadas anos antes pelos criminosos e aproveitadas pelos jihadistas de hoje em dia.
De Ruyver observa que a maioria dos europeus que se juntaram às filas do grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico" ("EI") na Síria cumpriram penas de prisão.
A grande proporção de combatentes belgas no país explicaria a preferências dos extremistas pela Bélgica na hora de montar os arsenais usados em atentados.
Sabe-se que pelo menos parte das armas usadas por Amédy Coulibaly no ataque a um supermercado judeu de Paris, em janeiro, foram adquiridas na Bélgica, assim como a Kalashnikov usada por Ayoub El-Kahzzani no atentado frustrado a um trem de alta velocidade entre Amsterdã e Paris, em agosto.
Também há suspeitas de que Mehdi Nemmouche, autor do atentado ao Museu Judaico de Bruxelas, em maio de 2014, teria adquirido suas armas na capital belga.

Balcãs

Segundo Duquet, a maioria das armas pesadas comercializadas ilegalmente na Bélgica eram originárias dos países comunistas no começo dos anos 90, principalmente a Bulgária.
Depois da guerra na antiga Iugoslávia, os países balcânicos se tornaram os principais fornecedores.
"Muitos civis guardaram as armas que usaram durante a guerra para defender suas famílias ou que encontraram junto a corpos de soldados e agora, com dificuldades financeiras, vendem por até 500 euros (cerca de R$ 2 mil)", afirma o pesquisador.
Esses equipamentos entram na Bélgica em pequenas quantidades, escondidos em carros particulares.
"Estamos falando de duas ou três peças por viagem. Uma vez que entram no Espaço Schengen (de livre circulação interna na UE), não há mais controle", diz Duquet.
(Foto: Getty)Image copyrightGetty
Image captionAlvo da polícia, Molenbeek, no subúrbio de Bruxelas, é apontado como celeiro de extremistas
Algumas armas entram nos países europeus de maneira legal, depois de serem manipuladas para não funcionar, o que se chama de desmilitarização, e encontram na Bélgica um grande número de especialistas capazes de reabilitá-las.
"Justamente pelo histórico do país na produção de armas, há muitos conhecedores, gente que sabe como reativar um fuzil desmilitarizado e até que fabrica suas próprias armas a partir de peças compradas pela internet", afirma Duquet.
A prática é ilegal, mas praticamente impossível de detectar.
Uma das armas utilizadas no atentado contra o jornal satírico Charlie Hebdo em Paris, em janeiro passado, foi uma Kalashnikov desmilitarizada adquirida na Eslováquia e reabilitada na Bélgica.
Segundo os especialistas ouvidos pela BBC Brasil, uma arma desse tipo pode ser comprada no mercado ilegal belga por a partir de mil euros (cerca de R$ 4 mil).

Resposta europeia

Apesar da maioria dos países europeus possuir regras específicas para a desativação de armas militares, a Comissão Europeia (CE) reconhece que o controle não é efetivo em muitos deles e que os diferentes parâmetros de um país para outro facilitam a atuação das redes criminosas.
Por isso, a União Europeia adotou esta semana um protocolo comum de desmilitarização, que entrará em vigor dentro de três meses, e proíbe o comércio online entre particulares de armas ou peças relacionadas.
"Armas desativadas deverão continuar a ser consideradas como armas. As mais perigosas deverão ser banidas e destruídas. As demais, as autoridades deverão ser capazes de localizar", explicou a comissária europeia de Justiça, Elzbieta Bienkowska.
As duas medidas são parte de um amplo pacote de iniciativas proposto em resposta aos atentados de Paris.

Oposição assume na Assembleia da Venezuela e promete buscar queda de Maduro O Parlamento, cuja maioria se opõe ao chavismo, se dá seis meses de prazo para a mudança

Tensão na assembleia venezuelana, na terça-feira  AFP
Pouco antes das 13h30 de terça-feira, em Caracas, Henry Ramos Allup, dirigente do partido Ação Democrática (AD), prestou juramento a si mesmo –depois de ser eleito com os votos da maioria oposicionista– como novo presidenteAssembleia Nacional venezuelana. Assim começou uma nova era política na Venezuela, uma dimensão desconhecida na qual um Parlamento com maioria de dois terços da oposição se prepara para desafiar o debilitado Governo de Nicolás Maduro. Allup disse que em seis meses a Assembleia implementará um mecanismo “para mudar o Governo”.
O que exasperou os deputados situacionistas foi a intervenção do chefe da bancada da oposição, Julio Borges, do partido Primero Justicia (PJ), na qual mencionou como primeira tarefa da agenda parlamentar a adoção de uma Lei de Anistia e Reconciliação Nacional para beneficiar quase centena de presos políticos. De acordo com a facção pró-governo, uma intervenção desse tipo não tinha lugar em uma sessão inaugural.Poucos minutos depois da posse de Allup viu-se a primeira demonstração de ódio que, se espera, dominará as sessões do legislativo a partir de agora. O resto da mesa da Assembleia –que inclui o democrata-cristão Enrique Márquez como primeiro vice-presidente e Simón Calzadilla, do Movimento Progressista, de centro-esquerda– prestou juramento entre vaias e assobios da bancada revolucionária e seus apoiadores. O chefe desse bloco, o ex-ministro da Educação e deputado Héctor Rodríguez, apresentou constantes moções de ordem a Ramos Allup. No final, os representantes chavistas abandonaram o plenário em protesto contra o que consideraram violações do regimento interno da Assembleia.
Ramos Allup, que lamentou a deserção dos deputados chavistas, também fez o que parece ser a maior e mais explícita advertência contra o regime: afirmou que no prazo de seis meses a Assembleia implementará um mecanismo “para mudar o Governo”.
O dirigente socialdemocrata chegou à presidência da casa, como foi registrado, com 109 votos do bloco de oposição e não os 112 oficiais que constituem a maioria de dois terços dos assentos, de um total de 167. Assim foram notados os efeitos da medida cautelar concedida na semana passada pelo Supremo Tribunal de Justiça para suspender a posse dos deputados eleitos pelo Estado de Amazonas –três da oposição e um da situação–, em resposta aos recursos de impugnação interpostos pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), situacionista, contra os resultados das eleições parlamentares de 6 de dezembro em três circunscrições regionais.
O Supremo Tribunal ainda está estudando o mérito da questão. Se decidir a favor das impugnações introduzidas pelo chavismo, poderia determinar a repetição das eleições nas circunscrições eleitorais afetadas, onde a oposição fez nove deputados em 6 de dezembro, contra apenas um da situação.
Em meio às tensões, no entanto, conseguiu-se na terça-feira a conformação do Parlamento, um processo que parecia incerto até a véspera pelas ameaças de confrontos e violência de rua.
Tanto o Governo como a oposição convocaram seus militantes a tomar as ruas do centro de Caracas para apoiar suas respectivas bancadas. Os chamamentos prometiam criar o caldo de cultura para uma batalha campal.
No entanto, horas antes da cerimônia o presidente Nicolás Maduro pediu a seus seguidores que permitissem a constituição “tranquila e em paz” da Assembleia Nacional, e às Forças Armadas que garantissem a ordem durante a sessão de abertura do Parlamento. O pedido explícito de Maduro na véspera da cerimônia, transmitida por redes nacionais de rádio e televisão, desativou o potencial conflito.
O presidente Maduro anunciou que tinha entrado em acordo com as autoridades militares para limitar a mobilização dos simpatizantes do chavismo a uma área a oeste do palácio presidencial de Miraflores, enquanto foi reservada à oposição a área a leste da Assembleia Nacional. “Se vocês querem se mobilizar, podem fazer isso em paz”, disse aos manifestantes da oposição, que, por causa de incidentes, desde fevereiro de 2014 estavam proibidos de marchar no município de Libertador, da área metropolitana, correspondente ao centro-oeste- da capital. “Se quiserem sair, podem fazê-lo num perímetro estudado, com espaço suficiente para que o caminho até a Assembleia não fique obstruído, sempre que seja em paz”.
As ruas do centro de Caracas amanheceram tomadas por efetivos militares e tropas de choque. As forças de segurança organizaram três barreiras a serem atravessadas para ter acesso ao Palácio Federal Legislativo, sede da Assembleia Nacional.
As previsões não impediram alguns surtos de violência nos arredores. Repórteres dos veículos de comunicação digital El Pitazo e La Patilla foram agredidos. Na região de La Hoyada, membros dos grupos chavistas incendiaram bandeiras do Primero Justicia.

UMA SESSÃO HISTÓRICA

A jornada parlamentar não foi presidida por dois enormes retratos: um de Hugo Chávez e outro do rosto reconstituído de Simón Bolívar.
O governador do Estado de Miranda e duas vezes candidato presidencial de oposição, Henrique Capriles Radonski, esteve no recinto pela primeira vez desde 1999.
A ex-deputada da oposição María Corina Machado pôde participar de um evento na Assembleia Nacional desde que foi proibida de entrar em abril de 2014.
A Assembleia Nacional é dirigida de forma inédita por um político não chavista. Desde as marchas de protesto de fevereiro de 2014 não era permitido que manifestantes da oposição marchassem no centro de Caracas.