domingo, 5 de julho de 2015

Lula retoma defesa de Dilma Rousseff

São Paulo (AE) - Diferente da postura crítica que vinha adotando em relação à administração da sucessora e afilhada política, Dilma Rousseff (PT), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu ontem em defesa da presidente da República em discurso realizado na 5ª Plenária Nacional da Federação Única dos Petroleiros (FUP). “A crise no País não é responsabilidade da Dilma”, disse Lula, responsabilizando o cenário externo pelas dificuldades que o Brasil enfrenta na área econômica.

Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a presidente Dilma Rousseff tem obsessão em trazer a inflação para o centro da meta
Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a presidente Dilma Rousseff tem obsessão em trazer a inflação para o centro da meta

Ao falar sobre a economia brasileira, o ex-presidente disse que acompanha "certo pânico das pessoas com a perspectiva da inflação chegar à casa dos 9%" - a inflação corrente de doze meses, até o mês de maio, está em 8,47%, e a expectativa, segundo a última pesquisa Focus, é que o índice feche 2015 em 9% Para Lula, apesar de muita gente ganhar com a elevação deste índice, a alta da inflação acaba prejudicando quem vive de salário. "Tem gente que ganha muito, mas o trabalhador, não." E, dirigindo-se à plateia formada por petroleiros, voltou a defender a afilhada política: "Tenho certeza que Dilma tem obsessão em trazer a inflação para o centro da meta, e ela está tomando as atitudes certas para isso." E lembrou que, quando assumiu o seu primeiro mandato, depois do governo do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, herdou uma inflação de 12%.

Lula disse que o mau humor que tomou conta do País não é gratuito. "Tem gente que dá a notícia mais negativa possível para tentar desestabilizar o governo e criminalizar o PT e as esquerdas", afirmou, questionando se no Brasil é mesmo tudo muito ruim. E culpou a oposição por não querer aceitar o resultado das urnas, nas eleições presidenciais de outubro do ano passado. 

"Ganhamos as eleições numa disputa aguerrida e agressiva, a sociedade brasileira deu a vitória à presidenta Dilma e nossos adversários parecem que não querem aceitar o resultado até hoje. Ninguém perdeu mais eleição do que eu e todas as vezes acatei o resultado, eles resolveram não acatar. Nunca vi tanta agressividade à instituição Presidência da República como estou vendo agora", disse.

Ainda na defesa de Dilma, Lula frisou que jamais viu tanta agressividade dirigida a ela. "Achei sempre que o problema era comigo, por ser nordestino e sem diploma universitário. Nunca vi tanta agressão como a que a companheira Dilma tem sofrido. Peço a Deus para Dilma não perder a tranquilidade."

Lula reconheceu, em outra parte do discurso, que o País vive tempos difíceis, mas garantiu que Dilma irá arrumar o Brasil, citando a agenda positiva que a presidente da República vem adotando desde o mês passado, como o acordo com a China, a viagem aos Estados Unidos, os investimentos em infraestrutura. O ex-presidente insistiu que a presidente adote a estratégia de ir às ruas e disse que ele mesmo também prepara uma agenda, com ajuda da equipe de seu instituto, para viajar pelo País. Ele disse que ficar em gabinete em Brasília "esperando" serve apenas para ouvir reclamações e pedidos de políticos. "A Dilma, diante de todas as coisas que ela tem que fazer, tem que priorizar andar por esse País, tem que botar o pé na estrada, em vez de ficar na televisão e na internet ouvindo pessoas falando mal dela", afirmou.

Petrobras
Além de defender Dilma e conclamar os petroleiros a fazerem o mesmo, Lula disse também que é fundamental defender a própria estatal. "A Petrobras não é só corrupção, é uma empresa respeitada mundialmente e muito importante." Ele comparou a situação da Petrobras com times de futebol brasileiros. "Uma empresa desse tamanho é que nem o Flamengo, está ruim agora, mas tem recuperação. Ou que nem meu Vasco, que está ruim, mas pode melhorar", afirmou. 

Lula disse ainda que uma empresa "do tamanho da Petrobras" não pode ser associada à palavra crise. "Uma empresa que tem o potencial que tem a Petrobras devia ter uma placa de 'proibido usar a palavra crise'. Essa empresa tem o futuro garantido." 

Ele voltou a argumentar que o lucro da Petrobras cresceu muito durante a gestão petista, dele e de Dilma, no governo federal e exaltou o pré-sal. Lula ressaltou também a estratégia de construção de refinarias - uma das áreas mais investigadas por suspeita de corrupção na operação Lava Jato - como um caminho para o País se desenvolver na cadeia do petróleo.

E, falando da polêmica em torno da PEC que reduz a maioridade penal no País, Lula se posicionou contrário à medida, assim como o governo. "É uma irresponsabilidade querer jogar nas costas de meninos de 16 anos a responsabilidade de coisas que os governos estão deixando de fazer. Não se acaba com a violência colocando moleques na cadeia."

Com tática de guerra relâmpago, bancada conservadora ganha posições Vitória na votação da redução da maioridade penal expõe Governo franco entrincheirado Manobra de Cunha pró-redução penal cria guerra de interpretações

Plenário da Câmara após votação para redução da maioridade penal. / FABIO RODRIGUES POZZEBOM  (AGÊNCIA BRASIL)
Uma estratégia bélica nazista de 70 anos atrás observa-se com assombrosas semelhanças no Congresso, afirma o cientista social e filósofo Marcos Nobre. As incursões do Exército alemão na Segunda Guerra foram efetivas pelas penetrações por surpresa, a falta de preparação geral do inimigo e a incapacidade de reagir rapidamente às ofensivas. Nesses dias, os deputados conservadores comandados por um, até agora, imbatível Eduardo Cunha avançam com velocidade em assuntos relevantes como a redução da maioridade penal, a discussão sobre o Estatuto do Desarmamento, ou a modificação do Estatuto da Família, que pode dificultar a adoção de crianças por casais homossexuais. Já na trincheira, está um inimigo enfraquecido, sem fôlego diante do bombardeio. 
“A batalha se ganha rapidamente, mas as guerras relâmpago,Blitzkrieg em alemão, são intrinsecamente antidemocráticas, como tem sido a discussão sobre a redução da maioridade penal. Temos que rebater que existe um consenso formado sobre este assunto, isso é querer achar que as pessoas não mudam de opinião com o debate. Não dá tempo para ter uma discussão profunda sobre os temas e, se houver discussão, é apagada pela quantidade inacreditável de assuntos importantes que são colocados ao mesmo tempo”, mantêm Nobre.
Esta tática “proposital”, segundo Nobre, das forças conservadoras, apontou-se um tanto na madrugada desta quinta-feira quando a proposta que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal para crimes hediondos e outras modalidades, foi aprovada por 323 a 155 votos. A vitória parcial, pois o projeto ainda precisa ser analisado em segundo turno pelos deputados e votado duas vezes pelo Senado, é a principal bandeira do Frente Parlamentar da Segurança Pública, a chamada bancada da bala, que sai reforçada neste embate, a pesar de não ter se aprofundado na discussão e não contar com estatísticas fiáveis que dimensionem a participação dos jovens nos crimes do país.
As arengas dos policiais e militares aposentados, associados à indústria armamentista e que acreditam na repressão como fórmula contra a violência, são fáceis de memorizar, apelam ao emocional, e podem ser reproduzidas facilmente no balcão do bar, no táxi, nos programas policiais e nas redes sociais, embora reduzam o espaço de discussão à sua mínima expressão. “Um coitadinho de 17 aninhos pega uma coitadinha e dá uma estupradinha, uma matadinha [...] É isso que sociedade brasileira não suporta mais”, “estamos no Congresso, representando você, que não aguenta mais tanta impunidade e quer dar um basta nessa criminalidade dos menores”, “daqui a pouco vai [sic] faltar cemitérios para as vítimas desses marginais”, "defendo a redução da maioridade penal não por querer acabar com a violência, mas para punir os criminosos, assim como uso o agasalho para me proteger do frio, e não para acabar com o inverno"..., foram alguns dos apelos dos congressistas da bala na Câmara e em  seus perfis nas redes sociais.
Reforçada e com 30% mais de representantes que na legislatura anterior, a bancada prioriza e pretende acelerar uma nova batalha: a revogação do Estatuto do Desarmamento. A lei regula e limita desde 2003 a aquisição e porte de armas no país e, segundo o Mapa da Violência 2015, salvou 160.036 vidas. Desde sua aprovação, foram formulados dezenas de projetos de lei que buscavam flexibilizar o Estatuto sem sucesso, mas isso pode mudar, segundo os especialistas consultados. “Existe uma possibilidade bastante concreta de revisar o Estatuto. Eles estão conseguindo articular uma agenda bem populista, embora os estudos comprovam que o desarmamento diminuiu o numero de homicídios nas grandes capitais. A bancada vem com um discurso muito simplificado e simplista e propõe soluções miraculosas para problemas complexos que precisam de soluções complexas”, avalia o professor de estudos organizacionais da EAESP/FGV, Rafael Alcadipani.“Eles saíram fortalecidos, sem sombra de dúvida”, opina o cientista político e professor da FGV Carlos Pereira, “mas esta matéria é muito controversa, não há uma alternativa vencedora, e os dois lados pecam por não entenderem isso”, complementa Pereira. “Este setor lida com os problemas de violência com violência, acreditam no estado repressor, mas os parlamentares mais à esquerda apenas percebem o problema como um problema de inclusão.”
"Chegamos a um ponto de inflexão, a esquerda começou a perder terreno este ano no Brasil. O povo não aceita mais comunismo aqui, nem a depravação dos valores familiares", afirma o deputado e ex-militar Jair Bolsonaro. "É mentira que não debatemos a redução maioridade penal, há 24 anos que estamos debatendo [em referência à data de aprovação do Estatuto da Criança e o Adolescente que institui os direitos dos menores] e, enquanto você e eu conversamos, as mulheres estão sendo estupradas por marginais". "Nossa prioridade é o Estatuto do Desarmamento que tirou as armas das pessoas do bem, mas também vamos lutar para que evitar o fim dos atos de resistência, os policiais que matam um bandido devem responder em liberdade", continua o deputado.
Enquanto avançam as pautas de deputados como Bolsonaro, que defende a retirada de alunos infratores das escolas para que não contaminem os que desejam estudar, ou o líder da bancada Alberto Fraga, entre cujas propostas está a de permitir que deputados e senadores possam entrar armados no Congresso, retrocede a influencia do discurso progressista.
Há duas questões que explica o incomum desequilíbrio de forças em um Governo, considerado de esquerda, segundo Alcadipani. “Os deputados estão lidando com um problema verdadeiro que é um país com uma das maiores taxas de crimes do mundo e o excesso de violência aflige muito às pessoas. Uma segunda questão que favorece o avanço da agenda mais conservadora é o enfraquecimento absurdo do Governo, que deveria ser de esquerda, mas não consegue articular agendas menos conservadoras”, completa.
O porquê a bancada governista não consegue neutralizar o inimigo encontra seu paralelismo também nas trincheiras europeias, segundo Nobre. “Os franceses foram pegos de surpresa porque eles prepararam suas táticas de defesa de acordo à guerra anterior, quando, na verdade, estavam frente a uma tática nova de ataque. As forças opositoras aos conservadores não conseguiram ainda enfrentá-las, mas elas vão achar a maneira, é só questão de tempo. Eduardo Cunha está avançando rápido, mas está criando muitas rixas”. Para Bolsonaro a estratégia da bancada se resume em uma frase só: "Quem tem comandante [em referência ao presidente da Câmara] não perde a guerra".

Festa Literária de Paraty debate intolerância O ciclo de discussões pretende mesclar diversos olhares para falar de diversidade, pluralidade e discriminação


Arquivo Pessoal
 
A intolerância sempre existiu e, ao longo da história da civilização, encontrou os mais diferentes focos. Seja religioso, de gênero, de raça ou social, o preconceito moveu a humanidade em direção a seus maiores desastres, por isso nunca é demais reunir uma boa leva de pensadores para refletir sobre o tema. É um pouco com essa perspectiva, e com a certeza de que as diferenças são necessárias e enriquecedoras da experiência humana, que a Casa Libre e a Nuvem de Livros convidaram mais de 30 escritores, intelectuais, poetas e ativistas para uma série de debates sobre a intolerância durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece até amanhã na cidade histórica fluminense.

Dividido em mesas com temas que pensam a intolerância de perspectivas que vão da infância e da cultura afrodescendente até comida, arte, sustentabilidade e ditadura, o ciclo pretende mesclar diversos olhares para falar de diversidade, pluralidade e discriminação. “Cada mesa propõe uma abordagem diferente da intolerância, que é encarada de várias maneira”, avisa o curador, Luis Maffei.

Assim, o argentino Bruno Bimbi, que articulou o movimento pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina, vai dividir a mesa Ditaduras: da exceção à opressão, com o delegado Orlando Zaccone, cientista social especializado em exclusão, e Marcelo Godoy, autor de A casa da vovó, sobre os crimes praticados pela ditadura. Radicado no Rio de Janeiro e autor do livroCasamento igualitário, Bimbi acha perigosa a palavra tolerância quando se fala de discriminação. “Eu não gosto de usar o conceito de ‘tolerância’ nesse tipo de debates, porque a gente tolera aquilo que nos desagrada, que nos causa rejeição ou repugnância”, explica. O argentino ficou conhecido em seu país pela campanha pela aprovação da lei do casamento igualitário, mas também por ser um crítico contumaz do papa Francisco, que foi duro em relação aos homossexuais na época da aprovação da legislação. “Bom, na época do debate da lei de casamento igualitário, ele disse que o projeto de lei era uma manobra do Demônio para destruir a criação de Deus e convocou os cristãos a uma guerra ‘santa’ contra os direitos dos homossexuais. Eu acho que ele achou que se o casamento gay fosse aprovado pela primeira vez na América Latina no país onde ele era o chefe da igreja, ele perderia a chance de ser papa, que era o que ele queria”, garante Bimbi.
Consciência negra
Em Poesia e produção do pensamento, Maffei e poeta Zé Luis Rinaldi falam do papel dos versos na sociedade e Literatura e consciência negra é tema de bate-papo com a escritora mineira Conceição Evaristo, autora de romances sobre discriminação racial. Para Maffei, a contemporaneidade é multifacetada, mas duas de suas faces são muito claras: “Há o recrudescimento da intolerância em várias faces, com um crescimento preocupante da violência em nome da religião, mas, por outro lado, não se admite mais esse tipo de coisa como normal na dinâmica da sociedade”, Rinaldi aponta que o papel do escritor, quando se trata de intolerância, é pensá-la poeticamente e insistir na beleza. “Porque ela mata e é capaz de aniquilar a beleza e a riqueza humanas. Penso, entretanto, que não se trate apenas de combater`´ a intolerância, não basta apenas mantê-la sob o controle da tolerância. É necessário que o homem se disponha a um relacionamento positivo com a diferença”, diz.

Já o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Antonio Torres tem como missão falar da “fabulação do mundo na criação de imagens”, mas ele sabe que não será difícil aproximar esse tema da intolerância. A literatura reflete o mundo e Torres lembra do romance Enigmas da primavera, de João Almino, como uma leitura recente que trata da intolerância. No livro, um jovem brasileiro de origem muçulmana está a meio caminho da radicalização e do fundamentalismo religioso. O próprio Torres abordou a discriminação em Essa terra, no qual um personagem é vítima de violência homofóbica. O acadêmico observa com certo medo a onda de intolerância no Brasil. “O país vive uma onda horrível e de todo lado. É uma coisa que acho que é acirrada pela crise econômica, a crise econômica puxa coisas do arco-da-velha, sentimentos muito arcaicos. A gente assiste aqui a um conflito que a gente não sabe onde vai dar”, lamenta.
 
 
>> Três perguntas para Maria Rita Kehl
 
 
Arquivo Pessoal
 
 
Qual o desafio de tratar do tema "intolerância" no Brasil?
Tratar do tema não é difícil. Difícil é praticar a tolerância. Não conheço nenhuma receita para isso. Mas gosto de uma frase inscrita em algum lugar da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST: "contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres". É diferente ser intransigente de ser intolerante; na intransigência, você admite a diferença que o outro representa; mas, se preciso, vai lutar para impedí-lo de te constranger ou te oprimir. Algum jovem (suponho que seja um jovem) que não conheço escreveu em muros da Vila Madalena: "Odeie seu ódio". Acho essa proposta um bom começo para qualquer projeto de convívio com a diferença. Não conseguimos evitar de sentir muita raiva de algumas atitudes, algumas posições políticas, alguns discursos que nos parecem perniciosos e burros. Mas se conseguirmos não adorar nosso ódio, já conquistamos uma pequena chance de pelo menos conseguir discutir com os defensores dessas posições e discursos. Ou, se isso for impossível, ignorá-los sem agredir. O que me preocupa é que hoje no Brasil existem setores que eu chamaria de "direita enraivecida" que parecem adorar seu ódio. Aí é que mora o perigo.
 
O país vive uma onda de intolerância? O que isso significa? E que contornos tem a intolerância hoje no Brasil?
Sim, posso chamar de "onda de intolerância" o sintoma social brasileiro, hoje. Mas talvez o melhor conceito seria o termo freudiano: "narcisismo das pequenas diferenças". Segundo a proposta que Freud utiliza para entender o antissemitismo na Alemanha dos anos 1930, o ódio social raramente se dirige àqueles que são radicalmente diferentes de mim. O ódio se volta contra os que ameaçam nosso "campo narcísico". Ou seja: os que são diferentes, mas não tanto quanto eu gostaria para conseguir me imaginar especial, superior a eles. Claro que existe a revolta dos muito ricos contra a perda de alguns privilégios, sobretudo com essa crise econômica de agora. Mas será que os muito ricos perdem privilégios? Bem antes disso, eles demitem seus empregados pobres, não é? E existe também a raiva da classe média que de repente tem que conviver com os ex-pobres que agora conseguem se aproximar dos espaços até então interditados a eles. A frase que ouvi uma vez em Congonhas - "esse aeroporto agora parece uma rodoviária" - expressa com muita nitidez esse tipo de intolerância. A família de classe média que considera um privilégio viajar de avião se vê, de repente, naquele espaço "diferenciado", lado a lado com pessoas realmente pobres que conseguiram, de algum jeito, comprar passagens aéreas. Essa proximidade excessiva com quem deveria "conhecer seu lugar" ameaça certezas arcaicas, até então exclusivas das elites, que a classe média a custo alcançou.
 
A palavra tolerância não é, em si, carregada de significados problemáticos
Penso que sim. Tolerar não é amar, não é admirar, não é nem ao menos respeitar, no sentido republicano da palavra. Tolerar é aguentar, a contragosto, a presença ou a opinião alheia. Por isso mesmo, acho a proposta da tolerância algo assim como o degrau mais baixo da cidadania - que ainda assim, nos separa da barbárie. A questão do convívio com o diferente não pode ser relegada ao campo dos afetos, das decisões subjetivas. Este é um campo escorregadio, sobre o qual os próprios sujeitos não têm tanto controle quanto se espera. Para isso existem regras, existem leis, e no limite existe a polícia (se a polícia for justa, o que já é outro problema no caso das polícias brasileiras, herança militarizada da ditadura de 1964-85). Os padrões de convívio cidadão não dependem do sujeito amar o semelhante/ desconhecido com quem ele divide o espaço público. Dependem de ele temer as consequências do desrespeito. Ocorre que o Brasil é um país desigual, em vários aspectos. Tem uma elite acostumada a ser obedecida e desacostumada a negociar até mesmo o espaço da calçada com os que não reconhece como de sua classe. Tem uma classe média que gostaria de poder se comportar como essa elite, e sempre que pode, faz isso. Tem um enorme contingente de pessoas pobres e muito pobres que, se você pensar bem, são respeitosos porque tem medo, ou sentem-se inferiores. E claro, como consequência dessas diferenças abissais entre direitos e deveres de uns e outros, tem um contingente de revoltados violentos - nem todos bandidos, atenção! mas dispostos a enfrentar conflitos com violência.

Crise chega ao mercado do sexo e prostitutas estimam queda de faturamento Profissionais do setor justificam que, em tempo de recessão, esse tipo de lazer é um dos primeiros itens a serem cortados

Carlos Vieira/CB/D.A Press

O frio não afastou das ruas a garota de programa Fernanda*, 25 anos. Há três anos trabalhando como prostituta, ela não pode deixar que o clima a espante dos afazeres diários, principalmente agora, em que o cenário econômico do país não está favorável nem mesmo para as profissionais do sexo. “Convivo com homens de vários mercados. São farmacêuticos, advogados, servidores. Se a crise chegou até eles, é claro que também chegou até nós”, garante. Fernanda, que trabalha em Taguatinga, afirma que começou a sentir os efeitos desde janeiro — segundo ela, o atraso no pagamento dos servidores do Governo do Distrito Federal (GDF) foi o começo de tudo. “Foi um mês horrível, mas ainda ficou pior. Acredito que eu esteja ganhando até 50% menos atualmente”, calcula.

Apesar de a média de programas ser flutuante, ela lembra que, até o ano passado, conseguia tirar cerca de R$ 2,4 mil por semana trabalhando de quarta a domingo. Agora, mesmo batendo ponto de segunda a sábado, só chega a juntar R$ 800. “Nunca fiquei uma noite sem trabalhar, mas está bem difícil. E sinto isso na hora de gastar o que ganhei: antes, com R$ 40, comprava lanches para o meu filho que duravam uma semana. Agora, não gasto menos de R$ 110 para comprar os mesmos produtos.”

Não há números oficiais para definir o quanto as profissionais desse mercado têm sido afetadas pela crise econômica, mas a reclamação é geral: seja daquelas que ficam nas ruas, seja das que atendem em apartamentos do Plano Piloto. “Posso garantir que houve uma queda de 30% a 50% na quantidade de programas. Havia sentido uma diminuição parecida em fevereiro, mas isso é um efeito do carnaval. Essta fase atual começou em junho”, assegura Natália*, 38 anos, há quatro na profissão, que mora no Riacho Fundo I.

Mesmo as que oferecem serviços diferenciados reclamam. Carol*, 23, também faz massagens no Sudoeste, onde atende. Ela diz que cobra entre R$ 80 e R$ 170, mas todos os clientes têm pedido desconto. “Não tenho como diminuir o preço. Se fizer isso, vou ter prejuízo”, reclama.

O DF não tem um grupo específico que reúna as profissionais dessa área. Entretanto, Cida Vieira, presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig), que conta com mais de 3,5 mil associadas, garante que a crise é real e tem resultado, inclusive, em uma maior movimentação das garotas de programa entre as cidades do Brasil. “Este ano, já conversei com diversas meninas de Brasília e Goiânia que vieram para cá tentando nosso mercado. Pelo menos a média de programas diários tem se mantido”, frisa.

Parcelado no cartão
De acordo com Aparecida Silva, conselheira fiscal da Aprosmig, muitas estão procurando outras formas de conseguir manter os clientes. Depois de oferecer o parcelamento dos programas com cartão de crédito, o desconto tem sido a opção mais comum e viável. Mesmo assim, muitas prostitutas querem mudar de ramo. “Há várias delas pensando em abandonar o serviço para trabalhar como diaristas ou cuidadoras de idosos, porque isso está dando mais retorno.” Para Natália, que trabalhou como garota de programa por três anos na Europa, há um efeito cultural que agrava a situação das prostitutas brasileiras. De acordo com ela, aqui, os homens ainda se sentem na obrigação de serem os provedores da casa, o que faz com o sexo pago seja o primeiro serviço cortado da lista de prioridades. “Lá, o dinheiro que os homens ganham não vai todo para cuidar da casa. Aqui, muitos ainda acham que têm que sustentar tudo e isso muda a nossa realidade”, acredita.

Outros profissionais da indústria do sexo também reclamam da situação econômica atual. Eusébio Ribeirinha, presidente da Associação Brasileira de Motéis (Abmotéis), afirma que, desde o início de 2015, a queda média de faturamento tenha ficado em 20%, principalmente entre os clientes das classes B e C. “A última vez que havíamos sentido algo assim foi em 2009, quando ocorreu outro momento de crise. Mas, naquela época, não fomos tão afetados quanto agora.” Por isso, táticas como promoções têm sido evitadas, já que trazem um aumento nos gastos. “O que os empresários têm tentado fazer é trazer clientes que não costumam ir a motéis, criando uma ideia de hospedagem alternativa.”

Pelo menos um grupo tem visto seus ganhos aumentarem com a crise. Dados da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) mostram que esse mercado cresceu 8% em 2014 e continua em ascensão em 2015. Adelaide Rodrigues, proprietária de um sex shop no Guará, estima em 25% o crescimento nas vendas desde janeiro. “Isso ocorre porque essa é a forma mais prática, econômica e prazerosa de economizar”, brinca a empresária. Porém, ela frisa que o perfil do consumidor mudou. Se antes arriscavam mais nas escolhas, agora chegam com valores fixos e sabendo o que querem comprar, para evitar desperdício. “Junho é um mês de mais vendas por causa do Dia dos Namorados. Acredito que os casais não devam viajar em julho e isso vai manter as vendas em alta.”

Explosões de carros bomba matam 11 no Iraque no fim do Ramadã

BAGDÁ (Reuters) - Explosões de dois carros bomba mataram 11 pessoas na capital iraquiana neste sábado, afirmou a polícia e serviços de emergência. Os ataques ocorreram no fim da celebração do Ramadã.
Uma das bombas atingiu o distrito xiita de Amil, no sudoeste da cidade, matando oito pessoas e ferindo 27. A outra explosão ocorreu em uma garagem de ônibus, no sul de Bagdá, e matou outras três.
A nordeste de Bagdá, na cidade de Balad Roz, um terceiro carro bomba matou duas pessoas, disse a polícia.
Nenhum grupo reivindicou de imediato autoria dos ataques, mas combatentes do Estado Islâmico que controlam grandes porções do oeste e norte do Iraque frequentemente detonam bombas na capital.

Grécia é "dramática ilustração" do que aconteceria em Portugal sem PS

Líder socialista reafirma que o seu partido é uma "alternativa de confiança".

O secretário-geral socialista, António Costa, considerou que a situação na Grécia é a "dramática ilustração" do que aconteceria em Portugal sem o PS, garantindo uma "alternativa de confiança" que rompe com a austeridade sem se meter em aventuras.
António Costa discursava durante o encerramento do II Fórum dos Movimentos Sociais, promovido no Porto pela Juventude Socialista, onde destacou que as últimas semanas na Grécia têm sido "a dramática ilustração do que seria a situação em Portugal se não houvesse em Portugal o PS" e o país estivesse assim condenado "a ter de escolher a continuidade da austeridade que a direita defende ou a ruptura com o euro que a esquerda radical defende".
"A verdade é que há alternativa e tem de haver alternativa porque a Grécia é mesmo o melhor exemplo de como a austeridade não resolveu nenhum problema. Mas a Grécia também é bem a ilustração de que a saída do euro para resolver os problemas é uma ilusão falsa, porque a saída do euro só significa empobrecer ainda mais quem já empobreceu o bastante e demais com a própria austeridade", defendeu.
É por este motivo, de acordo com o secretário-geral do PS, que o partido se empenha em "afirmar uma alternativa de confiança", uma vez que "rompe com a austeridade e faz diferente", mas "não se mete em aventuras e não nos faz sentir da Zona Euro".
António Costa falou ainda de alguns mitos que se criaram sobre a Europa e esclareceu que "decidir quem governa em Portugal determina saber quem se senta à mesa no Conselho Europeu em Bruxelas", sendo, na sua opinião, a escolha "muito simples".
"Quem votar na coligação de direita, vota para que, em Bruxelas, fale em nome de Portugal o Dr. Passos Coelho e o que dirá é que quer austeridade para a Grécia, para a Espanha, para a Irlanda, para a Itália, porque quer super-austeridade para Portugal", alertou.
No entanto, o líder do PS garante que há alternativa se, "em vez de sentar o Dr. Pedro Passos Coelho, se sentar o líder do PS e defender em Bruxelas uma política diferente daquela política que a direita defende".
Numa sala cheia de jovens, António Costa considerou que haver mais representantes desta faixa etária na Assembleia da República, "a serem a voz directa da juventude é absolutamente essencial".
"Se há algo que eu gostaria muito que fosse possível o PS conseguir fazer no próximo processo de elaboração de listas para a Assembleia da República é poder dar um sinal muito claro à sociedade e à juventude portuguesa que no PS nós damos voz aos jovens e os jovens participam dando não só opiniões mas participando, votando, decidindo, construindo as políticas que nós queremos realizar no próximo ciclo de governação", prometeu.
Tempo ainda para críticas à governação de direita que acusou de" falar com toda a hipocrisia da grande prioridade que é necessário dar à natalidade e procura apresentar 80 medidas para promover a natalidade".
"Nós devemos dizer à direita uma coisa simples: concentrem-se no essencial. Não há natalidade sem estabilidade, não há estabilidade sem confiança e não há confiança sem emprego. É, portanto, aqui onde se têm que concentrar é no emprego, no emprego, no emprego", aconselhou.
Para o líder socialista apostar "na formação e na educação, nas políticas de emprego e de combate à precariedade, numa nova geração de políticas de habitação é absolutamente central para dar esperança, para dar confiança à juventude portuguesa".

Papa viaja à A. Latina com agenda voltada a 'periferias' Francisco fará entre 5 e 13 de julho sua segunda visita à região

Papa Francisco visitará Equador, Bolívia e Paraguai (foto: ANSA)
Papa Francisco visitará Equador, Bolívia e Paraguai (foto: ANSA) SÃO PAULOBEATRIZ FARRUGIA
(ANSA) - O papa Francisco iniciará neste domingo (5) sua segunda viagem à América Latina, passando por Equador, Bolívia e Paraguai, com a missão de discutir questões sociais e se aproximar das "periferias", marco de seu Pontificado.
    A visita ao continente era aguardada desde 2013, quando o argentino Jorge Mario Bergoglio assumiu a liderança da Igreja Católica e esteve no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
    Apesar da expectativa de uma ida à Argentina, sua terra natal, e à Colômbia, que enfrenta há décadas um confronto com o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o roteiro de Francisco inclui apenas nações que estão longe dos centros de poder da geopolítica internacional.
    "Pela primeira vez a visita será feita a três países, não os maiores e os primeiros na geopolítica, seguindo a lógica das periferias querida pelo Pontífice. A história desses três países, feita de conflitos e ditaduras, será um elemento importante para entender as mensagens que o Papa irá proferir", disse o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi.
    De acordo com o o professor Fernando Altemeyer Junior, do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP, Francisco sabe que não há necessidade de estar somente em países centrais para que sua mensagem seja ouvida.
    "O Papa possui outros interesses além da diplomacia. Ele não precisa ir a um caldeirão quando a água está fervendo", disse o especialista, em entrevista à ANSA, justificando a exclusão da Colômbia e da Argentina do roteiro.
    Para Altemeyer, os três países foram escolhidos por apresentarem semelhanças como economias em desenvolvimento, populações rurais, forte influência do catolicismo, presença de movimentos sociais e povos minoritários, como os indígenas.
    "Equador, Bolívia e Paraguai não são destinos muito prestigiados, mas o objetivo do Papa não é fazer uma missão diplomática. Ele celebrará uma missa em guarani, visitará um hospital, se reunirá com a sociedade civil e religiosos", afirmou o teólogo Jorge Claudio Ribeiro, da PUC-SP.
    "O que chama mais a atenção no Pontificado de Francisco é que ele transpassa por diversos temas, sem escolher um mote específico. Ele toca em questões de níveis variados, de pobreza, imigração e pedofilia à corrupção e ecologia", analisou o especialista.
    E é justamente o assunto do meio ambiente que pode vir à tona durante sua passagem pela América Latina. Com sua recém-lançada encíclica "Laudato Si", que fala sobre ecologia e escassez, Francisco deverá fazer apelos direcionados às populações rurais.
    "Francisco já conhece esses países desde a época em que era sacerdote e poderá fazer discursos mais livres e contundentes em sua língua materna, o espanhol", disse Altemeyer.
    Talvez em 2016 o líder da Igreja Católica faça, finalmente, uma visita à Argentina e à Colômbia, sendo que neste último país ele deve assumir um papel de mediador com as Farc.
    Para 2015, Francisco tem programada uma viagem para Cuba e Estados Unidos, após se tornar peça-chave na retomada das relações entre as duas nações, rompidas há mais de meio século. (ANSA)

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