domingo, 31 de maio de 2015

UE critica lista negra russa de políticos europeus


(Abril) O chanceler belga, Didier Reynders (de frente), reúne-se com o colega russo em Moscou
A União Europeia (UE) classificou neste sábado de "arbitrária e sem justificativa" uma lista de políticos do bloco que não podem entrar na Rússia, elaborada por Moscou em resposta às sanções europeias.
"Consideramos esta medida totalmente arbitrária e sem justificativa", disse um porta-voz da diplomacia da UE.
"A lista, de 89 nomes, foi divulgada por autoridades russas. Não temos nenhuma informação sobre a base legal, os critérios e o processo" que levou a esta decisão, indicou o porta-voz.
A lista, entregue a várias embaixadas, relaciona 89 nomes, segundo uma carta do chanceler belga, Didier Reynders, publicada no Twitter pelo eurodeputado belga Mark Demesmaeker. Segundo a carta, a Rússia pediu que os nomes não fossem divulgados.
Dezenas de personalidades russas e ucranianas pró-Rússia, entre elas o vice-premier russo, Dmitri Rogozin, foram punidas por União Europeia e Estados Unidos após a anexação da Crimeia pela Rússia, no ano passado.

Secretário de estado dos EUA, John Kerry sofre acidente na França Porta-voz informou que ele foi levado de helicóptero a hospital em Genebra. Situação de Kerry é estável, informou Secretaria de Estado.

John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, faz declaração (Foto: Reuters/Ruben Sprich)John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, faz declaração (Foto: Reuters/Ruben Sprich)
O secretário de estado dos Estados Unidos, John Kerry, sofreu um acidente de bicicleta na França neste domingo (31). De acordo com informações oficiais, ele foi levado de helicóptero a um hospital universitário em Genebra, na Suíça. Apesar de um machucado na perna, sua situação é estável, informou um porta-voz segundo a Reuters.

Sofía Vergara será homenageada pelo Sindicato dos Atores dos EUA


Sofia Vergara durante evento em Beverly Hills
A atriz colombiana Sofía Vergara, de 42 anos, receberá o Inspiration Award do Sindicato dos Atores americanos (SAG, em inglês), por seu trabalho humanitário e por seu apoio a programas sociais, anunciou a instituição nesta sexta-feira.
A estrela da série de televisão "Modern Family" tem uma fundação em seu país natal para ajudar pessoas carentes e colabora com o hospital infantil St. Jude, nos Estados Unidos.
"O apoio de Sofía aos nossos programas, seu compromisso com a alfabetização infantil e suas generosas doações encarnam o espírito desse prêmio", declarou em nota a presidente da Fundação SAG, JoBeth Williams, referindo-se à homenagem.
A premiação acontece durante um torneio de golfe em Los Angeles, em 8 de junho.
A colombiana disse que receber o prêmio é "uma honra" e agradeceu pelo trabalho da fundação, ajudando jovens artistas em sua estreia na indústria do entretenimento.
"Sei o duro que é encontrar trabalho nessa cidade", comentou.
Sofía vive um de seus melhores anos em Hollywood. Acaba de estrear seu primeiro filme como protagonista, "Belas e perseguidas", e ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
Além disso, ela é, há três anos seguidos, a atriz de televisão mais bem paga do mundo.

Polícia reprime manifestação pelo direito gay em Moscou

MOSCOU (Reuters) - A polícia reprimiu neste sábado uma manifestação pelo direito dos homossexuais no centro de Moscou, prendendo cerca de 20 pessoas, incluindo ativistas antigays que atacaram os que protestavam.
Os manifestantes pediram permissão para realizar a parada do orgulho gay, mas as autoridades de Moscou vetaram a solicitação pelo décimo ano seguido, uma atitude que simboliza a hostilidade russa em relação às expressões públicas de suporte aos direitos homossexuais.
Uma lei de 2013 contra a "propaganda" gay também gerou críticas entre ativistas dos direitos humanos na Rússia e no Ocidente. Mas, refletindo a influência da igreja ortodoxa, muitos russos apoiaram a lei ou possuem sentimentos negativos em relação aos gays.
Ativistas deste sábado se encontraram na Praça Tverskaya, perto do centro da cidade, e estavam em minoria em relação aos policiais, que se alinharam na praça e avançaram.    "É uma ilegalidade das autoridades russas e de Moscou. O que está acontecendo aqui é totalmente ilegal", afirmou Nikolai Alexeyev, um importante ativista da causa gay na nação, que foi arrastado para um carro de polícia com sangue nas mãos. "Estamos tentando realizar uma ação pacífica de defesa dos direitos humanos."    Testemunhas da Reuters viram pessoas contrárias aos gays atacando ativistas pacíficos antes de os grupos serem separados pela polícia.
(Reportagem de Parniyan Zemaryalai)

O mundo segundo o Google: Só existem mãos e bebés brancos? Uma pesquisa de mãos no Google praticamente só devolve imagens de pessoas de raça branca. Com bebés a mesma coisa. Mas uma ativista quer mudar isso Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-mundo-segundo-o-google-so-existem-maos-e-bebes-brancos=f821063#ixzz3biLPg800

O mundo segundo o Google: Só existem mãos e bebés brancos?
Reprodução
Ao utilizar o motor de busca da Google para pesquisar imagens de "mão" ou "braço", é preciso fazer scroll várias vezes (e mesmo assim, é difícil) para encontrar uma mão negra, por exemplo. E se experimentar pesquisar por "bebé", vai ver que acontece exatamente o mesmo. Encontrar uma imagem de um bebé que não seja caucasiano é uma tarefa complexa para pesquisa no Google.
Foi por isso que Johanna Burai, ativista e artista sueca, criou o site World White Web (paródia a World Wide Web, o famoso 'www'), onde convida todos os visitantes a contribuírem para uma mudança destes resultados discriminatórios. Em entrevista à revista Vice, a ativista explica que este fenómeno corresponde a uma tentativa de "normalização" da pele branca através da internet. Para encontrar imagens de pessoas que não são brancas, a Google exige que se utilizem termos de pesquisa específicos.
"É uma loucura. Este é um claro exemplo de como a norma de se ser branco se manifesta - o corpo branco é neutro. Os resultados das pesquisas são apenas um exemplo de como ser branco é uma norma da sociedade. Muitas pessoas optam por fechar os olhos aos privilégios que se tem simplesmente por se ser branco, assim como ao racismo sistemático que é vivido por pessoas de outras raças no seu dia-a-dia" diz Johanna.
Para aumentar a diversidade racial na internet, o World White Web apresenta seis imagens de mãos que não são brancas e convida os seus visitantes a promovê-las, fazendo o download e partilhando através das redes sociais. Isto porque, quanto mais um conteúdo for partilhado, mais o sistema da Google o identifica como relevante, fazendo com que as imagens subam na lista de resultados que é apresentada ao utilizador.
O World Withe Web surgiu durante o último semestre de Johanna na Universidade de Design de Estocolmo, na Suécia, e tornou-se no projeto final da estudante, que pretende lutar contra a "brancura da internet". "Quanto mais pessoas partilharem estas imagens, maior é a possibilidade de mudança."


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'Não sou vítima. Sobrevivi a Auschwitz' Sobreviveu a bombardeamentos, à vida no pior campo de concentração da II Guerra Mundial, à marcha da morte e ao tifo. Entrevista a Ida Grinspan Ler mais: http://visao.sapo.pt/nao-sou-vitima-sobrevivi-a-auschwitz=f821050#ixzz3biKhKkww

'Não sou vítima. Sobrevivi a Auschwitz'
Gonçalo Rosa da Silva
Passava da meia noite, de 30 para 31 de janeiro de 1944, quando o barulho de uma travagem brusca a acordou. Ouviu vozes. Três gendarmes franceses falavam com Alice, a ama que a acolhera em Deux-Sèvres, para a proteger dos bombardeamentos de Paris.
Ainda se lembra bem dessa noite?
Conheço o diálogo de cor. "Viemos prender a pequena judia que vive em sua casa", disseram. Alice respondeu "Não é possível! Não vão levar a miúda!" Mas o brigadeiro respondeu, secamente: "Temos ordens. Se não a levarmos, levamos o seu marido."
Ida Fensterszab (hoje Grinspan) tinha apenas 14 anos. Pensou em fugir, mas, ao saber que levariam Paul, desistiu. Não chorou quando foi presa. Nem quando a intimidaram a revelar o paradeiro do seu pai e irmão. Nem quando Alice lhe disse que, apesar das suas diligências e da certidão de batismo que lhe arranjara, não acediam a libertá-la, contou à VISÃO. Ida veio a Lisboa contar a sua história a alunos do Liceu Francês e do D. Leonor, e acedeu em ser entrevistada pela VISÃO.
De Deux-Sèvres foi levada para Paris e, de lá, para Drancy. Meteram-na num comboio fechado. Viajou durante três dias e três noites, sem comida nem espaço para as pernas, apenas com um balde de água para dezenas de pessoas e uma latrina. A água acabou e a latrina transbordou. O cheiro era insuportável. Acreditou-se que pior não poderia ser. Chegou a Birkenau na manhã de 13 de fevereiro, entre gritos ensurdecedores. Juntou-se às mulheres que diziam não estar cansadas e entrou no campo, sem saber que era vedado a menores de 16 anos.
Quantas pessoas foram levadas consigo?
O meu transporte tinha 1500 pessoas. Foram selecionados para o trabalho 210 homens e 61 mulheres. As 1629 que subiram para os camiões foram gaseados à chegada. Em 1945, dos 1500, só regressaram 18 homens e 24 mulheres.
Puseram-na nua, à frente dos SS. Raparam-lhe todos os pelos do corpo e tatuaram-lhe um número no braço esquerdo. Depois, "um duche gelado, o único que tomei no campo". Ida entrou no barracão com um nome, bem vestida, um penteado à moda e saiu um número, com uma estrela de David. "No espaço de meio dia, tudo desaba." Mas não chorou. "Não lhes quis dar essa satisfação."
Mantinha a esperança de encontrar a mãe, presa em julho de 1942. Disseram-lhe que a mãe não teria aguentado tanto tempo. Falaram-lhe das câmaras de gás. Mas não acreditou. Ninguém acreditou. Rapidamente perceberam. "Pelo cheiro a carne queimada. E os capo disseram-nos, brutalmente, que se entrássemos pela porta, saíamos pela chaminé." Passou fome e frio. Trabalhou 12 horas por dia, sete dias por semana. "Transportei pedras, um trabalho que não servia para nada. Só para nos embrutecer." Salvou pedacinhos de batatas podres, que nunca chegaria a comer. Passou pela fábrica de armamento.
Sobreviveu às seleções periódicas e às chamadas, duas vezes por dia estivessem mortas ou vivas, tinham de estar cinco na formação. Aprendeu a dar valor a pequenas coisas.
Aprendeu a dar valor à solidariedade...?
Sim. Éramos cinco numa cama. A manta era curta demais e as da ponta tinham frio. Então a mais velha organizou tudo. Todos os dias, uma diferente dormia no meio. A solidariedade não era a partilha de pão, porque não o tínhamos. Eram estas coisas.
Ida saiu de Auschwitz a 18 de janeiro de 1945, numa noite de luar. Ela e os outros prisioneiros caminharam durante três dias e três noites, sem comida. Só neve. Mal calçados mas a bom passo, porque os russos vinham mesmo atrás. "Ouvíamos o assobio das balas. E víamos, no caminho, os corpos abatidos." Sempre cinco a cinco. E, como na cama, as mais cansadas iam para o meio. Caminharam 60 quilómetros. Mais dois dias e meio de comboio, em vagons abertos. "Estava muito frio, mas abríamos a boca e tínhamos neve". Chegaram ao campo de Ravensbrück. Ficaram um mês. Seguiu-se outro campo, Neustadt-Glewe. "Delirei toda a noite. Como a febre era altíssima, deixei-me levar à enfermaria em Auschwitz, ir à enfermaria era ir à seleção, mas em Neustadt não havia câmaras de gás." Tinha os pés gelados e contraíra tifo. Uma enfermeira polaca, Wanda, arranjou-lhe medicamentos e deu-lhe sopa com batata. "No campo só bebíamos o caldo. Quando chegavam ao fundo da panela, aos legumes, trocavam-na por outra. Devo a vida a essa enfermeira", diz, comovida.
Reencontrou Wanda?
Procurei-a durante 56 anos. Quando descobri o seu apelido, escrevi-lhe. Correspondemo-nos. Ouvi a sua voz, rouca, ao telefone... Mas quando a fui ver a Varsóvia, estava em coma há dois dias. Morreu pouco depois.
Ida ficou na enfermaria de Neustadt dois meses e meio. De repente, os alemães abandonaram o campo e, dia e meio depois, os russos chegaram. "Arrasaram a entrada, cortaram a eletricidade e o arame farpado, mas nem entraram. Foram-se embora. Fomos completamente abandonadas." Mais tarde, aparecerem "três soldados americanos lindíssimos - e eu de cabelo rapado, por causa do tifo!" Deram-lhe rebuçados, chocolate e pastilhas e partiram. Ginette, que conseguia andar, foi à procura de ajuda e trouxe os russos, que as levaram, em carrinhos de mão, para o hospital militar de Neustadt. Mais um mês. "Os russos sabiam como alimentar pessoas que não comiam há muito tempo." Na altura do repatriamento, dois americanos chegaram de camião para as levar. "Não entramos em camiões! Eles não percebiam, mas, para nós, os camiões eram os de Auschwitz." Foi-lhes explicado que a guerra tinha acabado e não havia outro transporte. Os camiões transportaram-nas para Lindbourg, onde as quiseram pôr outra vez no hospital. "Desatámos a chorar. Só queríamos ir para França." E foram, por sorte, num velho avião Dakota canadiano.
"Já está. Estamos em França", ouviu, a meio do voo. E foi só aí, a sobrevoar a França, o momento em que sentiu a libertação. Chegaram a Bourgeais a 30 de maio de 1945, ainda de dia. Poderia parecer o regresso à sua vida, mas não. Este só aconteceu 16 meses depois.
Em que pensou, ao aterrar em França, depois de ter sido libertada?
Eu só queria ir ver se o meu pai tinha regressado! Mas acharam que eu não estava em estado de ir para casa. Para o confirmar, uma enfermeira pegou em mim para me dar banho. Perguntei-lhe se não era demasiado pesada e ela desatou a chorar. "Não, querida, não és", disse. Eu nem tinha noção do estado em que estava.
Mais três meses no hospital. E a notícia da morte do pai. Reviu o irmão e Alice. Seguiu para a Suíça. Mais um ano. "Foi uma terapia. Quando regressei a Paris, tinha quase 17 anos. Não pude voltar à escola." Teve de arranjar um emprego. Uma amiga da mãe aconselhou-a a fazer costura (o pai dela era alfaiate), mas hoje lamenta - teria preferido ser professora.
A guerra tinha acabado. Mas foi difícil recomeçar sem os pais. Pior ainda foi saber, imaginar, o que se passou. "Eu estive no campo, imagino tudo o que lhes possa ter acontecido, mas não sei nada." Só sabe que a mãe entrou em Auschwitz e não voltou. E que o pai foi denunciado e deportado no último transporte que saiu de Drancy, a 31 de julho de 1944.
Quando é que soube que o seu pai também estava no mesmo campo?
Em setembro de 1944, por acaso. Estava na fábrica e um homem disse-me, em francês. Foi um choque terrível. E, pela primeira vez desde que tinha sido presa, chorei.
A guerra acabou há 70 anos. Tem três dedos deformados e sequelas do tifo. Auschwitz nunca saiu completamente do seu espírito. Nunca fará o luto dos seus pais, garante. "E os que perderam os pais tiveram muito mais dificuldade em se readaptar." Viveu com o irmão, cinco anos mais velho. Na casa de família, em Paris, não encontrou nada. Os alemães haviam esvaziado tudo.
É possível esquecer, perdoar?
Nem esquecimento nem perdão! Esquecer é impossível. E para perdoar são precisos dois. Algum SS pediu perdão? Alguma vítima perdoou? Mas eu não sou uma vítima. Eu sobrevivi. Hoje, só quero que saibam o que homens puderam fazer a outros homens. Que saibam o que se passou, que pode acontecer, que estejam atentos. A Alemanha perdeu a guerra, mas o nazismo não morreu. As ideias neonazis existem, no mundo inteiro.
Ida começou a contar a sua história quando lho pediram, em 1988. Foi a Auschwitz. E depois três a quatro vezes por ano, até 2011. Foi duro. Tinha flashes de memória...
Desde os dez anos que finta a morte. Pensa nela?
Não. Tenho medo, mas também a impressão que não me acontecerá.

B.I.

Ida Grinspan nasce a 19 de novembro de 1929, em Paris
Em junho de 1940, foge para Deux Sèvres, a 400 km de Paris
Dois anos depois, a mãe é presa, em casa. O pai e o irmão conseguem esconder-se
Presa em janeiro de 1944, chega a Auschwitz-Birkenau a 13 de fevereiro, de onde só sairia em janeiro de 1945, na marcha da morte
A libertação, só a sentiria ao fim da tarde de 30 de maio de 1945, ao sobrevoar a França
O regresso à vida? "Oh lá lá, isso foi só em setembro de 1946". Tinha quase 17 anos


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Joaquim Levy: o todo-poderoso dono da tesoura

CARLINHOS MÜLLER
O ministro brasileiro da Fazenda, Joaquim Levy, tornou-se tão fundamental para o Governo da presidenta Dilma Rousseff e para a própria economia do país que saber se seus espirros são reais ou fingidos virou tema de investigação jornalística. Literalmente. No dia 22, quando o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, apareceu sozinho – sem Levy – para anunciar a série de cortes que o Governo fará este ano, em uma das entrevistas coletivas mais esperadas do ano, multiplicaram-se as especulações sobre as razões da ausência do todo-poderoso ministro da Economia nesse ato crucial. E essas especulações alimentaram os nervos dos agentes financeiros, ou seja, dos mercados. No ministério de Economia se assegurava que a razão da ausência do ministro era uma simples gripe. Mas havia quem garantisse que, na verdade, Levy não compareceu por causa de divergências com o ministro do Planejamento, ou por considerar insuficiente a economia proposta de 69 bilhões de reais – anunciada por Barbosa –, já que queria que o Governo chegasse aos 80 bilhões.
O temor dos agentes financeiros é simples: temem que Levy, devido a essas supostas divergências, abandone o Governo e deixe um vazio importante em um momento delicado para o Brasil: a economia brasileira flerta com a recessão enquanto promove um ajuste fiscal que deixa o país em um clima econômico funerário, que fará com que o PIB retroceda este ano 1,2%, segundo o Governo, ou 2%, segundo os especialistas de alguns bancos.
Para acalmar esses mercados, Levy reuniu segunda-feira a imprensa para avalizar o ajuste anunciado e – de quebra – certificar, com umas quantas tosses ao microfone transmitidas ao vivo, que efetivamente estava com gripe e, portanto, seu suposto enfrentamento com Barbosa não passava de mera especulação jornalística.
Não é a primeira vez que o timoneiro da economia brasileira precisa esclarecer mal-entendidos. No fim de março, em uma conversa com estudantes da Universidade de Chicago em São Paulo, reproduzida por um jornal brasileiro, suas palavras chegaram a ser interpretadas como uma clara falta de sintonia entre a presidenta e ele. Quando os alunos lhe perguntaram sobre as mudanças de rumo que a presidenta começava a promover em seu segundo mandato, Levy respondeu que a presidenta tinha um sincero desejo de “fazer as coisas corretamente”. Mas acrescentou: “Às vezes não faz isso nem pelo caminho mais fácil nem pelo mais efetivo, mas seu desejo sim que é sincero”. Essa frase, pronunciada em inglês, foi interpretada como uma crítica direta aos métodos de Dilma. E a interpretação da interpretação gerou, por sua vez, discussões intermináveis sobre o nível de paciência de Levy no cargo. Para aplacar a tormenta política que se formou (com possíveis repercussões nos mercados), Levy enviou uma nota aos meios de comunicação para garantir que suas palavras tinham sido mal interpretadas. Divulgou a íntegra da gravação do encontro na página web do ministério e em uma reunião com empresários insistiu em que tinha sido “armada uma confusão com uma parte fora de contexto do que foi dito”.
Desde que deixou em janeiro o posto de alto executivo no segundo maior banco brasileiro (Bradesco) para assumir o papel de homem de confiança de Dilma, esse economista de 53 anos nascido no Rio de Janeiro já teve de dedicar muito esforço e paciência para lidar com todas as armadilhas inerentes a seu cargo atual. Os que trabalharam com Levy asseguram que ele já sabia onde estava se metendo e o que o esperava, e assinalam que ele tem a pele suficientemente curtida para sobreviver a esse campo minado. “Levy tem uma resistência enorme”, diz um interlocutor que trabalhou com ele quando atuou como secretário do Tesouro do Governo Lula, entre 2003 e 2006.
O temor dos agentes financeiros é simples: temem que Levy, devido a essas supostas divergências, abandone o Governo e deixe um vazio importante em um momento delicado para o Brasil
Precisamente naquela época, Levy também participou de um ajuste fiscal severo, e ele mesmo bloqueou as arcas do dinheiro para o mesmo Lula quando este buscava financiamento. Naquela época, o PT estreava na presidência, e a desconfiança dos mercados em relação ao Brasil era muito maior do que a que existe agora. Naquela época, a denominada taxa de risco-país, medida usada pelos mercados financeiros para calibrar a segurança para os investidores, superava os 1.800 pontos. Hoje está em 225. Naquela época, Levy tinha fama de ser mais “papista que o papa”, isto é, mais severo na hora de conter os gastos do que seu próprio chefe, o então ministro da Economia, Antonio Palocci. E isso que Palocci personificou o plano de austeridade econômica que permitiu que Lula ganhasse a confiança do setor privado e financeiro.
Apelando a essa resistência, os que melhor o conhecem apostam sempre pela permanência de Levy, por mais que circulem rumores de que vá deixar o cargo. “Ele só sairá se Dilma Rousseff deixar de lhe dar o respaldo necessário. Mas as queixas entre os que trabalham no Governo são de que Levy tem poder demais e não de menos… o que demonstra que há ciúmes pelo papel destacado que ganhou com Dilma”, analisa um interlocutor próximo do poder de Brasília.
Esta semana, durante sua viagem ao México, a presidenta foi indagada sobre o que pensa da suposta relação conflitiva entre Levy e Barbosa. Ela respondeu que os dois gozam de uma posição estabelecida no Governo. E acrescentou: “Tanto Levy como Barbosa são ministros dedicados, batalhadores e trabalhadores”.
Levy está longe de ser unanimidade dentro do Governo e do próprio PT, além de ser considerado personanon grata pelos sindicatos, que enxergam nas suas tesouras uma política recessiva que rouba benefícios dos trabalhadores
Mas, Levy está longe de ser unanimidade dentro do Governo e do próprio PT, além de ser considerado persona non gratapelos sindicatos, que enxergam nas suas tesouras uma política recessiva que rouba benefícios dos trabalhadores, como no caso das Medidas Provisórias que foram a votação para dificultar o acesso ao seguro desemprego ou ao abono salarial. “As medidas do Levy são um aperto monetário gigantesco”, repetiu, nos últimos dias, o senador petista Lindberg Farias, que votou contra das medidas de ajuste no Senado. “Caminhamos conscientemente para o precipício com este ministro que só fala de ‘corte, corte, corte”, reclamou o senador em entrevista ao portal iG, admitindo que tirar o ministro seria uma solução oportuna.
Sua política de austeridade tem sido duramente criticada nas ruas, e volta e meia ele é alvo de críticas de manifestantes. No último dia 19, ele foi cercado por representantes de trabalhadores rurais e impedido de entrar no prédio do Ministério da Fazenda, em Brasília. Ficou parado por 20 minutos ouvindo reclamações dos ativistas que pediam mais atenção a programas de apoio à agricultura familiar. Na última sexta, movimentos sociais também foram às ruas para protestar contra o ajuste fiscal de Levy.
Os protestos aconteciam no mesmo dia em que foi divulgado o retrocesso de 0,2% do PIB no primeiro trimestre. E lá estava o incansável Levy, mais uma vez tranquilizando empresários, no Rio de Janeiro, tentando fazer com que considerassem as cifras menos ruins do que pareciam. Com a voz rouca – ainda não se curou totalmente de seu resfriado –, o ministro explicou de maneira didática que aqueles dados refletiam principalmente as incertezas dos primeiros meses do ano, mas o quadro atual, segundo ele, já é melhor. “Os riscos hoje são muito menores do que eram no início do ano”, disse. Recordou depois que em janeiro o país temia que a crise hídrica pudesse gerar uma crise energética, o que, pelo menos até agora, não ocorreu.
O fato de o Congresso – hostil ao Governo – aprovar medidas de ajuste é a prova de que Levy se tornou o avalista do Executivo, e não o contrário, segundo seus defensores.
Existia também a possibilidade de que as agências de risco rebaixassem o Brasil em um grau, o que tampouco aconteceu. Dessa forma, o país se livrou de mais uma marca negativa que teria acarretado menos investimento estrangeiro. “No início do ano também havia uma grande desconfiança relacionada com a Petrobras, porque ainda não tinha apresentado seu balanço financeiro correspondente a 2014 [o balanço foi apresentado, com atraso, em 22 de abril]. E isso também se resolveu”, explicou Levy. O ministro também quis se mostrar otimista ao comentar a aprovação de medidas de ajuste no Congresso que ajudarão o plano de economia do Governo.
O fato de o Congresso – hostil ao Governo – aprovar medidas de ajuste é a prova de que Levy se tornou o avalista do Executivo, e não o contrário, segundo seus defensores. A imprensa registrou os longos cafés da manhã e reuniões de Levy com deputados e senadores para convencê-los de que o ajuste era simplesmente uma questão de sobrevivência. “Este é um Governo altamente dependente de Levy”, sustenta Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central.
Enquanto isso, o ministro mantém sua particular cruzada para tentar insuflar otimismo no país. Na sexta-feira, Levy reconheceu que este ano haverá mais desemprego e que os próximos meses serão difíceis. Mas disse que há luz no fim do túnel para 2016.