domingo, 1 de novembro de 2015

"Policial bom é o que cumpre a lei", diz ministro da Justiça ao Correio

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Praticamente todos os rastilhos de pólvora espalhados pelo avanço da pauta conservadora no Congresso têm como destino o Ministério da Justiça. Propostas como a maioridade penal, a revisão do Estatuto do Desarmamento e as novas regras para demarcações de terras indígenas se sucedem sobre o colo de José Eduardo Cardozo. Em meio às saraivadas de ruralistas, religiosos e da bancada da bala, ainda pesa a ameaça constante de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O ex-deputado federal por São Paulo falou ao Correio na última quinta-feira, em uma sala de reuniões do ministério decorada por um armário e uma mesa importados do Palácio do Catete, no Rio, ambos da era Getúlio Vargas. A conversa ocorreu poucas horas antes de ele emitir uma nota cobrando explicações da Polícia Federal para a intimação de Luis Cláudio Lula da Silva às 23h. Alvo de suposta pressão do ex-presidente, ele negou relacionamento ruim com o cacique petista e garantiu ter dado parabéns a Lula pelos 70 anos. Por intermédio de um amigo, o advogado Sigmaringa Seixas. “Não costumo ligar (em aniversários), isso aqui é infernal. Normalmente, não ligo nem para parente, isso quando não esqueço os aniversários”, desconversa.

Cardozo conversou com o Correio ainda sob convalescença devido a um câncer na tireoide, que impôs a ele um delicado tratamento que incluiu três dias de isolamento total no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Com a sucessão de crises, o ministro da Justiça mais longevo do período pós-democratização, à beira de completar cinco anos no comando da pasta, dá indícios de fadiga. Admite ter colocado o cargo à disposição no fim do ano passado. “Achava que teria que ser avaliada a minha permanência sob a ótica da fadiga do material.” Com a rotina equilibrista de décadas entre a vida acadêmica e a política, o ministro aponta que uma eventual saída teria como destino a volta aos livros e à tese de doutorado em que versa sobre a crise no equilíbrio dos Três Poderes. Pela conjuntura política atual, não há campo para a pesquisa mais adequado do que o Ministério da Justiça.

Uma comissão da Câmara aprovou na semana passada a PEC da Demarcação (PEC 215), como fica o governo diante dessa proposta?
O governo tem uma posição muito clara, contrária à PEC 215. Ela transfere a iniciativa da demarcação para uma lei aprovada pelo Congresso. Isso é inconstitucional. A Constituição estabelece que as terras ocupadas pelos povos indígenas são da União com usufruto dos povos indígenas. Então, o entendimento de que ela pertence à União e são para o uso dos indígenas já está dado pela União. O que há em torno disso é uma definição técnica sobre o que é terra tradicionalmente ocupada pelos índios. Há divergências. Mas a demarcação não passa por um juízo político, mas técnico, antropológico, científico. Na medida em que o Congresso submeter a demarcação à aprovação de uma lei, o Congresso introduz na terra indígena um componente de discricionariedade política. Isso significa retirar uma competência exclusiva do governo, ofende o princípio da separação de poderes. É inconstitucional. Mesmo que o Congresso aprove, a meu ver, a inconstitucionalidade é clara.

A bancada ruralista está empenhada em aprovar essa PEC. Qual é a estratégia do governo para barrar a proposta ainda no Congresso?
Primeiro, eu acredito que essa PEC é ruim para indígenas e para produtores. Ela não é boa para ninguém. Embora alguns produtores achem que ela é boa, não é. Além de ser inconstitucional, ela acirra o conflito com os povos indígenas. Estou absolutamente convencido de que nada que passe pelo conflito gera alguma equação razoável para o problema das demarcações. Sou um defensor veemente da mediação para resolver esses conflitos, algo que faltou no passado, mas é inevitável agora. Isso porque a quase totalidade das terras que podiam ser demarcadas sem conflito, já o foram desde 1988. A partir de agora, sobraram situações conflituosas. Se não buscarmos uma pactuação para respeitar o direito de indígenas e produtores, o que eu tenho é conflito. Temos de discutir propostas que envolvam todos. O Senado aprovou uma PEC que prevê a indenização para produtores. O governo vê problemas nela também. Ela traz dificuldades, porque equipara a indenização à desapropriação. Fala em prévia e justa indenização em dinheiro para proprietários titulados. É estranho você fazer com que a União tenha de seguir um modelo de desapropriação para uma terra que já é dela. O que não quer dizer que não possamos discutir indenizações e outras alternativas que possam servir à mediação. Embora o governo não seja favorável à PEC 71, ele acha que o projeto pode ser utilizado como ponto de partida para um consenso. A própria indenização pura e simples não resolve. No Rio Grande do Sul, por exemplo, temos agricultores que não se satisfazem com a indenização, porque há uma relação de afetividade deles com a terra. Temos de pensar nas melhores formas pelas quais podemos evitar o conflito e garantir os direitos para todos. A PEC só coloca lenha na fogueira.

Quais são as alternativas?
Temos feito mesas de diálogo em todo o país. Mas é muito difícil ter um diálogo quando as lideranças dos dois lados não querem dialogar, mas impor derrota ao outro lado. E a mediação impõe a necessidade de espírito desarmado para avançar. O que nós propusemos como alternativas: em alguns casos, indenização, como no caso da Fazenda Buriti, em Mato Grosso; em outros casos, uma mediação provisória, como em Santa Catarina, onde o governo propôs ceder terra desapropriada para que os índios fossem assentados até a decisão final do Judiciário sobre o destino da área em disputa. Outra alternativa, que acabou derrotada pelo radicalismo de lideranças, surgiu no Rio Grande do Sul, em Mato Preto. Temos um laudo antropológico que propõe 600 hectares para os indígenas. Posteriormente, outro estudo da Funai reviu para 5 mil hectares o tamanho da área. Propomos ao Ministério Público, indígenas e produtores adotarem o primeiro laudo, e o governo indenizar os proprietários dentro dos 600 hectares e liberar o restante. Primeiro a proposta foi aceita, mas lideranças dos agricultores acirraram os ânimos, disseram que não se poderia assumir a existência de uma área indígena ali, pois isso implicaria em derrota para o Estado, e o acordo acabou inviabilizado.

Essa pauta conservadora do Congresso, em grande parte, passa pela sua pasta. Mas o governo está perdendo. Por quê?
Algumas situações ali colocadas transcendem a questão governamental. Há pessoas eleitas por bancadas específicas e a posição do governo acaba não decidindo o processo. Um exemplo é a questão do desarmamento, que preocupa demais o Ministério da Justiça. Todos os estudos mostram que o armamento gera violência. No entanto, alguns setores acreditam que a melhor forma de se combater a violência é armando a população. É evidente que existem interesses também da indústria armamentista por trás disso. Mas a questão é delicadíssima. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. E conseguimos combater algumas formas de violência com a aprovação do Estatuto do Desarmamento e as campanhas do desarmamento. Ao ser derrotado esse movimento, o Brasil viverá uma situação perversa de amargar um crescimento ainda maior dos seus índices de violência. O governo se empenhará ao máximo, com os parlamentares, para dialogar que essa postura é um equívoco que resultará na morte de milhões de brasileiros.

No caso da pauta conservadora, há a maioridade penal, que também representou uma derrota para o governo na Câmara. Não está faltando força política aos representantes do PT no Congresso?

Veja, é inegável que o governo passou por um processo de crise política que exigiu esforço para trazer coesão à bancada governista. Mas eu vejo que a maioridade penal é uma questão que fugiu a essa questão. Muitos parlamentares contrários ao projeto se sentiram pressionados pela opinião pública. Ouvi de alguns que eram contrários à redução que eles não queriam se indispor com 90% dos brasileiros que querem a redução. Acho que os setores contrários à redução da maioridade, entre eles o governo, têm falhado no dialogo com a sociedade. Há certos mitos, inverdades, que as pessoas repetem sem saber que são equivocadas. As pessoas não sabem que, hoje, há um conjunto de medidas para tratar o menor infrator. E que é melhor tratar essa questão sob essa lei do que colocar o menor infrator ao lado de adultos nos presídios que nós temos. Não conseguimos dialogar com a sociedade como precisávamos. E isso é um esforço que não só o governo, mas outros setores que sabem os riscos que uma pauta como essa traz para a sociedade deveriam estar juntos para refletir. Há certas questões que, pela ânsia de derrotar o governo num momento de turbulência política, fizeram com que setores da oposição que tradicionalmente têm uma postura humanista se uniram a esse tipo de pauta. Eu vi partidos oposicionistas, por exemplo, que nunca defenderam a redução da maioridade penal, defendê-la.

Por exemplo?
Eu vi setores do PSDB defendendo a redução da maioridade. Eu sei que boa parte dos líderes políticos desse partido nunca defendeu isso, ou seja, me causou espanto que o desejo tático de derrotar uma postura governista se desse ao preço de um valor que é caro para as vidas humanas.

Tem como judicializar o desarmamento? Porque no caso da demarcação tem uma brecha clara. No caso da maioridade, o governo já apontou brechas para contestar...
Eu não tenho a maior dúvida de que a maioridade é cláusula pétrea. Está na Constituição a inimputabilidade ao menor de 18 anos. E como a Constituição diz que direitos e garantias individuais não podem ser tocados, ao se reduzir a maioridade penal é evidente que eu tenho uma inconstitucionalidade. Já no desarmamento, eu tenho uma situação que não é tocada na Constituição. É evidente que podem haver discussões jurídicas sobre isso. Mas é uma discussão que acho que do ponto de vista jurídico não é tão clara quanto a redução da maioridade penal. Por isso, eu acho importante dialogarmos no Congresso Nacional e mostrarmos o grande erro que se coloca nisso.

Está faltando diálogo com a oposição?
Eu acho que é fundamental nós termos um diálogo com todos, inclusive com a oposição. Mas eu tenho sentido resistência de alguns oposicionistas. Justamente porque alguns desses líderes, eu acho que foram tomados pelo terceiro turno eleitoral desde o momento em que houve o resultado das eleições. Então, o que os move é recontar votos, o que os move é dizer que as máquinas eleitorais não captaram bem o desejo do povo, o que os move é o desejo de que as contas sejam rejeitadas para que se possa discutir um eventual impeachment. Essa é a pauta única. Eu me lembro de ver com alguns líderes oposicionistas o Ideiafix, das histórias do Asterix, que não mudava de opinião nunca. Ou seja, é aquela coisa, só pensa naquilo. E evidentemente, quando a pessoa tem a ideia fixa, só pensa naquilo, tudo o mais gira em torno daquilo. Então, você vai discutir situações econômicas para estabilidade do país? não, vamos derrotar o governo, porque quero enfraquecer o governo, porque quero agravar o problema, e quero impeachment. Tudo gira em torno da perda do mandato. Por isso, eu comprometo a economia do país, voto uma pauta bomba daquilo que eu nunca defendi, para isso eu voto a favor da maioridade penal para derrotar o governo. Eu acho incrível, embora respeite quem tenha ideias fixas dessa natureza, mas discordo veemente que toda a ação oposicionista se prenda à ideia fixa de atingir o mandato de uma presidente legitimamente eleita, mesmo que isso custe o preço da estabilidade econômica do país, custe valores humanistas, traga a morte milhões de pessoas, acho lamentável.

Quando o senhor fala em morte, refere-se a quê?

Ao desarmamento. E, se me permite, à redução da maioridade penal. Porque a mortalidade que temos no nosso presídio, só para vocês terem ideia assustadora, segundo dados do Depen, a possibilidade de uma pessoa contrair o vírus HIV é 60 vezes maior do que a possibilidade de contrair esse vírus uma pessoa que não está presa. É nessas unidades prisionais que vamos colocar os jovens? Para que, quando eles saiam, estejam contaminados com Aids?

Mas nesse caso, independentemente da redução da maioridade, já é um problema para o governo...
Já é um problema para os governos. E para a sociedade. O governo tem quatro presídios federais e está construindo o quinto. Eu sou muito criticado quando falo mal das prisões brasileiras. Como um ministro da Justiça pode falar mal dos presídios brasileiros, chamar de masmorras medievais? Não é porque eu virei ministro que a realidade mudou. Eu sempre falei isso quando era deputado. E a primeira questão que um homem público deve fazer é jamais escamotear ou encobrir a realidade. Porque a luz do sol constrói energias necessárias para a mudança. A realidade prisional do Brasil é inaceitável. E isso exige uma sensibilização dos governos, e da sociedade, para que possa entender a necessidade de que isso seja mudado. E não é reduzindo a maioridade penal que vamos resolver o problema. Só vamos agravar.

E quais são as alternativas, o que o governo pode fazer em paralelo para resolver esse problema?
O Brasil tem hoje a quarta população prisional do mundo. A maior são os Estados Unidos. A segunda é a da China, a terceira é a da Rússia. Todos três países estão aplicando alternativas penais para reduzir o encarceramento. Porque se deram conta de que o encarceramento gera violência reflexa, pela situação da pessoa quando sai, com mais dificuldade de reinserção. Os Estados Unidos, acho que reduziu 15% a população prisional no conjunto de anos. A China reduziu, a Rússia, 25%, a China, 9%. E nesses mesmos anos, comparativamente, o Brasil cresceu 33%. O país crescendo ainda aumenta a violência, mostra o caminho errado que se segue. Esse é o fato um. Fato dois: no Brasil, eu tenho hoje um deficit de quase 300 mil presos e tenho 400 mil mandados de prisão que tem de ser cumpridos. Ou seja, somando-se o deficit mais a quantidade de mandados que precisamos cumprir, é evidente que uma das alternativas é construir unidades prisionais, embora não goste, embora eu prefira construir escolas, tenho que atender essa demanda. 

O ajuste atrapalhou?

Não. Não houve contingenciamento dessa verba. Agora, o que atrapalha é que o tempo médio para construir unidades prisionais são quatro anos. Mas tivemos problemas porque elas se recusaram a abrir os preços. Claro que você tem condições de construir pelo sistema que se convencionou chamar de pré-construído, pré-fabricado. Mostravam que as empresas credenciadas não podiam ser contratadas. Então, tivemos de investir somente nos métodos tradicionais. Vamos inaugurar as primeiras agora. Ao longo do governo Dilma, nós inauguramos as unidades prisionais contratadas pelo governo do presidente Lula, 20 mil unidades. Vamos entregar as 20 mil do presidente Lula, mais 40 mil da Dilma. Dá 60 mil. Isso não arranha o nosso deficit. E a presidente, na época, disse: trabalhe no limite da sua capacidade operacional, dou o dinheiro que você precisar. Mas, se eu ficar imaginando que é a construção que resolve o problema, é um equívoco. Porque não tem dinheiro, o custeio da unidade prisional é caríssimo. O que o Estado gasta para custear é quase o preço da construção por ano. É gravíssimo. Então, qual é a alternativa que nós temos? Constrói, mas temos de desenvolver alternativas e incentivar outras alternativas. Quais são? As penas alternativas e a monitoração por tornozeleiras.

Por falar em tornozeleiras, essas prisões temporárias da Lava-Jato, algunsministros do Supremo criticam. Como o senhor avalia essas prisões temporárias?
Eu não vou falar de Lava-Jato ou operações, eu falo em tese, tá? Eu fui relator, como deputado, da atual lei de medidas cautelares, a que trata de prisões temporárias e outras sanções. Em torno da metade dos presos é provisória, não foram condenados definitivamente. É um número muito alto, inclusive num padrão mundial. A lei é muito clara quando diz que a restrição à liberdade deve ser decretada apenas quando outra medida cautelar não deva ser aplicada. Se eu tiver outra medida cautelar com eficiência, eu devo aplicar. O que parece uma obviedade total, do ponto de vista de ser uma prisão cautelar, ou seja, a cautela, se puder ser atendida sem a restrição da liberdade, é correta. Se eu aplicar a medida cautelar mais gravosa, quando uma outra puder se aplicada, é um abuso. Em todo caso, se eu puder aplicar a alguém não tenha periculosidade, antecedentes ou não traga na sua conduta prejuízo por estar com outro tipo de sanção, eu tenho o dever de fazê-la. Essa é a minha concepção. Eu tenho uma visão mais garantista quando se fala em direito penal. Mas eu vejo que alguns magistrados não pensam assim. Eles preferem a privação da liberdade como uma forma, e muitas vezes eu vejo construções jurídicas artificiosas na linha de dizer que a pessoa fere a ordem pública, é um perigo a pessoa não estar atrás, seja por uma visão do direito penal, por algum tipo de pragmatismo do ponto de vista da investigação criminal. Quer dizer, a pessoa presa, ela talvez possa fazer delação premiada, isso eu, como professor de direito, sempre fui contra.

Então o juiz Sérgio Moro está extrapolando?

Eu não falo em casos concretos.

A Polícia Federal está extrapolando?

A PF jamais prende sem ordem judicial. Se o fizer, é ilegal. E eu não comento decisões judiciais concretas. Eu acho engraçado, porque muitas vezes eu ouço críticas do tipo: “Ah, a Polícia Federal prendeu”. Agora, prisão temporária, preventiva, busca e apreensão, condução coercitiva, isto é um pedido que o delegado faz, passa pela apreciação do Ministério Público e o juiz decreta. Então, você diz “a PF abusa”. Se o juiz autorizou, é porque o juiz reconheceu que não há abuso.

O senhor tem o controle da Polícia Federal?
É uma pergunta tão curiosa que exige um esclarecimento do que seja controle. Eu poderia falar, em tese, de dois tipos de controle da Polícia Federal, um das funções administrativas e outro das investigações. As funções administrativas estão submetidas ao princípio da hierarquia, que existe em qualquer órgão do Poder Executivo. O ministro da Justiça é o chefe maior da Polícia Federal do ponto de vista da atribuição administrativa e, portanto, eu afirmo: a atividade administrativa da Polícia Federal é controlada pelo Ministério da Justiça. Se eu detecto infração funcional, algum desvio de conduta, determino imediatamente a abertura de processo disciplinar. Tenho uma característica pessoal: sou muito duro, do ponto de vista disciplinar. A minha assessoria tem a orientação, não de ser arbitrária, mas de ser rigorosa, especialmente com polícias. Policial bom é o que cumpre a lei.

E a parte das investigações?
No que diz respeito a investigações, a lei é absolutamente clara, seja o Código de Processo Penal ou a Constituição: as investigações devem ser conduzidas de forma impessoal, não devem sofrer jamais algum tipo de viés político ou econômico, seja para perseguir inimigos, seja para não investigar o que se deve em relação a amigos. Os princípios da isonomia e da impessoalidade são constitucionais. Portanto, o ministro que controla a atividade administrativa jamais pode controlar ou orientar a investigação policial, que deve ser feita com autonomia.

O ex-presidente Lula não conseguiu entender isso até hoje?

Nunca recebi nenhuma crítica direta do presidente Lula. Tenho visto situações que os jornais expressam. Eu acredito que o presidente Lula compreenda essa situação, até porque ele foi, a meu ver, um dos grandes e principais responsáveis para construir uma Polícia Federal republicana e que age com autonomia. Recordo-me, inclusive, no período em que ele era presidente, houve situações envolvendo um irmão dele que tiveram uma busca e apreensão realizada pela Polícia Federal e ele, como estadista que é, afirmou que, efetivamente, naquela situação, a PF se afirmava como autônoma e era a prova de que ele estava construindo uma mentalidade republicana.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cancelou o próprio rito para o impeachment. Como o senhor observa essa aproximação entre ele e o governo?
Não acho que isso revele nem aproximação nem distanciamento do governo. Acho que é uma postura muito comum. Quando tenho uma decisão minha impugnada na Justiça, ou discuto na Justiça até as últimas situações recursais ou digo: “olha, reconheço que havia ilegalidades e não tenho condições de manter essa polêmica e revogo o ato que é atacado.” O que acho que o presidente da Câmara fez foi apenas revogar um ato que havia sido impugnado e cujos efeitos haviam sido sustados pela Justiça. É uma postura normal e comumente adotado na administração.

O presidente do PT, Rui Falcão, classificou como arbitrária a operação da PF e o mandado de busca e apreensão.
Não sei se é bem isso. No caso do filho do presidente Lula, não foi a PF que pediu a busca de apreensão. Há um certo equívoco de percepção não do Rui, não vi falando especificamente disso. O delegado responsável pela investigação não pede a busca de apreensão. Pede uma série de diligências. Aí, o Ministério Público Federal, com base no relatório da Receita Federal, pede a busca e apreensão, que é definida pela juíza, ou seja, não vejo ali como se possa imputar qualquer juízo valorativo a um eventual arbítrio da Polícia Federal quando ela sequer pediu. É claro que a PF é executora. Se a juíza pediu, quem executa é a Polícia Federal, mas não partiu da Polícia Federal esse pedido.

Ele colocou que houve uma perseguição, inclusive da PF. Não seria uma crítica em relação ao senhor?
Acho absolutamente correto que os partidos se manifestem dando suas opiniões sobre as questões, e o PT tem o legítimo direito de se manifestar. Se há um juízo crítico em relação à postura do Ministério Público, da Polícia Federal, da magistratura, da imprensa, é legítimo que o partido se expresse. Da minha parte, o que posso dizer é o seguinte: a minha função como ministro da Justiça é cumprir a lei. Vivemos num estado de direito. Obviamente, não me compete investigar juízes, isso é atribuição do CNJ. Não me compete investigar procuradores da República, isso é uma função do Conselho Nacional do Ministério Público e das suas respectivas corregedorias, mas se houver algum fato em que o Partido dos Trabalhadores, ou qualquer partido, ou qualquer cidadão ache que houve uma violação da lei, me apontem qual é o fato, façam uma representação, que eu mando apurar, como já fiz.

Não chegou, então, ao senhor nenhum relato de insatisfação de Lula com a presidente Dilma?

Li em jornais.

As críticas do presidente do PT e as notícias atingem o senhor, fala-se em substituições, a presidente falou alguma coisa com o senhor?

A presidente em nenhum momento pediu que eu obstasse qualquer investigação ou incentivasse uma investigação por ser de um adversário político. Nunca. Tenho absoluta tranquilidade em afirmar isso de forma peremptória. E digo mais: o papel do ministro da Justiça é garantir que a investigação se realize de forma impessoal. Tenho minha consciência absolutamente tranquila. É possível que pessoas não entendam isso. Vamos ser isonômicos: isso vale tanto para forças políticas que defendem o governo quanto para forças oposicionistas.

Em 2010, o senhor escreveu uma carta dizendo que não concorreria mais a cargo legislativo. Com essa pressão toda o senhor pensa em escrever uma carta em relação ao Executivo?
Não. Escrevi uma carta aos meus eleitores porque eu tinha tido dois mandatos de vereador, dois de deputado federal e cheguei à conclusão de que o sistema político brasileiro, da forma como ele está, além de ser gerador de corrupção faz com que muitas vezes uma pessoa que tem um comportamento ético corra riscos de ser visto como não ético quando essa nunca foia sua intenção. O custo das campanhas eleitorais, o sistema da forma como está posto, perdi totalmente o estímulo de disputar eleições. Eu até brincava no parlamento: gosto de ser parlamentar, mas disputar eleição nesse sistema não quero mais.

Em relação ao PT, quando era deputado, o senhor disse “não subestime a nossa capacidade de gerar crises para nós mesmos”. Continua pensando assim?

Ampliei um pouco mais essa visão. Hoje eu diria: “não subestime a capacidade do político brasileiro de gerar crises para si próprio.” Vejo isso na situação, na oposição, é impressionante como nós geramos crises para nós mesmos no mundo político. Um livro que sempre tive na cabeceira e comecei a ler recentemente é um da Barbara Touchman, A marcha da insensatez, em que ela mostra como a vida política da humanidade muitas vezes é marcada pelo insensato. O que é insensatez? É aquilo em que você tem informação, no momento histórico que você vive, você sabe que vai fazer algo insensato e faz. Por isso acho que a minha frase hoje é injusta em relação ao PT. Ela se estende a toda a classe política brasileira. Você sabe que é insensato, mas faz. A questão do impeachment, por exemplo, vejo assim.

Assim como?

Os oposicionistas sabem que não tem base jurídica para o impeachment. Eu sei que eles sabem que isso, de certa forma, prejudica o país. Eu sei que eles sabem que isso tem um efeito reflexo contra a própria oposição. E, no entanto, fazem.

A que se deve a baixa popularidade da presidente?
A uma série de fatores. Eu digo o seguinte: toda a situação de popularidade ou impopularidade se prende a um conjunto de fatores, sempre episódicos. Dilma, no primeiro mandato, teve grandes picos de popularidade. Hoje, não. No caso específico da presidente, tivemos fatores econômicos, políticos. Nenhum governo, por mais que tenha uma postura de combate à corrupção, quando a corrupção floresce traz uma sensação de mal-estar para o próprio governo. É inevitável. O evidenciado ato de corrupção traz um mal-estar social que é muito mais prejudicial para quem governa. Por isso muitas vezes até governantes honestos não queiram combater a corrupção como devem. Nesse ponto, justiça seja feita à presidente Dilma: em nenhum momento ela engendrou qualquer política que paralisasse ações de combate à corrupção. Ao contrário, sempre incentivou que a corrução fosse combatida.

E a ida e volta do Eduardo Cunha em relação ao governo?
Não comento tais questões, até por respeito à separação dos poderes. O presidente Eduardo Cunha, como presidente da Câmara, toma as condutas que acha que deve tomar, e ao governo resta ter uma relação institucional com o Legislativo, como do Judiciário.

Não há acordo com o presidente da Câmara para que ele não aprove o pedido de impeachment?
Não.

Existe uma determinação do partido em não avançar contra o Eduardo Cunha?
Eu sempre tive, desde a fundação do PT, uma forte atuação partidária. Menos em dois períodos: quando eu fui secretário de Governo da Prefeitura de São Paulo, e agora, aqui, como ministro. Quando eu me encontro no Executivo, eu não tenho como participar da vida partidária, assim é incorreto discutir posições da minha corrente ou de outra.

Em relação às críticas que têm sido dirigidas pelo partido, o senhor pediu para ser incluído na reforma ministerial?
A conversa principal que eu tive com a presidente foi em novembro do ano passado. E eu expus à presidente que em determinados casos tem uma fadiga de material inexorável. Eu observei a ele que, ao completar quatro anos, eu já seria um dos ministros com mais tempo em exercício no cargo. Acima de mim, em período contínuo, tem dois ministros da época da ditadura. Um é o Armando Falcão, e o outro, o Francisco Campos, mesmo assim não passa dos seis anos. Eu observei que, independentemente da minha vontade pessoal ou não, eu disse que era de uma lealdade ao projeto da presidente Dilma. E aqui ficaria o quanto ela quisesse, mas achava que teria que ser avaliada essa questão da minha permanência sob a ótica da fadiga do material que existe. Ela entendeu que eu deveria ficar. A presidente é quem decide quem deve ficar no governo.

Nunca houve um prazo para a saída?
Não. E posso afirmar o seguinte: na hora que eu sair do governo, a presidente Dilma Rousseff terá um cidadão que vai defender o seu governo, esteja onde quer que esteja. Porque eu acredito na honestidade e no projeto que ela defende.

Qual foi o momento mais difícil que o senhor enfrentou no cargo?
Talvez fosse melhor você perguntar qual foi o período mais fácil. Eu acho que no fim do primeiro ano de governo.

Antes das manifestações?
Sim, antes das manifestações de junho de 2013. Se for observar, eu tive várias situações atípicas. Eu tive a visita do papa, a Copa do Mundo, a Copa das Confederações, as manifestações. Só para citar a grosso modo situações atípicas.

Uma eleição mais conflagrada...
Uma eleição difícil, umas das mais disputadas da história. Estamos tendo aqui um período de investigação muito forte teve o mensalão, mas hoje tem um período bastante tenso por força das investigações. E temos agora as Olimpíadas, em que existe toda uma preparação do Ministério da Justiça. Mas acho que o período mais tranquilo foi o fim do primeiro ano, quando os principais programas já estavam desenvolvidos, os projetos das penitenciárias. Foi um período mais tranquilo. Fora isso...

O que o senhor achou da decisão da Marta de sair do PT?

Sinceramente, achei uma decisão incorreta dela, mas respeito.

O presidente Lula procurou o senhor para saber algo a respeito do filho? Ele telefonou?
Não.

O senhor não ligou para ele nem para dar os parabéns pelo aniversário?
Não (risos). Na verdade, eu tenho uma relação pessoal com o presidente Lula que, embora as pessoas em geral não acreditem, é muito boa. Converso com o presidente Lula e, em nenhum momento, ele me dirigiu qualquer crítica à minha conduta ou me fez algum tipo de observação que eu achasse que era inaceitável.

Mas por que o senhor não ligou?
Eu encaminhei o parabéns através de um grande amigo, o Sigmaringa Seixas, mandei um abraço.

O senhor achou que um telefonema poderia soar como provocação?

Não costumo ligar, isso aqui é infernal, normalmente não ligo nem para parente, isso quando não esqueço os aniversários.

Mas o do Lula é difícil esquecer, afinal, foi noticiado em todos os jornais.

Se você visse como é que é o dia a dia aqui, você entenderia. Mas o Sigmaringa me representou.







Academia e política lado a lado

Eu sempre tive um pé em duas canoas na minha vida, um lado acadêmico e um lado político muito fortes. Gosto de dar aulas e coordeno três cursos nas sextas e nos sábados. Eu sou professor da PUC de São Paulo, mas estou licenciado nesse período de ministério. E permaneço dando aulas na Escola Paulista de Direito, em dois cursos de pós-graduação, lato senso, de direito municipal, e um MBA de gestão governamental. E dou aula no Instituto Damázio, um curso de pós-graduação em direito público, além de gravar aulas para o IOB. Eu me filiei ao PT quando era estudante, em 1980. Depois, me tornei procurador da Prefeitura de São Paulo concursado e fui trabalhar na assessoria de uma vereadora do PT. Comecei a travar um contato muito forte com Luíza Erundina, quando ela virou deputada. Quando ela se elege prefeita, eu viro secretário de Governo aos 27 anos. Depois disso, disputei a eleição para vereador e não me elegi. No governo Itamar, eu venho para Brasília como chefe de gabinete da Erundina, na Secretaria de Administração Federal. Ela dura pouco no governo, quatro ou cinco meses. Depois, disputo novamente a eleição para vereador e sou o último da bancada, bato na trave, mas entro. Naquele período, teve a história, em São Paulo, da máfia das propinas, que envolvia acusações contra vereadores, deputados e o prefeito Celso Pitta. Presido a CPI da Máfia das Propinas, o que na época me deu muito destaque, visibilidade A minha trajetória é muito curiosa. Na primeira eleição, tive 9 mil votos, Na segunda, 16 mil votos. E depois 229 mil votos, a maior votação da história do Brasil para um vereador. Marta se elege e eu fico dois anos como presidente da Câmara. Depois, me elejo deputado federal e fico dois mandatos na Câmara. Eu gosto de Brasília, mas o bate e volta no fim de semana é desgastante.

Delegação russa chega ao Egito para iniciar investigação sobre acidente

CAIRO (Reuters) - O ministro dos Transportes da Rússia e uma equipe de investigadores de alto nível chegou ao Cairo para ajudar as autoridades egípcias a determinarem o que causou o acidente com um avião russo na península do Sinai, matando todas as 224 pessoas a bordo.
O Airbus A321, operado pela empresa russa Kogalymavia sob o nome comercial de Metrojet, viajava do resort de Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho, a São Petersburgo, na Rússia, quando caiu na região central do Sinai no sábado.
Ele caiu em uma região montanhosa pouco depois de perder contato com o radar perto de altitude de cruzeiro.
Um grupo militante afiliado ao Estado Islâmico no Egito, Província do Sinai, disse em comunicado que derrubou o avião "em resposta aos ataques aéreos russos que mataram centenas de muçulmanos em terras sírias". Mas o ministro do Transporte da Rússia, Maxim Sokolov, disse à agência de notícias Interfax que a afirmação "não pode ser considerada precisa".
As buscas por corpos foram retomadas no local do acidente neste domingo e especialistas russos já estão no local ajudando a recuperar os corpos e iniciando as investigações sobre a causa.
(Reportagem de Eric Knecht, Abdel Nasser Abou ElFadl, Omar Fahmy e Lin Noueihed)

Eleições para presidência da OAB devem levar 50 mil profissionais às urnas

Valério Ayres/CB/D.A Press

Mais de 50 mil profissionais vão às urnas em 16 de novembro para escolher o próximo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB/DF). Três candidatos disputam o comando da entidade, que gerencia um orçamento anual de R$ 17 milhões. O atual secretário-geral adjunto da OAB, Juliano Costa Couto, é o concorrente da situação. Délio Lins e Silva Júnior e Paulo Roque fazem oposição à atual gestão e sonham conquistar a presidência da Ordem. Para fomentar o debate, o Correio Braziliense e a TV Brasília realizaram uma entrevista com os candidatos. Somente Juliano Costa Couto rejeitou o convite para participar do bate-papo. O programa CB.Poder exibirá o debate amanhã, às 18h, e à 0h30 de quarta.

Paulo Roque e Délio Lins e Silva fizeram duras críticas à atual gestão da entidade. Eles consideram que a Ordem está omissa na proteção de prerrogativa de advogados e na defesa de grandes temas de interesse da sociedade e da categoria. Roque e Délio falaram sobre o impacto da greve do Judiciário no trabalho dos advogados e criticaram a postura da OAB durante a paralisação. “A sensação que temos é de que se quer proteger a posição dos sindicatos”, disse Paulo Roque. O atual presidente da Ordem, Ibaneis Rocha, advoga para a entidade que representa os servidores do Judiciário.

Os candidatos à presidência da Ordem falaram sobre o desrespeito às prerrogativas dos advogados, enfrentado no dia a dia dos tribunais. Eles também denunciaram a criminalização dos advogados que defendem acusados de crimes de grande repercussão, como os réus da Operação Lava-Jato. Na semana passada, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki determinou a quebra do sigilo de profissionais que defendem acusados de envolvimento no escândalo. “É preciso saber separar o advogado do acusado. Todos os dias temos que enfrentar a violação de nossas prerrogativas”, comentou Délio Lins e Silva Júnior. “Como é que um advogado entra em uma operação para fazer uma defesa e sai como investigado?”, questiona Paulo Roque.

Os dois concorrentes à presidência da Ordem reconheceram que há pouca mobilização entre a categoria. “Os advogados não estão nem aí para a eleição. Acho que isso é reflexo da política do nosso país”, comentou Délio. Os participantes da entrevista também falaram sobre os gastos com a campanha à presidência da Ordem. Como a OAB tem uma postura crítica com relação aos gastos das disputas políticas, é grande a pressão da categoria por campanhas mais enxutas. “A Ordem vive criticando os gastos das eleições. Por que não fazer isso em casa?”, questiona Paulo Roque. Ele declarou que gastará apenas R$ 65 mil na disputa. Délio não estabeleceu teto para as despesas, mas garantiu que está fazendo uma campanha barata, apenas com contribuições de integrantes da chapa. “Custo zero não existe. Mas é muito errado gastar milhões para ser presidente da OAB”, comentou Délio.

Decepção política funda a República Federativa do Brasil inflado Após boneco de Lula, já surgiram versões em lona de Dilma, Alckmin, Haddad e Pimentel


O grande personagem político do Brasil em 2015 tem 12 metros de altura e, apesar de ser preenchido por ar, pesa 150 quilos. No ano em que o país viu enfim nascer a aguardada Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, e o Partido Novo surgiu com a promessa de se firmar como a primeira legenda autenticamente liberal da política nacional, nenhuma novidade foi capaz de mobilizar tantas paixões quanto o boneco inflável Pixuleco, o famoso Lula Inflado. Concebido pelo Movimento Brasil, a caricatura de lona do ex-presidente Lula (alimentada por dois motores de propulsão) passou a protagonizar protestos país afora, virou alvo de atentados a faca e inspirou a criação de outros infláveis de protesto.

O conturbado clima político e a crise econômica, que eleva a taxa de desemprego desde o início do ano, parecem compor o ambiente ideal para a proliferação dos bonecos de protesto. Pesquisas de opinião recentes confirmam o desgaste das maiores lideranças políticas do país. Além da queda na popularidade de Dilma e Lula, houve aumento na rejeição de nomes vistos como opções ao Governo petista, como o senador Aécio Neves, a ex-ministra Marina Silva e o governador Alckmin. A insatisfação tem levado mais gente às ruas, e o sucesso do Pixuleco parece ter tornado irresistível a utilização de infláveis nas manifestações.Desde que o Lula Inflado apareceu no gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no dia 16 de agosto, gerando uma infinidade de memes na Internet, quase todo grande protesto político passou a contar com figuras infláveis, com custo médio de produção entre 10.000 reais e 20.000 reais. Só a presidenta Dilma Rousseff já ganhou duas versões, batizadas de Pinóquia e Bandilma. Em Minas Gerais, Lula protagoniza outro boneco, com roupa de presidiário, a exemplo do inflado original, mas com chifres e com Dilma e o governador do estado, Fernando Pimentel (PT), acoplados ao lado (veja galeria de fotos). Em São Paulo, primeiro surgiu um boneco para satirizar as políticas de mobilidade do prefeito Fernando Haddad (PT), o Raddard, para depois aparecer o Chuchuleco, crítica ao governador Geraldo Alckmin (PSDB).
nova febre dos inflados políticos, que têm o poder de simbolizar o protesto em apenas uma imagem, começou antes mesmo do Lula Inflado, segundo Denise Faria, gerente da Companhia do inflável. No início do ano, a empresa produziu um elefante branco com a estrela do PT que foi usado em uma manifestação de empresários. "Costumamos fazer bonecos de dois ou três metros de políticos, mas apenas durante campanhas eleitorais", conta a gerente, cuja empresa é responsável por um dragão de três cabeças inflável que a Força Sindical usou neste mês para protestar contra a inflação, o desemprego e os juros altos na avenida Paulista.
Responsável por fabricar os patos amarelos que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) espalha pelo Brasil em protesto contra o possível aumento de impostos, Denilson Souza, dono da fábrica Big Format, calcula em 25% o aumento da busca pelos serviços de sua empresa neste ano. “A procura por infláveis em geral aumentou bastante, também por pessoas físicas, e com certeza a exposição nos protestos contribuiu para isso. Mas nem todo mundo fecha os pedidos depois de se deparar com o tamanho do investimento”, conta o fabricante, que já produziu um lote de Pixulecos em tamanho pequeno.

Lula

Apesar da proliferação de infláveis políticos, Lula inflado segue sendo o grande fenômeno da turma, com reproduções vendidas de 20 a 40 reais e carregadas em todos os protestos contra o Governo, inclusive dentro da Câmara dos Deputados. Idealizado inicialmente como um balão, que exigiria a utilização de gás hélio, o boneco ficou no chão por questões de segurança e quase não sai do papel por conta dos custos. Os 12.000 reais necessários para criá-lo foram reunidos graças a vaquinhas. Essa mobilização, aliás, pode ser uma das razões de seu sucesso.
Para o cientista político Paulo Kramer, professor da Universidade de Brasília (UnB), a espontaneidade e a falta de estruturas políticas por trás da iniciativa contaram a favor do Lula inflado. "Mas o momento também ajudou. Lula está em seu nível mais baixo de prestígio", avalia Kramer, para quem o Pixuleco se tornou um "passo muito significativo no processo de desconstrução da imagem pública que ele já vem sofrendo há algum tempo". Não por acaso, militantes ligados ao PT acertaram facadas por mais de uma vez no boneco. Apesar dos sustos e arranhões, contudo, a capacidade do Pixuleco de irritar os partidários do ex-presidente Lula permanece intacta.

Dia de Finados Levantamento mostra irregularidades em empresa gestora de cemitérios no DF Campo da Esperança Serviços Ltda., que administra as necrópoles, peca na venda dos jazigos e na emissão do cupom fiscal. GDF notificou a empresa

Carlos Vieira/CB/D.A Press


Os preços, o atendimento e os serviços oferecidos pelos cemitérios do Distrito Federal podem tornar a morte muito mais dolorosa. O Correio percorreu as necrópoles da cidade, todas administradas pela Campo da Esperança Serviços Ltda., e constatou irregularidades na operação do consórcio, às vésperas do Dia de Finados. Falha em venda de jazigos e falta de cupom fiscal detalhado aparecem na lista de problemas.

A Campo da Esperança administra os seis cemitérios do DF, localizado no Plano Piloto, no Gama, em Planaltina, Sobradinho, Taguatinga e Brazlândia. A empresa venceu a licitação em 2001, com contrato válido por 30 anos. Mesmo assim, ela deve obedecer a uma tabela de preços e serviços determinada pelo governo e publicada no Diário Oficial do DF — fica exposta na administração de cada local.

Apesar disso, quem não estiver atento a isso poderá ser enganado. O Correio fez o teste. Foi até a administração do Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, e pediu um orçamento. Foram três tentativas. Na primeira, a atendente ofereceu apenas duas opções, em forma de pacote: jazigo perpétuo de duas gavetas, a R$ 3.009,35 e jazigo perpétuo de três gavetas, a R$ 3.090,13. Ambos deveriam ser pagos divididos no cartão ou no boleto, o último com juros. Mesmo após a reportagem indicar, na tabela, o arrendamento de um jazigo por 10 anos, o que amenizaria o gasto, pois o aluguel custa, no total, R$ 85,04, a funcionária insistiu que não havia a possibilidade. Só seria possível enterrar um ente querido se comprasse um jazigo, pois o cemitério não “trabalhava mais com o arrendamento”.

O mesmo aconteceu com a família da advogada Alessandra Santana Ribeiro, 34 anos. A mãe dela faleceu em 8 de abril. “Fui obrigada a ouvir da funcionária exatamente assim: “É um absurdo vocês não comprarem o jazigo para a sua mãe. Pessoas tão mais pobrinhas compram”. Eles abusam do sentimental para obrigar a gente a fazer o que eles querem”, criticou. Ainda segundo Alessandra, após negar a compra, foi preciso discutir, levantar a voz e usar da advocacia para conseguir o arrendamento. “Depois disso, ela ainda começou a nos tratar mal, negou alguns serviços, como o kit de água e café. Fomos boicotados”, avaliou.

Segundo o marido de Alessandra e também advogado, Flávio Christmann Reis, 31, a família se sentiu pressionada na hora de contratar o serviço. “Eles omitem a possibilidade de as pessoas arrendarem e pressionam pela aquisição de jazigos perpétuos de duas e três gavetas”, reforçou. Outro problema, segundo ele, é a venda casada. No caso das placas de identificação com endereço do jazigo e identidade do falecido, o cemitério vende os dois por R$ 331. No entanto, se o cliente não quiser as placas, eles não fazem a identificação. “Eles cobram o olho da cara e não colocam o bloco, justamente para não ter como fazer as placas com outra empresa. O túmulo da minha sogra estava sem identificação, e fomos obrigados a voltar lá e pagar esse valor”, lamentou Flávio.

Mais uma irregularidade é evidenciada quando outra atendente muda o discurso — desta vez, no Cemitério de Taguatinga. Ela também ofereceu à reportagem apenas os pacotes de R$ 3 mil. Mas, ao ser questionada sobre os mais baratos, ela respondeu: “Arrendar não é indicado pelo cemitério, mas, se for assim, terá de ser de duas gavetas, sendo que uma continuará do cemitério”, explicou. Dessa forma, a família alugaria a gaveta de baixo e, futuramente, a necrópole arrendaria a de cima. Como no caso da opção de locar por 10 anos o prazo máximo é de até 20 anos, ao fim desse tempo, para retirar os restos mortais da segunda gaveta terá, obrigatoriamente, que mexer no corpo de cima, possivelmente de outra família. “Terá de resolver na Justiça”, avisou a funcionária. 

"A saúde só muda se a educação mudar", diz presidente da Rede Sarah

 Ana Dubeux , Ana Maria Campos , Carlos Alexandre /
Ed Alves/CB/D.A Press
 

O reconhecimento internacional da Rede Sarah se deve, em boa medida, aos multitalentos de Lúcia Willadino Braga. Em uma trajetória marcada por caminhos improváveis e quase aleatórios, a gaúcha de Porto Alegre foi decisiva para tornar o centro de reabilitação inaugurado em 1960, por JK, uma referência mundial na medicina e na gestão pública. Neta de alemã e de índio, música autodidata e de uma curiosidade insaciável, ela deve a Brasília o espírito inovador que marca seus projetos em neurociência. Em meio àquela utopia que nascia no Planalto Central naqueles anos pioneiros, Lúcia aprendeu cedo que era possível fazer tudo a partir do nada. “Todo mundo tinha que criar, e acho que isso me abriu uma proposta de criação”, diz. Com forte inovação e uma gestão de alto nível, marcada pela participação de todos os colaboradores, Lucinha — como é conhecida — representa o expoente de um modelo exemplar, diametralmente oposto à calamidade frequentemente diagnosticada na saúde pública nacional — inclusive no Distrito Federal. Nesta entrevista ao Correio, Lúcia, presidente da Rede Sarah, avalia que a ausência de uma filosofia e de um projeto de longo prazo são graves lacunas que impedem avanços no atendimento à população. E acredita que a solução para os hospitais está nas escolas: “Com educação você já melhora muitíssimo o nível de saúde.”
A infância numa cidade em construção influenciou sua trajetória?
Foi determinante. Mostrou que qualquer um pode fazer alguma coisa, se quiser, se você se empenhar. Isso me influenciou e me influencia até hoje. Não consigo ver que uma coisa é impossível. Vejo que há obstáculos que a gente supera. E outra coisa que me influenciou muito foi o plano educacional.

Onde você estudou?
O Anísio Teixeira e o Darcy Ribeiro criaram uma proposta educacional completamente inovadora e fomos cobaias. Mas foi uma maravilha ter sido cobaia disso. Estudei num lugar chamado Escola de Aplicação, que era um barraco de madeira, do lado do Elefante Branco. Isso no ensino de primeira a quarta séries. Nas escolas, não tínhamos que decorar nada. A ideia era ensinar a pensar. Não decorei nem a tabuada. Até hoje não sei e nunca me fez falta nenhuma. A ideia era aprender a pensar. E isso me influenciou muito.

Depois veio a ditadura...
Tinha uma coisa nas escolas que era um tanto quanto subversiva. Os professores diziam: “Olha, você não pode falar isso, mas tem que pensar aquilo”. Isso estava arraigado nos professores. O professor vinha, por exemplo, com Construção, do Chico Buarque, para debater. Havia um processo de politização. E quando entrei na UnB, em 1976, muito jovem, a ditadura ainda não tinha conseguido sufocar a universidade. E aí você podia fazer matéria em qualquer departamento.

Que curso?
Fiz música, psicologia. Fiz matérias de vários departamentos. Acho que sou uma autodidata, porque, olhando hoje o conceito de neurociência, vejo que desde muito cedo, nos anos 1970, venho buscando essa diversidade. Pensava que seria música porque, com cinco anos, aprendi a ler partitura sozinha e curti. Aprendi “n” instrumentos.

Qual é o preferido?
Gostei de todos. Aprendi regência com o Cláudio Santoro, na UnB, toquei piano, oboé, violino, flauta... Pensava que faria isso da minha vida, mas, quando cheguei à UnB, vi que tinha uma matéria sobre o desenvolvimento do pensamento da criança. Pensei: “É isso que me interessa...” Aí tinha matéria sobre neurologia. Achei muito legal. Comecei, então, a pegar as disciplinas e montar ideias na minha cabeça.

Foram os primeiros projetos?
No meio do segundo semestre, tive a ideia de desenvolver um projeto, numa bolsa de iniciação científica do CNPq, que era trabalhar parâmetros do som com as crianças com lesão cerebral para desenvolver o pensamento. Foi em cima da ideia de trabalhar o pensamento cognitivo. Esse projeto foi aprovado, super bem cotado. Eu tinha 19 anos. E aí me disseram que, se conseguisse um lugar para implantar o projeto, poderia executar. Deixei o projeto no Hospital de Base e no Sarah. De repente, o Sarah falou que poderia vir. Cheguei aqui, não tinha local para mim e muito menos material. Aí arrumei, dentro daquela ideia de que se você não tem, faz. Eles me deixaram guardar o material dentro do ar-condicionado. E trabalhava do lado de fora.

Conheceu Campos da Paz nessa época?
Ele me viu aqui, na enfermaria, tocando flauta. Fazia esse trabalho com as crianças. Ele achou curioso o projeto e me convidou para apresentar numa sessão clínica. Quando me formei, fiz seleção para cá e entrei no Centro de Pesquisa. E aí, já trabalhando aqui, fui fazer mestrado e doutorado, sempre em estudos sobre o cérebro. Depois, fiz pós-doutorado em ciências. Campos tinha essa abertura para o novo. Ele não se assustava.

Como você, que não se enquadra e busca sempre o novo, tem esse lado executiva? Isso se encaixa? São duas Lucinhas ou uma só?
Encaixa-se muito. É uma Lucinha só. Da mesma forma que posso criar um novo método de tratamento, posso construir uma organização do trabalho, posso construir um hospital. Então, é uma coisa gostosa. Bem novinha, já tinha essa facilidade de organizar as coisas e as pessoas. Tanto que assumi a chefia da área de lesão cerebral com 22 anos. Assumi a coordenação porque a própria equipe pediu. Organizava bem. Você pode ser criativa na gestão. Combina bem. A gestão não precisa ser pesada, burocratizada. Então comecei no setor de lesão cerebral infantil. Depois, no setor de lesão cerebral como um todo, coordenei praticamente todos os programas do Sarah. No fim, nos anos 1980, era gerente de reabilitação. Tudo sobre reabilitação era comigo.

O fato de não ser médica prejudicou? Sofreu preconceito?
Nunca senti preconceito porque nunca tentei ocupar o espaço de ninguém. Muitas pessoas falam: “A dra. Lúcia não é médica”. É comum ouvir isso, mas não incomoda porque acho natural que as pessoas pensem que, para ser diretor de hospital, precisa ser médico. Então, por mais que diga que não sou, volta. É recorrente. Mas não me afeta porque nunca quis ser médica.

Teria feito o curso, se quisesse...

Passei no vestibular com uma das maiores notas da UnB. Meu sogro era médico e ele queria muito que fizesse medicina. Só fiz matérias que me interessavam, estudei anatomia e outras. Gosto de aprender e faz muito bem para o cérebro.

Por que é tão difícil adotar um modelo de sucesso como o do Sarah na saúde pública?
Tem muitos fatores. O Sarah tem alguns diferenciais. Por exemplo, a gente tem uma filosofia. Todo mundo vem para uma seleção pública, faz um treinamento para igualar princípios filosóficos. Trabalhamos com dedicação exclusiva. Então, um grupo pequeno de profissionais pode dar um atendimento de qualidade. Muitos hospitais nos procuraram querendo fazer igual. Mas muitos dizem que dedicação exclusiva não dá. Aí começa a não dar certo.

São bons salários para dedicação exclusiva?

São salários dignos. Para ter um bom profissional, não posso pagar uma miséria, porque ele não estará aqui. Mas o que a gente vê lá fora é que o trabalho de um é dividido por quatro pessoas, cada uma fazendo algumas horas. A organização do trabalho é muito importante. Há também um diferencial nosso em termos da gestão de materiais. Muitas unidades têm o tomógrafo, mas está quebrado; têm a agulha, mas falta a linha; têm o cirurgião, mas falta o anestesista. Em saúde, não pode faltar nada. Isso não é uma questão de custo. É uma questão de planejamento. Claro que se paga por tudo o que se utiliza, mas não deixamos as coisas perderem a validade, não deixamos as coisas no estoque e conseguimos planejar. Isso em saúde é fundamental.

Falta de medicamentos e má utilização de equipamentos são grandes problemas da saúde pública...
Sim, na falta de planejamento, a pessoa manda comprar um equipamento e não tem onde instalar. Como vou comprar uma ressonância sem ter onde instalar? Outra coisa fundamental é manutenção. Estamos num prédio de 1980 e aqui não tem nada quebrado. Não fica nada quebrado nenhum dia. Aqui trabalhamos também com o princípio da economicidade. Não somos donos do Sarah. O dono do Sarah é o povo brasileiro. Essas responsabilidades, essa consciência, esse cuidado com o bem público são muito fortes na nossa filosofia. Ninguém deixa uma luz ligada; a gente usa iluminação natural, ventilação...

Tem muito rigor?
Sim. Mas quem não se adapta vai embora. Não aguenta. Aqui ninguém é mais importante do que ninguém. O médico não é mais importante, como a gente vê por aí. A pessoa que limpa o chão faz uma seleção pública, recebe treinamento que passa por um olhar no microscópio. Passa por uma filosofia. Ele sabe que precisa limpar para retirar as bactérias. Com isso, temos a menor taxa de infecção do mundo. Esses profissionais de higiene são profissionais de saúde.

Usar organizações sociais na gestão de hospitais é uma saída?
Depende das instituições contratadas. Já houve uma experiência em Brasília que não deu certo. As organizações sociais surgiram como espelho do Sarah. Só que a gente tem essas peculiaridades que vão desde o treinamento de um auxiliar de higiene até os profissionais de saúde. A gente tem, por exemplo, um programa muito legal, que se chama Paciente por um dia. O pessoal novo se coloca como tetraplégico, paraplégico, afásico (não fala), e os outros colegas vão tratar dele. Alguém vai alimentar, vai ver o ritmo... Isso dá um outro olhar, mais humano. Temos uma perspectiva humanística. Quando se pergunta a um ortopedista: “O que você olha num paciente?” Olhe o olho.

Então, depende mais de uma filosofia de trabalho?
De uma filosofia e de um modelo de trabalho. Tem que ter o modelo, desde a gestão dos recursos humanos; precisa ter os profissionais trabalhando com prazer. Assim é também no tratamento, precisa ser prazeroso para os pacientes. Desenvolvemos um método que se chama neuroreabilitação ecológica. Se você não pode tirar uma pessoa do hospital para a vida, então tem de levar o hospital para a vida. Um exemplo: as pessoas remando no lago, no Sarah Lago Norte. Lutei muito para construir aquela unidade. Enfrentei muita oposição. Só faltavam me matar.

Por que um hospital na beira do lago?
Justamente pela possibilidade de fazer coisas mais lúdicas, de ter um visual mais legal, um espaço aberto. A pessoa fica paraplégica e precisa de braços muito fortes. Quando ela vai se transportar da cadeira para a cama, para o carro, usa todo o peso do corpo no braço. Se você botar a pessoa para carregar um peso, vai encher a paciência dela. Se você coloca para remar, é muito mais interessante. Para quem precisa trabalhar o equilíbrio, velejar é muito melhor. São coisas assim que temos feito.

Como foi o trabalho de envolver a família nos tratamentos?
Em 2005, escrevi um artigo em que comprovei que a participação da família propicia um tratamento muito melhor.

Hoje em dia, nos hospitais, quando alguém está em fase terminal, cada vez mais o médico comanda o destino daquele paciente longe da família. Acha correto?
Isso é muito prejudicial. Em paciente em estágio terminal, a gente tem que ter uma linha de cuidados paliativos de dar conforto, tranquilidade, amor. Tive que provar para a comunidade científica, com dados estatísticos, que amor faz bem. Parece surreal. Já diziam os Beatles: “All we need is love”.

Foi difícil provar essa tese?

A comunidade científica não aceitava. Quando comecei a trabalhar no Sarah, a família não entrava, ficava do lado de fora. Vinha o paciente para tratar, a mãe ficava do lado de fora. Dizia: “Isso não vai dar certo. A mãe passa 24 horas por dia em 365 dias por ano com o filho. Ela tem muita informação para dar.” Não tive dúvidas: peguei meu tapete e coloquei do lado de fora do hospital. Comecei a atender as famílias. Dava um resultado incrível. Mas, quando comecei a apresentar isso, tive que quebrar um tabu muito forte. Ouvia: “Eu sou a fisioterapeuta, como a mãe vai fazer os exercícios?”; “Eu sou a fonoaudiológa.”... Achava que tudo aquilo poderia ser ensinado para as famílias. Peguei um grupo tratado durante um ano com a participação da família, e um outro grupo sem a participação. Quem teve a família foi muito melhor. Provei que a variável mais importante para uma criança melhorar é a afetiva. É o amor.

A criança se sente mais segura?

Quem mais quer o bem dessa criança? Quem ensina uma criança a andar? Não é o fisioterapeuta. É a mãe, a família. Quis devolver à família o papel natural. Quando comecei a falar sobre isso fora do Brasil, também me deu muito problema. Hoje a família é muito bem-aceita. Publiquei um livro que ensinava tudo com desenho, a fazer estimulação motora, cognitiva, da linguagem...

Que imagem o Sarah tem lá fora?

Hoje, o Sarah é um dos modelos mais reconhecidos em reabilitação no mundo. Esse método da família é usado em muitos países. Fui convidada no ano passado até para inaugurar um hospital na Holanda, em Haia, que usa basicamente os métodos que desenvolvi. Hoje recebo visitantes para treinar aqui. Vem gente da Noruega, da Suécia, dos Estados Unidos, da Inglaterra, França, Dinamarca, África do Sul... Temos projetos de colaboração com vários centros do mundo.

Não é um reconhecimento fácil...
É uma coisa que se constrói no dia a dia. Nunca coloquei isso como meta, mas sempre quis mostrar que esses métodos eram importantes. Nos últimos 20 anos, sempre sou chamada para abrir congressos. Amigos meus, que começaram a trabalhar comigo, de outros países, brincam: “Pôxa, você, a menorzinha de nós, latino-americana, mulher, é a convidada especial”.

Nesse período, sentiu preconceito lá fora?

Teve momentos em que senti. Essa questão da família enfrentou muita resistência. Uma vez fui falar em Curitiba sobre a importância da família e as pessoas se levantaram no meio da fala, em protesto.

Existe muita arrogância na ciência?

Existe. Alguns franceses acharam legal meu projeto da família, alguns alemães também. Mas nem todos. Tinha um amigo alemão, que me tratava muito bem, mas nunca comentava as pesquisas com a família. Uns anos depois, ele me liga: “Meu filho sofreu um acidente de carro e teve uma lesão cerebral. Estou me sentindo excluído. Só agora entendi seu lance com a família. Quero levar meu filho para você tratar, e fazer parte do tratamento”.

E a vaidade no mundo científico?
Há uma vaidade intelectual. Mas tem um lado na ciência: tudo você precisa comprovar. Como provei, com todas as estatísticas, com amostra grande, vários estudos com ressonância magnética funcional em que se mostra dentro do cérebro da pessoa, então não há um questionamento. Aí você publica esse estudo na Science, a comunidade científica acolhe, segue e tenta dar um passo à frente. Então hoje tem menos esse embate.

Como está a saúde hoje no país?

É um momento muito difícil. O país é muito grande. Garantir qualificação, qualidade, a distância... Seria necessária a formação de gestores em saúde. Ser um bom médico não significa ser um bom gestor. Mas a gestão de materiais e a manutenção do sistema são complexas. E é isso que a gente vê muito nos escândalos: falta remédio, equipamento parado. A saúde só vai mudar se a educação mudar. Minha sensação é de que o país precisa investir em educação. Com educação, você já melhora muitíssimo o nível de saúde. Uma coisa que já discuti com alguns governos: por que não se coloca no fim do ensino médio disciplinas de enfermagem, de medicina? Com um ano de formação mínima, haveria muito menos procura de pronto-socorros. Haveria muito mais ações preventivas.

Para não sobrecarregar o sistema?

Isso. A pessoa vai saber quando a situação é grave e que precisa correr para o pronto-socorro ou se pode esperar. Essa noção básica se resolve com educação. Os países que fizeram as grandes mudanças pensam nos próximos 20 anos. Veja o que era a Suécia antes de investir em educação: a pobreza, a miséria, a prostituição, o alcoolismo... E o que é a Suécia hoje, e os países escandinavos.

Mas, aqui no DF, se resolve como? É educação, gestão?

É gestão. Uma coisa que tenho informação, que me foi dito pelo próprio Rollemberg, é que tem um número muito grande de médicos na administração. Não tem nenhum médico na gestão da rede Sarah toda. E ninguém faz só gestão. Faço gestão, faço pesquisa e atendimento de pacientes. O gestor que não for para a base não sabe o que está acontecendo. Se eu não for ao meu ambulatório, à minha enfermaria, vou ficar fazendo o que aqui? Ficar de rainha da Inglaterra? E o que faz esse tanto de gente, esse tanto de médico? Por que estão na administração e não na frente? Por que não se monta um sistema de compra de material que seja minimamente planejado? Por que quando se compra um equipamento não se contrata a manutenção? Não dá para ter uma visão imediatista. Essa ideia de pensar o país a longo prazo é o que falta. É como aqui no GDF.

Qual é a solução?
Deveria se pensar assim: vamos virar a mesa e partir do zero. Vamos construir uma coisa nova? O que sinto dos sucessivos governos são remendos para dar conta durante alguns mandatos.

Seria uma mudança estrutural?

Isso. Parar tudo e ver quem está fazendo o quê. Quem vai cuidar do quê... Eu, que já fiz tantos hospitais, acho tão simples. Olhar o problema de frente, encarar. Ter a participação das pessoas. Esse também é um problema. Você não pode fazer uma gestão que não seja participativa. Não posso dizer: agora sou a secretária de Saúde e vocês vão fazer assim. Ninguém vai fazer porque quero, mas porque acredita. Passaria por uma revisão geral. Vamos construir juntos. Uma coisa muito complicada é ficar se queixando, dizendo que não pode fazer porque não tem condições. Então, descola. Providencia. Briga por isso. Se houver uma boa intenção, você vai conseguir ajuda.

Já foi convidada para ser ministra?
Fui convidada por três diferentes presidentes. Fui convidada para ser secretária de Saúde do DF, mas a estrutura política do Brasil é muito difícil. Tem a coisa da divisão partidária. A vida toda trabalhei com profissionais concursados. Acho complicado esse universo criado pelos políticos de indicar determinado profissional porque tem ligação partidária, política. O cargo de ministro é político. Não é um cargo de gestor público e o meu cargo aqui é de gestor público, de responsabilidade enorme e com cuidado muito grande dos recursos públicos. Nunca tivemos nenhum questionamento do TCU nem da CGU. Se for tudo no preto e no branco, não tem questionamento.

Na hora de pedir recursos do orçamento, há dificuldades?
A gente tem sempre um apoio muito grande da bancada do DF, de todos os partidos. Os grandes aliados do Sarah são as pessoas que nele se tratam. Os parlamentares são eleitos pela população e a população está satisfeita. O nível de satisfação do paciente do Sarah, na última pesquisa, foi de 98,3%. Quando a gente pede uma emenda, não enfrenta dificuldades. E aqui a gente não faz nenhum tipo de diferença partidária ou religiosa.

O aparelhamento político atrapalha?

Atrapalha, mas em que ministério é diferente? Acontece em todo o sistema político.

Na saúde, o peso de indicações políticas não é maior?

Saúde e educação são áreas que não deveriam ter influência política. Se fosse ministra da Saúde, teria de brigar muito. Não iriam me querer em três meses. Logo me dariam alta. Temos que viver para a saúde e não sobreviver da doença.

Como é sua relação com os pacientes?
Sou contra distanciamento. Eu beijo, abraço, gosto. Defendo o envolvimento. Meus pacientes vão se tornando meus amigos. Você comemora cada vitória. É muito bom ver que a pessoa está melhorando e você melhora junto. A gente se “co-constrói”.

Com as derrotas, você acaba sofrendo também?

Não acredito em derrota. Tudo depende do objetivo a ser alcançado. Não posso querer que uma pessoa que comprometeu toda a medula volte a andar. Não posso considerar uma derrota não a fazer andar. Tenho que trabalhar com ela um objetivo que lhe dê qualidade de vida, e a gente vai comemorar muito, a gente vai curtir.

Muitos pacientes chegam com a esperança de cura. Como dizer a eles que nunca mais vão andar?

Acho natural que as pessoas venham com a expectativa acima da realidade. Acontece. Você não pode tirar a esperança de ninguém, mas também não pode alimentar expectativa falsa, porque reversão de expectativa é que causa sofrimento. Acontece assim: a pessoa vai conversar com outras que têm o mesmo problema. Aí, ela começa a digerir. Quando a pessoa está pronta para perguntar ao médico, ela pergunta. Não é preciso antecipar. Trabalho muito o seguinte: o que você tem, e não o que você não tem. Se você gosta de esportes, não pode ser um campeão de corrida, mas pode ser um campeão de remo. Existem “n” possibilidades. O caminhar é mais importante para as pessoas que não têm problema do que para as pessoas que têm. Se você não andar, mas souber contornar isso, será feliz, como a gente vê em milhares de paraplégicos, tetraplégicos, hemiplégicos.

Têm ocorrido muitos acidentes de trânsito por uso de celular?
Demais. É impressionante. Antes os problemas de trânsito eram causados por bebida alcoólica. Hoje são principalmente causados pelo celular. É aquela ideia de que você vai ganhar tempo. Na verdade, acaba perdendo um tempo enorme. Passar meses e anos se reabilitando. É um filme que não volta.

Vocês ainda têm programas de orientação para jovens?
Sim. Temos um programa de prevenção que é muito legal. A gente começou pensando em jovens do ensino médio próximos de tirar a carteira. Mas aí descobrimos o óbvio: adolescentes contestam os adultos. Então baixamos a faixa etária para um pessoal bem novinho, porque a criança chega em casa e fala: “Ah, pai, se não botar o cinto, não vou”.

Como fazer com que as pessoas tenham cuidado?

É interessante essa questão da prevenção: ninguém chega e fala: hoje vim me prevenir de um câncer ou de uma lesão na medula. Viável é convidar as escolas para uma visita. É o espaço da educação. Aí você vai trabalhar a formação das crianças. Seria muito legal que as crianças tivessem essa formação. A prevenção passa por aí.

Como enxerga a educação hoje no país?

É preciso investir mais na remuneração do professor. Acho impressionante que não se veja o valor desses profissionais. E investir no ensino fundamental. Um ensino fundamental de qualidade muda muito a realidade. O resto é consequência.

Há situações em que você não acreditaria que o paciente chegaria lá?

A gente nunca acha que a pessoa não vai chegar lá. A questão é construir dia a dia. Sempre se pode dar um passo a mais. Talvez seja um passo diferente, por outra via. O importante, em recuperação e reabilitação, é comemorar cada passo. Cada melhora é uma melhora.

E quanto à força de vontade do paciente?

É fundamental. Quando recebo algum paciente adulto, com uma lesão cerebral mais grave, falo: “Quer melhorar? O mais importante para melhorar é querer. Senão não vai ter como fazer nada, nem sua família, nem ninguém. A pessoa é responsável pela própria saúde.

Vocês atendem de celebridade e político a pessoa comum. O tratamento é padrão?
É absolutamente igual. Aqui não há infecção social. A família chega, toma um banho e veste um uniforme. Isso é para evitar infecção hospitalar e infecção social. A roupa que o acompanhante da celebridade vai usar é a mesma do acompanhante do paciente em uma situação econômica mais precária. Os pacientes usam o mesmo uniforme, o mesmo tratamento, a mesma enfermaria, comem no mesmo refeitório, a mesma comida. A pirâmide socioeconômica do Sarah é igual à do Brasil. Aumentou a classe C no Brasil, aumentou no Sarah. O acesso era todo por telefone, agora é pela internet. O que a gente tem, diferentemente de outros hospitais públicos, é muita busca de pessoas que poderiam pagar. Porque elas buscam a qualidade.

O índice de satisfação com o Sarah é alto. Mas há quem critique porque não consegue consulta. Por quê?
Aí depende. Muitos casos a gente não atende porque as pessoas não têm noção do trabalho do Sarah. Acham que aqui trata fratura. E aqui não trata fratura. O acesso é tranquilo. Entra no site, escolhe a unidade. Você vai ver, por exemplo, que não há ortopedia e neurocirurgia em Fortaleza. Foi definido assim. Tudo é dentro de uma única perspectiva, mas alguns têm especialidades que outros ainda não têm. Tudo isso passa pelo governo federal, porque todos os nossos recursos são públicos. 

A arquitetura tem um peso fortíssimo em todos os Sarah. Tudo tem a mão do Athos e do Lelé. Você enxerga os dois?
Isso é uma coisa maravilhosa. Até outro dia comentava... Éramos quatro pessoas muito ligadas: eu, Campos da Paz, o Lelé e o Athos. Sempre fui a caçula da turma, hoje só fiquei eu. O arquiteto não faz um hospital se você não tem um bom programa. E um programa de reabilitação não funciona se não há uma boa arquitetura. Se tivéssemos cubículos, não conseguiríamos fazer um atendimento humanizado. Então adotamos alguns princípios: abertura com a natureza, ventilação natural, iluminação natural, espaços amplos e abertos, multidisciplinariedade. Isso tudo faz parte de um programa de reabilitação. A filosofia do Sarah também se sustenta na arquitetura. Ninguém tem o seu consultório, em nenhuma unidade da rede. A gente divide boxes.

Não foram projetados?
Exatamente. Não temos computadores pessoais. Achei estranhíssimo quando vim para a diretoria — não queria vir. Não tenho talento para ficar em gabinete. Gosto de trabalhar do lado de fora. Quando vim para essa sala e vi que podia abrir a porta e botar uma mesa do lado de fora, carreguei a mesa para a grama e comecei a trabalhar. A arquitetura foi toda pensada assim: os elementos do Athos sempre conversaram com a arquitetura do Lelé. Isso a gente ensina também na formação dos profissionais do Sarah. Ninguém cola um Mickey Mouse em cima de uma peça do Athos. Lelé e Athos tinham uma conversa muito gostosa para cada hospital. Os azulejos do Sarah de São Luís, Athos pensou de maneira diferente, porque é uma cidade com tradição de azulejos. No Sarah centro, o Athos começa com o painel marrom, o painel verde. Você chega ao Sarah Lago, ao Sarah Fortaleza, explode em cores. Um dia falei ao Athos: “Você começou fazendo o Teatro Nacional todo branco... de repente explodiu em cores. Como foi isso?” Ele respondeu: “Lucinha, fiquei velho, perdi a vergonha” (risos).

Que influência tiveram na sua vida?
Tive oportunidades e estou tendo ainda de conhecer pessoas interessantes. Estou sempre muito aberta a aprender, a ouvir o outro. Aprendi muito com Campos, com Lelé, com Athos... Tinha outras pessoas também. Jorge Amado, Zélia Gattai, Millôr Fernandes, pessoas de uma sabedoria.

Do que mais sente falta de Campos da Paz?

Do humor. Na vida diária, a gente tinha uma relação muito próxima. Teria idade para ser filha dele. E um dia ele me falou: “Engraçado, as pessoas pensam que você é tipo minha filha, mas você é tipo minha mãe” (Risos). E é verdade. Porque ele era muito impulsivo. E eu dizia: “Não, não pode, se comporte!” A gente tinha essa liberdade.

Ele disse uma vez sobre você: “O professor se realiza quando descobre que o aluno é melhor que ele”.
Ele botou isso no livro dele. Falei para ele: “Não bota isso não”. Sou do tipo low profile.

Trabalha quantas horas por dia?
Quantas horas for preciso. O envolvimento que a gente tem vem da paixão pelo trabalho. Deve ser muito triste uma pessoa trabalhar numa coisa de que não gosta. Morreria. A gestão me dá prazer. Acho muito gostoso organizar as coisas, ver o resultado e envolver as pessoas. É preciso pensar junto, porque a conquista é do grupo. Aqui todo mundo é muito preocupado em não rasgar o papel, de imprimir um papel que não precisa, de sair e deixar uma luz acesa.

Como cortar gastos e manter bons salários?

Há 15 anos, cortaram muito o nosso orçamento. E os preços subindo. O dinheiro estava limitado e o salário, uma porcaria. Falei: “O salário da gente está ruim, não está? Também acho, porque também sou funcionária. Se todo mundo diminuir o custeio, dá para aumentar o salário”. Imediatamente todo mundo fez uma economia enorme no custeio e reverteu em salário no mês seguinte. Mas a gente sabia que tinha de manter. E até hoje temos essa filosofia.

Como você enxerga a crise no país? 
A gente não pode se deixar levar pelo baixo astral. Tem tanta gente batalhando por alguma coisa boa... Tudo passa se a gente resolver cooperar para que as coisas sejam superadas.

E o teatro do Sarah? Os pacientes frequentam?
Sempre achei legal trazer arte para dentro do hospital. Logo que vim para cá, trazia filmes, uns amigos da Escola de Música para tocar. A gente ia fazer um barulho lá fora. Quando resolvemos ampliar o auditório, fizemos um que serve também de teatro. É um espaço com acessibilidade. Os pacientes adoram. Tem gente que vem de maca, tomando quimioterapia. Já falo logo para os artistas: se alguém sair, não é nenhuma crítica (risos). E agora comecei a perceber que diminuiu muito o uso de analgésicos, porque você levanta o astral das pessoas.

Médicos usam saquinho de sanduíche para abrigar e salvar bebê prematuro Pixie nasceu aos seis meses pesando apenas 500 gramas e precisou ser colocada em um saco plástico para ficar aquecida.

 Um saquinho de sanduíche serviu como incubadora improvisada para a pequena Pixie  (Foto: Sharon Grant)Um saquinho de sanduíche serviu como incubadora improvisada para a pequena Pixie (Foto: Sharon Grant)
Um bebê que nasceu três meses antes do previsto foi mantido vivo com a ajuda de um saco plástico com zíper comprado em um supermercado.
Pixie Griffiths-Grant pesava apenas 500 gramas quando nasceu em parto cesárea de emergência em Plymouth, na Inglaterra.
Para mantê-la aquecida, já que sua temperatura corporal começou a baixar perigosamente, os médicos decidiram colocá-la dentro de um saco plástico do tipo "ziploc".
"O saco funcionou como uma estufa, graças a Deus", disse sua mãe, Sharon Grant, de 37 anos.
Grant foi levada para o hospital de Derriford para uma cirurgia, depois de a bebê ter parado de crescer dentro dela. Havia o temor de que a bebê não sobrevivesse ao parto.
"Recebemos essa notícia horrível, então foi um período muito estressante. Eu não sabia se ela iria sobreviver."
'Fada'
"Quando eu cheguei a Derriford, minha pressão sanguínea estava muito alta, então eles tiveram que pôr músicas de Ben Howard (artista britânico) para ajudar a baixá-la", relembra.
"Havia 10 médicos cuidando de Pixie e eles decidiram colocá-la rapidamente em um saquinho de sanduíche para mantê-la aquecida."
A bebê foi chamada de Pixie – nome que significa "fada", em inglês – por causa de seu tamanho diminuto ao nascer. Agora, cinco meses depois, ela já pesa 3,4 kg.
Os médicos chegaram a dizer que a bebê não viveria mais de uma hora; aos cinco meses, ela está bem de saúde (Foto: Sharon Grant)Os médicos chegaram a dizer que a bebê não viveria mais de uma hora; aos cinco meses, ela está bem de saúde (Foto: Sharon Grant)
"Ela está muito bem. É incrível, porque sequer conseguíamos imaginar este momento", diz Grant.
Bebês prematuros têm a pele muito fina, o que pode levar a uma perda letal de calor, de acordo com um estudo divulgado na publicação científica americana "Pediatrics".
O uso de sacos plásticos para evitar a hipotermia em bebês prematuros teve início em Zâmbia, no continente africano, onde médicos necessitavam de uma maneira barata de manter os bebês vivos.