Image copyrightReutersImage captionAo contrário das recomendações de economistas críticos ao governo, Salas quer aumentar interferência do Estado na economia
Ele quer "aprofundar a revolução". Aumentar a intervenção do Estado na economia no lugar de reduzi-la. E concorda com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que uma "guerra econômica" impulsionada pela "burguesia parasita" é a origem da crise.
Este é Luis Salas, o novo ministro da Economia venezuelano e o cérebro por trás da nova política de Maduro para fazer frente aos problemas econômicos que afetam o país.
Na sexta-feira, a Venezuela declarou estado de emergência econômica em todo o território nacional por 60 dias.
O decreto não especifica se haverá alguma mudança drástica na política econômica do país, mas se especula que o país planeje uma desvalorização cambial e elevação no preço subsidiado dos combustíveis.
No mesmo dia, o Banco Central da Venezuela revelou dados sobre a inflação do país, que chegou a 141% em setembro de 2015 e é a mais alta do mundo.
Salas, um sociólogo de esquerda, foi nomeado na primeira semana de janeiro por Maduro em meio a uma reestruturação de seu gabinete, após a posse da Assembleia Nacional, que pela primeira vez é dominada pela oposição.
Sua nomeação causou rejeição em setores da oposição e preocupação entre alguns economistas.
O novo ministro, que é fundador do centro de Economia Política da Universidade Bolivariana da Venezuela, parece mais jovem do que é: tem 39 anos.
Maduro diz acreditar que ele é a melhor pessoa para solucionar a crise econômica que afeta o país e que, em sua opinião, só terá fim desmantelando o Estado Burguês e estabelecendo um Estado Comunal.
Os ensaios de Salas estão publicados na internet. Neles, o sociólogo não só retifica o modelo econômico socialista implantado pelo chavismo, como defende um aprofundamento da revolução.
"Não tem muito sentido continuar falando de 'inflação e escassez' quando estamos realmente falando de especulação, ganância e monopólio", afirma, em um deles.
Com a teoria do Estado Comunal, o governo também justifica a criação do Parlamento Comunal, que opositores enxergam como uma forma de suplantar a Assembleia Nacional.
Image copyrightGettyImage captionAssembleia Nacional venezuelana passou a ser comandada pela oposição, um possível sinal da instatisfação dos eleitores com a crise
'Participação popular'
A crise econômica é a maior preocupação do venezuelanos e, segundo alguns analistas, a razão pela qual a oposição teve ampla maioria nas eleições parlamentares em dezembro.
Ao expor seu plano econômico no início de janeiro, Maduro disse que esperava decretar emergência econômica em breve e que vai "combater" a chamada guerra econômica "reforçando o poder do povo para impulsionar a produção".
O presidente venezuelano afirmou ainda que o tipo de economia que é preciso desenvolver no país é a que tem nascido artesanalmente em meio à crise.
Por causa da escassez, muitos venezuelanos fabricam detergente, sabão e alguns remédios. O próprio presidente afirma usar xampu artesanal.
Uma "economia de participação popular" é sua proposta para acabar com a dependência da burguesia, que seria a responsável pela atual situação.
A crise, que Maduro já não nega, é profunda e também sofreu o impacto da redução de cerca de 60% no preço do petróleo ─ a maior fonte de divisas de um país que importa a maior parte do que consome ─ no último ano.
Contra a maré
Economistas críticos ao atual governo recomendaram, como medidas urgentes, reduzir os gastos públicos, unificar as atuais quatro taxas de câmbio, subir o preço da gasolina, que é muito baixo, e deixar de financiar o deficit fiscal com a impressão de dinheiro por parte do Banco Central.
Nada disso vai na linha do que propõe Luis Salas, que também não reconhece vários dos problemas que, segundos os mesmos economistas, se resolveriam com tais medidas de ajuste.
Salas, na verdade, escreveu ensaios criticando a ala do chavismo que propôs a unificação das quatro taxas de câmbio ─ um esquema que, para os críticos, é fonte de inflação, corrupção e distorções econômicas.
Image copyrightReutersImage captionNovo ministro compartilha com Maduro ideia de que "guerra econômica" causou a severa crise no país
Maduro afirma que Salas "estudou com profundidade os fenômenos do rentismo petroleiro (dependência da renda gerada pelo petróleo) e seu esgotamento e os fenômenos da guerra econômica".
Nesse sentido, segundo o presidente, seu novo ministro teria concluído que a inflação, por exemplo, não seria produto do alto gasto público do governo e da impressão de dinheiro, mas sim uma consequência da especulação e da cobiça de alguns monopólios do setor privado.
"A classe empresarial venezuelana é uma classe boa-vida e malcriada que ao longo do tempo se transformou em um tumor econômico que vive da renda petroleira e de tirar o salário dos trabalhadores e trabalhadoras através da especulação", escreve Salas em um dos seus ensaios.
"O fim último da guerra econômica empreendida pela burguesia parasita é a consolidação das condições sociais de reprodução e da exploração dos grupos concentrados, transnacionais, mafiosos e especulativos sobre a sociedade."
Por isso, o sociólogo nomeado ministro propõe reforçar os controles dos preços e das importações para aumentar a intervenção do Estado na economia.
Segundo ele, "derrotar a guerra econômica" passaria por dois mecanismos: tirar os consumidores da dependência do setor privado e gerar uma mobilização popular em defesa dos direitos coletivos.
A possibilidade de parlamentares investigados na Operação Lava-Jato perderem os mandatos, agora ou no futuro, está longe de um consenso entre juristas. Os sete congressistas denunciados até agora pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, estão nesta situação. O Ministério Público pediu o afastamento imediato do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do cargo de deputado, usando uma mudança na lei feita em 2011. Quanto aos deputados Nelson Meurer (PP-SC), Vander Loubet (PT-MS) e Arthur Lira (PP-AL) e ao senadores Benedito Lira (PP-AL), Delcídio do Amaral (PT-MS) e Fernando Collor (PTB-AL), Janot defende que eles percam o cargo apenas após a condenação pelo Supremo Tribunal Federal. Em todos os casos, a Corte não recebeu as acusações para transformar os inquéritos em ações penais e começar o processo judicial.
Delcídio do Amaral (PT-MS) e Fernando Collor (PTB-AL) podem perder o mandato após decisão do STF
Especialistas concordam que o afastamento de um presidente de Casa Legislativa dessa envergadura política é inédito na história brasileira. Mas, para uns, é constitucional tirar Cunha do cargo já. Para outros, seria precipitação. Ao mesmo tempo, a perda do mandato dos demais parlamentares em caso de condenação não está garantida. Isso porque há episódios contraditórios e ainda confusos envolvendo os congressistas condenados do mensalão e o deputado Natan Donadon (PMDB-RO), preso até hoje por desvio de dinheiro.
O ex-presidente do STF Carlos Ayres Britto estuda o tema há seis meses e entende que é preciso separar os dois tipos de casos. De acordo com os argumentos enviados por Janot ao Supremo, Cunha usava a função de congressista e presidente da Câmara para atrasar os processos contra ele tanto no Judiciário quanto na Casa, onde é alvo de investigação por quebra de decoro parlamentar, o que pode lhe custar o mandato. E o Código de Processo Penal (CPP) prevê a suspensão do cargo nessas circunstâncias.
Ayres Britto lembra que a Constituição converge para esse pensamento porque permite afastar até a presidente da República antes de se concluir um processo de impeachment — como o sofrido por Dilma Rousseff. “O presidente da Câmara não é chefe de Poder”, frisou Ayres Britto ao Correio. “E o chefe do Poder maior, que é o presidente da República pode, no curso do processo, com a abertura do processo ser afastado. É o espírito do (artigo) 319 (do Código de Processo Penal).”
Sem sentido No caso de Meurer, Loubet, Artur e Benedito Lira, Ayres Britto entende que não há polêmica. A lei e a Constituição permitem que os deputados percam os cargos no fim do processo, quando condenados e não couberem mais recursos, o chamado “trânsito em julgado” da ação. Nem todos, no entanto, pensam assim.
Mestre em direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, o professor Luiz Tarcísio Teixeira Ferreira acredita que os demais parlamentares devem perder seus mandatos como o STF já definiu no caso do mensalão: imediatamente. Mas ele destaca que a Câmara não cumpriu a ordem do tribunal à época e ficou adiando uma definição. Demorou tanto que houve a ordem de prisão dos deputados em novembro de 2013, episódio que forçou os próprios parlamentares a renunciaram aos cargos, e fez o assunto perder o sentido naquele momento.
No caso do deputado Natan Donadon, em 2010, o Supremo não determinou a perda imediata do mandato. Em 2013, quando ele foi preso pela Polícia Federal por ordem da corte, é que os parlamentares julgaram-no duas vezes. Na primeira, mantiveram o mandato. Na segunda, cassaram. O advogado criminalista Ticiano Figueiredo entende que o Supremo pode mudar de entendimento em uma eventual condenação na Lava-Jato. “O entendimento para o Natan foi um; posteriormente o Supremo entendeu de maneira diversa para o mensalão e agora temos que ver se o Supremo vai manter esse entendimento ou, diante da nova composição, adotará nova postura diante desses fatos.” Perplexidade Reservadamente, um advogado da Lava-Jato entende que há muita discussão a ser feita. Para ele, sequer se sabe quem deverá julgar o afastamento imediato de Cunha, se o relator, Teori Zavascki, ou se a 2ª Turma do STF, com cinco ministros, ou se o plenário da corte. Ele destaca que afastamento assim só costumam atingir prefeitos e vereadores, nunca senadores e deputados.
Para Ticiano Figueiredo, Janot deveria ser mais cauteloso e só pedir o afastamento de parlamentares no fim dos processos. Ele entende que o Ministério Público faz pressão no Judiciário. “Causa perplexidade a maneira como o procurador-geral pede medidas extremas que deveriam se adotadas, se fosse o caso, apenas na condenação”, disse ele. “Ele pede ao Judiciário que antecipe as medidas sem juízo definitivo de culpa, mas simplesmente em função do cargo que determinado investigado ocupa.”
Tarcísio Ferreira concorda com a legalidade do afastamento, mas apenas do cargo de presidente da Câmara, e não de deputado. “É um absurdo ele (Eduardo Cunha) ser investigado pela Procuradoria-Geral da República e pelo parlamento, e continuar presidente da Câmara”, avaliou o jurista.
Martin O'Malley, Hillary Clinton e Bernie Sanders, pré-candidatos democratas (Foto: Associated Press)
Hillary Clinton, favorita à indicação democrata para as eleições presidenciais nos Estados Unidos, enfrentará neste domingo seus rivais Bernie Sanders e Martin O'Malley no quarto debate anterior às primárias.
Os três pré-candidatos terão seu duelo verbal, que promete um brilho maior que os anteriores, neste domingo a partir das 21h00 locais (00h00 de segunda-feira, horário de Brasília) em Charleston, Carolina do Sul, e será transmitido pela rede NBC e pelo YouTube.
Trata-se do último debate antes do início das eleições primárias, em 1 de fevereiro em Iowa.
A distância entre a ex-secretária de Estado e Sanders, senador por Vermont, diminuiu.
Efetivamente, se antes do Natal Hillary ostentava mais de 50% das intenções de voto, agora registra 48%, contra 40% para Sanders, segundo uma média das principais pesquisas calculada pelo site RealClearPolitics.
As pesquisas apontam resultados ainda mais apertados no simbólico estado de Iowa, onde desde setembro Sanders aparece inclusive em primeiro lugar.
Já em New Hampshire, que realiza primárias em 9 de fevereiro, o senador está na liderança desde dezembro.
Contra-ataque Estes dados explicam os ataques lançados nesta semana pela equipe de Hillary contra Sanders em dois temas: sua suposta indulgência em relação ao lobby das armas e sua cara proposta de reforma do sistema de saúde.
Senador de Vermont, um estado com muitos caçadores, Sanders votou em 2005 a favor de uma lei que deu imunidade aos fabricantes de armas em caso de uma utilização criminal das mesmas.
No sábado, sob pressão, Sanders declarou seu apoio a um novo projeto de lei que retira esta imunidade.
Em matéria de saúde, Hillary acusa Sanders de querer aumentar os impostos sobre a classe média para financiar um novo sistema de cobertura universal, ao estilo europeu.
Para mobilizar os eleitores, Hillary Clinton enviou no sábado a Iowa seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, e sua filha Chelsea, de 35 anos.
"Não poderia imaginar um modelo melhor para mim, tanto como mulher, democrata, progressista e mãe que trabalha", disse Chelsea diante de mais de 500 pessoas, segundo o jornal Des Moines Register.
O impasse sobre a eleição da comissão especial que analisará o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff vai paralisar as comissões permanentes da Câmara por tempo indeterminado, depois que os deputados voltarem do recesso legislativo, em fevereiro.
Isso porque o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse ao G1 que aguardará o julgamento do recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) para esclarecer a decisão da Corte queproibiu votação secreta e chapa alternativa na eleição para a comissão do impeachment.
No entendimento de Cunha, esse julgamento também afeta as eleições realizadas para as comissões da Câmara, já que, em tese, seguem as mesmas regras – com voto secreto e chapa avulsa.
Enquanto isso, sem presidente eleito para coordenar os trabalhos, as atividades das comissões, entre elas a de Constituição e Justiça (CCJ) e a de Diretos Humanos, vão atrasar.Só depois da análise do recurso, que será apresentado em fevereiro e não tem prazo para ser avaliado pelos ministros do STF, é que o presidente da Câmara pretende liberar as comissões permanentes para realizarem eleições para presidente.
Cunha argumenta que a decisão do Supremonão esclarece se o voto aberto vale também para a eleição das comissões permanentes e o que acontece caso a chapa oficial, com indicação dos líderes, seja rejeitada. Para o presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, porém, o julgamento não deixa "margem" para dúvidas.
Além disso, o presidente da Câmara já anunciou que pretende apresentar recurso antes mesmo da publicação do acórdão (resumo das decisões tomadas no julgamento). No encontro que tiveram em dezembro, Lewandowski o alertou que o recurso poderá ser recusado, de antemão, caso seja protocolado antes do prazo.
Comissões No total, a Câmara possui 23 comissões permanentes temáticas, que têm como finalidade discutir e deliberar sobre projetos de lei. As vagas são distribuídas entre os partidos de acordo com o tamanho da sua bancada eleita e em todo início de ano a composição das comissões deve ser renovada.
Pelo regimento interno da Câmara, os integrantes são indicados pelos líderes dos partidos. Depois da volta do recesso parlamentar, em fevereiro, eles terão cinco sessões ordinárias para indicar os nomes.
Em seguida, pelo regimento, cada comissão deve realizar uma eleição para escolher presidente e três vice-presidentes, mas essa etapa ficará em suspenso, segundo Cunha.
“Vou aguardar [a decisão sobre o recurso]”, disse Cunha ao G1. Ele admite que isso irá atrasar as comissões, mas descarta que possa ser visto como uma forma de pressionar ou apressar o tribunal. “Tem dúvida mesmo [sobre a extensão da decisão]. Não é pressão”, afirmou o peemedebista.
Rede e PMB Outro imbróglio que os deputados precisarão resolver é como incluir representantes dos partidos recém-criados Rede e Partido da Mulher Brasileira (PMB). O número de vagas nas comissões é fixo e será preciso uma redistribuição para contemplar as novas legendas. “Vamos arranjar, discutir [uma solução] com os líderes”, disse Cunha.
Cansados das promessas não cumpridas, policiais com tempo de efetivo serviço ensaiam pedidos de aposentadoria
Números apresentados pelo governo do Distrito Federal dão conta de que cerca de 720 policiais militares deverão ir para a reserva remunerada (aposentadoria) até o final do ano de 2016.
No entanto, esse número poderá ser muito maior, quase que o dobro, haja vista que policiais de matrículas 12 mil também já poderão requerer esse direito, aliado ao fato de uma possível alteração na Lei de Previdência dos militares, assunto já ventilado nos corredores do Congresso Nacional há tempos e que assusta a todos.
Além disso, a legislação permite o pedido de afastamento por cotas compulsórias e deve se levar em conta ainda os policiais afastados por questões de saúde, falecimento e nomeações em outros concursos.
Com um efetivo atual de pouco mais de 15.200 policiais (quando o previsto são 18.738), a corporação está defasada em 22%. Isso representa um número considerável em se tratando de segurança pública que reflete diretamente na sociedade. Com o arrocho fiscal implementado pelo governo as chances de novos concursos são praticamente zero, mesmo tendo como garantia os recursos do Fundo Constitucional à disposição da área de segurança.
Um outro fator preocupante está acontecendo nas instituições militares e que poderia ser revertido em favor da própria sociedade. Quase 500 militares subjudice, entre policiais e bombeiros, estão numa batalha ferrenha junto ao governo, Tribunal de Contas e a Procuradoria evitando serem desligados das corporações. As razões são simples, que vão desde um mês além da idade limite para ingresso nas corporações até exames psicotécnicos. Porém, a maioria desses militares chegam a 5 anos de efetivo serviço e exercendo suas funções normalmente.
O imbróglio é grande e não se percebe vontade política para a permanência desses militares nos quadros das corporações. Num momento de vacas magras, segurança comprometida e a criminalidade à solta, é o momento de se levar em consideração os benefícios que serão levados à população.
O blog conversou com alguns especialistas na área e a conclusão foi de que o fim desse impasse deve ser político. Basta um decreto do governador Rolemberg para que a situação seja sanada de vez, assim como já foi feito no governo Arruda em 2010. Outra medida que poderia ser adotada, paliativamente, seria um expediente do Comandante Geral da PM no sentido de que fosse sobrestado as baixas/desligamentos até a conclusão final do processo, como fez o Cel Anderson Moura, então Comandante Geral, em outubro de 2014 através do ofício nº 794/14 – SA/GCG, evitando assim que o efetivo fosse mais prejudicado do que está, além, óbvio, da demissão de inúmeros pais de famílias que já estão adaptados a vida castrense.
Está na hora do governo começar a falar a língua do povo!
Chamavam-lhe "Pantera Negra", e Ashraf Pahlavi até gostava da alcunha, achava que lhe assentava bem: “Como a pantera, a minha natureza é turbulenta, rebelde, confiante.”
A irmã gémea do último Xá do Irão – e muitas vezes a sombra por trás do monarca, dizia-se – morreu na semana passada aos 96 anos, depois de várias décadas passadas no exílio. Tinha uma personalidade caleidoscópica: dedicou-se à defesa dos direitos das mulheres e à luta contra o analfabetismo, mas não viu, ou não quis ver, os abusos cometidos pelo reinado do seu irmão.
“Não me importo de morrer. Quando morremos, morremos. O que eu não quero é morrer na minha cama. Preferia morrer num acidente ou ser baleada.” Passaram 36 anos desde que Ashraf Pahlavi disse estas palavras ao jornalista da revista People que a foi entrevistar. Tinha acabado de lançar o seu livro Faces in a Mirror: Memoirs from Exile, onde apresentava a sua versão (dourada) do papel da monarquia na modernização do Irão e tentava limpar o nome da família, acusada de corrupção e abuso de poder. A Revolução Islâmica depusera há menos de um ano a dinastia, e os Pahlavi tinham sido obrigados a abandonar o país.
Nessa Primavera de 1980, Ashraf Pahlavi recebeu a imprensa no seu triplex em Nova Iorque, com guardas e um pastor alemão à porta, e criados fardados de branco a servir copos de chá. O repórter doNew York Times referia o anel de esmeralda que tinha no dedo e o diamante em forma de coração pendurado ao pescoço, no qual ia mexendo ao longo da conversa, para passar a imagem de que se estava perante uma verdadeira princesa no exílio.
A vontade expressa na altura, e que revelava como a tragédia fazia parte da sua vida, não se cumpriu. A princesa morreu durante o sono, na Europa, de acordo com um assessor – em Monte Carlo, especificou a televisão iraniana. E “com a esperança no seu coração de ver a liberdade chegar ao Irão”, escreveu aquele que seria o príncipe herdeiro do Trono do Pavão, Reza Pahlavi, quando anunciou a morte da tia a 7 de Janeiro.
O legado que deixa no seu país é pouco claro. “A morte da princesa Ashraf Pahlavi marca o fim de uma era em mais do que um sentido”, escreveu Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos da Columbia University, no site da Al-Jazira.
Dabashi adianta que os relatos sobre a dinastia Pahlavi têm doses maiores de ficção do que de realidade. “Ela foi e morreu como um fenómeno que impede qualquer pessoa de chegar a um consenso sobre a sua personalidade.” Sendo assim, “os seus apoiantes irão celebrá-la como uma defensora dos direitos das mulheres, patrona das artes e um farol de modernidade social, enquanto os seus detractores a acusarão de ser uma estratega monstruosa que foi fundamental para reinstalar o reinado ditatorial do irmão e uma beneficiária da sua governação tirânica”.
Sem véu
Ashraf Pahlavi era ainda adolescente quando, juntamente com a mãe e a irmã, apareceu em público sem véu na cabeça, uma estreia no país. O gesto foi ousado e altamente simbólico: nessa altura, as mulheres iranianas não saíam à rua sem o chador, uma túnica que as cobre da cabeça aos pés. No site oficial da princesa, há um capítulo dedicado a esse momento, documentado com uma foto: a rainha à frente, descendo umas escadas, com as duas filhas atrás – em vez do lenço, um chapéu.
Estávamos em 1934 e o pai da jovem Ashraf estava empenhado em “ocidentalizar” a Pérsia, trazê-la para o século XX, escreve a princesa. “Para fazer isso, para nos tornar prósperos e poderosos, não poderia deixar as mulheres, metade da pequena população iraniana, inactivas ou cobertas.” O chador acabaria mesmo por ser abolido, para choque da população mais conservadora.
O Xá com os filhos em 1928: Mohammad Reza,a princesa Schams, ao centro, e Ashraf, à direita AFP
Em casa, o Xá era diferente: uma vez ordenou-lhe que mudasse imediatamente de roupa, porque estava com um vestido sem mangas. E aos 18 anos obrigou-a a abandonar o sonho de estudar numa universidade na Europa para se casar com um membro de uma família importante do país. Foi o primeiro de três casamentos mal sucedidos.
Ashraf deixou a imagem de uma mulher emancipada, ocidentalizada, fluente em francês e inglês. Ainda antes do exílio, a sua vida dividia-se entre o luxuoso apartamento de Park Avenue, uma mansão em Paris e uma villa em Juan-les-Pins, na Riviera francesa. Era uma mulher que gostava de jóias e roupas caras e de desafiar a sorte ao jogo; que foi pintada por Andy Warhol, que lhe realçou os cabelos pretos e os lábios com bâton vermelho. Mas que ao mesmo tempo, vestida com os seus fatos Dior, passou vários anos a defender publicamente os direitos das mulheres. Em 1967 foi a delegada do Irão na ONU, incluindo na Comissão dos Direitos Humanos – não sem polémica, porque muitos a acusavam de nunca ter feito activismo directo e lembravam como 4000 dissidentes iranianas eram tratadas e perseguidas pela monarquia.
O momento da saída sem o véu, em 1934 DR
Na entrevista de 1980 ao New York Times, referiu como ficara “de coração partido” com o regresso do véu no seu país. “Lembro-me de quão fantásticas as nossas mulheres eram, exactamente como as europeias, tão bem formadas, e agora estão a ficar tão retrógradas outra vez. A mulher iraniana voltou para casa, e isso deixa-me realmente infeliz.”
Reconheceu que nunca foi uma boa mãe. “Por causa do meu estilo de vida, nunca parava muito em casa. Mas sou uma boa mãe no sentido de ter sempre insistido que recebessem uma boa educação, o que eu não tive por ter nascido rapariga.”
Filha de Reza Xá Pahlavi, comandante militar, e da segunda das suas quatro mulheres, Tadj ol-Molouk, a princesa Ashfar Pahlavi era uma entre dez irmãos. Mas foi com o irmão gémeo que estabeleceu uma relação mais próxima – até à morte de Mohammad Reza Pahlavi telefonavam-se todos os dias, contou uma vez. Nasceu a 26 de Outubro de 1919, cinco horas depois dele.
No seu livro Faces in a Mirror, descreve-se como uma pessoa rebelde que sempre se sentiu sozinha. As atenções dos pais concentravam-se sobretudo no seu irmão gémeo, a quem estava destinado o trono. “Percebi muito cedo que tinha de criar um lugar para mim”, lê-se. “Nos últimos anos, os meus críticos diziam que eu tinha ultrapassado isso, que a minha presença estava em todo o lado. Mas quando era criança ninguém reparava em mim.”
O pai chegou ao poder depois do golpe de 1921 arquitectado pelo Reino Unido para derrubar a dinastia Qajar (que governava a Pérsia desde finais do século XVIII) e com ela a influência da Rússia no território. Tornou-se Xá em 1925. Foi também por decisão estrangeira que, em 1941, Reza Xá Pahlavi foi obrigado a abdicar. Face a suspeitas de simpatias germânicas do Xá, as tropas britânicas e soviéticas invadiram o Irão (país formalmente neutral na II Guerra Mundial), garantindo assim as suas linhas de abastecimento de petróleo. E substituíram o monarca pelo seu próprio filho, o jovem Mohammad Reza Pahlavi.
A princesa não ficou reclusa. Tornou-se uma das principais conselheiras do novo monarca.
“Eram já míticos os sermões que Ashraf dava ao irmão, incluindo um na presença de diplomatas estrangeiros em que ela exigia que ele provasse que era homem ou se revelasse um rato perante todos”, escreveu Stephen Kinzer em Os Homens do Xá – O Golpe no Irão e as Origens do Terrorismo no Médio Oriente (Ed. Tinta da China), sobre o golpe arquitectado pela CIA contra o primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh.
A princesa terá convencido o irmão a alinhar com a CIA DR
A marca da influência de Ashraf foi visível, segundo vários historiadores, precisamente quando Washington e Londres quiseram depor Mossaddegh (eleito em 1951 por voto popular), depois de este ter avançado para a nacionalização da indústria petrolífera, controlada pela Anglo-Persian Oil Company, e de se suspeitar de uma aproximação à URSS. Em 1953, a CIA e o SIS (os britânicos Secret Intelligence Service) traçaram um plano secreto que contava com o apoio das forças militares iranianas descontentes com o Governo – a Operação Ajax.
Face à relutância do irmão em alinhar com o plano, o agente da CIA encarregado da operação, Kermit Roosevelt, decidiu virar-se para a princesa na esperança de que esta exercesse pressão. Entregou-lhe um casaco de vison e uma quantia considerável de dinheiro. O plano avançou. Depois de uma falha inicial, que obrigou o Xá a exilar-se temporariamente em Bagdad e Roma, à segunda foi de vez, e Mohammad Reza Pahlavi voltou para ocupar novamente o Trono do Pavão. A própria CIA reconheceria mais tarde que a queda de Mossaddegh abriu caminho à Revolução Islâmica do ayatollahKhomeini.
Souvenirs de Estaline
A influência de Ashraf tornara-se evidente quando em 1946 foi a Moscovo encontrar-se com Estaline para discutir o controlo soviético do Azerbaijão – a República Popular do Azerbaijão tinha sido proclamada no início desse ano por iranianos pró-URSS, num território que fazia parte do Norte do Irão.
O relato desse encontro é feito em Faces in a Mirror e transcrito no seu site. “O Xá dizia-me muitas vezes que perder o Azerbaijão é como perder um braço, e que faria tudo ao seu alcance para reconquistar a província”, escreve. “Sempre me vi como uma pessoa forte, capaz de manter uma calma pelo menos aparente e com ar seguro quando tinha de enfrentar situações difíceis. Mas agora que estava a caminho de me encontrar com o homem mais poderoso do Leste, um homem com fama de ser espectacular e assustador ao mesmo tempo, os meus nervos não estavam tão controlados como eu gostaria.” E continua mais à frente: “Tendo em conta o estado das relações entre os nossos dois países, tive dificuldade em afastar a fantasia de que acabaria por ser presa e enviada para a famosa prisão de Lubyanka, e nunca mais se ouviria falar de mim.”
Pelo contrário, Estaline aparentemente encantou-se com a princesa. Depois de atravessar vários corredores, subir vários lances de escadas, esperar em várias salas, Ashraf Pahlavi entrou num salão escuro e reparou que, lá ao fundo, estava alguém. Era um homem baixo, de ombros largos e bigode farfalhudo. Com um olhar incisivo, e, sim, assustador também. Estendeu-lhe a mão com firmeza. “Estaline ouvia-me, sem interromper.” Nessa altura, “ele já tinha chegado à conclusão que uma revolução comunista no Irão não era um caminho viável. E por isso tentou, em vez disso, obter alguns ganhos realistas, especificamente pela criação de uma parceria soviético-iraniana para a exploração do petróleo no Azerbaijão”.
A conversa estava inicialmente limitada a dez minutos. Durou duas horas e meia. “Quando terminámos, estendeu-me a mão e acompanhou-me à porta. Antes de eu sair, pôs a mão no meu ombro, olhou-me nos olhos, e disse: ‘Dê os meus melhores cumprimentos ao seu irmão, e diga-lhe que se ele tivesse dez como você nunca teria problemas.” No dia seguinte, chegou-lhe um convite para acompanhar Estaline a um evento desportivo no maior estádio de Moscovo. O generalíssimo sentou-a ao seu lado. Ofereceu-lhe chá e bolinhos. E mais ainda: “Antes de eu deixar a Rússia, Estaline enviou-me um magnífico casaco de marta. Este presente originou algumas manchetes espalhafatosas na imprensa, mas ainda guardo com estima esta lembrança da minha primeira missão diplomática ao estrangeiro.”
A entrada dos mullahs, a saída dos Pahlavi
Numa entrevista que deu por email à revista Pública, a última imperatriz da Pérsia, Farah Diba Pahlavi, justificava assim a revolta dos iranianos contra o Xá, seu marido: “No Irão, depois de 1973, o aumento dos preços do petróleo não agradou a interesses estrangeiros. Havia umboom de desenvolvimento e o Governo não conseguia corresponder às expectativas populares. Isto criou insatisfação e terreno fértil para a oposição, que estava muito bem organizada, ao contrário de nós. O ayatollah Khomeini e os seus discípulos prometeram paraíso, transportes, combustíveis e outros bens gratuitos. Muitos acreditaram, mas abriram as portas do inferno. Hoje, muitos lamentam ter participado nas manifestações. Os mais jovens culpam os pais pela actual situação no Irão.”
Ainda no seu site, Ashraf Pahlavi adianta que, “já em 1977, notava alguns sinais inquietantes, e tinha a premonição que lá no fundo alguns acontecimentos perturbadores estavam a desencadear-se”. Falava numa campanha dos media contra o irmão, dentro e fora do Irão. “Em 1978, quando os líderes religiosos organizaram os primeiros motins nas ruas de Qom e Tabriz, encontrei-me com o meu irmão no palácio Niavaran… ‘Este é o preço que temos de pagar pela democracia’, disse-me. ‘Não tenho o direito de autorizar medidas duras que resultariam em centenas de vítimas.' Fez um momento de silêncio e acrescentou. ‘Sou um rei, não um déspota.’”
A quem acusava a família de enriquecimento à custa das riquezas do país, Ashraf Pahlavi argumentava que a fortuna foi legitimamente herdada, através de propriedades e negócios, ignorando as queixas de que as propriedades foram expropriadas e que as principais empresas eram todas controladas pelo Xá e a sua corte, referia o Washington Post no seu obituário. E adiantava: “Ela era uma importante defensora da famosa polícia secreta do Xá, conhecida como Savak, responsável por perseguições implacáveis a dissidentes e acusada de abusos generalizados.”
Alguns analistas dizem que uma parte considerável da fortuna vinha de uma taxa de 10% que a família real impunha a todas as exportações, importações e contratos com o Governo. Ela garantia que não houve pilhagens aos cofres. “O rei estava acima de todas essas coisas”, disse à People. Nem tão-pouco era cúmplice dos abusos de que eram acusados: “Mesmo que houvesse tortura, nós não sabíamos.”
Janeiro de 1979: o Xá é obrigado a deixar Teerão e a partir para o exílio. Morrerá de cancro no ano seguinte SYGMA/CORBIS
Em 1983 afirmou: “Se tivesse realmente os 65 mil milhões de dólares que algumas pessoas diziam que tínhamos, tínhamos reconquistado o Irão num piscar de olhos”, citava a Associated Press.
O exílio que se seguiu à revolução não foi pacífico. Nesse mesmo ano, Shahriar Shafiq, filho do seu segundo casamento, era assassinado à frente de casa da mãe, em Paris, por enviados do novo regime em Teerão, que suspeitava que ele estivesse a planear um golpe para repor a monarquia, segundo a versão da princesa. Mandou embalsamar o seu corpo para um dia o poder enterrar no Irão.
No ano seguinte, disse ao New York Times: “Já não tenho prazer na vida com tudo o que me aconteceu a mim e ao meu irmão." Poucos meses depois, o Xá não resistiria a um cancro; teve um funeral de Estado no Cairo, onde estava exilado.
Os episódios sombrios já tinham sido uma realidade antes e continuariam depois. Em 1977, dois homens armados dispararam contra o seu Rolls-Royce quando regressava de uma noite no casino, em Cannes – era bastante dada ao jogo. Mataram a sua assistente e feriram o motorista. Ashraf Pahlavi saiu ilesa. A sobrinha, Leila, morreu em 2001. A filha do Xá, que chegou a ser modelo de Valentino, sofria de depressão, e, aos 31 anos, foi encontrada sem vida no seu apartamento em Londres. A autópsia revelou uma dose fatal de “barbitúricos e cocaína”. Dez anos depois, seria o filho mais novo de Mohammad Reza Pahlavi, Ali, a suicidar-se, com uma bala na cabeça. “A vida da princesa Ashraf assemelhou-se a uma tragédia shakespeariana”, escreveu o Guardian.
A princesa deixa um filho, Shahram Pahlavi, do primeiro casamento, cinco netos e vários bisnetos. Viveu os últimos anos em Paris, a jogar bridge com as amigas e a ver imagens de um Irão pré-revolução. Nunca chegou a divorciar-se do seu terceiro marido, Mehdi Bushehri, um empresário que acabou por se estabelecer em Paris depois da revolução, mas viviam vidas separadas, por vezes em continentes diferentes.
Ashraf Pahlavi adiantou na sua entrevista à AP: “À noite, quando vou para o meu quarto, é quando os pensamentos aparecem em avalanche. Fico acordada até às cinco, seis da manhã. Leio, vejo cassetes, tento não pensar. Mas as memórias não nos abandonam.” Dizia também que de nada se arrependia. “Fazia tudo igual. Agora já é passado, são apenas memórias. Mas foram 50 anos de grandeza, de glória.”
Ashraf fotografada no seu apartamento em Nova Iorque, em Abril de 1980. Por trás, a fotografia do irmão MAURICE MAUREL/CORBISFRANCISCA GORJÃO HENRIQUES