quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

EUA caminham para modelo brasileiro de identificação racial, diz sociólogo americano João Fellet - @joaofellet Da BBC Brasil em Washington

Neymar Jr. | Foto: AFPImage copyrightAFP
Image captionJogador não se pronunciou sobre ofensas racistas que sofreu em partida do Barcelona, na Espanha
Os critérios com que brasileiros e americanos se identificam racialmente estão se aproximando, diz Reginald Daniel, professor de sociologia da Universidade da Califórnia (Santa Barbara).
Ele afirma que, aos poucos, os Estados Unidos estão deixando para trás um modelo de classificação rígido e binário, que enquadrava a maioria da população nas categorias branca ou negra. Com a imigração latina e o crescimento de casamentos inter-raciais, cada vez mais americanos se veem como multirraciais.
Já o Brasil, onde historicamente vigora um modelo racial mais flexível, percorre o caminho inverso: cresce no país o número de pessoas que se identificam como pretas ou negras e repelem termos que designam grupos intermediários, como pardo ou mestiço.
A tese está no livro Race and Multiraciality in Brazil and the United States: Converging Paths? ("Raça e multirracialidade no Brasil e nos EUA: caminhos convergentes?", em tradução livre), escrito por Daniel após vários anos de pesquisa nos dois países.
Em entrevista à BBC Brasil, o professor afirma que o estigma ligado à escravidão ainda impede que muitos brasileiros assumam sua ancestralidade africana.
Daniel, americano que se define como multirracial, comentou o silêncio do jogador Neymar diante das ofensas raciais que sofreu em partida no início do mês, na Espanha.
"Se não fosse famoso, Neymar correria os mesmos riscos de um preto ou pardo que topasse com a polícia à noite na zona norte do Rio."
Leia os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil – Muitos no Brasil – particularmente no movimento negro – têm cobrado Neymar e outras figuras públicas a se identificar como negras e a se posicionar publicamente contra o racismo. Como avalia a postura?
Reginald Daniel – O movimento negro está tentando transmitir uma mensagem de unidade na luta antirracista e quer que mais pessoas falem sobre isso. A estratégia faz todo o sentido, mas acho problemático o discurso de que, para entrar na luta pela libertação negra, uma pessoa não possa reconhecer uma identidade que a conecte também à brancura.
As categorias raciais no Brasil historicamente se baseiam em aparências físicas. Se uma pessoa se olha no espelho e se vê numa categoria intermediária, fazer com que ela passe a se ver como negra não é tão simples. Muitos podem reconhecer uma ancestralidade africana, mas se identificar como pardos, mestiços, morenos ou outros termos.
Para mim, o mais importante é conscientizar essas pessoas de que elas são parte da luta negra e de que essa identidade multirracial não pode ser usada para fugir da luta.
Acho que até mesmo brancos podem ter um papel nesse esforço. Já há muitos americanos de origem europeia engajados em vários tipos de iniciativas antirracismo, nem que seja simplesmente condenando-o ou apoiando ações que busquem garantir maior equidade em universidades, no governo e em empresas, por exemplo.
Foto: Arquivo pessoalImage copyrightArquivo pessoal
Image captionIdentidades raciais nos EUA tendem a ficar mais parecidas com as do Brasil, segundo Reginald Daniel
BBC Brasil – Neymar foi criticado em 2014 por dizer que, por não ser negro, não sofria racismo no Brasil.
Daniel – Acho delicado que ele diga não sofrer racismo por não ser negro, porque outros com as características físicas dele poderiam sofrê-lo. Se não fosse famoso, Neymar correria os mesmos riscos de um preto ou pardo que topasse com a polícia à noite na zona norte do Rio.
Talvez ele esteja em negação. Talvez até perceba a discriminação, mas ache que não seja racialmente motivada. Mas seria muito válido se ele falasse e se posicionasse, mesmo que individualmente não se sinta afetado.
BBC Brasil – O sr. acha que brasileiros têm dificuldade em se ver como negros, em reconhecer sua ancestralidade africana?
Daniel – Acho que quase todos no Brasil estão conscientes de sua ancestralidade africana, ainda que neguem ou não falem sobre isso, exceto por alguns em áreas que atraíram muitos imigrantes europeus, como São Paulo e Santa Catarina.
Testes genéticos mostram que a maioria dos brasileiros tem ancestrais do oeste africano. Por outro lado, embora reconheçam essa conexão, muitos não a assumem por causa do estigma associado à escravidão e à negritude no Brasil.
BBC Brasil – Houve uma discussão recente no Brasil em torno da identidade racial do namorado de uma videologger famosa (Jout Jout). Alguns que viram suas fotos disseram que ele era negro, mas ele gravou um vídeo dizendo que sempre havia se considerado pardo. Historicamente o que diferencia as identidades preta e parda no Brasil?
Daniel – Dados mostram que pretos e pardos estão bem próximos em índices como expectativa de vida e escolarização. Historicamente, pardos tiveram um pouco mais de oportunidades durante a escravidão, mais acesso à educação e mobilidade social. Por terem uma ligeira vantagem na forma como são vistos pela sociedade, talvez alguns não tenham a consciência de sofrer discriminação e não a experimentem como os pretos.
E havia historicamente um processo de branqueamento, uma percepção de que haveria uma vantagem, ainda que mínima, se você não associasse a negritude à sua identidade. O estigma ligado aos negros é muito poderoso até hoje. O Brasil é dominado por quem os brasileiros consideram brancos. Então, há um fator estético na sociedade, independentemente do que aconteça em termos políticos, de ações afirmativas em universidades etc.
Remover o estigma da negritude tem sido um esforço central na luta contra o racismo. Para que as pessoas que estão racialmente no meio do caminho não pendam na direção da branquitude, mas sim se engajem na negritude e na crítica do racismo. Para que percebam que estão todas no mesmo barco.
BBC Brasil – Cresce no Brasil a adoção de bandeiras comuns ao movimento negro americano, como a "apropriação cultural" (crítica ao uso de elementos de uma cultura por membros de outra cultura). Como traçar uma linha entre as culturas branca e negra no Brasil?
Daniel – É difícil, porque a cultura afrobrasileira foi vista por muito tempo como parte da cultura nacional. O samba, o candomblé, a capoeira, tudo isso foi compartilhado por todos os brasileiros.
Quem tem o direito de assumir itens que refletem conexões com a África? Só os que têm uma ancestralidade africana visível? Nos EUA, é mais fácil fazer essa distinção, porque brancos e negros são mais delineados culturalmente.
Foto: YouTube | Jout JoutImage copyrightYouTube Jout Jout
Image captionRevelação de identidade do namorado de Jout Jout causou polêmica entre fãs da vlogger
BBC Brasil – O senhor diz que os modelos raciais do Brasil e dos EUA estão convergindo. Até que ponto o Brasil se aproximará do modelo americano?
Daniel – Hoje, o Brasil já se parece muito mais com os EUA do que no passado, mas acho difícil que os brasileiros adotem um modelo binário similar ao americano.
Quando saiu o Censo de 2010, muitos disseram que pela primeira vez o Brasil tinha uma maioria negra. Mas se você analisar os dados verá que os brancos ainda são o grupo mais numeroso, apesar de terem tido uma pequena redução. A maioria dos que são tidos por negros se veem como pardos.
O Brasil tem uma maioria não branca, certamente. Mas essa maioria não branca é majoritariamente parda. Acho que as pessoas estão ignorando isso, porque querem mudar para um modelo binário negro-branco. Mas essa não é a realidade dos brasileiros.
Daniel – Quando foram removidas as leis Jim Crow (regime segregacionista que vigorou até quase o final da década de 1960, principalmente em Estados do sul dos EUA), a sociedade se tornou mais aberta. Ainda estamos informalmente muito segregados, particularmente em bairros, escolas e igrejas, mas os casamentos inter-raciais já são 7% do total.
No fim dos anos 1970, as pessoas nascidas dessas relações começaram a questionar a manutenção das regras de identidade do regime segregacionista. Antes valia a "lei da uma gota", pela qual quem tinha uma gota de sangue negro era considerado negro. No Censo de 2000, as pessoas puderam pela primeira vez selecionar mais de uma categoria na pergunta sobre raça. Em 2010, 9 milhões de pessoas o fizeram. É uma mudança imensa.
Com o tempo, os EUA tendem a se mover mais e mais na direção do Brasil, adotando um modelo com identidades mais flexíveis e fluidas. Já temos grupos, espaços, sites, conferências, festivais destinados a pessoas mestiças ou voltados ao tema da multirracialidade.
Em Sacramento e em vários condados do norte da Califórnia, há um grande número de famílias inter-raciais e pessoas que se identificam como multirraciais. Soube que lá algumas dessas pessoas estão interpelando outras que elas consideram multirraciais mas não se identificam assim, cobrando-as a assumir a identidade.
BBC Brasil – A imigração de latinos também tem alguma influência nessa mudança de percepções?
Daniel – Esse também é um componente importante, embora mais sutil. Os imigrantes latinos vêm para cá com formas muito diferentes de ver raças e têm de se adaptar aos padrões locais. Eles podem ser vistos como latinos ou hispânicos, mas nas suas comunidades frequentemente usam muitas outras formas de identificação e estão numa posição racial intermediária no modelo binário preto-branco dos EUA.
Foto: ReutersImage copyrightReuters
Image captionApesar de governo Obama, maioria dos americanos prefere "ignorar o tema racial", diz pesquisador
BBC Brasil – A eleição de Barack Obama teve algum impacto nas relações raciais nos EUA?
Daniel – Para algumas pessoas, ter um homem com ascendência africana no topo levaria a uma cicatrização racial. E de fato a eleição pode ter gerado um momento de grande unidade, temporariamente. Mas o governo dele gerou reações públicas de hostilidade racial que ninguém poderia imaginar. As pessoas não estavam prontas para um presidente negro. Houve um ataque à negritude só por causa de sua presidência.
Até a administração Reagan (1981-1989), ou mesmo a de Bush pai (1989-1993), vivíamos sob uma ideologia em que raça não era importante. Entendia-se que o caráter e a integridade de uma pessoa eram fatores mais relevantes. Mas o mundo não mudou só porque as pessoas diziam isso. Nossa sociedade continua muito racializada, algo que emana da desigualdade racial. A eleição de Obama tirou o véu dos nossos olhos.
Abordagens policiais frequentemente resultam em mortes de negros inocentes. Não sei que nome as pessoas vão dar a isso, mas é impressionante que não esteja acontecendo com muitos brancos.
A maioria das pessoas ainda prefere ignorar o tema racial, achando que, se não falarmos sobre ele, o problema desaparecerá. Não vai, ele só vai piorar, a menos que nós, como nação, reconheçamos sua gravidade e tomemos medidas agressivas para erradicá-lo.

Operação Lava Jato: mensagens indicam que ex-ministro fez lobby no governo de Agnelo e Filippelli para obra da OAS

Tony Winston/Agência Brasília

Segundo investigação, Carlos Gabas teria intermediado negócios da empreiteira com o GDF em 2014. Empresa participa do consórcio que construiu o BRT Sul


Mensagens obtidas pelos investigadores da Operação Lava Jato no celular de José Adelmário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, indicam que o ex-ministro da Previdência Social Carlos Gabas intermediou negócios da empreiteira com o governo do Distrito Federal em 2014, época em que era comandado por Agnelo Queiroz (PT) e tinha como vice o peemedebista Tadeu Filippelli. A empresa participa do consórcio que construiu o BRT Sul, ramal do transporte público que liga a cidade de Santa Maria ao Plano Piloto.
Os investigadores afirmam que “sobre Gabas, destaca-se que há trocas de mensagens ao menos desde junho de 2012, sendo um contato de pessoas vinculadas a empresas do grupo OAS com negócios relacionados ao governo”. Atual secretário especial de Previdência Social, Gabas é próximo à presidente Dilma Rousseff. Em 2013, ele levou a petista para passear de moto em sua garupa. Ele comandou o Ministério da Previdência de janeiro a outubro de 2015, quando a pasta foi fundida com a do Trabalho. Gabas nega qualquer envolvimento com a Lava Jato.
Os diálogos obtidos pelo jornal “O Estado de S. Paulo” são mantidos sob sigilo em Brasília e na Justiça Federal no Paraná. As conversas envolvendo Gabas ocorreram entre 2012 e 2014, quando ele era secretário executivo do Ministério da Previdência Elas foram obtidas pelos investigadores em Curitiba e remetidas à Procuradoria-Geral da República no ano passado por haver menção ao nome de Gabas.
Até o momento, não há inquérito que investigue o envolvimento do ex-ministro na Lava Jato.
Em 27 de outubro de 2014, um número atribuído pelos investigadores a Léo Pinheiro encaminhou mensagem a Gabas citando José Lunguinho Filho, diretor da OAS Defesa. “Amigo, Não deu para o Lunguinho lhe ver. Abaixo a nossa agonia”, afirma Pinheiro, citando em seguida as “principais pendências” que envolviam as obras do BRT Sul de Brasília.
Nas mensagens, MM significa “milhões”, CEF, “Caixa Econômica Federal” e GDF, governo do Distrito Federa. “Contrato: – Solicitar ao GDF (Casa Civil e Secretaria de Transportes) a aprovação do 7.º Termo Aditivo e a respectiva reprogramação (R$ 60 MM), junto a CEF. – Última medição recebida foi referente ao mês de Junho/14. Saldo financeiro do contrato após este recebimento = R$ 90 MM – Recursos: empenhar e pagar – R$ 30 MM da fonte 100 do GDF (contra partida) desbloquear e pagar – R$ 60 MM do convênio de empréstimo, junto a CEF. Grande abraço, Léo.”
Cinco horas depois da primeira mensagem, ela foi respondida por um número que a investigação atribui a Carlos Gabas. “Ok. Cuido daqui.”
Obra viária
A OAS é uma das empresas integrantes do Consórcio BRT Sul, responsável por obras viárias no Distrito Federal, como a construção de uma linha de BRT. Fazem parte do consórcio a Andrade Gutierrez e a Via Engenharia, segundo informações da própria OAS.
O chamado “BRT Expresso Sul” já está em funcionamento, embora algumas estações ainda não tenham sido entregues. O projeto total teve investimento de R$ 761,4 milhões, segundo relatório do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Já em 2013, Gabas era apontado como intermediador entre a OAS e o governo do Distrito Federal, como sugere mensagem de 28 de março de José Lunguinho Filho para Léo Pinheiro, citando reunião com o ex-vice-governador Tadeu Filippelli, identificado na conversa como TF, e o comando da Terracap, agência de desenvolvimento do Distrito Federal.
Defesa
Gabas afirmou que não representa a OAS e que seu propósito era “ajudar o DF e o governo do DF”. “Não estou na Lava Jato, não tenho nada a ver com a OAS nem com nenhuma construtora”, afirmou
O secretário disse que participou de reuniões por integrar, desde 2010, o conselho de administração da Novacap, estatal do Distrito Federal responsável pela execução de obras. Ele admitiu ser autor das mensagens e disse que conheceu Léo Pinheiro no aniversário de um amigo em comum.
A respeito da mensagem a que respondeu dizendo que cuidaria da demanda de Pinheiro, Gabas disse apenas ter encaminhado o apelo ao então governador Agnelo Queiroz. “O cara está pedindo pelo amor de Deus. Pela mensagem dele, está desesperado para receber o dinheiro que ele já deve ter gasto, pelo que ele diz aqui. Não acompanhava isso.”
A Caixa informou que não repassou recursos diretamente para a OAS. Em nota, a OAS informou que “a empresa não tem nada a comentar a respeito”. O ex-vice-governador Tadeu Filippelli disse que não irá se manifestar, assim como Agnelo Queiroz.

Escapar ao Boko Haram com uma história para contar Foram raptadas enquanto apanhavam o autocarro ou dormiam em casa. Ficaram dias e meses num campo fechado e receberam um hijab para cobrir o rosto. Foram escravizadas e forçadas a casar. No fim escaparam, mas como é que esta vitória se equilibra com o terror que a antecedeu?


Ruth McDowall estava em Jos, Nigéria, quando elementos do grupo extremista Boko Haram invadiram a cidade. Há cinco anos que Ruth, fotógrafa neozelandesa de 32 anos, se dedica à investigação e registo fotográfico de acções do grupo islamista, criado em 2002, como uma milícia anti-ocidental. “Havia rumores de que jovens, especialmente raparigas, eram raptadas e escravizadas, mas ninguém acreditava”, conta Ruth, em resposta por email ao PÚBLICO. “Um amigo meu investigador entrevistou uma rapariga que tinha sido raptada. A história foi mundialmente divulgada e despertou o meu interesse em saber mais”. Através de amigos e associações humanitárias, Ruth entrou em contacto com sobreviventes e pessoas que conseguiram escapar aos campos do Boko Haram, que em Março jurou fidelidade ao Estado Islâmico. Em 2013, começou o projecto “Malaiku (Angels) Survivors of Boko Haram Abduction”. Antes de fazer os retratos, Ruth ganhou a confiança das pessoas e criou uma relação com elas. Visitou-as de três em três meses e ensinou-as a fotografar. “Ainda estamos em contacto e é óptimo vê-las a progredir. Parecem cada vez mais felizes sempre que as vejo”, conta Ruth. “Já vi muitos rostos assombrados, mas estas raparigas parecem diferentes, assombradas, mas também desfeitas”. O objectivo de Ruth era captar uma imagem forte dos sobreviventes, mas o seu passado era demasiado pesado. Há já alguns anos que rapazes e raparigas têm sido raptados na rua, nas escolas, no trabalho ou até na própria casa e levados para campos organizados pelo grupo terrorista, que os obriga a seguir a sua ideologia, através de abusos físicos e psicológicos. Enquanto que os rapazes são utilizados como soldados, as mulheres são escravizadas, violadas, forçadas a casar e chegam a ser utilizadas como bombistas suicidas. O ataque de Chibok, no dia 14 de Abril de 2014, foi o maior sequestro até à data, onde quase 300 raparigas foram levadas do seu dormitório pelo Boko Haram. Algumas conseguiram escapar, mas o apoio que têm tido desde então não é suficiente. “Elas ainda lutam contra a sua experiência e não vão à escola com medo de serem raptadas outra vez”, diz Ruth. “Muitas das meninas que escaparam ficaram fortemente estigmatizadas nas suas comunidades, o que as obrigou a mudar de cidade”. Para os retratos, Ruth pediu que trouxessem a sua melhor roupa. Queria dar-lhes algum controlo e poder sobre a sua imagem. Sentadas numa cadeira, posaram sem mostrar o rosto e contaram a sua história. Onde estavam, quem as levou, como escaparam. Nomes de lugares, pessoas e datas. Das datas não se esquecem. Nunca vão esquecer.
Lydia
RUTH MCDOWALL
Lydia tem 21 anos. Estava no autocarro quando um membro do Boko Haram entrou. Tinha acabado de pagar as propinas da escola, no dia 7 de Maio de 2013. Todas as pessoas no autocarro lhe sussuraram para que mentisse sobre a sua religião. Ou dizia que era muçulmana ou seria morta. Foi levada para um campo na floresta de Sambisa, onde ficou durante três dias. Dormia debaixo das árvores com troncos largos e compridos. À sua volta, rapazes pequenos, muitos com menos de 10 anos, carregavam armas e eram ensinados a usá-las. Lydia não comeu durante os três dias receando que lhe fosse servida carne humana. “Há quem diga que o grupo Boko Haram come carne humana, então eu atirava a comida para o chão e fingia ter comido”, conta. “Um dia, perguntaram-me de que aldeia é que eu era e descobriram que conheciam o pai do meu irmão. Decidiram libertar-me”. Ficou no meio de uma estrada principal, com duas mil nairas (cerca de 9 euros) e um hijab (palavra árabe para véu), que foi obrigada a usar. A sua família fugiu para outra cidade, mas Lydia já não vive com ela. Queimou o hijab após ter escapado. À noite sonha que Shekau, líder do grupo extremista, aparece à sua frente e tenta matá-la.
Martha
RUTH MCDOWALL
No dia 7 de Setembro de 2014, Martha estava a caminho do casamento da sua irmã quando foi raptada pelo grupo extremista. Mataram o seu cunhado e o noivo e levaram-na juntamente com as suas duas irmãs para um campo em Gulak. Foram quatro meses de sofrimento e violência física e psicológica. Passava fome e raramente tomava banho. “Disseram-me para não andar fora do perímetro. Eu andava, eles batiam-me. Disseram-me para não falar. Eu falava, eles batiam-me. Disseram-me para não cantar. Eu cantava, eles batiam-me”, conta Martha. Com apenas 14 anos, ensinaram-na a usar uma arma. Foi forçada a acompanhar o grupo em duas operações, para que disparasse sobre os opositores. “Queriam que eu matasse alguém, mas nunca consegui”.
Blessing
RUTH MCDOWALL
Por volta das oito da manhã do dia 30 de Setembro de 2013, um membro do Boko Haram entrou na casa de Blessing. Mataram o seu irmão e exigiram que todas as mulheres saíssem da casa, com uma pistola apontada ao rosto de uma delas.“Levaram-me com a minha irmã e cunhada para o campo deles”, conta Blessing, de 19 anos, “e pediram-me para renunciar a Cristo e aceitar o Islamismo, caso contrário matavam-me”. Com medo, Blessing aceitou e recebeu um hijab.
Ladi
RUTH MCDOWALL
Ladi foi raptada da sua cidade natal, Gwoza, em 2013, quando trabalhava no campo. Ao tentar fugir, ameaçaram cortar-lhe garganta. “Um deles pediu-me para não resistir, então cedi e converti-me ao Islamismo”, conta. Leu o Corão e vestiu um hijab. Colocaram-na à venda por 15 mil nairas (cerca de 70 euros). Um dia fingiu estar com dores de estômago e foi levada para um hospital na companhia de uma mulher mais velha. Já na cidade, ao ameaçar denunciá-la à polícia, a mulher fugiu, deixando Ladi sozinha. “Já não vou à escola e ainda me lembro de tudo o que aconteceu...é horrível”.  
Hannah
RUTH MCDOWALL
Hannah é filha de um pastor e tem 15 anos. No dia 28 de Setembro de 2013, membros do grupo Boko Haram entraram na sua casa. “Pediram a mim, à minha irmã e à minha mãe para irmos lá para fora. O meu pai não estava lá. Perguntaram os nossos nomes e quando perceberam que éramos cristãs, decidiram levar-me”, conta Hannah. Antes de saírem da cidade, o grupo incendiou uma igreja. Caminharam durante dois dias até chegarem ao campo em Gwoza, onde Hannah foi obrigada a converter-se ao Islamismo. Deram-lhe um novo nome e casaram-na com um desconhecido. Hannah conseguiu escapar numa noite com mais duas raparigas. “Ainda estou a debater-me com as memórias do que aconteceu, mas tento focar-me nos estudos, pois espero vir a ser uma mulher de negócios”.
Hauwa
RUTH MCDOWALL
Em 2009, para fugir à crise na cidade de Hadiza, Hauwa, de 15 anos, foi levada com mais uma rapariga para outra cidade por uma amiga da mãe. A mulher fazia parte do grupo extremista Boko Haram. “Trancaram-nos numa casa para que nos tornássemos nas suas filhas muçulmanas”, conta Hauwa. Foi obrigada a mudar de nome e a converter-se ao Islamismo. Quando recusava, era violentamente agredida. “Após uma semana, a minha amiga agarrou um tijolo e bateu na cabeça da mulher. Pegámos na chave de casa e trancámo-la lá dentro”. Hauwa voltou para casa, onde acabou por descobrir que o seu pai tinha sido morto.
Mairama
RUTH MCDOWALL
“O Boko Haram atacou a minha aldeia e entrou na minha casa no dia 30 de Setembro de 2013”, conta Mairama, de 16 anos. “Fui enviada para um campo em Gwoza onde fiquei durante três semanas”. No campo, Mairama ficou encarregue de ir buscar água e cozinhar para os militares. Passava o resto do tempo a chorar. Foi obrigada a casar com um homem e quando se recusou a dormir com ele, este ameaçou matá-la da próxima vez. Uma noite, uma mulher de um dos comandantes mostrou-lhe uma saída. Fugiu com mais duas raparigas até uma cidade segura. “Foi Deus que me salvou”, acredita. “Estou de novo na escola e espero vir a ser enfermeira, um dia".

Sisu 2016: última parcial da nota de corte é divulgada; prazo termina hoje Ministério da Educação antecipou o dado à 0h. Candidatos têm até as 23h59 da quinta-feira (14) para se inscrever.

As últimas notas de corte para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) de 2016 foram divulgadas nesta quinta (14) e já podem ser consultadas pelos estudantes no portal de inscrições. Elas representam a menor nota para o candidato ficar entre os potencialmente selecionados para as 228 mil vagas em 131 instituições públicas de educação superior.
O Ministério da Educação havia informado que os dados seriam divulgados às 9 horas - mas, à 0h, já estavam atualizados.
Nota de corte mais alta em medicina na primeira parcial é da UFOB

Aqueles que buscam uma vaga devem se inscrever até as 23h59 (horário de Brasília) de quinta-feira (14). Para saber dicas de como realizar a inscrição da melhor forma possível, esclareça as principais dúvidas aqui.
Monitorar o sistema pode ajudar o estudante a aumentar suas chances de aprovação. Como o Sisu funciona de forma dinâmica, é possível mudar a inscrição quantas vezes for necessário até o prazo final.

Se a nota de corte estiver muito acima da pontuação obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a melhor saída é escolher outro curso e/ou instituição com nota mínima mais baixa.
Para participar do processo seletivo, o candidato deve ter feito o Enem em 2015. As notas foram divulgadas na última sexta (8).
Aplicativo do Sisu
Neste ano, o MEC lançou um aplicativo para os sistemas Android, Windows e IOS. A ferramenta é voltada apenas para consulta de informações do programa, já que a inscrição é realizada exclusivamente no endereço eletrônico sisu.mec.gov.br.

O aplicativo, gratuito, oferece consultas a vagas disponíveis e uma calculadora eletrônica, que permite simular a classificação parcial. Ele também oferece uma agenda para datas de inscrição até a convocação da lista de espera.

Como funciona o Sisu
Sisu abriu vagas para inscrição nesta segunda (Foto: Reprodução/Sisu)Sisu abriu vagas para inscrição nesta segunda (Foto: Reprodução/Sisu)
Para disputar as vagas, além de ter feito a edição 2015 do Enem, os candidatos devem ter obtido nota na prova de redação que não seja zero.

O Sisu é um sistema eletrônico gerenciado pelo MEC que seleciona os alunos de acordo com o desempenho no Enem. O estudante pode se inscrever em até duas opções de vagas, por ordem de preferência.

Ao fazer sua inscrição, o candidato ainda precisa apontar se deseja concorrer às vagas de ampla concorrência, às vagas reservadas para Lei de Cotas ou às destinadas às demais políticas afirmativas da instituição selecionada.

Durante o período de inscrição, é possível verificar a nota de corte de cada curso e mudar a candidatura, otimizando as chances de aprovação.

Nota de corte
A nota de corte é a menor nota para o candidato ficar entre os potencialmente selecionados. O MEC alerta que ela "é apenas uma referência para auxiliar o candidato no monitoramento de sua inscrição, não sendo garantia de seleção para a vaga ofertada. O sistema não faz o cálculo em tempo real e a nota de corte é modificada de acordo com a nota dos inscritos. A nota de corte só será informada pelo sistema a partir do segundo dia de inscrição."
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CALENDÁRIO DO SISU 2016
Inscrições
11/1 a 14/1
Resultado - chamada regular
18/1
Matrículas
22/1, 25/1 e 26/1
Lista de espera
18/1 a 29/1
Resultado
O resultado da chamada regular será divulgado no dia 18 de janeiro na página do Sisu e nas instituições de ensino superior.

As matrículas ocorrem nos dias 22, 25 e 26 de janeiro. Assim como na edição anterior, só haverá uma chamada.
Entre os dias 18 de janeiro e 29 de janeiro os candidatos que não foram convocados para sua primeira opção podem entrar na lista de espera. Caso sobrem vagas, as instituições poderão convocar os alunos dessa lista.
Pelo Sisu, os candidatos que fizeram o Enem disputam vagas em instituições públicas de ensino superior de todo o país.

USP adere ao Sisu
A Universidade de São Paulo (USP) vai exigir nota mínima de 700 pontos no Enem para os cursos Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal, Gestão Ambiental, Administração, Odontologia, Química, Medicina Veterinária e Zootecnia.

Confira quais as carreiras e unidades:
- Campus de Piracicaba: Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal, Gestão Ambiental.
- Campus de Ribeirão Preto: Química (Integral- Matutino/Vespertino e noturno), Administração (noturno e matutino), Odontologia (Integral-Matutino e Vespertino)
- Campus Pirassununga: Medicina Veterinária, Zootecnia.

Nesses cursos, o aluno deverá ter conseguido os 700 pontos na Redação e em todas as provas (Matemática; Linguagens, Códigos; Ciências Humanas e Ciências da Natureza).

Essa é a primeira vez que universidade adere ao Sisu. A instituição decidiu que 1.499 das 11.057 vagas do vestibular 2016 serão preenchidas por meio da nota do Enem 2015. Alguns dos cursos mais concorridos, como medicina em São Paulo, audiovisual e engenharia, ficaram de fora da adesão ao Enem.

“Diminuição do horário de trabalho é eficaz para criar emprego” Durante a discussão sobre a reposição do horário de trabalho de 35 horas, Joana Mortágua lembrou que, em 1996, quando o horário de trabalho passou de 44h para 40h, houve um efeito líquido de criação de emprego de 5%. A deputada bloquista destacou ainda que “não existe alguma relação entre o aumento do horário de trabalho e o aumento da produtividade”.

Durante a apresentação do projeto de lei do Bloco que visa estabelecer o horário de 35h para maior criação de emprego e reposição dos direitos na Função Pública, Joana Mortágua lembrou que “está mais do que provado que não existe alguma relação entre o aumento do horário de trabalho e o aumento da produtividade, muito pelo contrário”.
“Está também provado que a diminuição do horário de trabalho é uma maneira eficaz de criar emprego”, acrescentou a deputada bloquista, lembrando que, em 1996, quando o horário de trabalho passou de 44h para 40h, houve um efeito líquido de criação de emprego de 5%”.
“Partilhar o trabalho é uma das formas mais eficazes no combate ao desemprego”, reforçou.
A dirigente do Bloco destacou ainda que, “se diminuir o horário de trabalho é sinal de futuro, então só podemos concluir que aumentar o horário de trabalho é regressar ao passado, e foi isso que a direita fez no último governo”.
“A direita desfez no século XXI um direito que tinha sido conquistado no século XX, e, portanto, aquilo que o Bloco de Esquerda propõe hoje é reverter o que a direita fez contra tudo e contra todos”, afirmou a deputada.
Joana Mortágua quis deixar bem claro que o Bloco “não abandona a redução do horário de trabalho no privado”, destacando que, neste momento, o que se pretende é “repor um direito roubado e retomar um caminho de direitos e futuro no qual a direita quis impor um regresso ao passado”.
A deputada bloquista salientou a importância de “garantir que com a diferença de vínculos que infelizmente existe não nasce também a desigualdade de direitos e a desigualdade em termos de horário de trabalho”.
A dirigente bloquista alertou ainda para a necessidade de, “em todo o processo, ser respeitada a negociação coletiva, que foi algo que a direita não fez”.
Governo impôs “mais horas de trabalho e, por conseguinte, menor salário”
No projeto de lei discutido esta quarta-feira, o Bloco lembra que “o anterior Governo PSD/CDS impôs novas regras em matéria de duração e horário de trabalho na Administração Pública, que se traduziram em mais horas de trabalho e, por conseguinte, menor salário”.
Frisando que “a OIT deixa claro em vários relatórios, e está amplamente comprovado”, que “a redução do horário de trabalho tem um impacto positivo na economia: a criação de emprego sem diminuição da remuneração dos trabalhadores”.
“É urgente repor esta injustiça e reverter a imposição de sacrifícios injustificados aos trabalhadores, atropelando direitos fundamentais constitucionalmente consagrados”, destacam.
Esta sexta-feira estiveram ainda em discussão os projetos de lei do PCPPEV e PS, sendo que este último prevê a entrada em vigor da proposta somente a 1 de julho de 2016.

Burocracia atrapalha venda de combustível em pontos comerciais do DF Venda de combustível em diferentes pontos comerciais é liberada, mas tem como obstáculo principal o deficit de pessoal para analisar processos de liberação. Governo aposta nessa diversificação para tentar abaixar o preço do produto na capital

 postado em 14/01/2016 06:00
 Helena Mader , Guilherme Pera
Monique Renne/CB/D.A Press - 12/11/09

A lei que permite a instalação de postos de combustível em supermercados, shopping centers, concessionárias e terminais rodoviários foi sancionada ontem à tarde pelo governador Rodrigo Rollemberg, mas a ampliação da concorrência no setor vai esbarrar na burocracia para aprovação de projetos. A abertura de pontos de venda de gasolina em outros estabelecimentos depende da emissão de uma série de licenças, principalmente autorizações ambientais. Mas há deficit de pessoal no GDF para analisar esses processos. O governador garantiu a agilização dos procedimentos para que a liberação das atividades seja mais rápida.

Atualmente, há 520 processos referentes a postos de combustíveis em trâmite no Instituto Brasília Ambiental (Ibram) — desses, 209 estão prontos para análise. Segundo a presidente do órgão, Jane Maria Vilas Bôas, a expectativa é apreciar todos em até 22 meses. Para tanto, o Ibram constituiu um grupo de trabalho que vai começar a atuar a partir da próxima segunda-feira. “Aumentamos de quatro para 14 o número de funcionários envolvidos na análise dos processos de postos de combustíveis”, afirma. “Eles vão passar por um treinamento na sexta-feira (amanhã) e já na segunda os trabalhos terão início”, assegura.
Questionada se a burocracia pode tornar a lei inócua, Jane compara o trabalho dos técnicos do Ibram com o de profissionais de saúde para justificar a demora. “Não é burocracia. Somos uma espécie de médicos do meio ambiente: enquanto os doutores pedem raios x para checar a saúde, fazemos investigações para ver se há condições de os estabelecimentos serem construídos”, opina. “No fim das contas, é um trabalho quase medicinal, pois evitamos que o óleo chegue ao lençol freático e contamine a água que eu e você vamos beber”, continua.

O superintendente da Associação de Supermercados de Brasília, Marcelo Marinho, diz que, dos cerca de 3 mil estabelecimentos do setor que funcionam no DF, no máximo 20 terão condições de abrigar postos de combustível. Somente mercados com grandes terrenos e com área livre para a colocação de bombas com segurança poderão solicitar a licença para vender álcool, gasolina e diesel. O representante da entidade reclama da burocracia para aprovar projetos e teme que a demora na análise dos pedidos postergue a ampliação da concorrência. “Um empresário supermercadista comprou um terreno da Terracap destinado a posto de combustível e, há quatro anos, tenta sem sucesso obter a emissão das licenças. Imagina quanto tempo vai demorar até que o governo libere a construção de postos em supermercados?”, questiona Marinho.

Shopping centers, concessionárias, terminais e mercados que quiserem autorização para a venda de combustível terão que pagar uma taxa ao governo chamada Outorga Onerosa de Alteração de Uso (Onalt). O preço é cobrado sempre que há valorização de um terreno em decorrência de mudanças das regras de ocupação. O valor normalmente supera R$ 1 milhão e os empresários terão que analisar a relação de custo-benefício para decidir se pedirão ou não liberação para vender gasolina.

O governador Rodrigo Rollemberg explica que interessados em instalar postos terão que cumprir as mesmas exigências impostas a empresários do setor. “O importante é que, com isso, vamos ampliar a concorrência, e esperamos que, a médio prazo, os brasilienses possam ter uma gasolina mais barata”, comentou o governador. “Vamos agilizar procedimentos para que a liberação das atividades econômicas seja mais rápida. É um desafio e estamos trabalhando nesse sentido”, comentou o governador. Havia a expectativa que o preço do produto abaixasse depois da Operação Dubai, que apontou suposto cartelização do setor (leia Entenda o caso).

Habite-se

Além da lei que amplia a concorrência no setor de postos, o governador também sancionou ontem projeto que corrige erros no Plano Diretor Local de Águas Claras e de Taguatinga e facilita a emissão de alvará e habite-se. “Essas falhas geravam confusão de interpretação e atrapalhavam a liberação de documentos. Tabelas foram publicadas com erros em 1998 e nunca foram corrigidas”, explica o secretário de Gestão do Território e Habitação, Thiago de Andrade.