quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A plataforma no Atlântico transformada na pousada 'mais isolada do mundo' Há 4 horas

Image copyrightFrying Pan Tower LLC
Image captionArrematada em um leilão em 2010, antiga estação da Marinha americana hoje é pousada
Uma plataforma desativada da Marinha americana, localizada em pleno oceano Atlântico a 55 km da costa, se tornou em uma concorrida pousada para visitantes em busca de destinos inusitados.
A Frying Pan Tower, erguida em 1964, operava um farol para navios em uma região famosa por seus bancos de areia - e pelo naufrágios ocorridos ali por causa destes.
Duas décadas depois, a invenção do GPS a tornou desnecessária. Acabou desativada em 2003, já danificada após ser atingida por furacões.
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Image captionTorre auxiliava barcos a navegarem por região com bancos de areia
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Image captionRichard Neal hoje administra a pousada e restaura sua estrutura
Os debates sobre o destino da torre oscilavam entre demoli-la ou transformá-la em um laboratório, até que, em 2009, foi vendida pelo governo para uma operadora de mergulhos.
Mas sua nova dona não pagou o montante acordado e a estação foi à leilão no ano seguinte. O lance vencedor foi do engenheiro de software Richard Neal, que adquiriu a estação por US$ 87 mil.
"A comprei porque me lembrava de uma casa na árvore que eu tinha quando era criança", diz Neal. "De repente, eu era dono de algo enorme e que precisava de muitos reparos."

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Image captionHóspedes vão em busca de isolamento e tranquilidade
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Image captionHá quem pratique golfe em meio ao mar
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Image captionRefeições estão incluídas na estadia, que custa US$ 500 por pessoa por duas noites
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Image captionPescar é uma das atividades possíveis na Frying Pan Tower
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Image captionMergulhar também é um passatempo popular entre os visitantes
Neal diz que a princípio não tinha ideia do que faria com a estrutura. Pensou em alugá-la para empresas de mergulho ou vendê-la de novo por um valor maior.
Mas, após entrar no local pela primeira vez, decidiu transformá-lo em uma pousada para que outras pessoas pudessem ter a chance de experimentar como é a vida em alto mar - além de, desta forma, conservar a construção e sua história.
"Quando abri a porta, foi como caminhar para dentro da história. Nada havia mudado. Depois de ver como ela foi construída, preservá-la tornou-se importante."
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Image captionNeal diz que 50% do trabalho de restauração já está pronto
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Image captionDono da pousada conta com a ajuda de voluntários e doadores
Distante 55 km da costa do Estado da Carolina do Norte, a pousada Frying Pan Tower tem hoje oito quartos e abriga até 12 pessoas de uma vez.
As instalações são simples, mas oferecem água quente, eletricidade, internet wifi e uma cozinha completa.
Os hóspedes podem descansar nas redes, admirar a paisagem sem um pedaço de terra à vista, a noite estrelada, jogar sinuca, pescar ou mergulhar no mar de águas cristalinas a 30 metros abaixo da plataforma.
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Image captionPlataforma fica 30 metros acima do mar
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Image captionInstalações da pousada no meio do oceano são simples
A estadia custa US$ 500 por duas noites, o que não inclui o transporte de helicóptero ou barco, as únicas formas de chegar ao local.
"A torre tornou-se uma atração bastante procurada. Por vezes, até tenho mais pessoas interessadas do que gostaria", diz seu dono.
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Image captionHá oito quartos, com capacidade para abrigar até 12 pessoas
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Image captionSala de recreação tem sinuca e televisão
Neal ainda conta com a ajuda de doadores e voluntários para restaurar a torre.
"Se tivesse dinheiro, nunca faria isso, mas sou um cara comum. Quase tudo aqui foi doado. Provavelmente um terço dos meus hóspedes são voluntários. Tem sido incrível", afirma ele.
"Estamos com 50% da restauração pronta, mas, por estarmos no meio do oceano, sempre há uma manutenção a ser feita. Temos uma chance de preservar a estação para as futuras gerações."
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Image captionSem um pedaço de terra à vista, pôr do sol pode ser estonteante

Dilma diz que país terá que 'encarar' uma reforma da Previdência Social Presidente recebeu jornalistas para café da manhã no Palácio do Planalto. Ela também admitiu que governo cometeu 'erros' na gestão da economia. 07/01/2016 11h33 - Atualizado em 07/01/2016 14h13

A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quinta-feira (7), em um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, que o país vai ter que "encarar" uma reforma da Previdência Social. Sem detalhar as medidas que pretende propor para modificar o sistema previdenciário, Dilma sinalizou que pode sugerir o estabelecimento de uma idade mínima para aposentadoria.
A presidente destacou aos jornalistas que há várias maneiras de se promover uma reforma previdênciária. Segundo ela, atualmente, os brasileiros estão envelhecendo mais e, por esse motivo, "não é possível" que a idade média de aposentadoria no país seja de 55 anos.
Ela observou que, nos últimos anos, a expectativa de vida da população no país aumentou em torno de 4,6 anos. Dilma ponderou que, neste ritmo, no futuro não haverá trabalhadores em número suficiente para sustentar a Previdência Social.
O Brasil é um dos poucos países do mundo que não exigem uma idade mínima para as aposentadorias sociais. De acordo com a presidente, todos os países desenvolvidos buscaram nas últimas décadas aumentar a idade mínima para a aposentadoria.
"Nós estamos envelhecendo mais e morrendo menos. Nossa expectativa de vida nos últimos anos aumentou talvez de forma bastante significativa, em torno de 4,6 anos. Isso implica que é muito difícil você equacionar um problema. Não é possivel que a idade média de aposentadoria no Brasil seja de 55 anos. Para as mulheres, um pouco menos", ponderou a presidente.
Atualmente, a regra em vigor para aposentadoria no Brasil, sancionada por Dilma em novembro de 2015, varia progressivamente de acordo com a expectativa de vida da população. A chamada regra 85/95 progressiva definiu uma pontuação mínima para homens e mulheres, a cada dois anos, para receber 100% do benefício de aposentadoria.
Nesta quinta, a chefe do Executivo federal também mencionou a possibilidade de o país estabelecer uma nova regra que misture idade com tempo de contribuição, a exemplo do 85/95 progressivo. "Tem um outro caminho também, que é o 85/95 móvel, progressivo, que resultará na mesma convergência", enfatizou.
Internamente, integrantes do governo avaliam a reforma da Previdência Social como uma medida urgente para sanear as contas públicas. No entanto, a proposta sofre resistência tanto do Partido dos Trabalhadores quanto das centrais sindicais, um dos principais segmentos de sustentação de Dilma no Executivo federal.
Prevendo as dificuldades que enfrentará para promover mudanças na Previdência Social, a presidente advertiu que as eventuais mudanças nas regras de aposentadoria não irão retirar direitos adquiridos.
"Não se pode achar que isso [reforma da previdência] vai afetar os direitos adquiridos. As coisas afetam daqui para frente. E há outro problema: o tempo de transição. Ninguém faz uma reforma dessas sem considerar o período de transição, levando em conta os direitos adquiridos", destacou a presidente.
A petista prometeu ainda que as alterações previdenciárias serão debatidas antecipadamente com a sociedade. Segundo ela, o governo pretende discutir o assunto com um fórum que irá contar com representantes de trabalhadores, empresários, parlamentares e integrantes do Executivo federal.
Dilma participa de café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto (Foto: Ichiro Guerra / PR)Dilma participa de café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto (Foto: Ichiro Guerra / PR)
Erros do governo
Em outro trecho do café da manhã desta quinta, a presidente Dilma foi questionada pelos jornalistas sobre "erros" que o governo cometeu na economia.
Segundo ela, o "maior erro" foi o Planalto não ter percebido "o tamanho da desaceleração econômica". Ela disse que um fator que agravou a crise na economia brasileira foi a seca enfrentada pelo país no ano passado, a pior da História, segundo ela.
"Acho que o maior erro do governo, ainda em 2014, foi nós não percebermos o tamanho da desaceleração que ocorreria com efeitos externos e internos, com a crise de países com os quais nos relacionamos, e a queda brutal do preço de commodities. Ligado a isso, enfrentamos a pior seca, que é esta."
"Esses são alguns dos erros, mas podem ter tido outros. Qualquer atividade humana é passível de erros, e, no governo não pode ter erros, principalmente na gestão", completou Dilma.
Reequilíbrio fiscal  e inflação
A presidente também disse que governo vai buscar o reequilíbrio fiscal para conter a inflação que ultrapassou o teto da meta no ano passado. Ela disse que o objetivo do governo é que a inflação volte, "o mais rápido possível", para o centro da meta, de 4,5%.
"O reequilíbrio fiscal é fundamental para a redução da inflação.Temos que reduzi-la. Nosso objetivo é que volte o mais rápido possível para o centro da meta e o mecanismo é o reequilíbrio fiscal. Também para perseguir o superavit de 0,5%, porque garantindo isso, terá condições para que a inflação se reequilibre e volte para o centro da meta", afirmou Dilma. 
"O BC [Banco Central] dá horizonte de 2017 e nós queremos nos aproximar da inflação de cima da meta ainda este ano. Temos de ter expectativa de que 2016 será um ano melhor", continuou a presidente.
O reequilíbrio fiscal é fundamental para a redução da inflação.Temos que reduzi-la. Nosso objetivo é que volte o mais rápido possível para o centro da meta e o mecanismo é o reequilíbrio fiscal"
Dilma Rousseff, presidente
Ela afirmou também que o governo vai buscar o diálogo para aprovar nos próximos meses medidas que, segundo ela, vão ajudar na recuperação da economia.Entre essas medidas, a presidente listou a volta da CPMF, e a aprovação da DRU (Desvincuação de Receitas da União).
"Um dos pontos é aprovar a CPMF. É visível que estados e municípios precisam deste recurso. Asseguro que uma parte resolve. A cpmf não é só para o reequilíbrio fiscal, mas uma questão de saúde pública."
A presidente também defendeu a aprovação no Congresso Nacional de projetos que, segundo ela, permitirão a implantação de uma política de exportações "agressiva" e focada na abertura de relações comerciais com outros países
Após o café, ela seguiu para Porto Alegre para visitar a filha, Paula, e o neto Guilherme, que nasceu nesta manhã. O bebê é o segundo neto da presidente.
Ainda no tema economia, Dilma afirmou que não há "coelho na cartola" para tratar a situação que o país atravessa. Ela voltou a apontar, entre as causas para a crise, a queda no preço de commodities.
"Acho que não tem coelho na cartola na economia, porque a instabilidade macroeconômica tem a ver com duas grandes ações: estabilidade macroeconômica e a arrecadação, que sofreu profundamente com o fato de queda do superciclo das commodities. Tudo isso, de forma acentuada, provocou a queda de receita", continuou a presidente.
Nesta quarta (6), após se reunir com o vice-presidente Michel Temer, o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, já havia dito que o governo não tem "coelho na cartola" para recuperar a economia do país e que o Planalto não está mais em "tempo de pacotes". Segundo ele, o Executivo deve buscar o crescimento econômico "passo a passo", sem anunciar "nada bombástico".
Juros
Apesar de ter falado abertamente sobre inflação, reforma da Previdência Social e CPMF, Dilma evitou tecer comentários sobre o atual patamar de juros do país. A política de juros brasileira é gerida pelo Banco Central, que tem autonomia para aumentar ou reduzir os juros.
"Há muito tempo, não me manifesto sobre juros. Não analiso, não falo ou teço comentários. É uma área muito delicada para dar palpite", disse a presidente aos jornalistas.
Investigações em 2016
No encontro com jornalistas, a presidente também abordou o tema das investigações pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. Para ela, é preciso manter o direito de defesa das pessoas e acabar com a "espetacularização" das apurações.
Tenho certeza que devo ter sido virada dos avessos e tenho clareza que podem continuar me virando dos avessos. Sob minha conduta não paira embaçamento algum"
Dilma Rousseff, presidente
Sem citar um caso específico, a presidente disse também que destruir empresas não é uma ação "adequada" no combate à corrupção. Ela disse ainda ter "medo" de vazamentos sobre as informações obtidas por investigadores e afirmou que não se pode ter "dois pesos e duas medidas" no país.
"Como presidenta, reconheço a importância das investigações e, em médio ou longo prazos, teremos relação mais correta com a coisa pública. A impunidade começou, de fato, a ser ameaçada", declarou.
Embora não tenha falado diretamente do processo de impeachment que enfrenta na Câmara dos Deputados,  Dilma disse que sua vida foi virada "aos avessos". "Tenho certeza que devo ter sido virada dos avessos e tenho clareza que podem continuar me virando dos avessos. Sob minha conduta não paira embaçamento algum", afirmou.
Relação com Temer
Em outro momento do café da manhã, Dilma também falou rapidamente sobre a relação com o vice-presidente Michel Temer. A relação entre eles vive o momento de maior desgaste desde que os dois assumiram o Palácio do Planalto, em janeiro de 2011.
No mês passado, Michel Temer enviou a ela uma carta na qual apontou suposta desconfiança dela em relação a ele. O conteúdo da mensagem gerou intensa repercussão política em Brasília e o resultado dela foi um anúncio, por parte dos dois, de que a relação entre eles será "institucional" de agora em diante.
Perguntada sobre como está a relação, Dilma disse que está "ótima". Indagada, então, sobre se acha que Temer trabalhou para ocupar a Presidência no lugar dela, Dilma respondeu: "não acho".

Indústria cai mais que esperado em novembro, deve fechar 2015 com queda de mais de 8%

Por Caio Saad e Camila Moreira
Vista geral de Bento Rodigues, distrito de Mariana soterrado por lama após rompimento de barragem da mineradora Samarco.  O setor industrial brasileiro acentuou as perdas em novembro em parte devido à tragédia em Mariana, segundo o IBGE. REUTERS/Ricardo Moraes
RIO DE JANEIRO/SÃO PAULO (Reuters) - Após o desastre em Mariana (MG) e greve na Petrobras, o setor industrial acentuou as perdas em novembro e caminha para encerrar 2015 com queda de mais de 8 por cento em meio às crises econômica e política no país.
A produção industrial brasileira caiu 2,4 por cento em novembro na comparação com outubro, pior resultado desde dezembro de 2013 (-2,8 por cento), após recuo de 0,6 por cento no mês anterior. O número representa a sexta queda mensal seguida, sequência inédita de perdas na série histórica, iniciada em 2002.
Na comparação com o mesmo mês de 2014, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou nesta quinta-feira que houve perdas de 12,4 por cento, a mais acentuada desde abril de 2009 (-14,1 por cento) nessa base de comparação.
Os resultados foram bem piores do que as expectativas em pesquisa da Reuters com economistas, de queda de 0,95 por cento na variação mensal e de 10,3 por cento na base anual.
"Havia uma dúvida sobre como a greve na Petrobras e o desastre de Mariana iriam afetar o índice. Os modelos muitas vezes não conseguem capturar esses eventos", explicou o estrategista-chefe do Banco Mizuho Luciano Rostagno.
As perdas no acumulado de 2015 já chegam a 8,1 por cento, superando o pior desempenho já registrado pela indústria, em 2009, de queda de 7,1 por cento.
Quase todos os segmentos pesquisados registraram perdas no mês, com destaque para a queda de 3,8 por cento de Bens Intermediários.

Também se destacaram as perdas de 3,2 por cento na produção de Bens de Consumo Duráveis, enquanto o segmento de Bens de Capital, uma medida de investimento, apresentou queda de 1,6 por cento. 

Abuso de prisão preventiva em Angola: uma desumanização O excesso de prisão preventiva nas cadeias é praticamente um ritual da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Nacional em Angola. Artigo de Rafael Marques, Maka Angola. 7 de Janeiro, 2016 - 10:34h

Em Outubro passado, escrevi um artigo para o jornal português Expresso sobre a desumanidade que caracteriza a acção dos órgãos judiciais em Angola. Refutei, pela mesma via, a efectividade do indulto decretado pelo presidente José Eduardo dos Santos para a libertação de presos que tivessem cumprido metade da sua pena e que tivessem sido condenados a uma pena de até 12 anos. A propaganda alardeava “milhares de reclusos são libertados graças ao indulto presidencial”.
Citei, como exemplo aberrante, o caso de João Domingos da Rocha, de 26 anos, que se encontrava há sete anos em prisão preventiva por suspeita de furto de roupa usada. Falei também de Justino Longia, em prisão preventiva há cinco anos, por suspeita de furto de roupa usada. Pelo furto assumido de 300 euros, Bernardo Umba Samuel, de 30 anos, cumpria o seu quinto ano em regime de prisão preventiva e também mencionei o seu caso. Todos se encontravam detidos na Comarca Central de Luanda (CCL).
Logo após a saída da matéria, alguém importante ordenou a verificação dos factos junto dos detidos. A 22 de Dezembro todos eles foram libertados, incluindo um quarto que eu não havia mencionado, José Ventura. Este cumpria prisão preventiva desde 1 de Junho de 2008, por suspeita de furto de varões para construção. No Dia da Independência, a 11 de Novembro, fora transferido para o Hospital-Prisão de São Paulo com uma infecção pulmonar.
O excesso de prisão preventiva nas cadeias é praticamente um ritual da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Nacional. A libertação destes quatro detidos foi mais uma das medidas com que o regime se limita a remendar situações potencialmente embaraçosas para o poder. Nunca o faz por uma questão de justiça. Sente-se mal em agir de forma humana, humanizante.
Por exemplo, Praia Eduardo, de 26 anos, entrou no quinto ano de prisão preventiva, na CCL, por suspeita de furto de um telemóvel. Já estaria em liberdade se tivesse sido julgado e condenado. Zinga Afonso Diandanda, de 26 anos, furtou uma motorizada, entretanto paga à vítima pelos seus familiares. Está há quatro anos detido na CCL. “Nunca fui ouvido por um procurador”, reclama.
Já o caso de João Manuel António, de 25 anos, é caricato, Está preso há três anos e sete meses por ter defecado na obra de construção de uma residência em Viana. O dono da obra encontrou-o no acto, em “flagrante delito”, acusou-o de ser ladrão. Foi interrogado apenas por um investigador na Esquadra do Kapalanca, em Viana, e continua na CCL sem saber de mais nada.
João Caliata, de 44 anos, tem uma história bizarra. Foi à casa da sua irmã, na Boavista, buscar uma botija de gás butano e outros haveres, porque esta decidira regressar à província. Por volta das 16h00 cruzou-se no caminho com dois agentes policiais, que imediatamente o acusaram de ser ladrão e o espancaram, a ele e ao amigo que o acompanhava, no local da abordagem. É mantido em regime de prisão preventiva, há quatro anos, por causa desta história. “Já fui ouvido pelo procurador, na II Divisão da Ingombota, que não disse nada”, explica. Não tem apoio familiar, porque os seus parentes residem na Huíla, de onde é originário.
Há um problema maior. O excesso de prisão preventiva de pilha-galinhas tem causado a superlotação das cadeias e uma multitude de problemas que configuram sérias violações dos direitos humanos.
No sábado passado, a Cadeia de Viana expediu para a CCL mais 50 detidos, por falta de espaço. Do referido grupo, 10 foram encaminhados para a Caserna 12, que já alberga 79 detidos.
“Eles chegaram aqui esqueléticos, cheios de infecções, como sarna. Muitos vieram a urinar e a escarrar sangue. A situação é tão grave que seis deles tiveram de ser transferidos para a enfermaria”, explica um agente prisional que prefere o anonimato. Dos seis, três aguardam por evacuação para o Hospital-Prisão de São Paulo devido ao seu estado anémico.
“Muitos que vêm de Viana nem sequer conseguem pôr-se de pé, de tão desnutridos que estão”, lamenta a fonte. Esta é uma situação antiga. Durante a minha estadia na Prisão de Viana, em 1999, por ter chamado o camarada Presidente de corrupto e ditador, deparei-me com o que os detidos chamavam a “Cela dos Judeus”: a cela onde os serviços prisionais concentravam os detidos já esqueléticos e incapazes de se manterem de pé por causa da fome e de maleitas que poderiam ser tratadas facilmente. Dia sim, dia não, essa cela produzia um morto. O que mudou, afinal?
Note-se, por exemplo, o Bloco A, Caserna 4, a cela em melhores condições na
Penitenciária de Viana, reservada a militares, agentes policiais e afins. A caserna alberga 65 detidos, quando deveria ter no máximo 20. Por falta de espaço, via de regra, dois dormem na casa de banho.
A falta de água é outro factor para a propagação de infecções, por falta de higiene dos detidos. “A prisão dá-nos água, no máximo cinco litros para cada, duas vezes por mês, que temos de usar para beber, lavar a roupa e tomar banho. A situação é grave. Só Deus nos mantém vivos aqui”, denuncia um agente policial detido.
Nem mesmo os agentes policiais escapam à mão pesada da arbitrariedade normalmente reservada ao comum dos cidadãos e aos críticos do regime. Três agentes da Polícia Nacional da 48ª Esquadra de Viana – Cristo Manuel de Sousa, Lubambi Pedro Malanza e Jorge Francisco Simão – estão detidos há dois anos e três meses por suspeita de extorsão de 240 mil kwanzas a um cidadão desconhecido. “Fomos três vezes ao tribunal para a acareação, mas o queixoso nunca apareceu, porque não há queixoso no processo. Só eles, os chefes que ordenaram a nossa detenção, é que sabem quem é o queixoso”, denuncia um dos agentes. Estranham que o processo tenha chegado a tribunal sem nunca terem sido ouvidos por um procurador e sem nunca ter havido acareação.
A Procuradoria-Geral da República deve criar brigadas móveis de procuradores junto das penitenciárias para corrigir estes casos de excesso de prisão preventiva com a maior celeridade possível. Em 2000, a Procuradoria tomou essa iniciativa na Penitenciária de Viana e mais de mil detidos foram mandados para casa. É o mínimo que pode fazer para corrigir tantas injustiças.
Artigo publicado em Maka Angola.