quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

STF pode encerrar manobras de Luiz Estevão nesta quarta-feira Depois de postergar a prisão por mais de uma década, empresário terá recurso julgado hoje pelo Supremo. Em novembro do ano passado, o STJ manteve a pena de 31 anos pelo desvio de recursos de obra do TRT de São Paulo

 postado em 09/12/2015 06:00
 Helena Mader
Marco Ambrosio/Estadão Conteúdo

O empresário Luiz Estevão foi denunciado à Justiça e teve o mandato de senador cassado há 15 anos, por conta do escândalo de desvio de R$ 2 bilhões de recursos da obra do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. Hoje, o Supremo Tribunal Federal pode encerrar o processo, que se arrasta desde 2000, e determinar o início imediato do cumprimento da pena. Apesar dos percalços judiciais, que incluem uma condenação a 31 anos de cadeia, e do abandono forçado da vida pública, o bilionário conseguiu postergar a prisão por mais de uma década. Enquanto advogados apresentavam uma sucessão de petições, embargos, agravos, recursos especiais e habeas corpus, Estevão manteve-se como protagonista do cenário político, tomou o comando de um partido, influenciou a economia da cidade, criou um time de futebol e lançou um portal de notícias.

A 1ª Turma do STF vai analisar um agravo regimental em recurso extraordinário apresentado pela defesa de Estevão em novembro do ano passado, depois que o Superior Tribunal de Justiça manteve a pena de 31 anos imposta na primeira instância. Os cinco ministros que compõem o colegiado também vão apreciar cinco habeas corpus do ex-senador. Segundo o Ministério Público Federal, desde o início do processo, a defesa de Luiz Estevão apresentou 21 recursos e 11 habeas corpus. A estratégia para atrasar o desfecho do caso foi eficiente: a pena de 31 anos de cadeia foi reduzida para 25 anos em 2014, já que a demora levou à prescrição das penas relativas aos crimes de formação de quadrilha e de uso de documento falso. Mas a condenação por corrupção ativa, peculato e estelionato está mantida.

Luiz Estevão hoje cumpre pena de prisão domiciliar, depois do trânsito em julgado de outro processo, em que ele foi condenado a 3 anos e 6 meses em regime semiaberto por falsificar documento público. A acusação é de que ele teria alterado livros contábeis para justificar dinheiro de obras superfaturadas e construir o fórum trabalhista de São Paulo. Em setembro do ano passado, Estevão foi preso pela Polícia Federal e passou quase três meses atrás das grades — parte desse período na Penitenciária de Tremembé, em São Paulo. Foi liberado em dezembro de 2014, mas, desde então, tem que cumprir uma série de normas impostas pela Justiça, como nunca andar em companhia de pessoas que estejam cumprindo pena, não ingerir bebida alcoólica e não frequentar bares.

Domiciliar

Por conta da prisão domiciliar, Estevão está proibido de sair de casa das 21h às 5h. Para se ausentar à noite da mansão da família, no Lago Sul, ele tem que pedir autorização. Em 20 de junho deste ano, por exemplo, Estevão requisitou à Justiça autorização para voltar para casa depois da meia-noite, “por motivo de casamento de amigos”. A Vara de Execuções Penais negou o pedido. “Não se pode confundir a retomada da convivência familiar ainda durante a execução da pena, após o período de encarceramento, com compromissos sociais diversos”, justificou o juiz Germano Oliveira Henrique de Holanda. Já por ocasião da colação de grau de uma filha, obteve direito à prorrogação do horário, em maio passado.

Durante o dia, quando pode circular pelas ruas, Estevão tem dedicado boa parte do tempo a uma nova empreitada comercial. Em setembro, ele lançou uma empresa de mídia, que funciona em uma de suas propriedades, na Península dos Ministros. Na política, apesar de atuar apenas nos bastidores, Estevão mantém a influência. Ele comanda o PRTB no DF, partido que elegeu dois distritais: Juarezão e Liliane Roriz. É também a legenda do ex-governador Joaquim Roriz. Nas eleições, o empresário articulou a formação da chapa encabeçada por José Roberto Arruda (PR) — posteriormente substituído por Jofran Frejat.

As condenações da última década não inviabilizaram os negócios do empresário. Em 2012, ele firmou um acordo com a Advocacia-Geral da União para devolver R$ 468 milhões aos cofres públicos e, assim, conseguir o desbloqueio de parte dos bens. Pelo termo, Estevão se comprometeu a pagar R$ 80 milhões à vista, além de R$ 388 milhões divididos em 96 parcelas. No mês passado, o Ministério Público Federal entrou com ação na Justiça para cobrar R$ 2,2 bilhões de Estevão e do ex-juiz do Trabalho Nicolau dos Santos Neto, também condenado pelos desvios.

No Supremo, o relator do caso é o ministro Marco Aurélio Mello. Além dele, compõem a 1ª Turma os ministros Rosa Weber, que preside o colegiado, Luiz Fux, Roberto Barroso e Edson Fachin. Em junho, o relator já havia rejeitado os agravos apresentados por Estevão. A defesa questionou a fundamentação das decisões judiciais. “Eis um processo repleto de incidentes. Eis um processo que veio a consubstanciar milhares de folhas, ocasionando trabalho excessivo no âmbito do ofício judicante. Descabe confundir ausência de fundamentação dos atos judiciais com crivo contrário aos interesses defendidos”, justificou à época o relator. Estevão apresentou embargos de declaração contra a decisão e, agora, o assunto será decidido pelo plenário da Turma.

Em abril, ao pedir a rejeição dos recursos e o julgamento do caso com rapidez, o subprocurador-geral da República, Edson Oliveira de Almeida, destacou que a defesa atuava para protelar o cumprimento da pena. “Ao suscitar o não esgotamento da instância, os ora agravantes nada mais fazem do que prosseguir em seus intentos protelatórios para tentar obter, ao final, a extinção da punibilidade em virtude de prescrição da pretensão punitiva”, afirmou o subprocurador. O advogado de defesa de Luiz Estevão, Marcelo Bessa, não quis comentar sobre o julgamento no STF.


Cronologia do escândalo

1992
» Início da obra superfaturada do prédio do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo

1999
» Criação da CPI do Judiciário, que revelou detalhes do desvio de recursos da obra

2000
» Cassação de Luiz Estevão no Senado, por conta do escândalo do TRT

2000
» O Ministério Público Federal apresenta denúncia contra Estevão

2006
» O empresário é condenado pela Justiça Federal a 31 anos de cadeia

2013
» O réu recorre ao STJ contra a condenação

2014
» O STJ mantém as penas

2014
» Estevão recorre ao STF

É política sim, Geraldo Enquanto o Brasil vive o rebaixamento do exercício político, os estudantes paulistas mostraram que é possível estar com o outro no espaço público

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Estudantes protestam em São Paulo na última sexta-feira. / MIGUEL SCHINCARIOL (AFP)
O Brasil no final de 2015: a bacia do Rio Doce foi destruída, e a lama avança sobre o oceano; o presidente da Câmara dos Deputados,Eduardo Cunha (PMDB), um homem investigado por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção, que escondeu contas na Suíça, dá início ao processo que pode resultar no impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), depois de constatar que deputados petistas votariam contra ele no Conselho de Ética, numa ação que pode cassar seu mandato; a Polícia Militar do Rio de Janeiro dispara 111 tiros e fuzila cinco jovens negros porque passeavam de carro à noite; as brasileiras não podem engravidar porque há um surto de microcefalia causado por vírus transmitido pelo Aedes aegypti e aquelas que estão grávidas foram condenadas a viver em pânico diante do zumbido de um mosquito; o governador de São Paulo,Geraldo Alckmin (PSDB), autoriza a PM a jogar bombas de gás e a bater em estudantes de escolas públicas.
Obscenidade é a palavra que chega mais perto, mas é fraca demais para representar o Brasil atual. E também ela fracassa. Procuram-se palavras que deem conta do excesso de real da realidade. A crise de representação assumiu proporções inéditas. E o ano ainda não acabou.
Diante desse despedaçamento, há que se cuidar para que as palavras disponíveis, aquelas que dão nome a conceitos cuja construção são o que de melhor a humanidade criou, não sejam pervertidas e restem também elas obscenas. É neste ponto, profundo, que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) cometeu um ato simbólico de extrema violência, para além da truculência concreta de sua polícia nas ruas de São Paulo. Em 2 de dezembro, no Palácio dos Bandeirantes, ele afirmou:
– Não é razoável obstrução de via pública, é nítido que há uma ação política no movimento. Há uma nítida ação política.
A frase do governador foi amplificada pela imprensa, em títulos de jornais e chamadas nas rádios, TV, internet. O governador denunciando o movimento dos estudantes que ocupavam as escolas públicas de São Paulo em protesto contra um plano que, em nome da “reorganização escolar”, fecharia mais de 90 escolas e remanejaria mais de 300.000 alunos. Mas, vale repetir, o que o governador denuncia? Que o movimento é político. Qual seria a acusação? É óbvio que o movimento é político. E a melhor qualidade do movimento é justamente a de que é político.
É pelo exercício da política que se alcançou o que de melhor existe na experiência humana. E não pela força, pela imposição, pelo extermínio do diálogo e das ideias e, vezes demais, das pessoas que discordam. Onde a política é suspensa, a aniquilação se instaura. Para Alckmin, porém, a julgar pela sua declaração e pelos seus atos, a política é obscena. Tanto que ele precisa denunciá-la. E insinuar que os estudantes estão sendo instrumentalizados por interesses partidários e ideológicos. É fundamental que se preste atenção a um governador, com ambições de ser presidente da República, que iguala a política à obscenidade. Ou à abominação, outra palavra que pode nos iluminar nesse momento em que a crise de representação alcança também as palavras.

Para avançar com seu decreto sem escutar os que interrompiam o trânsito, o governador autorizou a PM a usar violência
Voltemos à declaração do governador: “Não é razoável obstrução de via pública”. É assim que a frase começa. Para ele, protesto, manifestação, algo do cerne da democracia, é “obstrução da via pública”. O que se impõe nesta afirmação de Alckmin? A de que a voz que vale é a daquele que quer passar. A via pública pertence àqueles que querem passar com seus carros. Passar, portanto, sem parar para escutar. É forte, porque Alckmin tem demonstrado governar assim, passando sem escutar. Se necessário, passando por cima, como se viu.
O que foi a imposição da “reorganização escolar” sobre a comunidade, senão um “passar sem escutar”? E o que aconteceu? O ato autoritário foi enfrentado com política. Os estudantes ocuparam o espaço público para reafirmar a necessidade de dialogar, para dizer que imposição não era possível num regime democrático. A reação foi recebida pelo governo como uma afronta à ordem e à autoridade. Mas como, se esta é uma democracia? Quem não dialoga é ditador. Diante do impasse, entre considerar a política uma obscenidade e, ao mesmo tempo, governar num estado democrático, Alckmin fez o quê? Se ele queria passar sem escutar, com seu carro e com seu decreto, o governador fez o quê? Chamou aquela que restou da ditadura: a Polícia Militar.
Como afirmou Fernando Padula Novaes, chefe de gabinete da Secretaria de Educação, é “guerra”. A palavra reveladora de como o governo se relaciona com aqueles que discordam, neste caso os estudantes, foi usada mais de uma vez numa reunião cujo áudio foi divulgado pela repórter Laura Capriglione, do coletivo Jornalistas Livres. O encontro com cerca de 40 dirigentes de ensino contou também com a anunciada presença de um militante da Ação Popular, movimento de jovens do PSDB. Na reunião, Padula demonstrou a necessidade de “desqualificar” o movimento de resistência e mostrar que a "radicalização" estava “do lado de lá”.
E, assim, na lógica de “guerra”, Geraldo Alckmin respondeu ao exercício da política com bombas de gás, com golpes de cassetete e agressões físicas e psicológicas, como humilhar e carregar à força um garoto de 18 anos pendurado de cabeça para baixo. Respondeu com repressão, como já tinha feito nas manifestações de 2013. Respondeu como um general alinhado ao golpe de 1964 responderia durante os anos de chumbo. A Polícia Militar é o que sobrou de lá, aqui. E, se como analistas de segurança pública têm dito, a polícia está descontrolada, está descontrolada porque governantes precisam controlar. E impor: passar sem escutar. Passar sobre a política. “Limpar” as ruas dos pretos e dos pobres e também dos que fazem política.
Enquanto as imagens nas ruas expunham a violência da Polícia Militar contra os estudantes, a maioria deles adolescentes, este era o discurso do governador: “A polícia dialoga, a polícia conversa, a polícia pede para as pessoas saírem, a polícia dá tempo para as pessoas saírem. Agora, não pode prejudicar quem precisa trabalhar. Então, é preciso ter o mínimo de bom senso. A polícia faz todo o trabalho, ela é capacitada, é treinada, tem paciência...”. O governador, e esta não é uma constatação banal, está satisfeito com a ação da PM. A desconexão entre o discurso da autoridade máxima do estado de São Paulo e a realidade documentada por vídeos e fotografias nas ruas de São Paulo é um fato a ser levado a sério.

Enquanto os profissionais de Brasília rebaixavam a política à chantagem, os estudantes paulistas deram uma lição ao país
É uma enormidade o que os estudantes paulistas deram ao país neste mês de resistência. Enquanto a política em Brasília, aquela feita por profissionais do ramo, era rebaixada a chantagens e tomaladacá, adolescentes deram ao país uma lição de política em sua expressão mais completa. Organizaram-se, ocuparam 196 escolas, responsabilizaram-se por elas –consertando, limpando e cuidando– e impediram que, num país e num estado em que a péssima educação pública escava um abismo, mais de 90 escolas fossem fechadas por decreto. Foram reprimidos violentamente por isso. Muitos apanharam, dezenas foram detidos, centenas sofreram as consequências das bombas de gás. Mas resistiram. E venceram. E, como o que venceu foi a política contra o autoritarismo da verdade única e da força bruta da PM, vencemos todos.
Em 4 de dezembro, o governador foi obrigado a recuar: suspendeu a “reorganização escolar”. O secretário de Educação, Herman Voorwald, deixou o cargo. Geraldo Alckmin recebeu uma lição de política dada por crianças e adolescentes. Ao ver sua popularidade despencar, conforme pesquisa do Datafolha publicada no mesmo dia em que anunciou o adiamento das mudanças até 2017, o político que iguala a política à obscenidade descobriu que não era mais possível mandar a Polícia Militar passar por cima do povo para sua verdade única passar.
Geraldo Alckmin recuou com uma frase do Papa Francisco: "Sempre que perguntado entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma solução sempre possível, o diálogo". Ainda que óbvio, é uma questão de respeito restabelecer os fatos para não perverter as palavras. “Indiferença egoísta”: pode ser relacionada ao governo, que tentou impor sem debate um projeto controverso, criticado por educadores, que fechava quase uma centena de escolas e atingia centenas de milhares de alunos. “Protesto violento”: fotografias e imagens documentam a violência da PM contra os estudantes. “Diálogo”: é o que os alunos reivindicavam, enquanto no interior do governo se anunciava “guerra”. Diálogo é justamente política. Como aquilo que se faz é mais revelador do que aquilo que se fala, o governador fez seu anúncio e deixou a sala sem falar com a imprensa.
Não foi apenas Geraldo Alckmin que aprendeu algo importante com os alunos da escola pública –ou deveria ter aprendido. Há dois pontos aos quais é preciso prestar bastante atenção. Um deles, que já havia se tornado claro nas manifestações de 2013, é o de como uma parcela da imprensa da redemocratização ainda está intoxicada pelos tempos da ditadura e da censura, entre outras hipóteses para a escolha dos termos usados na cobertura. Adolescentes levam bombas e borrachadas das forças de segurança do Estado e parte da imprensa chama de “confronto”. A cada protesto nas ruas, várias reportagens começavam pelas agruras causadas pela interrupção do trânsito, como se o trânsito fosse a entidade mais importante desse acontecimento político, relacionado à grande tragédia nacional, a educação, numa hierarquia de valores bastante iluminadora. Adolescentes eram encurralados e agredidos pela PM e parte da imprensa definia como “confusão”. A PM reprimia violentamente os alunos que protestavam e uma parcela da mídia descrevia o fato como um ato de “dispersão”. Nomear os fatos com precisão é tarefa obrigatória do jornalismo.

Os estudantes “violentos” e “perdidos” da escola pública se reapropriaram do espaço coletivo e passaram a cuidar do que ninguém mais cuidava nem acreditava
Ao pensar nas manifestações contra o aumento das passagens do transporte público, em 2013, desponta outro ponto crucial: qual é o limite da opinião pública? Ou, de forma mais explícita: em quem a polícia pode bater sem causar assombro e reação, ou sem que isso provoque a queda de popularidade do governador? O que os protestos contra o fechamento das escolas mostraram é que usar violência contra alunos adolescentes é um limite para os cidadãos. Desta vez, não foi possível transformar os estudantes em “vândalos” e ganhar a opinião pública, como ocorreu em 2013, usando como justificativa a ação violenta dos black-blocs. Geraldo Alckmin apostou que conseguiria repetir 2013, quando num primeiro momento houve uma reação massiva contra a violência da polícia e, em seguida, com a conversão de manifestantes em “vândalos”, na narrativa de parte da imprensa, a opinião pública passou a apoiar a repressão policial, por ação ou omissão.
É importante pensar sobre isso, porque enquanto a violação da lei pela polícia não for rechaçada, independentemente de contra quem for, seguiremos muito mal. Se pode bater neste, mas não naquele (ou matar, como acontece nas periferias e favelas), continuaremos involuindo no pacto civilizatório. E os governantes autoritários seguirão com chance de passar sua verdade única sobre a política, calando a democracia com bombas de gás e golpes de cassetete.
O fracasso na conversão de estudantes em “vândalos” para a opinião pública, apesar de todos os esforços, revela que a escola ainda têm um lugar forte no imaginário coletivo. A educação pública, tão abandonada, tão desrespeitada, tão desinvestida nestas últimas décadas, ainda ecoa na população como um valor. Ainda ressoa a consciência de que uma escola, neste país, não pode ser fechada. Muito menos dessa maneira. A escola, tão maltratada, ainda é um símbolo positivo.
Há aqui uma lição profunda que os estudantes das escolas públicas deram não apenas ao governador, mas ao conjunto da sociedade que acredita em saídas individuais, em geral na de matricular o filho na escola privada para pelo menos salvar o seu da tragédia educacional brasileira. Quando já se tornava difícil acreditar que houvesse uma saída, os estudantes se apropriaram das escolas e, com a ajuda de parte dos pais, passaram a cuidar dela. Coletivamente, como comunidade, como cidadãos. Cuidam do que ninguém mais de fato cuidava.
Acho que ainda não chegamos perto de alcançar o tamanho desse gesto, que nestas últimas semanas levou gente que nunca tinha pisado numa escola pública a oferecer de comida a serviços. Pessoas de todas as áreas têm se apresentado para dar aulas nas escolas ocupadas. Alunos de universidades prestigiadas, aquelas em que os estudantes da escola pública foram ensinados a acreditar que nunca entrariam, pediram para os secundaristas irem até a faculdade explicar o movimento. Os estudantes conseguiram derrubar muros que quase ninguém acreditava que ainda poderiam cair. E uma estudante ouviu de uma visitante no domingo, na Escola Estadual Fernão Dias Paes, a primeira ocupada na capital paulista, uma frase simbólica: “Tenho orgulho de viver numa cidade em que você existe”. Como escreveram os repórteres Felipe Resk e Rafael Italiani, do Estadão, a escola que tem o nome de um bandeirante “se tornaria símbolo da resistência ao Palácio dos Bandeirantes”. Recusando tal pai-fundador, os alunos cobriram a estátua do “matador de índios”, na frente da escola, com um saco preto.

Os adolescentes “sem futuro”, porque pessimamente educados nas escolas, ensinaram aos adultos que política é estar com o outro no espaço público
Os estudantes que ocuparam escolas e ruas estavam até então na posição de restos. Eram os estudantes que o Estado fingia educar, em escolas abandonadas, caindo aos pedaços, em aulas com professores muito mal pagos, desmotivados e despreparados. Eram os alunos que nunca teriam muita chance na vida porque recebem uma péssima educação. Eram os estudantes “violentos” e “perdidos” da escola pública, eram também os pretos e os pobres da escola pública. Eram aqueles que restavam na condição de objetos, também de discursos eleitoreiros e de slogans indecentes. Os herdeiros do processo de redemocratização lento, frágil e precário que vivemos há 30 anos, das ações imperfeitas de inclusão social, provaram que, se a moldura do espaço público for a democracia, há lugar para as diferenças, há lugar para o outro. Aqueles que muitos acreditavam “sem futuro”, porque sem presente, ensinaram aos adultos que a política é o exercício de estar com o outro no espaço público.
De onde veio a boa notícia no rio de lama e de obscenidades que se transformou o país, no concreto e no simbólico? Dos meninos e meninas das escolas públicas. Educaram o governador, educaram a sociedade. E fizeram o que parecia impossível no atual momento do Brasil: resgataram a política.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum

RENATO PEREIRA | ASSESSOR POLÍTICO » “A população brasileira não se reconhece no atual jogo político” Marqueteiro estrela do PMDB do Rio critica a desconexão dos políticos com a sociedade

Renato Pereira, marqueteiro político
Renato Pereira (Zurique, 1959) é o marqueteiro estrela do PMDB no Rio. O também antropólogo coleciona cinco vitórias consecutivas com as campanhas de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão para governador e Eduardo Paes à Prefeitura, hoje os principais aliados políticos de Dilma Rousseff para sair vitoriosa do processo de impeachment. Pereira também trabalhou no início da campanha presidencial de Aécio Neves, do PSDB, mas a parceria afogou-se em divergências insuperáveis.
Fora do Brasil, ele assumiu seu maior desafio ao abraçar a campanha da oposição venezuelana de Henrique Capriles em 2011. Depois de duas derrotas, para Chávez em 2012, e Nicolás Maduro, em 2013, Pereira comemora hoje a vitória das eleições parlamentares do domingo que levaram os anti-chavistas a conquistar o poder na Assembleia Nacional.
Com a tinta da carta de Michel Temer à presidenta ainda úmida e o processo de impeachment monopolizando a agenda política, Pereira reclama do “teatro” organizado em torno a interesses particulares e critica o “descolamento” dos políticos da sociedade.  "Todos estão torcendo para a resolução desse impasse, mas eu não sei te dizer se esse momento está próximo ou longe e acho que ninguém no Brasil é capaz de prever isso com clareza. Ninguém".
Pergunta. O que significa a carta de Michel Temer à presidenta Dilma?
Resposta. A carta simboliza uma dupla divisão. Primeiro uma divisão dentro da aliança que venceu as eleições em 2014, que já vinha se ampliando dentro do próprio Governo e que agora se mostrou explícita. E segundo, uma divisão dentro do próprio PMDB. Existe uma parte do partido que trabalha para manter a presidente,como é o caso do PMDB do Rio de Janeiro, e outra que acredita que a melhor saída é a saída da presidente.
P. A quem beneficia a divulgação dessa carta?
R. O Brasil está vivendo um drama chamado impeachment, com algumas particularidades importantes, e é difícil dizer a quem beneficia, pois seu conteúdo está sendo usado pelos dois lados em confronto. É difícil você ver o que está acontecendo e quais são as apostas dos principais agentes políticos neste momento. Ao que tudo indica, Temer procurou contribuir com o Governo durante alguns momentos decisivos neste ano, e alguma coisa não deu certo.
P. É possível que tanto Dilma como Temer se beneficiem da divulgação dessa carta na hora de construir seus discursos? Ele como alguém que sempre esteve aí, mas não foi valorizado, e ela como a presidenta traída?
R. É possível.
P. O que acontece nos bastidores desse jogo político?
R. O trabalho que eles estão fazendo é essencialmente dentro do teatro político. Se você olhar com um pouco de profundidade a carta de Michel Temer ou a versão que o Governo dá sobre ela, tudo isso é tipicamente um drama num palco que é a cena política tradicional. Qual é o interesse da população brasileira nisso? É muito pequeno. Isso está ocupando os meios de comunicação, você vai ver alguns grupos organizados a favor e contra, mas você não vê um movimento espontâneo da população.
P. O que que está por trás do processo de impeachment?
R. Você tem uma parte da sociedade brasileira que acredita que a presidente não tem condições de restabelecer a confiança do mercado no governo. E, sem recuperar a confiança, não será possível superar o principal problema no Brasil hoje, que é a economia. Outra parte da sociedade olha para o processo de impeachment e vê um processo que não é legitimo, porque a presidente não teria cometido um crime de responsabilidade. E, portanto, avançar no processo nessas circunstâncias seria criar um trauma para a democracia brasileira de difícil superação. Mesmo entre estes que são contra o impeachment, há os que reconhecem a existência de problemas sérios demais na economia, se seguirmos adiante com a atual política. Mesmo assim, na opinião destes, nada justifica o impeachment. Ambas as visões têm argumentos significativos e o drama que vivemos é esse. Agora, existem circunstâncias particulares, que é a maneira como o processo foi iniciado, por um presidente da Câmara [Eduardo Cunha] sobre o qual pesa uma série de suspeitas a respeito das motivações reais que o levaram a iniciar o processo. É uma questão importante: o pedido de impeachment vale independentemente das motivações do presidente da Câmara ou suas motivações contaminam irreversivelmente esse processo?
P. Onde entra comunicação política em um cenário tão polarizado?
R. Se você me permitir, gostaria falar de uma camada anterior aos lados interessados neste processo. Se você olhar para a população brasileira, ela assiste esse jogo e não se reconhece. O que a população vê são políticos interessados em uma disputa de poder que atende a interesse particulares e não da população. Se tem uma coisa importante no Brasil neste momento é o descolamento entre a política e o mundo real. E isso é muito grave. Esse descolamento começou em 2013, com as maiores manifestações espontâneas populares da história do país. É interessante porque em 2013 o Brasil não vivia uma crise econômica nem uma crise moral como vivemos agora. A perspectiva da população sobre a realidade mudou antes que a realidade mudasse. Agora em 2015, a população tem razões de sobra para confirmar os sentimentos manifestados então. Existe um desânimo com o jogo político brasileiro, existe uma depressão, mas não é um fenômeno só brasileiro. Aconteceu em vários outros lugares do mundo, como na Espanha com o abalo do seu sistema bipartidário. Esse é o horizonte que o Brasil vive neste momento sem que, por enquanto, a gente identifique novos protagonistas e novas instituições. Marina Silva, por exemplo, que é quem poderia ter organizado esse sentimento anti-establishment até agora não foi capaz de mostrar uma capacidade de organização que, por exemplo, na Espanha aconteceu com o Podemos, que em um ano podia oferecer uma alternativa política aos espanhóis.
P. Se você assessorasse Dilma Rousseff neste momento, qual seria seu conselho?
R. O principal equívoco do Governo Dilma foi não procurar dar o exemplo ao começar uma mudança de agenda. Ela foi eleita sob o compromisso de seguir na pauta do desenvolvimento, da distribuição de renda. Ela tomou consciência de que isso era impossível, talvez ela soubesse disso antes, e começou uma agenda de ajuste fiscal. Para iniciar essa agenda ela deveria ter começado dando exemplo com uma série de gestos. O que ela fez agora de cortar o próprio salário ou diminuir o número de ministérios, ela deveria ter feito em janeiro deste ano. Por mais simbólicas que essas medidas possam ser do ponto de vista financeiro, elas têm uma importância muito grande do ponto de vista de compreensão diante a população. Meu conselho teria sido esse.
P. E qual seria hoje?
R. O principal hoje é buscar essa reconexão com a população. E essa reconexão passa muito mais pelas atitudes do que pelas palavras. O que está em disputa nesse momento é que se o Governo vencer esta batalha do impeachment provavelmente sairá mais fortalecido politicamente do que estava antes e o Brasil superará um primeiro impasse.
P. Além da oposição, quem seria o principal beneficiário do impeachment?
R. Você tem um segmento importante que são os empresários. A expectativa da iniciativa privada brasileira é que, de alguma maneira, esse impasse seja superado porque tem muitas dúvidas se será possível resgatar a confiança na economia brasileira. Nós temos um problema claro de confiança. Será que é possível resgatar a confiança com o prosseguimento desse Governo? Essa é uma dúvida que o setor privado tem. Por outro lado, será que é possível superar esse impacto através de um processo político que não está 100% claro que seja legítimo? São respostas que eu não tenho.

Vitória na Venezuela

Pereira, envolvido no convulso cenário da Venezuela desde 2011, participou timidamente, e sem remuneração, da campanha vitoriosa de Henrique Capriles nas recentes eleições para o Parlamento.
Pergunta, Quais são os principais desafios da oposição venezuelana apos essa vitória?
Resposta. Eu vejo basicamente três: permanecer unida, pois é sempre mais fácil estar unido afastado do poder do que o exercendo; administrar as expectativas da população que espera ver seus problemas de desabastecimento, inflação e criminalidade enfrentados; e combater o oficialismo numa luta que se dará agora em outro nível.

Encontro entre Dilma e Temer deve ocorrer só nesta quarta-feira

Aliados do vice-presidente Michel Temer que estavam no Palácio do Jaburu, residência oficial da Vice-Presidência, já descartam que ele se encontre ainda nesta terça-feira (8) com a presidente Dilma Rousseff.
Mais cedo, o chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, telefonou para Temer, em nome de Dilma. Queria marcar uma conversa nesta terça entre os dois.
“Mas, até agora, não houve outro contato do Planalto. Portanto, esse encontro não deve acontecer hoje [terça]”, observou um interlocutor do vice.
Na noite desta segunda-feira (7), o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Luís Inácio Adams, foi ao Jaburu para tentar iniciar um processo de pacificação. Temer disse que a carta em que faz um desabafo sobre a desconfiança de Dilma não era um gesto de rompimento.
Atualização (21h39):
O encontro entre Dilma e Temer foi agendado na noite desta terça para acontecer nesta quarta, às 19h30.
Segundo o Palácio do Planalto, o adiamento do encontro aconteceu porque ela só terminou por volta das 21h o despacho de vetos, e o vice está em um jantar com parlamentares do PRB.

Profeta que anteviu 11 de setembro também fez revelação sobre califado do EI

(Reprodução/The Sun)(Reprodução/The Sun)Em 1989, uma senhora búlgara cega previu que os “irmãos americanos” seriam atingidos por “dois pássaros de aço”. Alguns anos depois, antes dela falecer, em 1996, seus seguidores contam que ela havia declarado que uma "grande onda" iria "cobrir uma costa de pessoas e cidade, e tudo iria desaparecer sob a água", esta seria, portanto, a previsão do tsunami de 2004.
Hoje, em 2015, mais uma das declarações premonitórias de Baba Vanga vem ao público. Ela aparentemente já havia previsto a ascensão da ‘grande guerra muçulmana’ em 2016, de acordo com registros deixados.
Vanga morreu em 1996, aos 85 anos, e era conhecida como a ‘Nostradamus dos Bálcãs’, em referência ao alquimista que viveu durante a época do Renascimento.
A respeito da ascensão do Islã ela fez afirmações ainda mais futuras e preocupantes, tendo em vista o número de acertos. Ela garantiu que a guerra muçulmana seria iniciada após a primavera árabe de 2010 e que o fim deste processo só aconteceria em 2043. O mais alarmante, o centro dos conflitos seria a Síria e que o fim teria Roma com o ‘califado’ da civilização muçulmana.
Ainda sobre o nosso futuro, a vidente também alegou que a Europa vai 'deixar de existir' até o final do próximo ano e que o continente acabará quase vazio, como um terreno baldio quase inteiramente desprovido de qualquer forma de vida. A profecia arrepiante tem alertado os teóricos da conspiração que destacam atividade do Estado Islâmico na Líbia, bem próxima à Europa.
Vanga nasceu em uma vila em Strumica, no pé de uma montanha e acredita-se que ela perdeu a visão durante uma tempestade quando foi apanhada por uma rajada de vento e jogada de volta ao chão. A mulher, mais tarde, alegou que tinha capacidade de ver o futuro e rapidamente adquiriu um número de seguidores. Ao ficar mais velha, passou a ser aconselhadora de ricos, famosos e até mesmo de chefes políticos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Seriedade e competência eu recomendo!


Ataques em Paris custaram € 50 milhões à Air France-KLM

iStock© Fornecido por Forbes Brasil iStock

A Air-France KLM informou que os ataques em Paris, em que 130 pessoas foram mortas, causaram uma queda de € 50 milhões de euros (US$ 54 milhões) nas receitas devido ao cancelamento de viagens. No entanto, a companhia aérea disse ao portal da rede BBC que esperava que o efeito tivesse um impacto maior até o final de dezembro.
Antes dos ataques, o número de passageiros era maior do que no mesmo período do ano passado, mas agora caiu para baixo deste nível.
Em sua atualização mensal de tráfego, a Air France-KLM informou: “o impacto negativo dos ataques de Paris nas receitas totais de novembro é estimado em cerca de € 50 milhões”. Por outro lado, “as tendências de reservas atuais indicam uma recuperação progressiva e um impacto muito limitado em volume de reservas após o fim de dezembro de 2015″.
Na semana passada, a companhia Ryanair disse que cortou as tarifas em resposta a uma queda na demanda após os ataques, mas que não espera que os preços mais baixos tenham um impacto material nos resultados financeiros. A SAS também disse que sentiu uma queda nas viagens a Paris e Bruxelas, mas que o tráfego está voltando ao normal.