quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Eduardo Cunha inicia périplo para tentar se manter politicamente vivo Conselho de Ética da Câmara quer julgá-lo ainda este ano por quebra de decoro Presidente da Casa não fecha portas nem a Governo nem a oposição para segurar cargo

Cunha ao sair de seu gabinete. / ANDRESSA ANHOLETE (AFP)
Em um dia, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se senta à mesa com meia dúzia de líderes da oposição ao Governo Dilma Rousseff. No dia seguinte, almoça com o vice-presidente da República e seu correligionário, Michel Temer. O que poderia ser simples agendas institucionais de um presidente da Câmara dos Deputados tem se tornado um périplo para se manter politicamente vivo. Se não como o todo poderoso chefe da Casa Legislativa, ao menos como um influente parlamentar com o foro privilegiado de julgamento.
Naquela primeira reunião, Cunha reclamou aos opositores, a quem sempre ajudou, de que estava sendo abandonado por eles no momento em que acabava de ser denunciado ao Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar. A irregularidade teria ocorrido quando ele mentiu no depoimento dado à CPI da Petrobras ao dizer que não teria contas correntes fora do país. Documentos do Ministério Público da Suíça mostram que ele tinhaquatro contas naquele país com cerca de 24 milhões de dólares. Dos opositores, ouviu que ainda podiam contar com seu suporte e que só assinaram um manifesto pelo afastamento dele porque estavam sendo cobrados pelos seus eleitores.Investigado pela Operação Lava Jato, hoje, Cunha só pode ser julgado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Se perder o mandato, poderia cair na mira do juiz Sérgio Moro, o condutor dos processos que envolvem os suspeitos de corrupção na Petrobras e cuja a pesada caneta já condenou mais de duas dezenas de empresários, lobistas, doleiros e políticos por conta do desvio de ao menos 6 bilhões de reais da estatal brasileira.
O segundo encontro, incentivado pelo ministro da Casa Civil, o petista Jaques Wagner, tinha como objetivo apresentar a proposta de acordo do Governo ao deputado peemedebista. Conforme participantes ligados a Cunha e a Temer, como o Governo não pode interferir nas investigações da Procuradoria-Geral da República, a proposição seria no sentido de evitar uma cassação de mandato na Câmara desde que ele não desse aval aos pedidos de impeachmentque tramitam na Casa. Atualmente três esperam sua decisão e um quarto pode dar entrada até o fim desta semana, segundo prometem opositores.
A tabelinha de Cunha com o Governo poderia lhe render ao menos 13 dos 19 votos dos membros do Conselho de Ética. Constituído por 21 parlamentares, o Conselho seria “reduzido” porque deputados do partido do investigado ou do mesmo Estado pelo qual foi eleito não poderiam participar do julgamento e nenhum suplente é convocado.

Promessas e apelos dos dois lados

Nesta quarta-feira, o presidente do Conselho de Ética, o deputado José Carlos Araújo (PSD-BA), disse que pretende concluir a análise do pedido de cassação de Cunha ainda neste ano. Pela legislação ele teria 90 dias para finalizar os trabalhos o que jogaria as conclusões somente para 2016, porém, ele defende uma apuração mais célere. “A sociedade exige essa celeridade, sem avançar nenhum sinal, dando o amplo direito de defesa ao representado”, afirmou Araújo.
A primeira reunião do conselho para definir os procedimentos a serem seguidos deve ocorrer apenas na última semana de outubro. Com o término do julgamento desta comissão, o relatório é avaliado pelo plenário da Câmara dos Deputados.
Neste fórum o Governo diz que pode ajudar Cunha a não ser derrubado, mas essa promessa, talvez nem possa ser cumprida. A lógica é que, nas últimas semanas os deputados governistas não conseguiram nem dar quórum para a votação de projetos de interesses do Governo, como os vetos presidenciais.
Para piorar, mais da metade da bancada petista, 32 dos 62 deputados, confrontaram a direção do partido e assinaram o requerimento que pediu a cassação do mandato do presidente da Câmara. Ao total, 50 parlamentares firmaram o documento que foi elaborado pelos partidos PSOL e Rede. As curiosidades nessa relação são os oposicionistas que não seguiram as orientações de suas legendas Max Filho (PSDB-ES) e Arnaldo Jordy (PPS-PA), além de Zeca Dirceu (PT-PR), filho do ex-ministro e investigado pela Lava Jato José Dirceu – um dos 14 parlamentares brasileiros que tiveram mandatos cassados pelo Congresso nos últimos 20 anos.
Experiente nos meandros da política, um dos defensores do ex-presidente Fernando Collor na época em que ele enfrentou o impeachment, Cunha ainda não fechou as portas a ninguém. Pelos relatos de aliados, ele só fechará a questão e engavetará os pedidos de destituição contra Rousseff quando se sentir seguro e se ela deixar de mandar recados atravessados, como o dado durante discurso na noite de terça-feira quando a presidenta afirmou que a sociedade conhece os “moralistas sem moral” que tentam derrubá-la. Se não, ainda pode se abraçar aos opositores e arriscar o próprio pescoço.
Enquanto na Câmara há uma briga pelos que dão as mãos ao deputado e os que o empurram ao precipício, no Senado, ao menos quatro congressistas se revezaram na tribuna para defender a derrubada dele. Nas entrevistas, até o PSDB surpreendeu e foi duro com o peemedebista. “O Cunha está com a cabeça a prêmio e está vendo quem pode salvá-lo: o governo ou a oposição. Quem der mais leva. Enquanto isso, o país que se exploda”, afirmou o líder do PSDB no Senado, o paraibano Cássio Cunha Lima.

Empresa de pagamento eletrônico Square confirma entrada em Wall Street


(Arquivo) A empresa americana de pagamentos eletrônicos Square confirmou oficialmente nesta quarta-feira que entrará na Bolsa de Valores em Wall Street
A empresa americana de pagamentos eletrônicos Square confirmou oficialmente nesta quarta-feira que entrará na Bolsa de Valores em Wall Street.
A operação é uma das mais esperadas este ano nos Estados Unidos no setor tecnológico.
Square integra um seleto grupo de empreendimentos de sucesso, com valor estimado de 6 bilhões de dólares em 2014.
A empresa se impôs no mercado graças a seus mini-leitores de cartões de crédito que são conectados a smartphones ou tablets, permitindo realizar pagamentos instantâneos por meio de um aplicativo.
O sistema enfrenta uma concorrência crescente de outras empresas, como a PayPal, mas mantém a preferência entre os trabalhadores autônomos, de pequenos comerciantes a taxistas e advogados, assim como pelas redes Starbucks e Whole Foods.
Square planeja cotar suas ações no New York Stock Exchange, sob o símbolo "SQ", em uma data ainda não definida. Também não foram revelados o valor e o número total de ações, mas há uma previsão de capitação inicial de 275 milhões de dólares.

Mulher é indenizada após sofrer maus-tratos em um supermercado do DF De acordo com a juíza do 6º Juizado Especial Cível de Brasília, ficou comprovado o descaso e a inadaptação da companhia

Ed Alves/ CB/ D.A Press


Uma mulher receberá uma indenização de R$ 7 mil após ser mal atendida em um supermercado do Distrito Federal. A juíza do 6º Juizado Especial Cível de Brasília julgou procedente o pedido inicial da ação para condenar a Companhia Brasileira de Distribuição. De acordo com a mulher, em 27/08/2014, os preços das mercadorias que comprava estavam sendo registrados no caixa com preços diferentes daqueles que ela havia visto nas gôndolas. 

Ao solicitar o cancelamento dos produtos com preços alterados – a compra cairia de R$ 196 para R$ 114 após isso –, ela chamou o gerente para resolver a situação. De acordo com seu relato, o gerente alegou que a requerente não teria dinheiro para pagar as mercadorias, por isso ela teria causado o problema. A afirmação do funcionário chocou a mulher que, ao pedir mais respeito, foi xingada pelo gerente – este mandou outros empregados recolherem as compras, impedindo que elas fossem levadas. Ao tentar evitar que os produtos fossem devolvidos às prateleiras, a requerente ainda teria caído no chão, não tendo sido ajudada pela equipe do estabelecimento. 

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A empresa responsável pelo supermercado não apresentou contestação. Com isso, a juíza entendeu que os fatos narrados na inicial tornaram-se incontroversos. Dessa forma, o comportamento do gerente trouxe à mulher humilhação, constrangimento, sentimento de angústia diante de outras pessoas presentes, além de ofensa à sua integridade física, em razão da queda. Para a juíza, ficou comprovado o descaso e a inadaptação da companhia aos termos estabelecidos pela Política Nacional de Consumo, gerando a indenização. 

Com informações do TJDFT.

CCJ do Senado aprova a criação de 8 mil cargos efetivos no governo federal

A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou, nesta quarta-feira (14/10), projeto de lei da Câmara (PLC 99/2015), do Poder Executivo, que cria cerca de 8 mil cargos efetivos na administração pública federal, em áreas como saúde, educação e segurança pública. Aprovado o parecer favorável da relatora, senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), a proposta segue para votação no Plenário do Senado.

Vanessa Grazziotin se disse favorável à iniciativa em razão da necessidade de criação e transformação dos cargos e das funções públicas previstas para facilitar o bom funcionamento da máquina pública. De acordo com o texto do Executivo, o provimento dos cargos — com os respectivos concursos públicos — ocorrerá de forma gradual, condicionado à expressa autorização em anexo próprio da Lei Orçamentária Anual. Ou seja, dependerá da disponibilidade orçamentária. O impacto da medida foi estimado pelo governo em R$ 958 milhões por ano.

O projeto chegou ao Senado em agosto. Em setembro, com o novo ajuste fiscal, o governo anunciou a suspensão dos concursos públicos previstos para 2015. O Ministério do Planejamento também informou que a Lei Orçamentária não contemplaria a realização de concursos em 2016.
Saúde

O PLC 99/2015 estabelece a criação de 127 cargos de especialista em regulamentação de saúde suplementar e 87 cargos de analista administrativo para a Agência Nacional de Saúde (ANS). Para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), está prevista a criação de 130 cargos de especialista em regulação e vigilância sanitária; 30 de técnico em regulação e vigilância sanitária; e 20 de analista administrativo.

Já para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Executivo propõe a criação de 1.200 cargos em diversas áreas: pesquisador em saúde pública (300), tecnologista em saúde pública (450), técnico em saúde pública (250), analista de gestão da saúde (150) e especialista em ciência, tecnologia, produção e inovação em saúde pública (50).
Educação

Na área da educação, o texto abre 5.320 cargos de professores do ensino superior e 2.008 de técnicos administrativos em educação. O texto transforma 1.977 cargos vagos de técnico-administrativo em educação das instituições federais de ensino superior em cargos com perfis adequados às necessidades institucionais.
Segurança

A proposta contempla ainda a criação de cargos para os departamentos de Polícia Federal e de Polícia Rodoviária Federal — sem aumento de despesa —, mediante contrapartida de extinção de cargos vagos. Para a Polícia Federal, o Executivo propõe 44 cargos de engenheiro, cinco de arquiteto e 36 de psicólogo. Já para a Polícia Rodoviária Federal, são 19 cargos de administrador, 17 de engenheiro, cinco de estatístico e três de técnico de comunicação social.

DESIGUALDADE ECONÔMICA E SOCIAL » 1% da população mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta Desigualdade aumentou desde da crise de 2008 e chega ao ápice em 2015

Vista aérea de villa Certosa, la mansión de Silvio Berlusconi en Cerdeña.
Vista aérea da Villa Certosa, a mansão de Silvio Berlusconi na Sardenha. / GTRES
2015 será lembrado como o primeiro ano da série histórica no qual a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor total de ativos. Em outras palavras: 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares (2,96 milhões de reais), possuem tanto dinheiro líquido e investido quanto o 99% restante da população mundial. Essa enorme disparidade entre privilegiados e o resto da Humanidade, longe de diminuir, continua aumentando desde o início da Grande Recessão, em 2008. A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, deixa somente uma leitura possível: os ricos sairão da crise sendo mais ricos, tanto em termos absolutos como relativos, e os pobres, relativamente mais pobres.
No Brasil, a renda média doméstica triplicou entre 2000 e 2014, aumentando de 8.000 dólares por adulto para 23.400, segundo o relatório. A desigualdade, no entanto, ainda persiste no país, que possui um padrão educativo desproporcional, e ainda a presença de um setor formal e outro informal da economia, aponta o relatório.
Em O Preço da Desigualdade, um dos últimos livros de Joseph E. Stiglitz, o Nobel de Economia utilizou uma poderosa imagem da Oxfam para ilustrar a dimensão do problema da desigualdade no mundo: um ônibus que por ventura transporta 85 dos maiores multimilionários mundiais contém tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial.
O que causou esse novo aumento da disparidade? A entidade financeira aponta a melhora dos mercados financeiros: a riqueza dos mais ricos é mais sensível às subidas de preço de ações de empresas e outros ativos financeiros que a do restante da população. No último ano, os índices de referência dos mercados das principais bolsas europeias e norte-americanas, o Eurotoxx 50 e o S&P 500, subiram mais de 10%.Hoje, essa impactante imagem, plenamente em voga, ganha a companhia de outras que deixam latente a crescente desigualdadeentre os privilegiados e o resto do mundo: um de cada 100 habitantes do mundo tem tanto quanto os 99 restantes; 0,7% da população mundial monopoliza 45,2% da riqueza total e os 10% mais ricos têm 88% dos ativos totais, segundo a nova edição do estudo anual de riqueza publicado na segunda-feira pelo banco suíço Credit Suisse, feito com dados do patrimônio de 4,8 bilhões de adultos de mais de 200 países.
Outro dado dá base à tese do aumento da desigualdade: ainda que o número dos muito ricos (aqueles que têm um patrimônio igual ou superior aos 50 milhões de dólares [195 milhões de reais]) tenha perdido aproximadamente 800 pessoas desde 2014 por conta da força da moeda norte-americana frente ao resto das grandes divisas, o número de ultrarricos (aqueles que têm 500 milhões de dólares [1,95 bilhão de reais]) ou mais aumentou “ligeiramente”, segundo o Credit Suisse, para quase 124.000 pessoas. Nem sequer o ajuste pela taxa de câmbio é capaz de neutralizar o aumento. Por país, quase a metade dos muitos ricos vive nos EUA (59.000 pessoas), 10.000 deles vivem na China e 5.400 vivem no Reino Unido.
Com esses dados, não é de se estranhar a satisfação mostrada na segunda-feira pelo responsável pela Gestão de Patrimônios do Credit Suisse para a Europa, o Oriente Médio e a África, Michael O’Sullivan: seu negócio não deixou de crescer desde o estouro da maior crise desde a Segunda Guerra Mundial. “Nossa indústria está em pleno crescimento, a riqueza seguirá com sua trajetória de subida”. Suas previsões não podem ser mais eloquentes. O número de pessoas com um patrimônio superior a um milhão de dólares (3,9 milhões de reais) crescerá 46% nos próximos cinco anos, até chegar aos 49 milhões de indivíduos.
Toda a riqueza mundial em seu conjunto, por outro lado, crescerá até 2020 um robusto, mas inferior, índice de 39%. Na Espanha, o número de pessoas com patrimônio superior a um milhão de dólares (3,90 milhões de reais) chegou em 2015 a 360.000 pessoas, 21% a menos do que no mesmo período em 2014. A Espanha é o nono país que mais perdeu milionários no último exercício. Da mesma forma que o restante da zona do euro, a evolução é distorcida pela fragilidade do euro frente à moeda norte-americana.

A classe média chinesa já é a mais numerosa do mundo

A China, o melhor expoente dos anos dourados dos emergentes que começam a chegar ao seu fim, já é o país do mundo com mais pessoas na classe média. Segundo o relatório anual de riqueza mundial do Credit Suisse, 109 milhões de moradores do gigante asiático têm ativos avaliados entre 50.000 e 500.000 dólares –195.000 a 1,95 milhão de reais–, a categoria estabelecida pelo banco suíço. Essa quantidade equivale à renda média de quase dois anos e oferece uma proteção “substancial” contra a perda de emprego, uma queda brusca na entrada de rendimentos ou um gasto de emergência.
Ainda que a distribuição de renda na China esteja muito distante de ser igualitária, a expansão da classe média seguiu um caminho paralelo à evolução de sua economia: com um crescimento maior – o gigante asiático cresceu dois dígitos em oito dos últimos 20 anos e se transformou na imagem do milagre emergente – mais pessoas entram na classe média. Em 2015, o Estado asiático superou os EUA (92 milhões) como o primeiro país em número de pessoas na classe média. O Japão (62 milhões de habitantes na classe média), a Itália (29 milhões), a Alemanha (28 milhões), o Reino Unido (28 milhões) e a França (24 milhões).

Diferenças regionais

Por região, 46% da classe média mundial vive na Ásia-Pacífico; 29% moram na Europa, berço do Estado de bem-estar social, e 16% na América. Em termos relativos, por outro lado, a América do Norte – com os Estados Unidos e o Canadá na liderança – aparece como o maior expoente da classe média, com 39% dos adultos dentro dessa faixa, seguida pela Europa, onde um em cada três maiores de idade são classe média. A proporção desaba na América Latina (11%) e na Ásia-Pacífico, a região mais povoada do globo e na qual somente um em cada 10 habitantes está dentro da categoria estabelecida pelo Credit Suisse.
Segundo os números da entidade financeira, 664 milhões de pessoas em todo o mundo podem ser consideradas de classe média, somente 14% da população adulta global. Dessa cifra, 96 milhões de pessoas (2% do total), têm uma riqueza avaliada em mais de meio milhão de dólares (1,95 milhão de reais).

Ney Matogrosso: “O Brasil está mais careta hoje do que era” Músico que prepara novos projetos, critica radicalismo no país e é a favor do impeachment

Ney Matogrosso durante a entrevista. / MAURO PIMENTEL
Ney Matogrosso (Bela Vista, 1941) senta no canto do sofá, forrado com a bandeira de Pernambuco, com as pernas recolhidas e meio corpo fora, parecendo que a qualquer momento vai cair no chão. É o jeito de alguém pronto para sair da cena rapidamente. Fica mais de uma hora se equilibrando, mas não oferece sinais de querer sair correndo. Ney recebe a reportagem ainda com a luz entrando pelas janelas da sua enorme cobertura no Leblon, no Rio de Janeiro, mas pouco depois o sol se põe e a casa fica quase na escuridão. Ele só acenderá uma luz à petição do fotógrafo minutos antes do encontro acabar.
Nada se escuta na sala a exceção dos gritinhos de uma fêmea demacaco prego que pula de um lado pra outro de uma gaiola gigante. O animal está nervoso, não gosta de mulher perto. Ela gosta do Ney, e de algum ou outro conhecido, e o resto deve ficar longe. Garota, amada e mimada pelo intérprete, representa, paradoxalmente, o que Ney Matogrosso se esforça por combater o tempo todo: os ciúmes.Ele chegou a cantar que os ciúmes são o “perfume do amor”, mas a letra apenas romantizava um dos seus principais defeitos. “As pessoas acham que tudo o que eu canto é o que eu penso. Mas eu não considero isso jamais. Acho o ciúme um inferno, uma coisa horrorosa. Me esforço por superar esse obstáculo na minha vida o tempo todo”, diz o artista.

Pregunta.
 Você lançou discos com canções só de Cartola, outro só do Chico Buarque, outro só do Tom Jobim, Ângela Maria, Carmen Miranda... Por que essas escolhas?Em plena forma aos 74 anos, Ney ainda é tocado e lisonjeado pelas senhoras de cabelos brancos com penteados de salão quando o veem passeando pelas ruas do bairro. “Uma vez, uma encasquetou que queria fotografar meu pau durante um show em que eu tirava tudo. Eu lhe dizia que ela não tinha entendido o conceito, que aquilo não era um strip-tease, mas eu via ela com a câmara em todos os cantos do teatro tentando me pegar”, lembra Ney, entre risadas. O segredo do seu sucesso, até com as mulheres mais caretas que perdem os estribos ao vê-lo subido no palco, nem ele sabe explicar.
Resposta. De Carmen Miranda comecei fazendo um repertório dela, mas não fiquei restrito porque comecei a pesquisar e vi que tinha tanta coisa boa que não precisava ficar só nela. Mas tudo o que era de melhor passava por ela. Era a grande estrela do momento na música brasileira. Olha, eu sou intérprete, eu não sou compositor, então me dou o luxo de desfrutar de tudo o que a música brasileiraoferece. Eu não acredito em ficar restrito a um único estilo.
P. Já tentou compor?
R. Já, mas não é a minha. Compus duas letras, mas que eu sou muito crítico delas. Uma que fala de um encontro de noite, que no final você não sabe se encontrou uma pessoa de verdade ou um extraterrestre. E a outra, dos anos 80, se chama Dívida de amor, uma música romântica, mas que fala da morte. Eu gravei as duas, mas nunca cantei.
P. O que tem ficado na gaveta que você ainda gostaria de levar para frente? O projeto de cantar as músicas de Caetano Veloso?
R. Caetano está sempre na minha mira, mas ainda não atirei. Ainda. Mas têm muitas coisas que me interessam. Eu vou fazer agora um show para o que fui convidado por uma diretora de cinema, Ana Carolina [Soares]. Eu vou cantar Carlos Gomes e Villa-Lobos, e um ator vai recitar poemas do Gonçalves Dias, um poeta baiano de 1800 que começa em uma fase romântica e depois ele vai ficando deslumbrado pelo Brasil, pela natureza e pelos índios e acaba sendo uma apoteose ao Brasil... A proposta é levá-lo a seis capitais, gravá-lo, e depois eu tocar minha vida, porque tenho um repertório pop pronto e falta muita pouca coisa para acabar.
P. Você não tem planos de parar? Não se sente cansado?
No começo eu olhava as fotografias e eu não me reconhecia, eu não achava que era eu. Era muito louco.
R. Eu vou parar quando for impedido. Não me sinto mais cansado do que sempre fiquei. O último show que estou fazendo é bem puxado, e quando vi como ficou e fui fazer pensei: “Nossa o que é que fui inventar?”. Mas agora que inventei, eu aguento. Eu tenho muito prazer em fazer, ainda gosto mais de fazer show do que gravar. O único que eu acho chato são as viagens, que eu perco muito tempo.
P. Qual é rumo da música brasileira? Quem você admira neste momento?
R. Criolo é um deles, e também o Tono, um grupo daqui do Rio de Janeiro. Tem pessoas fazendo coisas interessantes. Eu ouço dizer que há uma crise na música, mas não é uma crise na criação, é uma crise pelos obstáculos que você enfrenta para chegar e tocar no rádio. Hoje em dia você tem que pagar pra tocar, antigamente você gravava um disco e você ia para todas as estações de rádio do país.
P. Haverá uma nova geração de Chicos, Caetanos, Marias Bethânia, Neys... Alguém que represente este momento no Brasil?
R. Não sei. Se a gente concluir que viver é um trânsito, as coisas estão se transformando com muita velocidade, então eu não sei onde vai dar. Tudo pode acontecer. No Brasil não para de aparecer artista diariamente, só que muitos vêm e vão, mas é um celeiro artístico, que eu acho maravilhoso. Talvez é o que pode salvar o Brasil, porque quando essa mentalidade artística se expandir será de todos.
P. Há um abismo brutal entre o Ney Matogrosso, exibicionista e ousado do palco e o Ney Matogrosso, tímido e reservado, do dia a dia. Como se relacionam um Ney com o outro?
Existe uma violência agora embutida em todo o mundo, você hoje em dia não pode dar uma opinião.
R. Durante um período grande eu pensei que fosse esquizofrênico, que eu tivesse dupla personalidade. Até que eu observei que, com o tempo, aquilo foi se aproximando um do outro, porque no começo eu olhava as fotografias e eu não me reconhecia, eu não achava que era eu. Era muito louco. Ai fui entendendo que sou eu mesmo, que não tenho esquizofrenia nenhuma, e que no meu trabalho é assim, é tudo extrovertido, e que eu fora do palco não tenho nenhuma necessidade daquela manifestação. Absolutamente nenhuma.
P. E como se explica isso? Por que na hora de fechar a porta essa necessidade de expressão, de reivindicação perde fôlego?
R. Eu não explico, eu aceito. Mas não é que eu deixe de ser reivindicativo. Eu sou uma pessoa que exige direitos, reivindico o tempo todo, mas não tenho necessidade daquela exposição. Eu sou uma pessoa consciente do mundo que eu vivo, da realidade da vida, da realidade dos governos, das igrejas... Sei tudo isso, sou ligado, não sou bobinho. Minha única via para poder expressar tudo o que eu penso do meu país e do mundo é nas entrevistas que eu concedo, e no palco desafio todas as regras. E eu sou ousado, sim, sou atrevido, sim, porque eu preciso ser, porque o Brasil está mais careta do que era.
P. Como você, que enfrentou uma ditadura, pensa assim?
R. Porque é assim. O Rio de Janeiro, nos anos 60, era uma cidade onde de quinta à sábado você podia andar na rua até cinco da manhã que fervia de gente. Quando aparecia uma bicha muito louca na rua, o povo aplaudia. Eu achava aquilo tão engraçado que eu ficava admirado. Eu vinha do Mato Grosso, onde só tinha um [gay] que passava na rua e só faltava o povo jogar pedra. Isso era de uma maneira geral, o Brasil era mais tolerante com todas as diferenças e foi ficando intolerante. Quem instituiu a violência no Brasil foi a ditadura militar e o povo passou a ser violento. Existe uma violência agora embutida em todo o mundo, você hoje em dia não pode dar uma opinião. Nas redes sociais as pessoas caem furiosas. Eu não tenho rede social porque não me interessa o que as pessoas estão pensando, porque as pessoas estão loucas, estão radicais. Como a gente vai ser um país com pensamento radical? Mas você vê isso em tudo. Na política estamos chegando à beira de uma guerra civil por causa dessa gente ridícula.
P. De que gente ridícula?
R. Do Governo ridículo que nos governa. Toda essa gente tem que ir para a cadeia. Você não pode deixar no poder um Governo que saqueia o país. Esse juiz Sergio Moro está dignificando a Justiça no nosso país. Porque quem rouba é ladrão e ladrão tem que ir para a cadeia, não é só pobre que tem que ser preso. Eu não estou dizendo que nunca roubaram, mas eles chegaram com tanta sede ao pote que foram descarados. Vamos parar, não podem roubar mais. Eu sempre falei o que eu acho, se eu não me privei de dar minha opinião nem na ditadura porque eu vou me privar agora? Agora que me engulam, não dizem que é uma democracia? Vamos ver se é mesmo.
P. Você é a favor do impeachment da presidenta?
R. Sou. Se se demonstrar sua culpabilidade, ela deve sair.
P. O que levou ao jovem Ney a servir na aeronáutica?
R. Era o único pretexto que eu tinha para sair de casa em aquele momento. Era 1959 e nem filho homem saia de casa, só saia casado e eu tinha 17 anos. Não queria mais viver nessa casa, não queria mais viver mais com aquele pai.
Eu descobri muitos anos depois que eu tinha criado um manto de chumbo no meu coração, para eu não necessitar de ninguém e de nada.
P. A relação com seu pai melhorou com os anos? Ele chegou a te ver subido num palco?
R. Depois de muitos anos ficamos amigos. Ele me viu várias vezes, só no viu Secos e Molhados. A primeira vez que ele me viu foi no meu primeiro disco solo. Minha irmã me disse que ele tomou remédio para o coração porque ele não sabia o que ele ia ver. Ele assistiu o show e no final falou para minha irmã que ele estava totalmente enganado, que eu era um grande artista. Mas para mim ele não disse.
P. Você chorou ao ouvir isso?
R. Não. Não sou desse jeito. Eu sou muito pé no chão, não é que eu não seja emocional, mas não sou uma pessoa que chora fácil. Eu tive que criar muita defesa para conviver no mundo, eu sai criança de casa. E quando eu sai, eu fui conviver num quartel só com homens, tendo que delimitar o meu território o tempo tudo porque se não seria invadido. Eu descobri muitos anos depois que eu tinha criado um manto de chumbo no meu coração, para eu não necessitar de ninguém e de nada.
P. Isso não dificultou seus relacionamentos com as pessoas?
R. Sim, até que tomei daime (ayahuasca) durante um ano e meio. Ai eu descobri que eu tinha feito isso comigo mesmo conscientemente e não me lembrava. Eu cheguei a ver o momento em que tomei essa decisão e foi assim: “Eu não preciso de amor de pai. Eu não preciso de amor de mãe. Eu não preciso do amor de ninguém. Eu não preciso do mundo. Eu quero que o mundo se foda. Eu vou tocar minha vida”. Um dia, depois de 12 horas tomando daime, deitei na minha cama e percebi, veio aquela memória e meu peito escancarou e vi raios verdes jorrarem dele. Parecia que tinha tomado um ácido. Ai eu fui mudando, as pessoas me perguntavam o que estava acontecendo comigo.
P. E você ficou um doce?
R. Eu sempre fui doce, mas eu não me permitia ser. As pessoas se aproximavam de mim, mas eu cortava. Se eu namorasse alguém uma noite, se quisesse me ver no dia seguinte eu já cortava, não tinha espaço para isso. Tinha espaço para sexo, sem compromisso, eu fugia de qualquer envolvimento, até que teve uma vez que eu não consegui fugir...
P. E o que aconteceu?
R. (Risos) Admiti a possibilidade. Eu entendi que era possível ter uma relação com alguém duradoura.
P. Estamos falando do mesmo alguém (o Cazuza)?
Eu ouço dizer que há uma crise na música, mas não é uma crise na criação, é uma crise pelos obstáculos que você enfrenta para chegar e tocar no rádio.
R. Sim.
P. E esse foi seu grande e único amor?
R. Não, não foi o único. O primeiro, esse que me desestabilizou foi umgrande amor, mas eu tive três grandes amores. Com ele, eu tive a sensação de que eu gostaria de viver, ele me abriu, e depois eu tive um relacionamento de 13 anos. De lá para cá sou uma pessoa normal, não sou ansioso por relacionamentos, não sou fechado, mas não procuro. Algumas vezes acontece. Eu preciso da solidão e não consigo viver sem meus momentos sozinho.
P. A sociedade brasileira evoluiu no debate cidadão de questões importantes como os direitos dos homossexuais, legalização das drogas, aborto... Embora as leis continuam sendo rígidas nesse sentido. No caso da Aids, no entanto, o assunto continua sendo tabuem todas as esferas, e é sinônimo de desinformação e preconceito. Qual é sua relação com o tema? Por que parece que esse não é também um problema da sociedade?
R. A Aids está atingindo a população de 15 a 20 anos. Eles não entendem porque eles não viveram. Eu tive uma semana em que fui três vezes a enterrar amigos. Eles acham que não mata, que tomam remédio e pronto, meu deus! É tão simples usar uma camisinha, não sei qual é o problema. Mas é verdade que não se fala mais, nem as autoridades.
P. Você alguma vez se preocupou por ter contraído a doença?
R. Esse com quem eu morei 13 anos, morreu da doença e quando eu fui fazer o teste, para minha enorme surpresa, eu não estava contaminado. Eu perguntei para vários médicos como é que eles explicavam que após ter contato com o vírus eu não era portador. Me disseram que não tinha explicação. Agora, eu não dou mole, achando que eu sou imune. Antes era vida louca para todo o mundo,camisinha era só para quem não queria ter filho.
P. O que você opina da onda conservadora e esse ressurgimento religioso que domina parte dos debates no pais?
R. O Brasil é um país laico, mas aqui deixaram essa infiltração acontecer. Eu acho que o que vai acontecer é cobra comendo cobra. Mas o povo tem que se mexer. Não existe esquerda e direita mais. Aqui ultrapassamos a ideologia política, aqui se trata de malfeitores e o povo tem direito de colocar eles para correr.
P. No filme Ralé, que Helena Ignez acaba de estrear com você como protagonista, vocês tocam vários assuntos da sexualidade e da vida. Me diga o primeiro que vem na sua cabeça sobre eles. Liberdade sexual?
R. Todas as liberdades.
Não existe esquerda e direita mais. Aqui ultrapassamos a ideologia politica, aqui se trata de malfeitores e o povo tem direito de colocar eles para correr.
P. Enfrentar a velhice?
R. Eu não enfrento a velhice, eu a aceito. Convivo com a possibilidade da morte bem tranquilamente. Eu não tenho medo de nada.
P. O amor livre como forma de relacionamento.
R. Eu já experimentei nos anos 70. É interessante mas tem uma hora, pode ser que agora as pessoas estejam mais acostumadas com o contexto, que alguém tinha ciúme e acabava. Era interessante como exercício. Não era fácil, porque todos nós tínhamos ciúme. Eu fui o que aceitei o terceiro e para minha enorme surpresa eu aceitei com tranquilidade, porque eu pensava que nunca seria capaz. Mas eu aceitei e gostei, mas ai o outro não gostou que eu gostasse, né?

Temporal na Região Metropolitana eleva total de clientes sem luz no RS CEEE contabiliza cerca de 366 mil pontos sem luz, 201 mil só na capital. AES Sul tem aproximadamente 63 mil consumidores e RGE, mais 7,5 mil.

Mais de 430 mil clientes estão sem energia elétrica no Rio Grande do Sul após um temporal com ventania e granizo no final da tarde desta quarta-feira (14) e uma forte chuva que atingiu Porto Alegre entre o fim da noite e o começo da madrugada desta quinta (15). São cerca de 366 mil clientes da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), além de aproximadamente 63 mil clientes da AES Sul e 7,5 mil da RGE.
"Tivemos basicamente um impacto muito grande pela força dos ventos. Foi de uma intensidade muito grande", explica Hofer, que não forneceu uma estimativa para a normalização dos serviços. "Este temporal teve uma característica diferente, pois não atingiu nenhum bairro em especial. Atingiu toda a cidade. Isso gera uma diluição grande das equipes e, por consequência, um tempo maior de atendimento", justificou.Somente em Porto Alegre, a CEEE tem 201 mil clientes sem energia em várias regiões da cidade, conforme aponta o diretor de distribuição da companhia, Julio Hofer.
Na área da AES Sul, as cidades mais atingidas são Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Montenegro. Mais de 400 profissionais, entre eletricistas, técnicos e pessoal de apoio estão mobilizados para a recuperação da rede. Ainda segundo a AES Sul, o vento e a chuva prosseguem, o que impede estimar uma previsão de atendimento a todas as ocorrências.
Temporal já estava previsto por Defesa Civil
Granizo no Rio Grande do Sul (Foto: Milos Silveira/Jornal O Correio)Granizo deixou estrada coberta por gelo na região
central do RS (Foto: Milos Silveira/Jornal O Correio)
O temporal da tarde desta quarta-feira (14) já estava previsto pela Defesa Civil. As regiões Central e Metropolitana foram as mais atingidas pelo granizo. A cidade de Sapucaia do Sul, localizada a 20 km de Porto Alegre, registrou volume intenso de pedras de gelo.

No interior de Restinga Seca, na Região Central, pelo menos nove comunidades foram atingidas pelo temporal de granizo. O prefeito Mauro Schünke afirmou que as pedras tinham o tamanho de ovos de galinha. Outro município bastante atingido foi Cachoeira do Sul, também na Região Central. Segundo a Defesa Civil, pelos menos 100 casas foram atingidas principalmente na região rural de Enforcados. As pedras perfuraram telhados e destruíram lavouras.
Os municípios de Esteio e Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, também foram atingidos pela chuva de granizo. Por conta da força das pedras, parte do Hospital Municipal Getúlio Vargas (HMGV), em Sapucaia do Sul, foi destelhada. Entre as áreas atingidas está a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), o que motivou a transferência de pacientes, conforme a assessoria de imprensa da casa de saúde.
Também há registros de granizo em São Leopoldo e Parobé, no Vale do Sinos, e em Osório e Capão da Canoa, no Litoral Norte. A Defesa Civil não tem conhecimento ainda da dimensão dos estragos.