sábado, 20 de fevereiro de 2016

Cinco perguntas sobre o corte de gastos anunciado pelo governo Mariana Schreiber Da BBC Brasil em Brasília

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Image captionGoverno cortou R$ 23,4 bilhões em despesas, que atingirão ministérios da Educação e Saúde, PAC e emendas
O governo anunciou nesta sexta-feira novas medidas de ajuste fiscal para tentar reequilibrar as contas públicas – que há dois anos estão no vermelho.
A proposta mais inovadora foi a criação de um teto anual para as despesas públicas e a previsão de uma série de mecanismos para evitar o crescimento dos gastos que seriam automaticamente disparados em caso de desrespeito desse limite (entenda melhor abaixo).
O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, disse que pretende enviar até o final de março para o Congresso um projeto de lei com essa proposta, que é inspirada em ação semelhante adotada recentemente pelo governo dos EUA.
Como medida imediata para este ano, foi anunciado um corte de R$ 23,4 bilhões nas despesas, que vão atingir principalmente os ministérios de maior orçamento, Educação e Saúde, as obras de infraestrutura do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e as emendas parlamentares.
Gastos considerados essenciais, como o programa Bolsa Família e as medidas de combate à epidemia de zika, não serão afetados, garantiu o ministro do Planejamento, Valdir Simão.
Entenda o anúncio desta sexta:

Por que o governo anunciou novas medidas de ajuste fiscal?

O governo vem enfrentando nos últimos anos queda na arrecadação de impostos, um reflexo direto do encolhimento da economia. Com isso, desde 2014, as contas públicas estão no vermelho, o que levou as agências internacionais de classificação de risco a rebaixarem a nota de crédito do Brasil.
Essas notas são usadas por investidores na hora de avaliar o risco de comprar títulos brasileiros – sua queda tende a tornar mais cara a captação de recursos para o governo e, indiretamente, para empresas. A instabilidade também costuma afetar a taxa de câmbio, tornando o dólar mais caro.
Dessa forma, as medidas fazem parte do esforço do governo para reequilibrar as contas públicas e retomar a confiança do mercado. Na visão de economistas mais liberais, essa retomada de confiança é fundamental para a recuperação do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Já economistas de visão desenvolvimentista consideram que os cortes de gastos aprofundam a crise econômica ao diminuir os investimentos em obras e serviços públicos.

Por que criar um limite de gastos para o governo?

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Image captionNelson Barbosa (dir.) assumiu como ministro da Fazenda no lugar de Joaquim Levy
Atualmente, ao enviar sua proposta de orçamento para o Congresso, o governo deve fixar uma meta de quanto pretende economizar no ano (superavit primário).
A ideia é que administração federal passe também a ter uma meta de gastos que será fixada em proporção ao PIB (total de riquezas produzidas no país). A previsão para 2016, por exemplo, é de que serão gastos R$ 1,181 trilhão, o equivalente a 19,1% do PIB, mas não se trata de um patamar obrigatório.
Segundo Barbosa, essa é uma medida de longo prazo que busca dar maior previsibilidade das contas públicas. “Mesmo que a meta de superávit primário seja cumprida, suponha que eu tenha uma grande elevação de receitas, ainda assim eu não posso usar para elevar o gasto além do limite fixado”, explicou o ministro da Fazenda.
Economistas liberais criticam o governo Lula (2003-2010) por ter feito isso. Seu governo experimentou um período de forte expansão da arrecadação, que foi acompanhado por forte aumento de gastos também. O problema é que, depois que os gastos são elevados, torna-se difícil cortá-los quando a arrecadação recua – daí a ideia de criar um mecanismo que evite esse fenômeno.

Como funcionaria o limite de gastos?

A proposta de Barbosa é que a nova legislação torne obrigatório o corte de gastos caso as despesas estejam crescendo acima do previsto no ano.
Na hipótese de isso não ser suficiente para atingir a meta no ano, a nova lei deve prever uma série de mecanismos – divididos em três etapas – para congelar o aumento dos gastos nos anos seguintes, como por exemplo suspender o aumento para servidores e até mesmo do salário mínimo.
Na primeira etapa, seriam suspensos: a concessão de novas desonerações (cortes de impostos para determinados setores); a realização de concursos; os aumentos reais (reajuste acima da inflação) para servidores; e o crescimento real das despesas de custeio.
Se essas medidas não forem suficientes para trazer os gastos para dentro do limite, na segunda etapa seriam suspensos: os aumentos nominais (reposição da inflação) para servidores; o crescimento nominal das despesas de custeio; e a ampliação dos subsídios (por exemplo, para baratear empréstimos a empresários ou a beneficiários do Minha Casa, Minha Vida).
Se nada disso funcionar, seriam acionados mecanismos mais drásticos na terceira etapa: redução dos benefícios para servidores (auxílio moradia, por exemplo); demissão de servidores temporários ou sem estabilidade; e suspensão do aumento real do salário mínimo.

Os cortes serão suficientes para reverter o rombo fiscal em 2016?

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Image captionGoverno precisa economizar para compensar rombo fiscal
O próprio governo sinalizou que não, já que a continuidade da retração da economia vai afetar a arrecadação também neste ano.
A meta inicial do governo é de que todo o setor público (União mais estados e municípios) faça uma economia em 2016 equivalente a 0,5% do PIB, o que representa cerca de R$ 30 bilhões. Essa economia, chamada de superavit primário, serve para pagar juros da dívida pública, evitando seu crescimento descontrolado.
A maior responsabilidade é do governo federal, que teria que economizar R$ 24 bilhões. No entanto, Barbosa também anunciou hoje que o governo pedirá ao Congresso autorização para fechar o ano com um deficit de até R$ 60,2 bilhões (0,97% do PIB).
Se isso se confirmar, será o terceiro ano seguido de déficit nas contas federais. Em 2014, houve rombo de R$ 17,2 bilhões. Já no ano passado, com o pagamento das pedaladas fiscais (repasses em atraso para bancos pagarem benefícios e subsídios públicos), o déficit saltou para cifra recorde de de R$ 114,9 bilhões.

O que mais o governo quer fazer para equilibrar as contas?

Além de cortar despesas, o governo Dilma Rousseff vem aumentando impostos. Sua principal proposta para este ano – bastante impopular – é a volta da CPMF, uma taxa sobre operações financeiras.
Estima-se que uma alíquota de 0,38% poderia trazer aos cofres públicos cerca de R$ 70 bilhões ao longo de um ano, recursos que seriam divididos com Estados e municípios.
Outra proposta, cujo impacto tende a ser de mais longo prazo, é fazer a reforma da Previdência. A iniciativa também é impopular e depende da aprovação dos parlamentares.
O governo ainda está discutindo quais serão as mudanças sugeridas, mas entre as medidas polêmicas em debate está o aumento da idade mínima para aposentadoria.
A Previdência Social fechou 2015 com rombo de R$ 85 bilhões e, com o crescente envelhecimento da população, a tendência é que esse deficit aumente nos próximos anos.
Movimentos sociais e centrais sindicais criticam cortes de gastos e a proposta de reforma da Previdência. Eles defendem que a melhor solução para equilibrar as contas públicas é aumentar impostos sobre os setores mais ricos da população, como por exemplo com a volta da taxação de lucros e dividendos distribuídos a acionistas de empresas.

Colegas preveem dificuldades para Delcídio na volta ao Senado Advogado diz que senador deve voltar às atividades já na segunda-feira. Para senadores de governo e oposição, retorno causará constrangimento.

O senador Jader Barbalho (PMDB-PA) conversa Delcídio do Amaral (PT-MS) durante sessão no Senado, em abril de 2015 (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)
O senador Jader Barbalho (PMDB-PA) conversa Delcídio do Amaral (PT-MS) durante sessão no Senado, em abril de 2015 (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)
O senador Delcídio do Amaral (MS) vai encontrar um cenário complicado na volta às atividades no Senado. Pelo menos é o que projetam colegas de Delcídio ouvidos pelo G1. Os parlamentares preveem que o ex-líder do governo passará por "constrangimento" ao longo dos compromissos legislativos e sofrerá desgaste na defesa do mandato em processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa.
O senador ficou quase 90 dias preso preventivamente por ter tentado, de acordo com a Procuradoria Geral da República (PGR), atrapalhar as investigações da operação Lava Jato. A prisão de Delcídio foi revogada pelo ministro Teori Zavascki, relator dos processos da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).Na sexta-feira (19), instantes antes de Delcídio deixar a prisão no 1º Batalhão de Trânsito da Polícia Militar do Distrito Federal (1º BPTran), Luís Henrique Machado, um dos advogados do senador, afirmou que Delcídio voltaria às atividades no Senado já na próxima segunda-feira (22).
Para o senador Acir Gurgacz (RO), líder do PDT – partido da base aliada ao governo –, o ideal seria Delcídio solicitar licença das atividades parlamentares.
Se fosse ele, pediria licença por alguns meses e depois retornaria"
Acir Gurgacz (PDT-RO),
"Eu acho que não tem um clima bom para o Delcídio retornar ao Senado. Eu, se fosse ele, pediria licença por alguns meses e depois retornaria. Vejo a volta dele com muita dificuldade por tudo que aconteceu, tudo que tem que ser explicado", afirmou Gurgacz. "Vai ser um constrangimento para ele e para os demais senadores", completou o líder do PDT.
Na mesma linha, o senador da oposição Agripino Maia (DEM-RN), disse que Delcídio terá de lidar com uma situação "esquisita" na volta aos trabalhos.
"A situação em que ele voltará ao Senado será diferente da que ele deixou. Ele vai enfrentar um cenário atípico, uma situação esquisita, a que o Senado nunca assistiu", projetou. "Agora, eu quero saber como ele será recebido pelo PT, o partido dele. Qual será atitude do PT com relação ao Delcídio?", questionou Agripino.
No dia da prisão de Delcídio, em novembro de 2015, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgou nota na qual dizia que o partido não se via obrigado a qualquer "gesto de solidariedade" a Delcídio, porque considerou que "nenhuma das tratativas atribuídas ao senador têm qualquer relação com sua atividade partidária".
A nota se refere à gravação feita por Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, em que Delcídio aparece oferecendo dinheiro, apoio junto a ministros do STF e um plano de fuga a Nestor Cerveró para que ele omitisse o nome de Delcídio durante delação premiada.
A postura do PT foi lembrada nesta sexta-feira pelo líder do PMDB no Senado, Eunício de Oliveira (CE). Para Eunício, a nota de Rui Falcão foi determinante para que o plenário do Senado desse aval à prisão de Delcídio decretada pelo STF.
A decisão do Senado de manter Delcídio preso foi graças ao posicionamento do próprio partido dele"
Eunício de Oliveira (PMDB-CE)
"Não foi uma nota de solidariedade, pelo contrário. A decisão do Senado de manter Delcídio preso foi graças ao posicionamento do próprio partido dele", frisou Eunício.
G1 tentou, mas não conseguiu contato com o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PT-PE), até a última atualização desta reportagem. Delcídio do Amaral está suspenso do PT por tempo indeterminado.
O senador Eunício de Oliveira também classificou a volta de Delcídio às atividades no Senado como "uma situação muito difícil" e lembrou que o ex-líder do governo ainda precisa enfrentar um desgastante julgamento no Conselho de Ética da Casa. "Ser solto não o libera do processo no Conselho de Ética".
O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), um dos autores da representação em desfavor de Delcídio no Conselho de Ética, disse que a situação de Delcídio é "incompatível com o decoro parlamentar" e quer que o processo de cassação do ex-líder do governo seja mais célere.
Um senador volta à atividade, mas continua na condição de preso domiciliar"
Randolfe Rodrigues (Rede-AP)
"O Delcídio pode até achar, na consciência dele, que não tem nada de errado, que é inocente, mas as circunstâncias são graves. Um senador volta à atividade, mas continua na condição de preso domiciliar. Não podemos ficar como se nada tivesse acontecido", disse Randolfe.
Os advogados de Delcídio do Amaral já protocolaram uma defesa prévia no Conselho de Ética. Eles alegam que as acusações contra o senador são insuficientes e que a gravação usada como prova foi obtida de maneira ilegal. Além disso, os advogados argumentam que, na conversa gravada, Delcídio não estava atuando como parlamentar e, por isso, a representação no Conselho de Ética não teria sentido.
A defesa pede ainda o impedimento do relator, Ataídes de Oliveira (PSDB-TO), argumentando que, por ser da oposição, Ataídes não tem isenção para ocupar o cargo. Se o colegiado atender ao pedido da defesa, pode haver um atraso no processo, pois será necessário escolher um novo relator por meio de sorteio.

Human Stupidity: Tourist Selfies Kill Baby Dolphin

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

PCC não derrubou homicídios sozinho em SP, dizem pesquisadores Thiago Guimarães - @thiaguima Da BBC Brasil em Londres

Image copyrightAFP
Image captionPolicial em patrulhamento após chacina que deixou oito mortos em São Paulo em abril de 2015; ordem teria partido da facção PCC.
Explicar a queda dos homicídios no Estado de São Paulo apenas pela "hipótese PCC" - controle da violência pelo crime organizado - é simplificar as engrenagens sociais de um fenômeno de causas múltiplas, afirmam pesquisadores.
Por essa perspectiva, fatores como envelhecimento da população, melhoras na política de segurança pública e ações de desarmamento devem ser considerados na equação da violência letal do Estado.
Na semana passada, a BBC Brasil publicou entrevista com o professor canadense Graham Willis, da Universidade de Cambridge (Inglaterra).
O pesquisador acompanhou por três anos a rotina de policiais que apuram homicídios em São Paulo e visitou uma comunidade controlada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) na capital paulista. Concluiu que a facção "regula a morte e a vida" no Estado, e é a principal responsável pela queda de 73% na taxa de homicídios desde 2001.
Nesse cenário de controle social paralelo, afirma ele, a facção que atua dentro e fora dos presídios evita chamar atenção para comunidades sob controle, maximiza lucros com o tráfico de drogas e reforça a eficácia dos chamados "tribunais do crime".
Image copyrightA2 Img Eduardo Saraiva
Image captionEntrega de veículos da PM paulista em dezembro de 2015; pesquisadores questionam hipótese que minimiza papel da polícia na queda dos homicídios em São Paulo.
Ao revisitar, com novos dados, uma hipótese que já circulava no meio acadêmico, o professor de Cambridge movimentou o debate sobre segurança pública em fóruns especializados e nas redes sociais.
A BBC Brasil consultou especialistas envolvidos na discussão e que trazem pontos de vista diferentes sobre um dos eventos de maior interesse no cenário da segurança pública no Brasil: como São Paulo, afinal, conseguiu reverter o crescimento alarmante nos homicídios?

Menos jovens

"A redução ocorreu de maneira gradual, abrangente e em vários municípios. Apenas a regulação da violência (pelo crime organizado) não teria esse impacto homogêneo", diz Rodrigo Vilardi, doutor em direito penal pela USP e oficial da Polícia Militar de São Paulo.
Vilardi diz acreditar que uma parcela da redução dos assassinatos possa, sim, ser atribuída ao PCC, mas discorda da ênfase dada por Willis a esse fator. Afirma que a mudança na estrutura etária da população é uma explicação mais consistente.
Ele cita um estudo, feito por João Manoel Pinho de Mello e Alexandre Schneider, que mostrou como os homicídios caminharam na mesma direção da proporção, no Estado, de jovens de 15 a 24 anos - grupo etário comprovadamente mais propenso a cometer crimes.
Entre 1991 e 2000, quando os homicídios avançaram 63% no Estado, a Grande São Paulo ganhou 216 mil jovens nessa faixa etária - acréscimo de 15,3%, ante 11,6% para a população total. De 2000 a 2005, quando as taxas caem bastante (de mais de 30 para 17,5 por 100 mil habitantes), há 60 mil jovens dessa faixa etária a menos, enquanto a população cresce 6,6%.
Image copyrightReproducao
Image captionEstudos apontam comportamento semelhante na trajetória dos homicídios e da população de 15 a 24 anos, estatisticamente mais propensa a cometer homicídios.
pesquisa em questão apontou ainda, considerando variações entre cidades, para uma forte relação causal entre demografia e homicídios: aumento de 1% na proporção de jovens de 15 a 24 anos motivaria acréscimo de 3,2% nos assassinatos.
Outra pesquisa de Pinho de Mello analisou o movimento entre população jovem e homicídios de 1992 a 2006 e encontrou padrões semelhantes na comparação entre oito Estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia, Ceará e Goiás).

Melhor polícia

Para Vilardi, que estudou no doutorado as experiências de São Paulo e Nova York em prevenção criminal, melhoras na política de segurança pública também contribuíram de forma positiva na dinâmica dos homicídios. Em geral, três aspectos são citados:
  • implementação, em 1999, do Infocrim, sistema de microrrastreamento geográfico de crimes (sistema passa a ser usado fora da região metropolitana após 2005), e de base de dados fotográfica de criminosos (Fotocrim), em 2002;
  • esforço de desarmamento antes e depois da Lei do Desarmamento, de 2003; em 1991, 60% dos homicídios na cidade de São Paulo foram classificados como praticados com "arma não especificada", e percentual cai para 29% em 2000;
  • acompanhamento técnico e cobrança de resultados sobre queda de mortes violentas.
Sobre esse último ponto, o capitão da PM diz que, desde 2000, com a ajuda de dados do Infocrim, o Estado passou a exigir resultados das corporações policiais de forma mais sistemática.
Image copyrightALSP
Image captionEfetivo da PM paulista fica em torno de 90 mil policiais, ou 1 PM por 491 habitantes, índice pouco acima da média nacional em 2015 (1 por 471)
"As estatísticas deixaram de servir apenas para publicação e ficaram disponíveis aos policiais. Ao mesmo tempo, a Secretaria de Segurança passou a cobrar oficiais da PM, delegados e chefes sobre os indicadores em suas áreas", afirma.
Outras análises mencionam intervenções como a criação, em 2000, do Disque-Denúncia, linha telefônica anônima para denunciar crimes, a adoção de Lei Seca em bares da Grande São Paulo (2001-2004) e a Operação Saturação, centralizada e permanente em áreas de tráfico de drogas (2006).
Uma ressalva recorrente, no entanto, citada por João Manoel Pinho de Mello e Alexandre Schneider, é que a maioria das ações ocorreu depois que a tendência de alta dos homicídios já havia se revertido, em 1999. Por isso, dizem, as medidas de governo não poderiam explicar, isoladamente ou em conjunto, a dinâmica da violência letal em São Paulo.

Dinâmicas diferentes

Pesquisa inédita do NEV (Núcleo de Estudos da Violência) da USP confirmou a tendência do crime organizado como "mediador" da violência em São Paulo, mas sugere que esse não seja o principal fator a explicar a queda nos assassinatos.
O estudo na cidade de São Paulo confrontou dados de homicídios georreferenciados e um indicador da maior ou menor chance de presença de organizações criminosas em determinada região (construído com informações como pessoas presas por tráfico, pessoas procuradas e identificação de centrais telefônicas clandestinas).
"A ideia do PCC como regulador (da violência letal) parece se confirmar pelos dados, porque nos lugares onde há indícios de organizações criminosas a tendência é de certa homogeneidade das taxas no tempo. São taxas recorrentemente baixas, mas há também, em menor número, lugares com taxas frequentemente altas", diz Marcelo Batista Nery, pesquisador do NEV-USP.
Image copyrightPrefeitura de Sao Paulo
Image captionRegião do Campo Limpo, em São Paulo, que tradicionalmente apresenta altos índices de homicídio; para pesquisador, o que explica a violência letal em determinado ponto "não é necessariamente o mesmo em outro lugar".
Batista Nery diz, portanto, que há indícios que a baixa nos homicídios seja obra do PCC, mas não em toda a capital paulista (que responde por 25% dos homicídios do Estado), porque não há crime organizado em toda a cidade.
É preciso ainda, afirma o pesquisador, considerar diferentes momentos da trajetória da redução da violência. No primeiro momento da queda, de 1999 a 2003, não havia, afirma ele, indícios da presença forte do crime organizado no cotidiano das comunidades. Os indicativos eram de uma redução do ciclo de vingança entre gangues, com a polícia prendendo e matando mais.
"Se efetivamente o número de encarcerados e a violência policial fortaleceram as organizações criminosas, entre elas o PCC, e foram condicionantes importantes na redução dos homicídios, isso também foi responsável pelo fortalecimento das organizações criminosas, que teve impacto (na queda dos assassinatos) em um segundo momento (depois de 2003)", afirma.

Missão impossível?

Batista Nery diz desconfiar de estudos que propõem uma explicação única a um fenômeno peculiar como a violência homicida. "Sou crítico a generalizações, seja em estudos etnográficos (pesquisas em campo) ou quantitativos. O Estado de São Paulo, por exemplo, é tão diverso, e se você olhar cada município a análise leva a conclusões diferentes."
Ele diz, contudo, que o trabalho dos pesquisadores seria mais fácil se a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disponibilizasse mais dados sobre os crimes, e não apenas a ocorrência, data e natureza do delito, como ocorre hoje.
"Para qualquer estudo criminológico seria fundamental ter acesso a características das vítimas, autores, ação policial, análise de casos solucionados. Permitiria possibilidades de análise bem maiores", afirma.
O governo de São Paulo diz que há proteção legal a dados pessoais de vítimas e testemunhas em boletins de ocorrência.
O tema motivou debate nesta semana após o governo de Geraldo Alckmin (PSDB-SP) decretar sigilo de 50 anos sobre dados de boletins de ocorrência.
Image copyrightSSP SP
Image caption“A determinação do governador Geraldo Alckmin foi para ampliação das informações, para que somente, na forma excepcional, constasse aquilo que deve ter prazo para ser informado”, disse o secretário de Segurança de SP, Alexandre de Moraes.
A SSP disse que, na verdade, a resolução reduziu as hipóteses de sigilo em 70%, e apenas uniformizou a política estadual de transparência de dados.
"A intenção da resolução foi ampliar a transparência de todos os dados, para que seja divulgado o que a lei autoriza. O que nós não podemos fazer é divulgar dados que a lei não autoriza, colocando às vezes em risco testemunhas e vítimas", disse o secretário da Segurança, Alexandre de Moraes.
Para o pesquisador do NEV-USP, talvez nunca haja uma explicação final sobre o fenômeno da queda dos homicídios em São Paulo.
"O pior é que talvez nunca consigamos ter esse resultado. Isso porque o Infocrim, a fonte de dados georreferenciados, começou a funcionar em 2000, no momento em que os dados já apresentavam queda. Efetivamente não temos informações para comparação com o momento em que as taxas estavam subindo."

Papa admite a possibilidade de uso de contraceptivos contra o zika Francisco condena o aborto, mas fala da contracepção como “um mal menor”

A bordo do avião do Papa 
Durante seu voo de regresso a Roma depois de seis dias de intensa viagem pelo México, o papa Francisco se abriu à possibilidade de que a Igreja católica admita o uso de contraceptivos para evitar o contágio do zika vírus nas regiões afetadas, mas se negou de forma taxativa a permitir o aborto como “mal menor”, mesmo nos casos de grave malformação congênita. Jorge Mario Bergogliorecordou que, nos anos sessenta, Paulo VI permitiu às freiras do antigo Congo belga “usar contraceptivos para casos de estupro”.
Mas daí a deixar de condenar a prática do aborto vai um abismo insuperável, advertiu Francisco durante uma coletiva de imprensa de uma hora. “O aborto não é um mal menor”, disse, “é um crime, um mal absoluto, é descartar um para salvar o outro, como faz a máfia”. A posição do Papa, embora previsível em relação ao aborto, abre uma porta para a tolerância do uso de contraceptivos. “Não confundir o mal de evitar a gravidez, por si só, com o aborto. O aborto não é um problema teológico: é um problema humano, é um problema médico, vai contra o juramento hipocrático que os médicos têm de fazer. Por sua vez, evitar a gravidez não é um mal absoluto”, disse, em referência à situação criada pela expansão do zika vírus.
“Falamos em termos de conflito entre o quinto mandamento [não matar] e o sexto [não cometer adultério]. Paulo VI, o grande, em uma situação difícil na África permitiu às freiras usarem contraceptivos para casos em que foram violentadas. Também eu exortaria os médicos a que façam de tudo para encontrar vacinas contra esses mosquitos [o Aedes aegypti, que transmite o zika]”, acrescentou.
Diante da polêmica suscitada depois da publicação esta semana de informações que apontam a uma suposta relação íntima de João Paulo II com uma mulher, Bergoglio minimizou a importância do assunto. “Era uma coisa que se sabia”, disse, “há até livros sobre isso. João Paulo era um homem inquieto. E eu direi, além disso, que um homem que não sabe ter uma boa relação de amizade com uma mulher — e não falo dos misóginos, que são doentes — é um homem ao qual falta alguma coisa. Eu gosto sempre de escutar o parecer de uma mulher. E te dão tanta riqueza. Olham as coisas de outro modo. Uma amizade com uma mulher não é pecado. Uma relação amorosa com uma mulher que não seja a sua mulher é pecado. Entendido?”.
“Esse homem não é cristão”, diz Francisco sobre Donald Trump
Bergoglio, que durante seu primeiro dia no México ajustou as contas com uma hierarquia eclesiástica sobre a qual ainda pesa a sombra do fundador dos Legionários de Cristo, foi interpelado sobre a prática — até agora habitual na Igreja — de transferir os padres pedófilos para ocultá-los da ação da justiça. “Um bispo que muda um sacerdote de paróquia quando se detecta uma pedofilia”, disse o Papa, “é um inconsciente, e o melhor que pode fazer é apresentar a renúncia. Claríssimo?” Em seguida acrescentou que o Vaticano continua trabalhando, sob sua direta supervisão, para acelerar os mecanismos de prevenção e condenação. Bergoglio prestou homenagem a Bento XVI por iniciar a investigação contra Marcial Maciel e determinar tolerância zero com a pedofilia: “Eu dou graças a Deus por ter sido destampada essa panela [a dos abusos a menores por parte de religiosos] e é preciso continuar destampando-a. E tomar consciência. É uma monstruosidade, porque um sacerdote está consagrado para levar uma criança a Deus e aí se aproveita dela como em um sacrifício diabólico, a destrói”.
Durante sua estadia no México, o Papa se referiu em múltiplas ocasiões ao drama dos mortos e desaparecidos por culpa do narcotráfico e do crime organizado. Ainda assim, houve certa polêmica pela decisão de Bergoglio de não se reunir com os parentes dos “43 de Ayotzinapa”. Francisco justificou a decisão dizendo que houve alguma tentativa de sua parte, mas foi descartada depois de se constatar a quantidade de grupos, “inclusive que se enfrentavam entre si”, e do fato de ser “praticamente impossível receber a todos”. Bergoglio acrescentou: “A sociedade mexicana é vítima dos bandos do narcotráfico e dos traficantes de pessoas. É uma dor muito grande que esse povo não merece”.
Durante sua estada no México, o Papa estimulou os jovens a ter sonhos. Um jornalista perguntou a Bergoglio qual era seu sonho. Não demorou nem um segundo para responder: “Meu sonho é viajar para a China”. Questionado sobre o pré-candidato republicano Donald Trump, aspirante à Casa Branca, o Papa foi duro: "Uma pessoa que pensa apenas em construir muros, onde quer que seja, e não em construir pontes, não é um cristão".