domingo, 15 de fevereiro de 2015

Por que um casaco da Zara custa 10.000 reais na Venezuela?


Por que um casaco da Zara custa 10.000 reais na Venezuela?

Existem três taxas de câmbio na Venezuela. Por lá, o dólar vale de 6,3 até 50 bolívares

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Vendedor conta notas de bolívar. / JUAN BARRETO (AFP)
Um casaco da Zara que custa 89,95 euros (cerca de 292 reais) na Espanha pula para 3.091 euros (10.034 reais) na Venezuela, que em moeda local correspondem a 21.999 bolívares, conforme indica a companhia em seu site. Seguindo esse exemplo, uma camisa que na Espanha custa 25,95 euros, na Venezuela atinge 841 euros (5.999 bolívares) enquanto que uma jaqueta de couro de 129 euros é vendida por 4.489 euros (31.999 bolívares).
Em princípio, estes seriam os preços que um cliente deveria pagar no país latino-americano por algum dos artigos da marca, no caso de que se respeite o câmbio oficial. De acordo com o que foi estabelecido pelo Executivo de Nicolás Maduro, um dólar norte-americano equivale a 6,3 bolívares, enquanto que um euro é trocado por 7,1 bolívares. Não obstante, na Venezuela não existe uma única taxa de câmbio; além da anterior, há mais duas e, para este caso, a mais usual seria a de 50 bolívares por um dólar.
Assim, o casaco de 21.999 bolívares valeria 439,8 dólares (388,78 euros), a jaqueta de couro sairia por 639,98 dólares (565,5 euros) e pela camisa a importância a desembolsar seria de 119,98 dólares (105 euros). Com esta taxa de câmbio, os artigos na Venezuela custam 300% mais que na Espanha, por exemplo.
Precisamente na terça-feira, o Banco Central anunciou mudanças no sistema de compra e venda de divisas, criando um terceiro mercado aberto, cujas previsões apontam para uma forte desvalorização da moeda, que atualmente ronda os 300 bolívares por dólar no mercado negro.
A inflação (que até novembro de 2014 subiu 60%), a escassez de divisas e a dependência das importações são as três grandes chagas da economia venezuelana, castigada pela queda dos preços do petróleo.
Um dos grandes paradoxos da Venezuela é o preço da gasolina. Enquanto a economia se debilita por causa da inflação elevada, abastecer nos postos de gasolina custa apenas um centavo de euro por litro — 0,10 bolívares venezuelanos — porque o preço do petróleo está congelado há vinte 20 anos. Nos próximos meses o preço poderá ser atualizado, como anunciou Nicolás Maduro em janeiro.
Como se não bastasse, na terça-feira a agência de qualificação Standard & Poor's reduziu o rating da Venezuela de CCC+ a CCC com perspectiva negativa. A razão alegada pela agência é a previsão negativa sobre os preços do petróleo, assim como o agravamento da recessão. Para 2015, a S&P prevê uma queda do PIB de 7% e uma subida da inflação até 115%. Essa qualificação evidencia “o elevado risco de default do Governo venezuelano”, afirma a agência.
Segundo a S&P, o fracasso na introdução de medidas corretivas substanciais para estabilizar a economia, aliviar a escassez, impulsionar a atividade econômica e sanear as contas públicas poderia erodir ainda mais a capacidade do Governo de ter acesso à liquidez.

Merenda escolar não pode ser o bode expiatório da crise

COLUNA

Merenda escolar não pode ser o bode expiatório da crise

Seria um sacrilégio social se a comida nas escolas dos filhos das famílias pobres fosse vítima do ajuste fiscal

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Há coisas que podem ser discutidas; outras, não, porque roçam o terreno do sagrado. Por exemplo, a merenda tradicional que no Brasil é oferecida aos alunos do ensino fundamental nas escolas públicas, que, pelo que parece, começa a ser discutida em algumas prefeituras sob a desculpa de que as crianças pobres estão engordando demais.
Desde que cheguei a este país, há 16 anos, só escutei elogios a esse costume de oferecer às crianças do ensino fundamental nas escolas públicas uma alimentação que as livra de uma possível desnutrição.
Nas famílias em situação de extrema pobreza, essa foi durante muitos anos, e continua sendo nas regiões mais distantes, a única refeição completa do dia para essas crianças. Dessa maneira se conseguiu que no Brasil não houvesse, como em alguns países africanos, crianças com desnutrição grave.
Sempre se criticou neste país a baixa qualidade do ensino primário, mas também se elogiava essa prática alimentar que em muitas escolas chegou a ser aperfeiçoada com a contratação de nutricionistas, com a finalidade de oferecer uma merenda equilibrada.
Agora, segundo publicou o jornal O Globo, em 80 escolas da cidade de São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo, a merenda infantil começou a ser cortada por duas razões; porque havia “desperdício de comida” e para “prevenir a obesidade das crianças”.
A prefeitura que começou a tomar essas medidas não apresentou nenhum estudo convincente do tal perigo de obesidade que supostamente está à espreita das crianças, afirmam as mães.
As famílias estão em pé de guerra, e com toda a razão. Por que essa provocação, e neste momento? O Brasil entrou no caminho do corte de gastos públicos exigido pelo Governo para ajustar contas que extrapolaram os limites, precisamente, por excesso de gastos do poder público.
Era previsível que as famílias dessas crianças vissem logo segundas intenções nas desculpas para cortar a comida nas escolas.
Serão as crianças das famílias que não podem colocar os filhos nas escolas privadas – como fazem 99% dos políticos – as que vão começar a sentir a picada da crise?
Aguardam sentença nos tribunais, segundo me dizem, milhares de processos contra prefeitos e funcionários públicos acusados de “roubar”, no modo de dizer dos pobres, o dinheiro dessa merenda. Seria o caso de perguntar se entre tantos crimes cometidos pelo poder público pode existir algum mais grave, e que deveria ser castigado com dureza, do que o de manchar as mãos e a consciência com esse dinheiro sagrado que evita muitas vezes que tantas crianças tenham de viver e estudar com fome.
É duro quando falta comida entre adultos, mas nada como essa pontada da fome em uma criança, um pecado que não deveria ter perdão.
Se for verdade que existem escolas que desperdiçam comida, então, que sejam tomadas medidas contra os culpados; se em algum caso a comida oferecida às crianças for inadequada e puder produzir excesso de peso, que sejam feitos exames e se defina uma solução.
O que não se pode fazer é querer começar a efetuar cortes, solapando-as com base em desculpas que nem o mais analfabeto aceitaria como verdadeiras.
Se a já maltratada educação primária brasileira, que, apesar de ter obtido inegáveis avanços nos últimos 20 anos, ainda deixa muito a desejar nos rankings nacionais e internacionais, tivesse agora o acréscimo do crime de cortar o prato de comida das crianças na escola, estaria dando um perigoso e vergonhoso passo atrás.
O melhor é que, sem perda de tempo, sejam adotadas medidas para que não se enfraqueça esse maravilhoso costume brasileiro de que nenhuma criança assista às aulas com fome. Melhor deter essa tentação antes que possa contagiar outras escolas.
Nada mais triste para uma mãe que nem sempre consegue colocar em sua mesa tudo o que desejaria para seus filhos do que a suspeita de que em um momento de crise a intenção seja a de começar a adotar medidas de austeridade pelos mais pobres e frágeis.
Enquanto isso, essas mães ou esses pais veem impotentes o desfile a cada noite, nos noticiários da TV, da cada vez mais robusta lista de corruptos e corruptores embolsando centenas de milhões roubados. “Não consigo nem saber o que significam todos esses números juntos. É que eu me perco”, dizia há pouco tempo um pedreiro.
O que os menos afortunados não podem perder é a esperança de que seus filhos possam ter um futuro melhor do que o seu.

O meteoro Eduardo Cunha


COLUNA

O meteoro Eduardo Cunha

Bastaram duas semanas de atuação para que o novo presidente da Câmara dos Deputados exibisse o seu arsenal de atributos como caudilho, oligarca e cacique

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Bastaram duas semanas de atuação para que o novo presidente da Câmara dos Deputados exibisse o seu arsenal de atributos como caudilho, oligarca e cacique. Junto, mostrou como funciona uma blitzkrieg política em ambientes dominados pela inércia. Exemplo perfeito das virtudes do voluntarismo onde campeia a apatia. A supremacia da onipotência sobre a impotência, do mandonismo escancarado sobre desmandos sussurrados.
Führer típico, determinado, ídolo dos medíocres, aliado predileto dos pusilânimes. No mostruário de lideranças fornecido pela Revolução Francesa, situa-se entre Georges Danton, o demagogo audacioso e Joseph Fouché, o conspirador-manipulador, eterno sobrevivente, sacerdote capaz de fingir-se ateu para ganhar mais poder. Comparado com antigos parceiros como Collor e Garotinho, é um profissional padrão “Intocável”, tal como Daniel Dantas e outros ex-associados.
Eduardo Cunha é, neste exato momento, o político mais poderoso do país. Muito mais eficaz do que o partido que elegeu e reelegeu os dois últimos presidentes, mais safo e esperto do que o presidente honorário da sua agremiação e vice-presidente da República -- com uma só cartada converteu Michel Temer em volume-morto e a presidente reeleita, a durona Dilma Rousseff, em figura decorativa.
Quando operava na esfera estadual metia-se em constantes trapalhadas, chegou a sofrer um atentado e foi acusado de fazer negócios com famoso narcotraficante. Carioca que joga pesado, não brinca em serviço, foi quem descobriu um erro na documentação eleitoral do animador Sílvio Santos e assim tirou-o da corrida presidencial.
Ao ingressar na esfera federal (2003), percebeu o alcance dos novos holofotes, mudou o estilo, guardou a metralhadora, passou a servir-se de fuzis de precisão -- não errou um tiro. Em apenas 12 anos, foi alçado ao Olimpo. O ex-presidente Lula não ousa desafiá-lo: recomendou publicamente à sucessora uma reconciliação.
Forte candidato a converter-se no primeiro déspota parlamentar, símbolo das deformadas democracias representativas do século XXI que fundiram o corporativismo de Mussolini com um bolchevismo de direita, messiânico. Preside a Casa do Povo, mas não consegue esconder a forte vocação autoritária e o gosto pelo exercício do poder absoluto. Já passou por três partidos -- PRN, PPB-PP e PMDB, este o mais “progressista”. Na verdade é um espécime legítimo da era pós-ideológica, conservador, populista que poderá até proclamar-se parlamentarista para mais rapidamente tomar o poder.
Sua adesão ao ideário evangélico e a obsessão em implementa-lo a qualquer preço, faz dele um exemplar calvinista. Como operador, porém, prefere a lógica do capitalismo.
A promessa de impedir qualquer tentativa de regulação da mídia (como deseja parte do PT), nada tem de devoção à liberdade de imprensa. Qualquer projeto que corrija distorções no sistema midiático, por mais leve que seja, passaria obrigatoriamente pela anulação de concessões de rádio e TV a parlamentares e pela proibição de cultos religiosos nas emissoras de TV aberta – largamente utilizados por confissões religiosas, especialmente evangélicas. Na última semana criou um comissariado para unificar a orientação dos diversos veículos da Câmara (jornal diário, rádio, portal e TV).
Além das obsessões e preparo físico, ostenta um desembaraço verbal de radialista, suficiente para não cometer gafes grosseiras. Engravatado, certinho, sem barba nem bigode, óculos leves, passa a imagem de confiável, protetor, bom vizinho, bom burguês, capaz de sonhar com rupturas, mas não com o caos. Numa coleção de dez fotos tomadas já na presidência da Câmara, cinco delas mostravam-no com a mão na boca, truque que até jogar de futebol apreendeu para não ser surpreendido por experts em linguagem labial.
Meteoro fascinante para acompanhar, preocupante como dono do poder.

Venezuela reconhece que é o país com a maior inflação do mundo

Venezuela reconhece que é o país com a maior inflação do mundo

Na véspera do Carnaval, Governo de Nicolás Maduro revela que a inflação de dezembro foi de 5,3% e fechou 2014 em 68,5%, bem acima das cifras do Irã (20%) e Bielorússia (16,9%)

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Maduro anunciou na quinta-feira que abortou um suposto golpe de Estado. / EFE
O Banco Central da Venezuela informou nesta sexta-feira, com quase um mês de atraso, que a inflação de dezembro ficou em 5,3%. Com isso, o país encerrou o ano de 2014 com um índice de 68,5%, o mais elevado do mundo, bem acima da inflação registrada no Irã (20%) e na Bielorússia (16,9%), dois aliados da autodenominada revolução bolivariana da Venezuela. Além do problema inflacionário, a economia venezuelana enfrenta também uma recessão desde meados do ano passado.
Os venezuelanos estão habituados a receberem más notícias na sexta-feira que antecede ao Carnaval. Foi assim há 32 anos, quando o bolívar foi desvalorizado pela primeira vez, pondo fim à ilusão de uma economia sólida proporcionada pela bonança petroleira da década de 1970. A desilusão repetiu-se em 2013, quando o Governo anunciou outra desvalorização da moeda local, dessa vez de 32%, fazendo com que o preço do dólar para venda saltasse de 4,30 bolívares para 6,30 – cotação que se mantém até hoje.
Nesta semana, o vice-presidente para a Área Econômica, general Rodolfo Marco Torres, anunciou uma ligeira exceção no rígido controle cambial vigente desde 2002, permitindo um sistema de livre compra e venda de divisas regido pelo mercado. Mas a sexta-feira pré-carnavalesca terminou para os venezuelanos com a certeza de que seu dinheiro vale cada vez menos. Nesse novo mercado cambial, chamado Sistema Marginal de Divisas (Simadi), a moeda americana foi cotada a 174,46 bolívares. Assim, a Venezuela, além de ter múltiplas taxas de câmbio, se tornou o país do mundo com maior disparidade entre elas, registrando uma desvalorização camuflada de aproximadamente 96% na cotação da sua moeda. O economista Jesús Casique calcula que em 16 anos de chavismo o dólar se valorizou 30.137% com relação ao bolívar.
Há uma teoria que explica por que o Governo espera até a véspera do Carnaval para anunciar as medidas mais incômodas. Os venezuelanos, viciados em peregrinar às praias do Caribe nesse fim de semana prolongado, esquecem o impacto das decisões econômicas durante o feriadão. A oposição tenta manter esses anúncios vivos não só para trocá-los por apoio político, mas também como forma de explicar a dramática situação das finanças venezuelanas e a perda do poder aquisitivo. O Governo está consciente disso e toma medidas para tentar proteger o salário: uma delas é a supervisão exaustiva do todo o comércio local para que cumpra a Lei de Preços Justos, que estabelece um limite de 30% para a margem de lucro dos lojistas e penas de até 12 anos de prisão para os infratores.
A inflação descontrolada e a escassez generalizada de produtos são parte do que o Governo chama de “guerra econômica”. Maduro, que na quinta-feira à noite acusou oficiais da Força Aérea de estarem conspirando para derrubá-lo, prometeu outras medidas para reduzir a lacuna fiscal, o que se refletirá no índice de inflação – que em 2014 superou em 12,3 pontos percentuais o índice de 2013. Na sexta-feira, o ministro Torre declarou à rede de TV Telesur que “muito em breve” haverá anúncios sobre o preço da gasolina, que na Venezuela é praticamente grátis.
Há várias semanas o Governo promove uma campanha institucional para preparar o aumento do combustível, cujo preço atual representa um paradoxo em relação ao modelo controlado que o chavismo tenta impor desde 2007: não se pode vender um bem abaixo do seu custo de produção. “A população entende. Não pode ser que uma bala custe mais que um litro de gasolina. Há muitos exemplos: uma garrafinha de água pequena custa 100 ou 200 vezes mais [que um litro de gasolina]. Bom, vamos pagar o preço justo!”, disse o ministro.

O artista cuja cabeça a Al Qaeda colocou a prêmio

O artista cuja cabeça a Al Qaeda colocou a prêmio

Fanáticos islâmicos oferecem 74.000 euros para quem matar o sueco Lars Vilks, o valor sobe se for degolado

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Lars Vilks em uma imagem de 2012. / BJORN LINDGREN (EFE)
Sua cabeça tem um preço: 74.000 euros (240.000 reais). Uma quantia que pode subir para 110.000 euros se ele for sacrificado “como um cordeiro”, o que, em termos religiosos, quer dizer ser degolado. Lars Vilks (Helsingborg, Suécia, 1946) está na mira dos fanáticos islâmicos desde 2007, quando expôs em uma galeria de arte da cidade sueca de Tällerud um punhado de caricaturas do profeta Maomé retratado como um cão.
A exposição, recusada por vários museus por motivos de segurança, durou poucos dias, mas o pavio da polêmica se acendeu em toda a Europa quando alguns jornais suecos decidiram publicar as caricaturas. Foi então que choveram as ameaças e o terrorista Abu Omar al Baghdadi, vinculado à Al Qaeda, ofereceu uma recompensa pela morte do cartunista e do diretor do jornal Örebro, o primeiro a divulgar os desenhos.
Desde então, esse escultor, mais conhecido como um teórico da arte que busca pôr à prova os limites do politicamente correto, sabe que está na lista dos mais procurados pelos radicais islâmicos. Passou anos sem pisar em sua casa, mudando de lugar de um dia para outro, sob vigilância policial. Em março de 2010, sete fanáticos – quatro homens e três mulheres – foram detidos por planejar seu assassinato na Irlanda.
Em maio daquele ano, Vilks foi agredido em uma conferência na Universidade de Uppsala, em Estocolmo, enquanto em dezembro seu nome aparecia em um correio eletrônico que reivindicava o primeiro atentado jihadista em solo sueco. Os terroristas, que explodiram duas bombas no centro de Estocolmo, afirmaram que a causa do ataque era a presença das tropas suecas no Iraque e a existência do artista. Vilks sempre disse que o humor é parte de sua forma de ver a vida. Quando soube da recompensa de 74.000 euros por sua morte, comentou que o valor lhe parecia baixo em vista das cifras que movimentava no mundo da arte. Pouco depois, quando viu que os radicais estavam dispostos a tudo para matá-lo, confessou que essa forma de barbárie era muito preocupante, mas se agarrou a uma pergunta para a qual muitos ainda buscam resposta, incluindo ele: por que não se pode criticar o islã, enquanto se podem criticar outras religiões?”.