sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Paulo Roberto Costa diz que recebeu US$ 31,5 mi da Odebrecht no exterior

12/02/2015 23h35 - Atualizado em 12/02/2015 23h54

Paulo Roberto Costa diz que recebeu US$ 31,5 mi da Odebrecht no exterior

Ex-diretor da Petrobras relatou que o dinheiro era depositado na Suíça. 
Construtora Odebrecht nega ter pago propina e diz ser alvo de 'calúnia'. 

Do G1, em Brasília
Paulo Roberto Costa CPI (Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)Paulo Roberto Costa deu detalhes sobre a propina
que teria recebido da Odebrecht em contas da Suíça
(Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)
O ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou, em acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, que recebeu US$ 31,5 milhões em propina da Odebrecht, uma das construtoras investigadas na Operação Lava Jato. Em nota, a empresa negou as acusações e disse ser alvo de “calúnia”.
As declarações de Costa foram dadas à Polícia Federal no dia 4 de setembro de 2014 e anexadas aos processos da Lava Jato nesta quinta-feira (12). Segundo o ex-diretor daPetrobras, o dinheiro pago pela construtora era depositado em contas na Suíça pelo operador Bernardo Freiburghaus, dono da Diagonal Investimentos.
Conforme Costa, os US$ 31,5 milhões foram depositados entre os anos de 2012 e 2013 em quatro momentos diferentes. Ele disse ainda que o dinheiro foi enviado pela construtora para quatro contas correntes distintas em nome de empresas criadas por ele.
Um dos delatores da Lava Jato, Paulo Roberto Costa detalhou aos policiais federais que o pagamento da propina por parte da empreiteira foi sugerida, “entre 2008 e 2009”, por Rogério Araújo, então diretor de Engenharia da Odebrecht. Na conversa, Araújo teria dito que o ex-dirigente da Petrobras era “muito tolo” por “ajudar mais aos outros que a si mesmo”, referindo-se à fatia do suborno que Costa repassava ao PP.
“Em relação aos políticos que você [Paulo Roberto Costa] ajuda, a hora que você precisar de algum deles eles vão te virar as costas”, teria dito o diretor da construtora, conforme relato de Costa à PF.
O ex-dirigente da petroleira, que está preso em regime domiciliar no Rio de Janeiro, disse que, então, o diretor da Odebrecht o apresentou a Bernardo Freiburghaus, que seria responsável por efetuar o pagamento da propina no país europeu.
No depoimento, Paulo Roberto Costa afirmou que se reunia a cada dois meses com Freiburghaus e que os depósitos nas contas bancárias da Suíça ocorriam a cada “dois ou três meses”.
Por meio de comunicado, a Odebrecht negou ter feito "qualquer pagamento ou depósito em suposta conta de qualquer político, executivo ou ex-executivo da estatal”.
Costa destacou que o dinheiro que recebeu da Odebrecht como propina teve origem em contratos firmados entre a Petrobras e a construtora, entre os quais o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e a Refinaria Abreu e Lima.
Vaccarezza
No mesmo depoimento prestado à PF em setembro, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras também relatou detalhes de uma reunião realizada na casa do empresário e lobista carioca Jorge Luz. Segundo Paulo Roberto Costa, neste encontro, Luz lhe contou que o ex-deputado federal Cândido Vacarezza (PT-SP) iria receber R$ 400 mil por conta de um contrato para fornecimento de asfalto para a Petrobras firmado com a empresa Sargeant Marine.

O ex-diretor da petroleira disse que ele próprio recebeu US$ 192,8 mil de propina pelo contrato com a Sargeant Marine, que foi realizado sem licitação.
À TV Globo, Vacarezza negou que tenha recebido propina e disse que o próprio depoimento de Paulo Roberto Costa é um "atestado" de sua inocência.

“Ele [Paulo Roberto Costa] confessa que recebeu propina e diz que teria ouvido de terceiros, no caso do senhor Jorge Luz, que eu iria receber dinheiro. Ele não diz que algum diretor da Sargeant Marine disse que eu recebi. Ele afirma que não sabe se eu recebi, ele afirma que ouviu de terceiro. Então, quero dizer o seguinte: não conheço ninguém da Sargeant Marine e nunca recebi dinheiro do senhor Paulo Roberto Costa", ressaltou o ex-parlamentar do PT.
Contrato suspeito
Em 15 de setembro do ano passado, Paulo Roberto Costa detalhou à Polícia Federal supostas irregularidades cometidas pela Odebrecht em contratos com a Petrobras. No depoimento, ele declarou que, no final de 2010, foi informado de um contrato negociado com a construtora na área de segurança, meio ambiente e saúde que somou US$ 800 milhões.
O negócio teria sido proposto pela Diretoria Executiva da Petrobras e compreendia o controle de emissão de poluentes, saúde dos trabalhadores e segurança nas instalações da estatal. Paulo Roberto Costa disse que, “posteriormente”, ficou sabendo pela imprensa que Graça Foster, à época em que ela presidia a estatal, determinou a criação de uma comissão interna que reviu o contrato e reduziu o valor para a metade, cerca de US$ 400 milhões.
O ex-diretor da petroleira afirmou ter achado “estranha” a redução, já que a própria Graça Foster aprovou o contrato, em 2010, quando comandava a diretoria de Gás e Energia. Costa disse aos policiais federais que, na opinião dele, possa ter havido alguma "irregularidade" no contrato, considerando-se que envolvia uma empreiteira que fazia parte do cartel de empresas que dividia entre si as obras da Petrobras.
Ao jornal O Globo, a Odebrecht afirmou que a redução do valor do contrato de US$ 800 milhões para US$ 400 milhões ocorreu em consequência da "diminuição do escopo do contrato".
VALE ESTE - Arte Lava Jato 7ª fase (Foto: Infográfico elaborado em 15 de novembro de 2014)

Tsipras: "Acabou a 'troika, acabou o memorando de entendimento"

Tsipras: "Acabou a 'troika, acabou o memorando de entendimento"

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, anunciou quinta-feira à noite o fim do programa de resgate no país, vincando que "acabou a 'troika', acabou o memorando de entendimento"

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"Estaremos em contacto com os nossos parceiros institucionais - Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu - para encontrar soluções comuns aceitáveis", salientou Tsipras, na conferência de imprensa no final do Conselho Europeu, em Bruxelas, afirmando e reafirmando que não será repetido o memorando de entendimento com a 'troika'.
O líder grego apresentou aos seus homólogos europeus as propostas que tem para o pós programa de resgate, que termina no final do mês, garantindo que vai cumprir as regras europeias, ainda que não concorde com elas.
"Discordamos das regras que provocam austeridade, mas somos obrigados a respeitar as regras europeias", sublinhou, lembrando que, por outro lado, "deve haver respeito pela democracia" e o mandato que os eleitores lhe deram.
O chefe de Governo grego sublinhou que "as reformas aplicadas no programa de resgate não funcionaram", considerando também que "a Grécia precisa de alguma folga orçamental".
Tsipras afirmou que, havendo acordo com os seus parceiros, a Grécia "precisa de um novo contrato social que leve o país de novo para o caminho do crescimento".
Este novo programa é o centro das negociações na próxima reunião com os ministros das Finanças da zona euro (Eurogrupo), na segunda-feira.
Assumindo a facilidade de resolver as questões técnicas, o chefe do Governo grego reconheceu que as negociações eram mais complicadas a nível político.
"Deixamos a cimeira sem termos resolvido todos as diferenças. Mas fizemos algum progresso", considerou. 


Ler mais: http://visao.sapo.pt/tsipras-acabou-a-troika-acabou-o-memorando-de-entendimento=f810132#ixzz3RcMs6RiG

O milionário desconhecido que vai ser dono da PT

O milionário desconhecido que vai ser dono da PT

A incrível história de Armando Pereira, que saiu de Portugal com dois contos de réis e acabou na lista das maiores fortunas de França. Armando Pereira, co-fundador da Altice, é ainda um rosto de contornos pouco definidos

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O milionário desconhecido que vai ser dono da PT
Naquela quinta-feira, 22 de janeiro, o Forum Picoas, em Lisboa, reunia os acionistas da PT SGPS para uma assembleia geral decisiva: a aprovação da venda da PT Portugal aos franceses da Altice. Foi uma tarde inteira a entrar pela noite com discussões acaloradas. Muitos acionistas libertaram o que há muito lhes doía na alma. Houve até quem chorasse! Armando Pereira, o sócio forte do grupo dominado pelo franco-israelita Patrick Drahi, estava lá, no meio deles. Tudo viu e tudo ouviu. Mas, no final, a imprensa não o entrevistou, as televisões não deram pela sua presença, ninguém o fotografou. Poucos dos presentes, muito poucos, o reconheceram. Houve quem o cumprimentasse e o testemunhasse agora à VISÃO.
E afinal, ele era o que mais razão tinha para ter dado nas vistas: a partir dali o negócio tornara-se irreversível, como já adivinharia. Armando Pereira podia erguer a mão em V, de vitória. Talvez o tenha feito em pensamento, mesmo depois de ter ouvido Rafael Mora, representante da Ongoing, um dos grandes acionistas, a justificar que a venda à Altice era o "menos mau" dos negócios. Ou simplesmente pensou: "Esta já cá canta". E passou imediatamente aos passos seguintes, que, para homens de negócios como este, tempo é dinheiro. Chapeau.
Quase a fazer 63 anos (em março), Armando Pereira, emigrado para França na razia da segunda metade dos anos 60, só agora começa a despertar a curiosidade do grande público e da imprensa internacional e portuguesa. Mas, apesar de ter saltado para a lista das maiores fortunas de França (a 19.ª, na classificação da revista Challenges, que lhe atribui um património pessoal de mais de três mil milhões de euros), este self-made-man-à-portuguesa continua a ser uma incógnita. Reconstituir a vida dele e fazer o seu retrato é como ir construindo um puzzle. Certeza é que, neste momento, esse puzzle não está ainda terminado, para se avaliar o retrato completo e com nitidez.  
E nem o facto de a Altice se ter tornado a segunda maior empresa de telecomunicações em França (depois de adquirir as operadoras Numericable, SFR e a Virgin Mobilie) ajudou a que Armando Pereira saltasse para a ribalta, apesar de ser o homem forte no terreno, o operacional, por excelência, do grupo. Sabe-se que anda cá-e-lá. Cá, é em Portugal. Lá, tanto pode ser na República Dominicana ou em Paris, os sítios onde passou a maior parte do tempo no último ano, devido às aquisições do grupo. "Ele é muito eficiente e pragmático. Liderou a integração da SFR em França e todas as aquisições da Republica Dominicana", explica uma fonte do grupo que não quer ser identificada. E, é certo, agora irá passar mais tempo em Portugal, em Lisboa, para gerir a compra da PT Portugal.
O que ele andou para aqui chegar
Ele e Patrick Drahi são a parelha perfeita, "muito parecidos", na sua génese e no seu percurso. Ambos discretos, no sentido em que evitam uma vida de jet set, não se largaram desde que fundaram a Altice S.A., a empresa que surge à cabeça do grupo (pelo menos uma delas), que fundaram em 2002. Armando Pereira terá cerca de 20 % dessa empresa mãe.
Não há dúvida de que Armando Pereira é hoje dono de uma "grande fortuna pessoal". Mas quando o pai e a mãe de Armando casaram, na pacata e pobre aldeia de Guilhofrei, em Vieira do Minho, a prole já era grande: o pai contava dez filhos e a mãe três. Juntos ainda tiveram mais cinco crianças. Dezoito filhos no total, criados como calhava, tomando banho no rio e comendo aquilo que os pais conseguiam produzir enquanto caseiros de uma pequena quinta. "Há cinquenta anos, uma família com 18 filhos, a viver da agricultura, só podia ser muito pobre", diz à VISÃO uma amiga da terra.
Armando nasceu em casa, em março de 1952, tal como os restantes irmãos. Não terá dado grande trabalho, até porque era cada um por si. "A mãe era uma mulher forte. Num dia paría os filhos e, no outro, estava no campo a trabalhar", recorda uma vizinha de então. A paisagem continua verde, a misturar-se com as hortas e com os campos de cereais. Os antigos caminhos de terra passaram a ruas de alcatrão. Mesmo assim, Guilhofrei é uma terra que fica longe. Longe do hospital. Longe dos serviços públicos. Longe para as poucas crianças que estudam para além do 1.º ciclo. Longe do comércio. Por ali, os cafés vivem dos trabalhadores das barragens e dos poucos turistas.
Há cinquenta anos, esta lonjura, isolamento e, sobretudo, pobreza eram motivo mais que suficiente para abalar. O pequeno Armando, a quem todos, desde cedo, reconheceram ambição, deixou a família logo que completou a quarta classe, aos 11 anos. Foi trabalhar como ajudante de feirante. Primeiro, em Fafe; e depois, em Pevidém, Guimarães. Ajudava a vender tecidos numa altura em que a roupa era toda feita à medida, em costureiras e alfaiates. Por ali andou até aos 14 anos. Até que a afamada feira de Espinho, poucos quilómetros a sul do Porto e onde tinha familiares, o "chamou".
Nestas feiras, eram constantes as conversas acerca de quem emigrava para França, onde se dizia não faltar trabalho nem dinheiro. Caminhava-se para os finais dos anos 60 e Armando já a tinha fisgada: ia guardando na memória os caminhos e os lugares que deveria percorrer. E assim foi: logo que pode partiu sozinho para França. Não levou qualquer mala, nem a de cartão. Levou apenas a roupa do corpo. E os dois contos de reis (€10, hoje) que juntou a trabalhar nas feiras. Assim se governou nos primeiros tempos em França. À semelhança de muitos outros milhares de emigrantes, conquistar um lugar ao sol não foi fácil. Também ele viveu, cerca de dois anos, nos "bidonvilles", em Courbevoie, arredores de Paris, enquanto trabalhou na construção civil. Depois, em Meurthe-et-Moselle, em Nancy, foi "plombier", um canalizador que instalava canos nas ruas da localidade, para os quais também abria valas.
A 'casa do boi'
O rapazinho fez-se homem e foi em Nancy, num baile de fim de semana a lembrar as romarias minhotas, que conheceu a francesa que o levou ao altar. Têm uma filha, licenciada em Cinema, e dois netos de 5 e 3 anos. O genro, também francês, é uma espécie de "braço direito" que o aconselha e ajuda a gerir os negócios, que já emprega mais de 45 mil pessoas.
Defensor acérrimo da privacidade dos seus, inimigo das máquinas fotográficas, Armando "ensinou" a família a viver o mais discretamente possível. "As fotografias da família estão blindadas, bem como informações sobre a mulher, a filha e os netos", explica um amigo que, no verão de 2014, esteve em Guilhofrei na festa que a família preparou para receber o novo helicóptero que o fabricante entregou, diretamente, em Vieira do Minho.
Nesse dia, Armando, mostrou a licença de pilotar e fez de guia turístico, mostrando aos amigos a beleza da barragem do Ermal e da paisagem minhota. Aliás, sempre que pode, o empresário pega no helicóptero e sobrevoa a terra onde nasceu e cresceu.
Por cá, ainda não houve notícia de que tivesse participado em qualquer rally, outra das suas paixões. Mas em França, é um rosto conhecido nestes meios e ele não desgosta de se ver fotografado, vestido à maneira, e ao lado do campeão do mundo Sébastien Loeb. Se for como nos negócios, gostará de meter o prego a fundo, o que encaixa com alguma "agressividade negocial" que o carateriza. Aliás, quem se vai cruzando por ele já lhe identificou o gosto por Bentleys e outros carros vistosos.
Armando Pereira esteve quase duas décadas sem regressar a Portugal. Quando voltou, comprou a casa onde nasceu e onde os pais, entretanto falecidos, trataram das terras. "Ainda hoje é conhecida como a 'casa do boi' porque os pais tinham o único boi cobridor que havia em Guilhofrei", conta Fernando Vieira, morador em Vieira do Minho. "Cada pessoa que levasse a vaca ao boi, pagava uma rasa [cerca de 15 quilos] de milho", coisa importante para aumentar o parco rendimento familiar.
Por esta altura, Armando já era rico. Ou melhor, muito rico. Já tinha criado, nos anos 80, a sua própria empresa. Ao meter os primeiros canos para as operadoras de telecomunicações, depressa percebeu o potencial do negócio. Criou a Sogetrel, com sede em Thaon-Les-Vosges, e que trabalhou quase em exclusivo para a France Télécom. Nos anos 90, vende esta empresa ao banco holandês, ABN Amro, realizando a sua primeira grande mais valia: 31,5 milhões de euros. Não se despede, continuará ali como trabalhador mais algum tempo. Inquieto, sempre a querer um pouco mais, quer convencer os seus novos sócios de que é tempo de investir também no negócio de cabo em vez de se contentarem em instalá-los. Esta história é contada por Christophe Karvelis, então representante do banqueiro holandês na empresa, ao Le Parisien Magazine. Recorda: "Armando era um homem de terreno, dotado de uma forte fibra comercial, muito empático e inteligente". Não o acompanhou na pretensão de novos investimentos, mas hoje mostra-se arrependido: "Era preciso muito dinheiro, mas devíamos tê-lo feito", confessa ao semanário parisiense. Foi mais ou menos por esta altura que a vida de Armando se cruza com a de Patrick Drahi, outro jovem emigrante de origem marroquina, ambicioso e trabalhador, de quem se torna amigo. Os dois complementam-se. Depois de alguns trabalhos em conjunto, acabam por criar a Altice, a gigante internacional de telecomunicações de que hoje se fala.
A Quinta das Casas Novas
A ligação a Portugal é afetiva. Quem com ele trabalha diz que é "fortemente emocional". Armando Pereira começa a comprar casas e terrenos em Guilhofrei. Depois de restaurar a casa onde nasceu, comprou a quinta que, na sua infância, era a mais rica da freguesia. A Quinta das Casas Novas entrou em obras, mesmo antes de ter obtido os licenciamentos necessários.
Com vista privilegiada para a Barragem do Ermal, a herdade com 15 hectares de terreno, possuiu um heliporto, campo de ténis, pavilhão gimnodesportivo, campo de futebol, várias piscinas e um pequeno campo de golfe. Junto ao enorme portão de acesso, Armando Pereira construiu a Capela da Senhora da Saúde e Santiago, onde todas as semanas é celebrada missa. Está aberta à devoção popular. "Existia uma capela em ruínas junto à casa mas,  para que as pessoas continuassem a poder fazer a festa a Santiago, mandou construir a capela com a entrada virada para a estrada", explica uma moradora de Guilhofrei.
Mesmo assim, a construção da nova capela, tal como a da casa, foram motivos de fortes protestos. A capela, porque as ruínas deveriam ser restauradas. A casa, porque foi construída em área incluída na Reserva Ecológica Nacional (ver caixa Empregos prometidos para o Norte).
Ascensão de ficção
Para os amigos, ele "é uma pessoa muito simples que teve uma ascensão de ficção mas muito trabalhador e disciplinado". ?A sua afamada discrição - mesmo quando participou em casamentos nem ele nem a mulher surgem nas fotografias, pois "foge das câmaras como o diabo da cruz" - contrasta com a forma como chega e parte de helicóptero a Guilhofrei. Ou de como é proprietário de uma "vasta e cara frota" de automóveis.
Mas também "anda por aí de bicicleta, sozinho ou com amigos, e cumprimenta toda a gente", refere Fernando Vieira. Em agosto, tal como a maioria dos emigrantes, Armando passou-o em Vieira do Minho. A família raramente abandona a Quinta das Casas Novas que, no resto do ano, é gerida por um irmão. As refeições são levadas a casa, quase sempre, pelo restaurante Flor da Cabreira, dali perto. O clã não dispensa a cozinha minhota, com destaque para o cabrito, o seu prato preferido. "O único local onde está 100% descontraído é em Guilhofrei. Diz que não há ar como o de Vieira do Minho", atira quem com ele costuma conviver.
Os mais próximos recordam a resposta que costuma dar quando lhe perguntam como obteve tanto sucesso, com tão pouca instrução e em tão pouco tempo. "Tento sempre não me desviar dos meus objetivos: aprender e evoluir", responde. Mas se não parou a nível dos negócios, Armando Pereira também não parou na formação. Apenas com a 4.ª classe, Armando estudou o que pode em França e, dizem, até nos Estados Unidos. Mas esta é uma parte da sua vida de contornos pouco definidos. A página da Bloomberg Business indica-o como tendo feito um MBA (Master of Business Administracion) na Santa Clara University e várias outras especializações. Informações que não conseguiram ser devidamente confirmadas. Verdade é que ele percebe do negócio em que anda metido.
Com casas em Paris, Luxemburgo, Marbella e Maiorca, o empresário tem diversas moradas e opta sempre por residir "onde há mais sol", na versão dos amigos; ou "onde há trabalho para fazer", na versão de quem trabalha com ele.
A esperança dos trabalhadores
"Ele gosta mais de Portugal do que os que vivem cá", atira Hernâni Vaz Antunes, o empresário de Braga, amigo e antigo parceiro de negócios. "As empresas do Armando já garantem mais de 40 mil empregos em todo o mundo e isto, por si só, já é suficiente para avaliar a sua capacidade de trabalho e visão estratégica. As pessoas da Altice têm uma mentalidade diferente da portuguesa. Trabalham muito e são muito capazes", garante este empresário, atualmente ligado ao setor imobiliário e com pouca vontade de falar da amizade que o une a Armando. "Ele gosta de paz e sossego. Tudo o resto é ruído."
Saberá do que fala. Ainda há quem se lembre bem de como Hernâni sabia traduzir essa dureza nas renegociações de contratos com os fornecedores e clientes que a Cabovisão levou avante logo que foi comprada pela Altice, em 2012 (no ano seguinte, compraria a ONI). Na altura, soube a VISÃO, este empresário bracarense era um comissionista da Altice. Reunia os fornecedores numa suite do hotel Ritz de Lisboa. Impunha uma redução de 30% do valor dos contratos. Se alguém recusava, era simples: a Altice deixava de pagar. Entre ir para tribunal, esperar anos e ficar sem plataforma, os fornecedores acabavam por aceitar.
Este estilo duro não será muito diferente do de Armando. Quem com ele já se cruzou remete para "uma forma de estar na gestão pouco convencional, agressiva". Em privado, um pouco "trauliteiro", facilmente se gaba de "quanto gasta nas despesas da casa". Mas reconhecem-lhe "o valor de quem subiu a pulso" e até "as coisas interessantes que fez no mundo dos negócios". Não conseguimos avaliar a justeza, porque Armando não quis falar, por enquanto, à VISÃO, presencialmente ou à distância.
Mas a forma como focaliza os negócios e estrutura os objetivos surpreenderam também os responsáveis pelo Sindicato dos Trabalhadores do Grupo Portugal Telecom e a sua comissão de trabalhadores (CT), com quem iniciou conversações em novembro.
Contou-lhes o seu percurso - "muito parecido com o da Visabeira" - e transmitiu-lhes o projeto que tinha para valorizar a empresa. "Pareceu-me uma pessoa séria e explicou-nos como pretendem criar quatro mil novos postos de trabalho em Portugal", recorda Jorge Felix, responsável pelo sindicato.
Francisco Gonçalves, da CT, conta como foram sendo contactados por ele. Incutiu--lhes esperança. "Quando se disse que ele despediu 30% dos trabalhadores da Cabovisão, ele contrapôs dizendo que salvou 70% dos trabalhadores, porque a empresa estava falida. Há sempre formas diferentes de ver isto", adianta Francisco Gonçalves.
O Governo espera que em fevereiro a Altice lhe apresente o projeto e Armando não se pôs de fora para assinar um compromisso com os representantes dos trabalhadores. "Quero acreditar que, sendo ele português, não queira fazer mal ao seu País. Mesmo sendo um capitalista", conclui Francisco Gonçalves. "Quando chegámos ao fundo do poço e da morte lenta em que estamos, o caminho só pode ser para cima. Temos de acreditar que pior do que estamos não ficamos", remata o representante da comissão de trabalhadores. A ver vamos se Armando Pereira vai andar por ali caso os trabalhadores, à imagem do que aconteceu com alguns acionistas, tiverem futuramente razões para chorar.


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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Tomie Ohtake, artista plástica, morre aos 101 anos em São Paulo

12/02/2015 13h35 - Atualizado em 12/02/2015 15h44

Tomie Ohtake, artista plástica, morre aos 101 anos em São Paulo

Ela havia tido parada cardíaca nesta quarta e estava internada na UTI.
Nascida no Japão, Tomie foi figura importante das artes no Brasil.

Do G1, em São Paulo
A artista plástica Tomie Ohtake morreu às 12h45 desta quinta-feira (12), em São Paulo, aos 101 anos. Em nota, a família informa que a causa foi choque séptico causado por broncopneumonia. Tomie estava internada desde 2 de fevereiro no Hospital Sírio-Libanês, na região central da cidade, para tratamento de uma leve pneumonia. Ela reagia bem ao tratamento e estava prestes a ter alta médica, mas na manhã de terça-feira (10) engasgou com o café da manhã, teve uma broncoaspiração seguida de parada cardíaca e foi internada na UTI do hospital.
O velório vai ocorrer nesta sexta-feira (13) das 8h às 14h  no Instituto Tomie Ohtake, na Zona Oeste de São Paulo, e será aberto ao público. O corpo será cremado com cerimônia fechada para a família.

Japonesa que se tornou brasileira com o tempo, ela foi uma das figuras mais importantes das artes plásticas no Brasil. Começou a pintar tarde, aos 39 anos, e ficou conhecida do grande público com as grandes esculturas que mudaram a paisagem urbana de São Paulo. Fez mais de 50 exposições individuais e participou de mais de 80 coletivas. Teve uma carreira produtiva, reconhecida e longa.

"O trabalho faz bem sempre", afirmou em entrevista ao Bom dia Brasil, da TV Globo, sobre as obras que planejava perto do seu aniversário de 100 anos, em 2013.

A paisagem de São Paulo ganhou a cara de Tomie Ohtake. São criações dela as curvas coloridas das grandes esculturas que dividem os dois lados da via expressa da Avenida 23 de Maio (homenagem aos 80 anos da imigração japonesa no Brasil); os quatro painéis de 2 metros de altura por 15 de comprimento que representam as estações do ano no metrô Consolação; as ondas vermelhas de gesso da obra presa ao teto do Auditório do Ibirapuera; o arco vermelho de 3 toneladas e 12,5 metros de altura no Brooklin; e o painel de 23 metros de altura na lateral do prédio que leva seu no Itaim Bibi.
Artista Tomie Ohtake durante uma cerimônia no Auditório do Ibirapuera da Ordem do Mérito Cultural (OMC) em 2013 (Foto:  Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press)Artista Tomie Ohtake durante uma cerimônia no Auditório do Ibirapuera da Ordem do Mérito Cultural (OMC) em 2013 (Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press)
Tomie Ohtake nasceu em 1913, em Kioto, no Japão. Veio para o Brasil em 1936, aos 23 anos, para visitar um irmão que já morava aqui, e acabou ficando. A japonesa se impressionou "com a intensidade da luz amarela, do calor e da umidade ao desembarcar no Porto de Santos", conta a biografia do site do Instituto Tomie Ohtake.
"Com a iminência da Segunda Guerra, permanece em São Paulo, onde se casa e tem dois filhos, Ruy e Ricardo Ohtake. Estabeleceu residência no bairro da Mooca", informa o texto.

O interesse por desenho vinha desde criança, na escola no Japão, onde o ensino de artes é muito valorizado. Mas antes de ser artista, formou família e criou os dois filhos. Só aos 39 anos começou a fazer suas primeiras pinturas. Foi incentivada pelo pintor japonês Keisuke Sugano, que deu aulas de passagem pelo Brasil.
"Quando comecei a pintar aqui no Brasil, já era muito evidente o meu espírito brasileiro, ou ocidental, portanto já distante da origem oriental, mas devo ter tido sempre, até hoje, influência da terra em que nasci e cresci", lembrou Ohtake à revista "ArtNexus", em 2005.
Retrato da artista plástica japonesa naturalizada brasileira, Tomie Ohtake, que em 1960 recebeu o Prêmio Probel de pintura (Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo)Retrato da artista plástica japonesa naturalizada brasileira, Tomie Ohtake, que em 1960 recebeu o Prêmio Probel de pintura (Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo)
Em 1968 ela se naturalizou brasileira, já envolvida e reconhecida na cena artística nacional. Com os trabalhos feitos em cada vez maior escala, às vezes ela tinha que sair de casa, na Mooca, onde ficava seu ateliê, para ver suas pinturas maiores.

Em 1969, junto com outros artistas, ela se recusou a participar da 10º Bienal Internacional de São Paulo, em protesto contra a Ditadura Militar. Em 1974 recebeu o prêmio de melhor pintora do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte – voltou a ganhar o mesmo título em 1979, entre outras dezenas de prêmios antes e depois. Em 2013, também recebeu homenagem no Domingão do Faustão (clique aqui para assistir).

Nos anos 1980, cresceu ainda mais o interesse por sua obra. Foi marcante a grande retrospectiva feita em 1983 pelo Museu de Arte de São Paulo (Masp), um sucesso de público e crítica. Com o reconhecimento, nesta década ela começa a realizar várias das esculturas em expostas em espaços abertos de São Paulo, marcadas pelas formas arredondadas e a grande escala.

"A obra que fica situada no espaço público tem necessariamente que conversar com o espaço e com o público. Isso é fundamental para um painel, uma escultura ou outro trabalho que não as tradicionais pinturas ou obras em outras dimensões. Você me pergunta como concebo o espaço. Ora, olhando o espaço e perguntando como o público vai interagir com a obra: quais as perspectivas, o que há na frente, atrás, dos lados, a que distância as pessoas vão ver e até onde se aproximam, por onde passa o olho, etc”, disse Tomie Ohtake em 2005 à revista “ArtNexus”.

Em 2000 foi criado o Instituto Tomie Ohtake, com sede em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. O objetivo é apresentar e discutir a história e as tendências das artes no Brasil – não apenas a obra de Ohtake. Mas ela não se fechou no instituto. Uma escultura de 15 toneladas e 12 metros de altura, inaugurada em 2013 em Santo André (SP), pela artista já centenária, é só mais um dos exemplos do inconfundível e incansável trabalho de Tomie Ohtake.
oto de 1988 mostra Tomie Ohtake trabalhando em um de seus projetos (Foto: José Bassit/Estadão Conteúdo)oto de 1988 mostra Tomie Ohtake trabalhando em um de seus projetos (Foto: José Bassit/Estadão Conteúdo)
Príncipe Naruhito (centro) cumprimenta arquiteto Ruy Ohtake, filho da artista Tomie Ohtake, durante cerimônia de comemoração pela imigração japonesa no Brasil em Santos, em junho de 2008 (Foto:  AFP Photo/Nelson Almeida)Príncipe Naruhito (centro) cumprimenta arquiteto Ruy Ohtake, filho da artista Tomie Ohtake, durante cerimônia de comemoração pela imigração japonesa no Brasil em Santos, em junho de 2008 (Foto: AFP Photo/Nelson Almeida)
 A ministra Marta entrega o prêmio para Tomie Ohtake, em 2013 (Foto: Fotos Públicas)A ministra Marta entrega o prêmio para Tomie Ohtake, em 2013 (Foto: Fotos Públicas)
Escultura de Tomie Ohtake, inaugurada em 1988 em concreto armado na Avenida 23 de Maio em São Paulo, ganhou novas cores nesta terça (30). (Foto: J. F. Diorio/ESTADÃO CONTEÚDO)Escultura de Tomie Ohtake, inaugurada em 1988 em concreto armado na Avenida 23 de Maio em São Paulo, ganhou novas cores nesta terça (30). (Foto: J. F. Diorio/ESTADÃO CONTEÚDO)
 Foto de janeiro de 2013 mostra artista Tomie Ohtake em sua casa, antes das comemorações de seu centenário  (Foto: Paulo Liebert/Arquivo/Estadão Conteúdo)Foto de janeiro de 2013 mostra artista Tomie Ohtake em sua casa, antes das comemorações de seu centenário (Foto: Paulo Liebert/Arquivo/Estadão Conteúdo)
  A artista plástica Tomie Ohtake recebe medalha do prefeito Fernando Haddad em homenagem por suas obras espalhadas pela cidade (Foto: Heloisa Ballarini/Secom)A artista plástica Tomie Ohtake recebe medalha do prefeito Fernando Haddad em homenagem por suas obras espalhadas pela cidade (Foto: Heloisa Ballarini/Secom)
 Tomie Ohtake posa para foto em agosto de 1988  (Foto: Newton Aguiar/AE)Tomie Ohtake posa para foto em agosto de 1988 (Foto: Newton Aguiar/AE)
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